sexta-feira, 21 de novembro de 2014

1619-Mãos que curam, palavras que saram


É um poder ou uma capacidade?

O que mais se poderia falar sobre mãos que curam e palavras que saram?

Pode-se dizer que era ou é um trabalho de doação, normalmente uma atividade gratuita e voluntária que difunde-se como uma alternativa à medicina catedrática desde o século XVI entre brasileiros, mas de muitos milênios entre os indígenas de nosso país e de outros cantos do planeta.

Terço ou patuá e folhas de arbustos nas mãos, oração na ponta da língua e muita fé em Deus. Foi assim. As benzedeiras e benzedores que surgiram na América, em contato com os índios, no século XVI, são figuras presentes na cultura popular até os dias de hoje. Mas não eram figuras exclusivas da América. Temos notícias de sua existência na Europa, na Rússia asiática, na África e na Austrália.


A benzeção – como é falado popularmente no interior do Brasil -, assim como várias outras práticas religiosas e médicas populares e também chamada medicina da terra, aflorou-se com intensidade no período Colonial Brasileiro e os fatores que propiciaram o desenvolvimento da prática de benzer, com certeza, remetem à precariedade da vida material, destacada pela raridade de médicos, de cirurgiões, de dentistas, de produtos farmacêuticos, e ao sincretismo dos povos em geral, que também contribuíram, e muito, para que a prática do benzimento (como também se diz) se propagasse ainda mais.

A formação de curandeiros nativos não passa por nenhuma escola. Segundo a estudiosa Maria Luiza Benitez, são normalmente “predestinados e nascidos com uma dádiva especial de poder, um dom, talento ou conhecimento”, que exige muita dedicação. É, por assim dizer, uma missão, uma outorga.

O que Maria Luiza está sinalizando é que sem desenvolver a capacidade de manipular a energia mental, o benzimento não ocorre, ao menos não se faz eficaz. Veja que existem dois estágios: num deles as energias da benzedeira e do paciente (humano) se entrelaçam para produzir o efeito; no outro, a mente do benzedor penetra células de larvas, cobras, etc. para produzir efeito no animal (que não pensa que está sendo curado). No primeiro caso há a interface das inteligências envolvidas. Mas, e no segundo caso?

Já se sabe que a ativação da energia se caracteriza pela potência do ato; o magnetismo se caracteriza pelo transporte da energia; basta acrescentar a informação e o alvo. Decodifica-se assim o que para muitos é coisa do outro mundo.

O estudo do curandeiro difere grandemente dos estudos e práticas da medicina convencional catedrática. Não há livros com preceitos e métodos, nem notas de aprovação ou reprovação. Mas, é preciso vencer todos os testes e provações. E é exclusivamente por meio da dor, do sofrimento, da doença e da própria morte que o curador adquire acesso ao universo das realidades extraordinárias. Extraordinárias para as mentes eclipsadas que temos. Quero lembrar que Jesus chegou a instruir 70 discípulos que saíram pelas comunidades produzindo os “milagres”, como narra a Bíblia. Onde foram parar esses conhecimentos? Acho que nos porões do Vaticano. Por que?

O mundo do além é uma escola onde se pode obter o conhecimento, a experiência, as qualificações e o poder para auxiliar os demais. Acessível, à disposição de quem queira aceitar como ele é. Os milagres dos santos e guias espirituais que ocorrem nas pessoas, são de foro íntimo.

Para se tornar curador xamânico (benzedor ou curandeiro) o escolhido recebe um chamado que costuma vir em sonhos ou por intermédio de um acidente, doença, injúria sofrida, ameaça de morte eminente, da morte e mesmo morte clínica temporária. Ao retornar, sua mente fez a travessia e ele vai e volta à dimensão desse poder com imensa naturalidade. O curador, o xamã, a benzedeira, transitam entre o mundo biológico e espiritual com enorme facilidade de desenvoltura. E isso nada tem a ver com filiação religiosa. Envolve fé e aceitação, mas abomina os preconceitos religiosos.

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