domingo, 4 de janeiro de 2015

1654-Xamanismo, a Arte do Êxtase


O ocaso de um Xamã Clássico

Diálogo do pesquisador com o Pajé "Canoas Javaés", registrado no estado do Tocantins, na Ilha do Bananal, versando sobre as relações dos homens com a Natureza. Pesquisador e Pajé estavam diante um pomar de laranjeiras, plantadas em alinhamento, muito próximos entre si os pés, como doação do governo aos índios. O Pajé apontou para o pomar e disse: “Quando vi todas as laranjeiras murcharem, senti que a NATUREZA assinalou para o meu povo que nós não precisamos desse tipo de ajuda oficial. ‘Os brancos’ fazem coisas inventivas, diferentes do que é a realidade natural e os nativos têm a convicção de que estas novidades só trazem sofrimento, portanto não desejam se aliar a este tipo de coisas novas”.

Ele disse mais. Nesse tipo de pomar, a tristeza das árvores é tamanha que elas se oferecem como alimento das formigas para morrer mais depressa. Este é um fragmento do pensamento do Pajé, um dos 64 sobreviventes de um grupo que já foi um dos mais numerosos da América Latina. No ano em que o Brasil comemorou 500 anos, eles eram somente 14 pessoas. Gentis, inteligentes, falando várias línguas nativas, inclusive o português e viajando muito pelo território nacional. Atualmente esse grupo indígena, tal qual o laranjal, parou de procriar.

O Pajé é profundo conhecedor de plantas, raízes e ervas; fica estarrecido diante das doenças que desconhece e atingem o seu povo, matando-os dia a dia, como a tuberculose e as doenças sexualmente transmissíveis; estão infectados por causa das cidades que cada vez chegam mais perto deles.

Este pajé, com suas tatuagens tribais marcando seu rosto, esquiva-se, sentindo-se desestimulado a procurar e descobrir plantas que os curem das novas doenças, por ver-se ridicularizado pelos doutores que vão ajudá-los, e pelos professores e missionários que pregam que o que ele faz não funciona, fazendo os nativos acreditarem somente nos remédios alopáticos, que não são suficientes para todos.

Ao aceitar as profecias de seus antigos, percebe-se que os nativos também possuem a CRENÇA de um apocalipse inevitável, que para eles já chegou com a presença do homem civilizado em 1492. Não se pode deixar de pensar nos europeus ou descendentes deles, também esperando um final, algum dia com uma posterior Salvação. É muito chocante saber que do ponto de vista destes nativos, nós brancos somos o mal a ser evitado e o seu próprio fim. Quem está certo?

Conseguiu-se pelo menos vê-lo cantar, e neste canto se pode notar que lá está toda a sua raiz e o seu conhecimento, que ele ensina com ARTE.

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