domingo, 7 de dezembro de 2014

1626-A Cura Espiritual e pela Fé


A Cura pela Fé

 
“A maior característica que distingue o homem dos animais” afirmou certa vez Sir William Osler, “é o desejo de tomar remédios”. Evidentemente a afirmação tinha objetivo de piada, pois o cão quando se sente mal após comer algo inadequado ao seu organismo ingere uma certa quantidade de pasto para provocar o vômito e manda de volta p’ra natureza tudo aquilo que seu organizo rejeitou. Podemos entender isso como remédio?

Mas, há um fundo de verdade na piada de Osler, descontando o caso do cão. Os animais em estado silvestre raramente adoecem, a não ser quando privados de alimentos ou d’água. Mas, o homem, ao desenvolver a mente consciente perdeu grande parte do instinto e passou a confiar no hábito e na memória para decidir, por exemplo, que bagas eram comestíveis e quais não eram. E o que fazer caso se envenenasse ou adoecesse? O hábito e a memória, então, já não eram confiáveis, como se tornou para o cão o instinto, de comer grama para provocar o vômito. O homem tinha na tribo o entendido, o sacerdote-médico, conhecido por pajé ou xamã, detentor de experiência e poderes para manipular as energias do corpo, da alma e da natureza, com o que devolvia a homeostase ao acometido de desgaste, entropia, desequilíbrio.

Dentre as energias da natureza (referidas) o xamã buscava interação com um mundo (hoje se sabe) infra-humano e sobre-animal, onde atuam espíritos elementais conhecidos por gnomos (terra), ondinas (água), salamandras (fogo) e silfos (ar), na verdade, pré-espíritos, inteligentes, sim, muito próximos das questões biológicas ligadas ao comer, respirar, ingerir água, energizar-se (p’ra ficar de pé, andar, fazer coisas) e, assim, com ajuda deles podia o pajé “adivinhar” o que estava molestando seu paciente.

Ainda um pouco associado aos pré-espíritos surgiram os totens, a montanha, a grande pedra, uma árvore, como símbolos de poder. Havia também animais de poder, associados aos elementos água, terra, ar e fogo.

A Umbanda que desenvolveu um panteão de guias ligados aos quatro elementos da natureza, é bastante uma expressão religiosa xamânica, com direito à pajelança, ao cachimbo, ao charuto, aos cantos, aos bailados.

Aquele médico das selvas - o xamã - atuava com as ferramentas que hoje atuam os médiuns que fazem clarividência e precognição. Nem vamos entrar no mérito de onde vinham esses poderes, nem de onde vem os poderes daqueles que hoje atuam como médiuns curadores. Uns conseguem atuar em pleno estado consciente, outros precisam entrar em transe. Também levavam seus pacientes ao transe com o objetivo de arrancar de dentro algo traumatizante. Tudo em nome da cura.

Tambores, cantos, sapateados, gritos, bater de palmas ou chocalhos e até música, cheiros, eram usados nas pajelanças destinadas a remover as causas dos males. Causas que podiam vir de fora ou estar dentro da pessoa. Muito mais dentro que fora, como ainda é hoje.

Assim, vão surgindo nesta breve abordagem, as remotas razões da cura pela fé. Lembre-se, leitor(a), que não ficamos só nas tabas indígenas. Hipócrates, um grego que viveu 400 anos antes de Cristo, era uma espécie de xamã. Galeno, no primeiro século cristão, era um romano e também xamã. Hipócrates, o pai da medicina e Galeno seu seguidor, também atuavam bastante pela senda da intuição. Mas, costumavam investigar um ou mais de quatro estados físicos/emocionais/intelectuais advindos do temperamento humano: sanguíneo (nervoso); bilioso (raivoso); fleumático (eufórico); ou melancólico (deprimido). Para cada estado, havia uma poção, hoje conhecida por homeopatia, por sinal, redescoberta por outro xamã moderno chamado Christian Friedrich Samuel Hahnemann (1755-1843). E note que se chama homeostase para o estado de saúde plena, a homeopatia é o tratamento para devolver a homeostase.

É claro que nos casos dos pajés entrava a ministração de chás de ervas curativas, mas isso não era o principal do serviço. Dá para afirmar que atuavam os três processos, o da fé (sensação), o energético (espiritual) e o biológico (material). Na maioria das casas espíritas que fazem curas, hoje, são utilizados os três processos. No caso biológico entram fitoterapia, massagens, banhos, exercícios físicos, etc.; no caso intermediário entre físico e espiritual entram homeopatia, acupuntura, cirurgias restauradoras com o uso de prótese bioenergética; no caso puramente espiritual, a fé, as manipulações energéticas.
Há também, hoje, uma outra faceta: quando o estado de saúde de uma pessoa não toma jeito, ouve-se dizer: “precisa desenvolver a mediunidade”. Sim, os médiuns não assumidos são constantemente abatidos em sua saúde. E quantos que assumiram sua messe e nunca mais sofreram?!

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