segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

1697-A festa da desobediência


O carnaval I

De algumas décadas para cá, no Brasil, o carnaval ganhou investimentos públicos e privados, virou festa para turista ver e hoje é um dos eventos mais caros do mundo, depois da Copa da Fifa e das Olimpíadas. Mas, lá no passado, os controles, as perseguições, as repressões, o moralismo exercido pelas autoridades civis e religiosas fizeram com que os povos tivessem medo dos castigos impostos a toda liberalidade. Aí tem origem as máscaras.

A festa existiu desde muitos milênios, em princípio, para louvor à natureza pela abundância das colheitas e acontecia no intervalo de um plantio e próxima de uma colheita. Louvava o que havia recebido e augurava o que esperava receber da próxima vez.

Alguns autores atribuem as primeiras manifestações relacionadas ao ritual do carnaval a civilizações antigas, na Mesopotâmia, na Grécia e em Roma. Os romanos promoviam festas que eram, ao mesmo tempo, religiosas e profanas - as chamadas saturnais ou saturnálias, como já dissemos, (em dezembro, para fechar as comemorações pelo ano agrário e reunir expectativas para a próxima colheita) e as chamadas lupercais ou lupercálias (estas em fevereiro) para purificar a cidade e liberar a saúde e a fertilidade das pessoas e da natureza.

Nessas comemorações, como também já foi dito, aconteciam liberalidades, exageros com bebidas alcoólicas, à época, já, com drogas, e exibições consideradas pornéia, ou seja, nudismo. Aqueles carnavalescos que queriam abusar sem se expor, ir além, e manter o anonimato se utilizavam de máscaras para esconder a identidade visual. Mesmo assim, no passado, eram castigados. Mas, o desejo de confrontar a autoridade se encarregava de aumentar a prática e os praticantes.

O conceito de carnaval mais próximo ao que acontece atualmente surgiria apenas no ano 604, quando a Igreja Católica, por meio do Papa Gregório I, incluiu a data no calendário eclesiástico, do mesmo modo que incluiu o Halloween ao determinar a data de finados dois dias depois e do mesmo modo que instituiu o Natal de Jesus apegado à festa solisticial da entrada do Sol no hemisfério norte. A festividade firmou-se durante a Idade Média em diversos países da Europa ocidental, principalmente na Itália (onde, até hoje, há o famoso Carnaval de Veneza). Consideradas profanas, as comemorações carregaram essa característica inclusive no nome. "Esses dias eram chamados de dias do adeus à carne, dias em que a carne se vai, dias do carne vale e, finalmente, lá pelo século 14, dias do carnaval", explica o coordenador do Centro de Referência do Carnaval (CRC) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Felipe Ferreira.

No Brasil, o carnaval saiu dos clubes chiques para a terreiras de candomblés, se associou ao samba (que também tem uma história profana e sensual) e logo ganhou a avenida, onde as mulatas exuberantes podiam sacudir o bumbum e aguçar o interesse libidinoso de uma sempre afoita plateia, que hoje vem de inúmeros países e distâncias a peso de muitos reais, euros e dólares para ver o cortejo passar (e para mais coisas). Com o tempo, através das escolas de samba, ganhou outras roupagens, passou a contar uma história, referenciar uma cultura, dando origem ao teatro aberto comandado por um samba-enredo.

Mas, sobraram os blocos de sujos fiéis à mesma desobediência referida no início. Homens se vestem de mulheres e vice-versa. As monstruosas paradas gays nada mais são que carnaval exclusivo dos gays, dentro do mesmo princípio de desobediência, da quebra de padrões, agressão às regras e ao que se poderia chamar de pensamento retrógrado que começava no Papa, no Rei, descia e se espalhava pela oficialidade e chegava aos sacerdotes, delegados de polícia, guardas da rua e moralistas de plantão nas janelas que davam para as ruas da folia.

Ganhamos até mesmo um substantivo (FOLIA) derivado da brotação, da eclosão da natureza ao brotar, que ficou associado à explosão da energia luxuriosa. E o mais curioso, a palavra FOLIÃO, adotada para designar o participante dos folguedos do carnaval, está lá no Dicionário Aurélio: “histrião (indivíduo ridículo ou vil, abjeto), farsante”.

Apesar das multidões ingênuas que comparecem e brincam e se deliciam com as festas carnavalescas, lá no fundo, na cachola de uma ativa minoria, os carnavais não têm essa leveza e ingenuidade lúdica, são tempos de coisas que depõem contra a boa moral e a elevação do ser humano. Por isso vêm parar nas páginas de um blog que se propõe trabalhar pela maioridade espiritual humana.

Ocorre que foi tamanho o controle, a contenção, a repressão (sem outra pedagogia que pudesse contribuir em substituição), que “estourou a boca do balão” (o termo nasceu dessa reação). Populações com menor grau de instrução brincam naturalmente com enorme animação e normalmente produzem cenas mais chocantes aos olhos do controlador moralista. Assim chegamos ao impasse: mais proibição, mais subversão. O carnaval nasceu disso. Evoluiu, está certo, mas não é sem outro receio que as autoridades distribuem milhões de preservativos, as chamadas camisinhas, numa clara alusão oficial de que se está no ápice da festa do sexo, do sexo liberal, liberado, do exagero, do exorcismo, ou no sentido contrário, na incorporação dos demônios, convidados a festar com os humanos. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário