domingo, 9 de novembro de 2014

1598-Espiritismo em Santa Catarina


Pioneiros quase mártires

Os últimos anos do século XIX e primeiros do século XX foram, para os espíritas do Brasil, de grandes dificuldades diante dos acontecimentos tumultuosos da política, desde a libertação dos escravos, a proclamação da República e mesmo antes disso. Talvez o pior obstáculo tenha sido o Positivismo, modelo filosófico-político realimentador do ideal republicano. Veja, leitor, acabamos de registrar, na Introdução, que um decreto de 1890 separou o Estado e a Igreja, mas as autoridades, por vício, por preconceito ou por comodidade, ainda perseguiam aqueles que ousassem organizar-se em instituições de fé que não fosse a Igreja Católica que, no caso do Positivismo, era neutra, mais pró que contra. Apesar de ser nada favorável a qualquer religião, o Positivismo agradava a cúria por incentivar a Ordem, o Progresso, a Disciplina, a Hierarquia, postulados que também a Igreja Romana defendia.

O positivismo defendia a ideia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro. De acordo com os positivistas somente pode-se afirmar que uma teoria é correta se ela foi comprovada através de métodos científicos válidos. Quando a isso, a Igreja ignorava.

Mas, os positivistas não consideravam os conhecimentos ligados as crenças, superstição ou qualquer outro que não possa ser comprovado cientificamente. Neste aspecto, a Igreja se apegava. Para os positivistas, o progresso da humanidade dependia exclusivamente dos avanços científicos.

Em várias ocasiões, face a determinações dos poderes constituídos, os Centros e Sociedades Espíritas existentes em SC foram fechados. Os pioneiros, que se arriscavam a permanecer realizando reuniões, eram condenados ao pagamento de elevadas multas e até conduzidos à prisão.

Em Santa Catarina, os primeiros Centros (sediados em São Francisco do Sul, Laguna e Florianópolis) tinham como seus líderes e dirigentes verdadeiros mártires. O exemplo que o codificador lhes dera fizera-se presente em suas almas. Apesar das dificuldades, das calúnias, das injúrias e perseguições, seguiam, intimoratos, no seu elevado mister.

Já vimos em série anterior, que o Brasil estava predestinado a ser o celeiro do Espiritualismo Mundial. Em Santa Catarina circulava a revista "Reformador", da Federação Espírita Brasileira, fundada em 1883 e apesar das dificuldades para fazer seus exemplares chegarem ao destino, era o elo com as demais comunidades espíritas do Brasil.

Em 1925, surge também, em Matão (SP), a "Revista Internacional de Espiritismo", fundada por Cairbar Schutel. Em 1932, Francisco Cândido Xavier faz publicar sua primeira obra psicografada, "Parnaso de Além Túmulo" (causando impasse nos meios acadêmicos) e, nos anos seguintes, outros tantos livros, ditados principalmente pelo Espírito Emmanuel.

Foi a partir de 1930, que promotores de Justiça e magistrados, ponderando que a Doutrina Espírita se diferençava de outras práticas, com as quais até então era confundida e passam a utilizar (embora erroneamente) os termos "baixo" e "alto" espiritismo, para que se identificassem os que seguiam as diretrizes emanadas da codificação kardecista separadamente do que chamavam de “baixo espiritismo”, infelizmente, ao referir-se ao Candomblé e à Umbanda. Na verdade, o que aí se via era racismo da pior espécie, pois as duas correntes africanas de fé congregavam as pessoas de cor negra, enquanto entre a “sociedade das pessoas de cor branca” estavam os frequentadores dos centros espíritas kardecistas.

A década de 1940, que teve, nos seus anos iniciais, a participação do Brasil na 2ª Grande Guerra, causando dores acerbas à nossa população, foi, por outro lado, beneficiada com a fundação da "Sociedade de Medicina e Espiritismo" e a "Cruzada dos Militares Espíritas", fazendo compreender que esta doutrina alcançava também as classes sociais mais elevadas.

Na mesma década, a partir de 1943, André Luiz, ainda através de Francisco Cândido Xavier, traz a lume a série "A Vida no Mundo Espiritual", iniciando com o livro "Nosso Lar". A partir de então, as obras de Allan Kardec, principalmente "O Livro dos Espíritos" e "O Evangelho Segundo o Espiritismo", conjugadas à vida exemplar de Francisco Cândido Xavier, ofereceriam nova configuração pública sobre o Espiritismo, agora centralizada na compreensão de que os espíritas estudavam e praticavam a benemerência em paralelo à sua fé.

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