sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

1638-A Cura Espiritual e pela Fé


Trazer o céu para dentro da alma

Toda a dificuldade de sentarem-se na mesma roda de conversa e de combinarem para que trabalhos conjuntos possam ser realizados entre a ala que inclui o espírito (Deus) e a ala que não aceita incluir o espírito (Deus) nas pesquisas científicas, reside na mentalidade de uns e de outros. Fomos estruturados mentalmente para pensar e reagir assim ou assado e quebrar isso só é possível com um cataclismo setorial, um traumatismo provocado por uma descoberta avassaladora.

Tomara que você tenha captado o “espírito da coisa”. Ninguém chegará à integralidade do saber dividindo, separando, excluindo. Não temos três corpos (denso, sutil e espiritual), nós somos os três. Nos famosos estudos de Bárbara Brennan, nós não temos empilhados a partir da camada da pele (corpo físico denso) os corpos etérico, emocional, mental, espiritual; na doutrina de Kardec nós não temos um corpo físico, um corpo perispiritual e um espírito, nós somos os três enquanto vivermos na matéria. Esses corpos interpenetram-se permanentemente e nós somos todos eles a um tempo só. Eles não ficam de guarda cada um durante um período. Assim, também, quando fazemos uma refeição, o sentido mais aguçado é o paladar, mas todos os demais estão presentes ao ato. O que vale dizer, nós somos ou temos de ser inteiros, com tudo o que nos pertence, dentro do mundo todo, sem nada tirar. A integralidade do saber tem de começar em nós, seres humanos. Fora dessa perspectiva, somos loucos a procura de chifres nas cabeças dos cavalos.

Mas, não pensemos e nem pensem os cientistas que nós nos dissolvemos, evaporamos ou nos diluímos ao incorporar o todo num só saber. Nada disso! Nem a Universidade, nem a Igreja, nem nós devem perder a sua identidade e é por ela que todos sempre serão reconhecidos em toda a sua dignidade, eternamente. Os cientistas no meio. Se não houver identidade, reconhecimento, ligação, cola, integridade, é porque o “self” ou “Self” (percebeu uma e outra coisa?) alienou-se, a dignidade foi ferida, há o estado doentio.

Achar que já sabemos tudo ou o outro nada sabe, também é doença. E das brabas. Estas questões da identidade e da dignidade merecem um comentário integrador antes que o raciocínio vá além e se perca o fio da meada. Há nos seres humanos e até nos animais (bando, cardume, matilha) a necessidade de identidade e ela sempre se dá, nos humanos, por duas vias: a biológica, o parentesco, o clã, a nação, o território; e a espiritual, o mesmo Deus, o mesmo ritual, as mesmas frequências vibratórias mentais. São referenciais que nos incluem e nos permitem participar ou abandonar o grupo.

Nos tempos primordiais, o membro que desrespeitasse o parente (par entre) demonstrava “self” (ego alienado) e, dependendo da gravidade da falta, era punido, expulso do clã ou sacrificado. O membro que desrespeitasse o deus, vendia a alma, chegava ao “Self” {Espiritual} alienado e precisava de remédio, remendo, reemenda, recola. A dignidade vinha da integralidade, do ato de pertencer e sobre o alicerce do pertencer tudo podia ser pacificado e construído. Este era o território em que atuavam os xamãs curadores. Eles sabiam muito, embora a teoria tenha sido desenvolvida muito mais tarde. O resultado de uma construção assim estruturada pode hoje ser previsto: respeito, reconhecimento, autoridade, confiança, em outras palavras, dignidade moral.

Aliás, a palavra moral, além de estar associada a costumes, dá origem a morar. Você é o que é (é reconhecido assim) porque tem esse costume em virtude de morar com quem mora (por pertencer ao que ou quem pertence). Morou? Na moral.

Subentende-se que a radicalidade científica ou religiosa quanto a isto ou aquilo que nos separa entre Deus e o Mundo, acabará por cair por terra cedo ou tarde e quem sobrar, sobrou, negou-se a pertencer, a participar.

Para não deixar escapar a oportunidade de resgatar as razões de cura, pertencimento e estabilidade de quem “mora com os seus e tem o mesmo deus por sagrado”, o gesto de erguer a mão em sinal de cumprimento, ensinado pelos nativos, nada mais era do que o anúncio: eu te vejo, eu te reconheço e à tua frente estou desarmado. Isso foi adiante e hoje tocamo-nos dando-nos as mãos, desarmadas, em muito bom sentido, pelas mesmas razões herdadas dos nativos e também como uma ótima troca de energias.

Quando um trabalho como este enfocado propõe integralidade do saber espiritual com o científico, saibamos, pois, que estamos propondo vida, respeito à vida, respeito ao que a vida quer que haja e replique.

O homem branco foi tratar-se de graves problemas de saúde com o pajé e lá pelas tantas, quando já estava mais íntimo do “terapeuta silvestre”, resolveu perguntar: “chefe, por que homem branco está sofrendo?” O pajé sentou-se à sua frente, segurou uma espiga de milho por uma nesga de palha e suspendeu-a à frente dos olhos do paciente e perguntou afirmando: “Enforcada, nô?!”, “Sim”, respondeu o paciente. “Homem branco não pertence ao céu e não pertence à terra, está enforcado entre o céu e a terra. Pajé vai cortar o fio, homem branco vai cravar raízes na terra para pertencer a ela. E depois homem branco terá de trazer o céu pra dentro de sua alma”.

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