quarta-feira, 26 de novembro de 2014

1615-Mãos de curam, palavras que saram


Introdução

Nesta série vamos falar de Brasil, Terra de Santa Cruz, Vera Cruz, Pindorama ou seja lá o nome que tenha tido, tenha ou venha a ter. O indígena que estava aqui quando chegaram os estrangeiros, tinha seus curandeiros e benzedores, chamados de pajés ou feiticeiros (e mais recentemente de xamãs), que respondiam pela tarefa espiritual-biológica de curar os doentes de seus clãs.

Para algumas regiões do Brasil, como o litoral de Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, vieram os açorianos, resgatando entre eles práticas místicas da benzedura e simpatias como únicas alternativas de tratamento de saúde, pois foram praticamente abandonados à própria sorte pelo poder público. Na Ilha de Santa Catarina, através de um trabalho de pesquisa de Franklin Cascaes (1908-1983), tornaram-se conhecidas e famosas as bruxas ilhoas, mulheres que sabiam tudo de simpatias, patuás, breves, escapulários, benzeduras, chás curativos, emplastros, etc.

Mas, não foram só os índios e os açorianos que desenvolveram práticas de benzimentos. Entre os alemães e poloneses imigrantes também estão os práticos desses pendores espirituais e de receituário de ervas e raízes. Muito especialmente deve-se destacar o trabalho das parteiras, só dispensado quando surgiram os primeiros hospitais quase 200 anos depois do povoamento e há menos de 80 anos de nosso tempo atual. Quem tenha mais 60 anos, hoje, certamente veio ao mundo pelas mãos de uma parteira.     

Com suas ervas, ritos, preces e palavras de conforto, os “médicos do povo” ou “médicos da terra” foram (ou são?) um importante elemento da cultura popular e do sincretismo religioso brasileiro. Os curandeiros tradicionais são encontrados em todo o país, mas assumem um papel especial principalmente em regiões remotas, onde médicos profissionais são escassos e remédios alopatas ou homeopatas (químicos e orgânicos) são inacessíveis.

É incrível, pois, se não haviam médicos (doutores) e quase nada de remédios industriais, também eram poucas as doenças. Mais severas, talvez, pois se morria muito cedo, mas muito sabidamente conhecidas: ataque do coração, derrame cerebral, icterícia, barriga d’água, mordida de cobra, furo de bala, ossos quebrados (principalmente em se tratando de coluna vertebral), entre algumas outras e poucas. As doenças não fatais eram tratadas com benzedura, chás, emplastros, banhos.

Os remédios fornecidos pelas vendas ocupando parcialmente o papel posterior das farmácias, chamadas de boticas (boticário o seu dono), eram vermífugos, alguns raros comprimidos contra dores, algumas pomadas e um famoso bálsamo alemão (de gosto e cheiro muito fortes) que se tomava em gotas pingadas sobre pedras de açúcar (nesse tempo o açúcar não era refinado e empedrava dentro da embalagem).

À medida que as pessoas foram se concentrando em vilas, povoados, cidades, foi aumentando o número de doenças, inclusive as epidemias que passaram a exigir a prevenção através de vacinas. Nos sertões ermos do passado sul-americano não se conheciam vacinas, médicos, cirurgias, os ossos quebrados de membros do corpo eram cuidadosamente alinhados e enfaixados pelo arrumador de osso, outra especialidade do tipo curandeiro. E o fazia com grande maestria.  

Vamos falar destes temas nesta série. Vens conosco? Bem-vindo(a)!

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