terça-feira, 28 de outubro de 2014

1586-O Espiritismo no Brasil


É pra frente que se anda

As perseguições, que tinham por trás dos panos o dedo do arcebispo do Rio de Janeiro, serviram na verdade, para fortalecer o movimento.

É nesse contexto que, no dia 6 de setembro de 1881, teve lugar o primeiro Congresso Espírita no Brasil, promovido pela Sociedade Acadêmica. No mesmo dia, uma comissão de espíritas foi recebida pelo Imperador Pedro II, a quem entregou em mãos, um documento com minuciosa exposição dos fatos e o pedido de que se fizesse justiça. O Imperador, na ocasião também teria afirmado: "Eu não consinto em perseguição". Duas semanas depois, a 21, a mesma comissão retornou ao palácio a fim de conhecer da resposta às considerações emitidas na exposição que fora entregue ao Imperador. Este afirmou que enviara os papéis ao Ministro do Império para dar solução ao caso, e tornou a afirmar, com certo ar de graça: "Ninguém os perseguirá. Mas...não queiram agora ser mártires e nem procurar algozes".

Embora a ordem policial jamais tenha sido oficialmente revogada, também não teve prosseguimento. Finalmente, em Ofício de 10 de janeiro de 1882, dirigido a S.M. D. Pedro de Alcântara, Imperador do Brasil, a Diretoria da Sociedade Acadêmica manifestou o seu júbilo "pelo começo da tolerância" em relação àquela Sociedade, "sinal evidente de que estão terminadas as perseguições encetadas contra o Espiritismo e os espíritas".

Em consequência do Congresso Espírita veio a ser fundada, a 03/10/1881, na "Sociedade Acadêmica", o Centro da União Espírita do Brasil, pelo professor Afonso Argeli Torteroli. A novel instituição tinha a proposta de congregar e orientar as sociedades espíritas a nível nacional.

Entre os seus associados contava-se o nome de Lima e Cirne. Esta Sociedade lançou, em janeiro de 1881, uma revista, o segundo periódico espírita no Rio de Janeiro, tendo nele colaborado o Major Ewerton de Castro.

Para marcar o primeiro aniversário da notícia sobre a repressão aos espíritas, foi aberta, a 28/08/1882, a I Exposição Espírita do Brasil, na sede da Sociedade Acadêmica, à Rua da Alfândega nº 120, sobrado. O programa comemorativo, organizado pela própria Sociedade, intitulava-se "Festa do Espiritismo no Brasil" e estendeu-se até 3 de setembro. Os seus visitantes tiveram a oportunidade de apreciar variados trabalhos mediúnicos, como psicografias em caracteres normais, taquigráficos e telegráficos, também em línguas estrangeiras (até orientais), psicopictografias, cópias da correspondência da Sociedade Acadêmica com associações espíritas estrangeiras, jornais e revistas espíritas da Europa e da América, obras espíritas diversas, retratos de vultos do Espiritismo de vários países e, também livros e jornais contrários à Doutrina. Na ocasião foi lançado ainda o jornal "O Renovador", pelo Major Salustiano José Monteiro de Barros e pelo Prof. Afonso Angeli Torteroli. Poucos meses depois, surgiria o "Reformador", sob a direção de Augusto Elias da Silva (21/01/1883). Para a ideia da publicação deste último pesou a Carta Pastoral combatendo o espiritismo, publicada em 1882 pelo arcebispo do Rio de Janeiro, que motivou respostas por parte do médico Antônio Pinheiro Guedes.

Será Elias da Silva quem promoverá, ao final desse ano (27 de setembro de 1883), em sua própria residência, a reunião preparatória de rearticulação do movimento no Município da Corte, dada a manifesta incompreensão entre os componentes das diversas entidades espíritas de então: o "Centro da União Espírita do Brasil", o "Grupo dos Humildes", o "Grupo Espírita Fraternidade" e a "Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade". Como fruto desse entendimento, veio a ser fundada a 01/01/1884, a Federação Espírita Brasileira, considerada como a "Casa de Ismael", com o objetivo de federar todos os grupos através de "um programa equilibrado ou misto" e que difundisse por todos os meios o Espiritismo, principalmente pela imprensa e pelo livro.

A providência trouxe para o Espiritismo mais visibilidade, organização e adesão. Realizaram-se conferências públicas inicialmente modestas e com o tempo grandemente frequentadas. É desse tempo a adesão do famoso médico (militar e escritor) carioca Adolfo Bezerra de Menezes (17/08/1885), o que ocorreu numa cerimônia com a presença de cerca de duas mil pessoas.

Nos agitados dias que se estenderão da Abolição da Escravatura no Brasil (1888) até à proclamação da República (1889), destacam-se:

·         a série de artigos sobre a Doutrina Espírita publicada em O Paiz, periódico de maior circulação da época, com o nome de "Estudos Filosóficos - Espiritismo", cujos artigos saíram regularmente aos domingos, no período de outubro 87 a dezembro 93, assinados sob o pseudónimo "Max", na verdade, Allan Kardec em espírito;

·         a decisão de Bezerra de Menezes - que por meio de artigos e conselhos pregava a necessidade de maior compreensão entre os espíritas - depois de muito instado, assumir a direção da FEB, sucedendo a Ewerton Quadros, que a administrara de 84 a 88, e que, como militar, fora transferido para a então Província de Goiás;

·         a visita do médium de efeitos físicos estadunidense Henry Slade (1835-1905) ao Brasil;

·         é neste momento que se reorganiza e se instala nas dependências da FEB o Centro da União Espírita do Brasil em sua segunda fase, com Bezerra de Menezes como presidente sucedido por Elias da Silva (1893). Foi ainda Bezerra de Menezes quem incorporou à FEB o "Grupo dos Humildes", depois denominado "Grupo Ismael";

·         após a proclamação da República, o Grupo Espírita Fraternidade viria a incorporar-se também à FEB;

·         figuras proeminentes do movimento republicano, como Joaquim Saldanha Marinho (1816-1895) e Quintino Bocaiuva (1836-1912) passaram a ter simpatia pela doutrina espírita;

·         no meio literário destacam-se, como crítico, Machado de Assis (1839-1908) e como aliados o espírita Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879) - que realizou sessões de psicografia em Paris e escreveu uma peça teatral ("Os Voluntários da Pátria"), onde estão presentes elementos espíritas, e ainda como simpatizantes Castro Alves (1847-1871) - que pretendeu escrever uma obra de cunho espírita que seria o poema final de "Os Escravos", entre outras personalidades da época;

·         inicia-se a expansão do Espiritismo para outros Estados como Pernambuco e Santa Catarina.

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