sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

1701-O processo das nações colonizadas


O que é ser colônia

Encenemos uma metáfora. Durante séculos vivíamos confortavelmente sobre uma terra de abundância em tudo: água, madeira, animais, pedras preciosas, petróleo, minérios estratégicos, frutas, terras férteis... Mas, por razões especiais nem dávamos tanta conta dessas riquezas, nem sabíamos de sua existência na íntegra. De repente, chega pelos mares um pessoal agressivo, aprisiona ou assassina nossos líderes, nos põe escravos e começa a trazer mais gente por mar e a explorar nossas terras e muitas daquelas abundâncias já citadas.

O explorador é mal intencionado, abusa de nossas mulheres, utiliza de armas que não conhecemos e traz consigo de além mar ajudantes também violentos e vão tomando conta de tudo.

Com o passar do tempo, o governo de além mar traz mais gente, que chama de imigrantes e vão abrindo lavouras, criatórios, fundando vilas, abrindo estradas e ferrovias, construindo usinas, mineradoras, serrarias, abatedouros e vão explorando e também levando embora nossas riquezas através dos portos.

Só muito tempo depois é que os filhos dessa nação colonizada se dão conta de que estão sendo explorados em seus recursos humanos e naturais, enquanto a riqueza, que é nossa, não fica conosco, é levada embora. Enquanto isso, a pobreza, o analfabetismo, a doença, é o que fica como saldo para nós. Onde esses filhos conseguiram se organizar, houve a libertação, a independência política, mas não a interrupção do processo exploratório e nem a descolonização econômica. Esses processos vieram se arrastando até 1980. As terras, minas e reservas continuavam sob o domínio dos exploradores e a exploração dos seres humanos e da natureza prosseguia, ainda prossegue.

Causas principais disso: o principal fator é cultural. A dominação criou um sentimento de inferioridade. Chegamos ao ponto de dar mais importância e valor aos produtos importados com desprezo daquilo que era nosso.

A dominação cultural implantou, com caráter universal, os valores da chamada “civilização ocidental cristã”, apregoada como a melhor, a única, a verdadeira, esquecendo que os ingleses, franceses e alemães ainda vestiam-se com peles e comiam carnes cruas quando os egípcios, mexicanos ou peruanos já haviam desenvolvido as suas civilizações urbanas avançadas e calendários com maior precisão que o gregoriano deles. Mas, tem mais: o empreendedor vindo de fora para cá é o aventureiro interessado em riquezas, sem compromisso com a nação que o recebe; as pessoas que ele traz para ajudarem-no na escravização são também aventureiras, em geral saídas das prisões, alforriadas, acostumadas a lidar sob maus tratos e a aplicar maus tratos; a massa trabalhadora, sob a condição de escravos, composta dos nativos daqui ou trazida da África, não recebe apoio educacional, não sabe ler e escrever, nada conhece de outra realidade melhor e se deixa levar.

É assim que um povo se submete, é explorado, entrega sua terra, sua identidade, sua língua e chega ao limite de ser considerado povo de terceira classe, uma escória, ficando implícito que o dominador é superior. Isso tudo perdura mesmo depois do dominado conquistar a independência política em relação ao colonizador. E continua a submeter-se a manobras populistas e paternalistas de partidos e governos que atuam numa semidemocracia como a nossa. Como explicar isso?
A explicação, no caso das Américas, parece ser clara. Se as eras se prolongam por cerca de 500 anos, a virada está chegando. Pode-se acreditar? Devemos acreditar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário