terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

1698-A festa da desobediência


O carnaval II

Há um lado fenomenal no carnaval das escolas de samba do Brasil: o orgulho afro. Tivemos tempos obscurecidos na vida social e econômica (ainda temos) do Brasil e a pecha se esparramou: os negros são descendentes de escravos. E isso joga a autoestima lá para baixo. Na verdade, os negros descendem de uma civilização que originalmente era mansa e prestativa e se tornou escrava, foi escravizada, não são escravos, se tornaram (por contingência da violência escravagista) escravos. Deixaram de ser. E através de suas escolas de samba vão para a passarela dar o seu show. E a imensa maioria nada recebe por isso. É voluntária. Por amor a uma bandeira que muitas vezes se confunde com a bandeira do Brasil. Esse orgulho afro, literalmente, explode na passarela. Se por circunstâncias socioeconômicas brasileiras o negro ainda é olhado e tido como um cidadão inferior, ao menos naquele desfile carnavalesco ele é o centro das atenções do Brasil e do mundo. Claro, a quarta-feira de cinzas pode trazer uma ressaca e a realidade de acordar numa favela com todos aqueles problemas que ali ainda existem. Mas, o negro tem provado no carnaval e pode provar também nas demais ocasiões e áreas, que é tão ou mais competente que aqueles que o submeteram e o discriminam. Ao menos não é sectário.

O carnaval, e as autoridades sabem disso, é um período complicado para uma série de eventos que se tornam lamentáveis nas áreas da saúde, da ordem, da segurança e até das finanças: roubos, bebedeiras, sexo liberado, transmissão de doenças, drogas, gravidez indesejada, acidentes, assassinatos.

Talvez o lado mau desaconselhe o lado bom, mas há muito dinheiro envolvido e a discussão nem começou ainda. Do mesmo modo que nem começou a discussão envolvendo o futebol profissional, as vantagens e desvantagens de ele existir.

Dá de tudo no carnaval. Veja isso. Uma mulher identificada como Jan Cleide, 32 anos morreu durante ato sexual com o companheiro, policial militar, Adelson Santos, de 43 anos, em Manaus. De acordo com publicação do Jornal O Maskate, o casal estava em um motel da zona sul da cidade, quando a mulher “explodiu” (literalmente) e começou a sofrer intenso sangramento por todos os orifícios da cabeça. Passou mal e começou a esguichar sangue por todos os lados, manchando até o teto do quarto. Adelson disse ao jornal, que ligou para a recepção, mas a companheira morreu em minutos, antes da chegada do socorro. Em desespero o PM foi até a casa da família da mulher explicar o fato, mas terminou sendo preso sob suspeita de assassinato.

Adelson insistia em dizer que era inocente e que a moça, sem que ele fizesse nada, “explodiu” durante o ato sexual. Ninguém acreditava no PM. A polícia foi até o motel e, no local, descobriu a farda completa de Adelson, roupas, documentos e o corpo de Jan que estava estirado no chão.

O policial só foi solto depois que saiu o laudo do Instituto Médico Legal, que apontou como causa da morte um acidente cardiovascular (AVC) externo. Houve uma hemorragia tão forte que as veias da cabeça da mulher não aguentaram a pressão e, de fato, explodiram.

Não querendo tripudiar, mas tomando-se o sacrifício de Jan Cleide como parâmetro, a nossa sociedade também explode e se esvai perigosamente durante o tríduo de momo.

Termina aqui nossa conversa carnavalesca. Amanhã o Brasil precisa acordar sóbrio.

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