segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

1620-Mãos que curam, palavras que saram


Qualquer um pode ser “bruxo”?

Existem bruxos do mal e bruxos do bem. Na verdade, é o mesmo bruxo que iluminado ilumina ou que obscurecido escurece. Então fica fácil entender que qualquer um pode ser bruxo? Não. Nunca. O professor Glauco Ricciele Ribeiro, estudioso desses fenômenos, revela como mulheres viram benzedeiras e, ao fazê-lo, chega perto do segredo inteiro.

Benzedeiras, senhoras de coração puro, servem ao próximo sem interesses ou cobiça. O dom adquirido por elas é passado de geração a geração, porém não linearmente. O discípulo antes de tudo, tem de ter dom.

Nos últimos 30 anos, tal prática cada vez mais desapareceu e junto dela a fé popular perdeu suas características (é assim que as emergências dos SUS ficaram entupidas de gente), para renascer a galope nestes últimos 5 anos.

Mas poucos sabem como uma benzedeira inicia seu “sacerdócio”. Tradicionalmente, a Sexta-feira Santa é a única data em que se ordena o Dom de ser Benzedeira a uma mulher de bom coração e sem impedimentos. Esta pessoa deve ajudar através das rezas todo tipo de necessitado sem distinção de classe ou credo. Veja, leitor, a sexta-feira santa é emblemática, do mesmo modo que um santuário se torna emblemático, significante. Mas, isso pode ocorrer sem o emblema.

Um país como o nosso que, de um lado, paga mal os profissionais da saúde, gasta equivocadamente as verbas destinadas à saúde e, de outro, elitiza tanto os serviços médicos, laboratoriais e hospitalares, é um país que deixa margem a que as pessoas desesperadas frente as imensas listas de espera para os serviços públicos de saúde, procurem feiticeiros, xamãs, benzedeiras, curandeiros, médiuns... E o que é mais gritante: são melhor atendidos e com melhores resultados.

“Pô, cara, você está afirmando que um carandeiro tem mais eficácia que um médico?”, é a pergunta que você pode estar fazendo. A resposta é: seis horas na fila, gritos e gemidos, gente furando fila, reclamações, fome, sede, sono, dores no corpo, desespero, angústia, raiva, tudo somado, até chegar na frente de um médico, quem sabe cubano, sem falar corretamente, apressado, atende em cinco minutos e depois o paciente ainda vai para a fila da farmácia e espera mais uns 45 minutos para pôr a mão numa caixinha de comprimidos. Sem falar que a cirurgia ficou marcada para daqui a dois anos. No outro extremo, no casebre do curandeiro ele é recebido com palavras magnânimas, é atendido de imediato, sente-se respeitado, aliviado, amado. E o resultado é melhor. O que está equivocado não é a lei que rege a prática e o serviço, é a estrutura, o atendimento. Interfere no resultado. A melhor comida do mundo sorvida debaixo de um tiroteio tem gosto de morte.  

Os curandeiros haviam desaparecido. Estão voltando. Sinalizou-se tanto para a gratuidade dos serviços de saúde que eles vieram de graça, mas de péssima qualidade, com muita espera e maus tratos.

A estudante de jornalismo Angélica Weise confirma que a prática esteja retornando. Diz ela que estas práticas fazem parte da cultura popular. A maioria é de uma generosidade incrível. Por mais antiga que seja a tradição, as benzedeiras se encontram mais vivas do que nunca. Basta ter vocação e força de vontade. Mesmo com a medicina avançada andando com força (mas não aplicada nos postos de saúde) muitas pessoas recorrem aos diversos tipos de cura alternativa.

Para encontrá-las não há endereço. Basta perguntar nas ruas dos bairros afastados que logo alguém conhece ou já ouviu falar delas. Na maioria são pessoas idosas, idosos, e simples. É olhando para o rosto e contando suas rugas que encontramos a idade delas. Quem acredita em benzedeira, jura que elas fazem milagres.

A classe médica não tem tanta certeza do poder milagroso das curas populares e vê a atividade com preocupação, entendendo que “a segurança científica não pode ser deixada de lado”. Na verdade, deveriam ligar para os reitores das universidades encomendando estudos e trabalhos científicos a respeito, como já se faz em vários pontos do planeta.

Enquanto isso, benzedeiras de duas cidades paranaenses, Rebouças e São João do Triunfo, tiveram recentemente a atividade reconhecida por leis municipais pioneiras no Brasil. Fruto de um projeto de Mapeamento Social das Benzedeiras, a legislação inédita foi recebida como uma vitória pela Rede Puxirão dos Povos e Comunidades Tradicionais. Num processo de contínua luta e organização social das benzedeiras articuladas no Movimento Aprendizes da Sabedoria (MASA) em 22/02/2012 o presidente da Câmara Municipal de São João do Triunfo promulgou a lei municipal nº 1.370/11, na qual se reconhece a identidade coletiva das benzedeiras de Triunfo, regulariza o livre acesso às plantas medicinais por parte dos detentores de ofícios tradicionais de cura e propõe a construção de política municipal especifica de acolhimento das práticas tradicionais de cura nos sistema formal de saúde.

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