sábado, 17 de janeiro de 2015

1667-Xamanismo, a Arte do Êxtase


 

O Balanço vindo do Mar

 

Deus podia estar nos céus? E o diabo podia estar no mar?

Após a chegada da bandeira da Santa Inquisição, apoiada pelo governo monárquico português na sede e nas suas colônias, houve a fragmentação do próprio pensamento português, simultaneamente ao da raça vermelha e tempos depois da raça negra. A igreja católica romana afirmava que os negros e os vermelhos não tinham alma, que eram como os animais; e que, portanto, eles estavam fazendo um enorme bem em cristianizá-los, salvando suas almas pelo batismo, eliminando com isso os seus nomes de origem, tirando assim suas identidades e trocando seu deus.

 

Estes homens e mulheres, que para as suas nações estavam tendo o castigo merecido de vencidos nas guerras (uma vez que a escravidão por guerra era hábito comum entre os nativos, que vendiam os seus derrotados aos brancos, sendo por duas vezes humilhados); eram tratados como animais dos dois lados. Apavorados, agarraram-se à sua fé ante a maldição pela má sorte que tiveram; estavam entregues ao TEMPO, sem saber que eram sementes de uma nova cultura.

 

Apesar da campanha de fragmentação desencadeada sobre suas mentes pelo flagelo da tortura da dupla escravidão (evidenciada pelas visões fragmentadas como um caleidoscópio visto pela pessoa que ingere uma Planta de Poder), evidencia-se o fato de terem a psique forte; mesmo depois da morte de seus sacerdotes e pajés prisioneiros (sendo que alguns pajés foram vendedores de escravos nativos, e eram muito temidos e respeitados, como foi o caso de Caraibebe no sul do país; a tradução de seu nome significa “O Santo que voa”, sendo que todos se deslocavam para onde quer que ele estivesse a procura de cura ou de benção). Os que sobreviveram, se agarraram ao que restou de sua cultura e, FIÉIS aos seus princípios, ensinaram a sua TRADIÇÃO oral e secretamente a pelo menos uma pessoa antes de morrer. Assim a própria história do povo foi preservada através de seus cantos na língua nativa e esta corrente não se perdeu de todo.

 

Foi de tal forma que tudo se deu, que assimilamos enquanto povo, a palavra SAUDADE – saudades do que não foi visto, do que não sabemos, e temos tristeza dela só de pensar.

 

Para os nativos de pele vermelha e negra, a tentação chegou pelo mar. Eles não conheciam o diabo. O diabo veio com o colonizador, que lhes ensinou a tentação, mas oficialmente quis (e em boa parte conseguiu) castrar-lhes a oportunidade do êxtase tradicional de suas práticas religiosas.

 

O monstruoso resultado dessa fragmentação foi a popularização do uso do tabaco, da coca, do ópio e de todas as demais drogas que, nas condições sagradas anteriores, só eram usados em ritos e apenas pelos sacerdotes. 

 

Adendo

 

Tanto os negros como os nativos não entendiam quando eram chamados de "idólatras", pois em sua fé cultuavam a natureza, e nada neste mundo poderia fazer com que acreditassem que algum Deus, mesmo o Deus dos cristãos, pudesse castigá-los tão duramente por isso, considerando que não faziam imagens ou desenhos de suas divindades, o seu Deus era representado por alguma árvore ou arbusto e pelas máscaras, que eram maiores ou menores segundo a inteligência ou os atributos do Deus representado. Hoje se sabe que idolatria só ocorre quando idolatramos pessoas. E por incrível que possa parecer, judeus, muçulmanos, budistas e cristãos praticam idolatria em relação àqueles que respeitam como seus deuses.

 

O espanto dos índios foi registrado nos pequenos versos do canto tupi-guarani:

“De que paraíso Azul foi que você veio?

Diga para mim, diga para mim!”

 

Os dominadores haviam chegado por mar e o mar é verde.

 

Mas nem todos se espantaram, tanto que existiram poderosos pajés e caciques que colaboraram ativamente com os colonizadores, da mesma forma que certos chefes negros na África (que foram bem pagos por isso), que entregaram seus irmãos para cruéis 300 anos de violenta repressão.

 

Entre estes entregadores estão o pajé Maracanã e o cacique Condá (seus nomes, ironicamente, foram eternizados em estádios de futebol no Rio e em Chapecó) por sua ajuda prestada ao homem branco na conquista territorial daquilo que até então era só dos índios. Mas isto não foi o suficiente para que o conhecimento de ambos fosse esquecido ou morresse na memória de seus descendentes.

 

Os escravos tiveram jogo de cintura suficiente para concordar com os europeus – sem aceitar de fato o que era imposto – marca da personalidade do brasileiro, “desconfiado, querendo saber sempre o que está por trás de um fato, acreditando sem acreditar muito".

 

Os índios, questionados pelos brancos sobre fé, remédio, tradição, falavam qualquer coisa, menos a verdade. Mais por não querer assimilar do que por interessar-se pela cultura dos nativos, aos brancos restou anotar nomes de rios, morros, vales, árvores, peixes e animais. O colonizador branco não podia nem de longe suspeitar que aquelas pessoas sob sua tutela fossem cultas a ponto de elaborar qualquer pensamento sobre o divino.

 

No processo de urbanização do Brasil, o xamanismo respondeu muito lentamente às mudanças, que não foram rápidas nem tão pouco programadas, aconteceram lentamente, movidas apenas pelas forças do astral e pela vontade Divina.

 

A transformação se deu com a libertação dos escravos negros no ano de 1888, vindos de várias nações da África, portanto com diferença de culturas, no entanto com a mesma crença nos Orixás. Cabe uma pergunta: Por que não reagiram?

 

O homem branco não tinha a confiança dos negros e nativos. As tradições sapiensais são repassadas a quem se ama.

 

O encontro das culturas negra, indígena e branca foi acontecer nas terreiras da Umbanda com forte colaboração xamânica.

 

Ainda cabe dizer: tanto os negros como os nativos vermelhos, antes de serem vendidos como escravos aos portugueses, foram prisioneiros de guerra entre nações rivais, e como tal foram negociados. Em segundo lugar, os nativos vermelhos constantemente vendiam seus prisioneiros de guerra para quem os quisesse comprar. Posteriormente, quando viram o resultado disso, pararam com esta prática, mas já era tarde, eles passaram a ser caçados na floresta pelos bandeirantes.

 

O conquistador também se aproveitou das mulheres indígenas e gerou milhares de filhos bastardos, nem sempre aceitos na taba, nem sempre aceitos na civilização branca e, por isso, bastardos culturais e bastardos da fé.

 

Depois que a compra de escravos negros foi diminuindo, tornou-se prática dos colonizadores fazer dos filhos deles um bom comércio, estimulando o crescimento da população negra escrava. Isso deu causa à Lei do Ventre Livre.

 

No entanto mães e pais continuavam escravos, enquanto seus filhos eram jogados na rua por seus donos, tanto que Dom Pedro II criou o primeiro orfanato do país em função deste horror.

 

As crianças, sem pai nem mãe e sem nenhum conhecimento e nem direito a ele, quando conseguiam chegar na idade adulta, estavam apáticas, não tinham nem um e nem outro deus.

 

Foi neste instante que os guardiões das TRADIÇÕES vieram para as cidades, para lembrá-los de que não estavam tão abandonados assim. Não aceitaram a evangelização católica que os batizava com nomes europeus, resistindo para não perderem sua origem. Começando o famoso jogo de cintura do brasileiro, em que, numa única família, há mistura de diversas raças, surgindo um filho branco, outro negro e outro mulato, com traços indígenas.

 

Com a liberdade conquistada a duras penas, o xamanismo foi aos poucos se urbanizando a partir dos anos seguintes da virada do século de 1800 para 1900.

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