quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

1650-Xamanismo, a Arte do Êxtase


Comecemos, então, pela ARTE do Xamã

A figura do xamã ou pajé deve ser entendida como um instrumento de busca, tanto quanto o pesquisador é um dos instrumentos da pesquisa. A comparação é proposital. O xamanismo é o predecessor do pensamento científico. E o xamã está longe de ser uma pessoa ingênua e os seus métodos e recursos são claros e simples, jamais podendo entrar para a classificação de charlatão, pois as suas experimentações se dão no campo empírico. E disso ao método científico é um passo.

Há muitos milênios são estudados os mistérios insondáveis da mente e do espírito, contando a quem quiser ouvir que todos temos capacidades mentais e intelectuais que vão além das que estamos usando. Como argumento lógico basta observarmos que o seu pensamento subsiste desde os primórdios até os nossos dias sem necessidade de uma instituição ou religião para perpetuá-lo. Perseguições houve. Mas, quem que tenha estado na contramão dos processos oficiais, que não tenha sido perseguido, atacado, preso, condenado, executado? O que dizer de um aplicador de qualquer ciência que precisa afastar de seu caminho aquele concorrente que não tenha estudado os mesmos estudos? Todos os absurdos praticados em nome de um pseudo deus se inscrevem no ato de eliminar os não iguais.

Esta série tem a pretensão de se aproximar de uma espécie de apostila para estudantes da ARTE DO ÊXTASE, voltado para o auto-conhecimento, para que os exploradores de si mesmos, do seu próprio mundo intrapsíquico, tenham facilitado o conhecimento da história da transição do xamanismo da floresta para o sistema urbano, na América do Sul, e especialmente no Brasil.

Por que o êxtase? Porque o êxtase é o estado de consciência que equivale ao orgasmo físico. Este último, no ser humano, não igual ao dos animais, que ai se dá no propósito de procriar, aqui tem o propósito de ensinar. Nos humanos, o êxtase orgástico se dá como prêmio de amor entre os envolvidos, antessala do próximo estágio.

Primeiros Conceitos


Quando nos distanciamos demais do princípio é hora de voltar para a origem. Assim a Natureza cuida de sua integridade e diversidade. Por que teria de ser diferente com o homem? Estudar o Xamanismo, é conhecer a RAIZ.

Arte do Êxtase ou "ex stasis", termo grego, significa literalmente – "ficar fora" –"libertar-se" da dicotomia da maior parte das atividades humanas. Êxtase é o termo exato para a intensidade de consciência que ocorre no ato criativo. Não é irracional, é supra-racional, une o desempenho das funções intelectuais, volitivas e emotivas; a experiência com o NUMINOSO, a CONTEMPLAÇÃO do TODO, a UNIDADE, o ENCONTRO, a FUSÃO.

O ÊXTASE elimina a separação entre objeto e sujeito, alargando as fronteiras da consciência humana, levando o sujeito à CRIATIVIDADE.

No entanto a vida é dinâmica, não extática, é movimento puro. A harmonia entre o extático e o movimento é o ponto da questão.

Agora você começa a penetrar no campo fértil do trabalho do Xamã, que é ARTE PURA, reunião de atributos estéticos como beleza, harmonia, equilíbrio, repetindo para a vida humana o que nos mostra ser a natureza circundante. Com isso, o ser humano se descobre integrante – um integrante destacado – do todo que existe.

Numa perigosa manobra de promover o homem a um estágio superior ao dos elementais – água, terra, ar e fogo – e, por extensão superior aos micro-organismos, peixes, insetos, aves, animais e duendes, criou-se a separatividade: não ser um igual ao que está embaixo e não ser um igual ao que está acima.

Religar, colar o que rachou, emendar o que quebrou, reatar o que desatou, refazer, reemendar, remediar, mediar para que as pontas se toquem e se casem, fazendo isto com enlevo, leveza, atração, beleza, encanto, prazer, eis o trabalho do Xamã: êxtase espiritual.

A Experiência Extática
e o Teatro

O que têm em comum o TEATRO e a experiência extática? – O som, a palavra, a capacidade de representar emoções pelo dom da linguagem da voz humana, do canto, dos gestos, da dança, do lúdico, da pantomima. Os autores deste texto transitam tanto na Floresta Amazônica, como estudiosos do xamanismo, como no Teatro como escritores e criadores; e percebem com alegria a semelhança de intenções de um e de outro. Não temos intuito de ensinar (nada de novo descobrimos), ou de impor fatos que fundamentem nosso pensamento (não estamos fundando ou vendendo algo), mas apenas de relatar experiências incomuns aos estudiosos desta igualmente incomum expressão humana – a ARTE.

Os nativos sul-americanos (que é o universo estudado), habitantes da floresta amazônica internacional, criaram sua ARTE, próxima ao que se conhece como expressão teatral, como uma forma de transmitir seus sentimentos para o grupo, usando a arte para não ofender a sensibilidade de seu próximo. Criaram máscaras que são usadas em dias especiais e somente em determinadas reuniões. Dançam e cantam em transe, onde a criatividade aflora e os leva a reclamar ou elogiar uns aos outros, usando bailados e cânticos belíssimos. É a arte desta delicada maneira de ser nativo – o que chamamos de Teatro e eles chamam de A CASA DAS MÁSCARAS, o lugar mais importante e sagrado da aldeia nativa.

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