terça-feira, 31 de março de 2015

1740-A Fé a serviço da Ciência


Tratar da doença ao conversar com a alma

A contribuição mais importante de Charcot para a evolução da Ciência não foram suas descobertas sobre doenças do corpo, mas a utilização da hipnose como instrumento terapêutico, uma vez que reconhecia haver no ser humano um elemento imponderável que comanda a máquina orgânica.   Ao desencarnar, verificou que esse elemento sobreviveu ao decesso do corpo físico e que conservava as faculdades intelectuais e morais que o tinham acompanhado durante o período de vida no mundo terreno.

Foi através da hipnose que Charcot chegou ao espírito. Ao investigar a consciência percebeu que ali estava a memória da alma e que nela havia mais coisas que cabiam na atual existência de um ser.

Hipnose é um estado mental (teorias de estado) ou um tipo de comportamento (teorias de não-estado) usualmente induzidos por um procedimento conhecido como indução hipnótica, o qual é geralmente composto de uma série de instruções preliminares e sugestões. O uso da hipnose com propósitos terapêuticos é conhecido como "hipnoterapia". Contudo, talvez, a definição mais objetiva possível de hipnose seria a seguinte: alguém (o hipnotista) comanda e alguém (o hipnotizado) obedece, geralmente de modo extremo ou pouco comum. As pessoas que são hipnotizadas costumam relatar alterações de consciência, anestesia, analgesia, obedecendo e realizando os atos mais variados e extremos sob este pretenso estado. Segundo Adriano Faccioli (2006): "A hipnose, em termos mais estritamente descritivos, é o procedimento de sugestões reiteradas e exaustivas, aplicadas geralmente com voz serena e monotônica em sujeitos que algumas vezes correspondem às mesmas, realizando-as, seja no plano psicológico ou comportamental. Estes sujeitos responsivos também costumam relatar alterações de percepção e consciência durante a indução hipnótica. E em alguns casos respondem de modo surpreendente ao que lhes é sugerido, o que pode incluir, por exemplo, anestesia, alucinações, comportamento bizarro e ataques convulsivos".

Apesar das controvérsias que ainda cercam o tema, se os efeitos da hipnose são legítimos ou não, Facioli (2006) ressalta: "Dado o impacto geralmente produzido em todos os envolvidos, sejam hipnotizados, hipnotizadores ou observadores, a hipnose é algo que merece atenção. Seja ela um fenômeno neurológico, psicológico ou de coação social, são válidas as tentativas sensatas e sinceras de compreendê-la. Mesmo que a hipnose seja simplesmente uma farsa, não há dúvidas de que por meio dela podemos compreender melhor o que é o ser humano, seu psiquismo, e sua relação com os outros de sua espécie".

O termo "hipnose" (grego hipnos = sono + latim osis = ação ou processo) deve o seu nome ao médico e pesquisador britânico James Braid (1795-1860), que o introduziu pois acreditou tratar-se de uma espécie de sono induzido. (Hipnos era também o nome do deus grego do sono). Quando tal equívoco foi reconhecido, o termo já estava consagrado, e permaneceu nos usos científico e popular. O termo não se deve ao latim, mas foi dado por um médico em homenagem ao deus do sono Hypno.

Contudo, deve ficar claro que hipnose não é uma espécie ou forma de sono. Os dois estados de consciência são claramente distintos e a tecnologia moderna pode comprová-lo de inúmeras formas, inclusive pelos achados eletroencefalográficos de ambos, que mostram ondas cerebrais de formas, frequências e padrões distintos para cada caso. O estado hipnótico é também chamado transe hipnótico.

Generalidades - É um conjunto de técnicas psicológicas e fisiológicas usadas para a modificação gradual da atenção. Durante este processo, o grau de suscetibilidade à hipnose é medido pela capacidade dos pacientes em desconectar sua consciência do mundo exterior e se concentrar em experiências sugeridas pelo hipnólogo. Quanto maior for essa capacidade, maior serão as possibilidades do paciente desenvolver fenômenos hipnóticos sugeridos, dentre os quais podemos destacar: amnésia total ou parcial da experiência hipnótica, anestesia, modificação da percepção, alucinações, crises histéricas, aguçamento da memória, modificação nas respostas fisiológicas, entre outros. (LOPES,2005.) Hipnose, no sentido de transe ou estado hipnótico, pode ser auto-induzida ou alter-induzida. Hipnose auto-induzida, também chamada de auto-hipnose, consiste na aplicação das sugestões hipnóticas em si mesmo. Hipnose alter-induzida pode, por analogia, ser chamada alter-hipnose — embora esta não seja expressão de uso corrente — e consiste na aplicação de sugestões hipnóticas por outra (latim alter = outro) pessoa (o hipnotizador) num aquiescente (hipnotizado, paciente). Alguns especialistas afirmam que toda hipnose é, afinal, auto-hipnose, pelo fato de depender precisamente da aquiescência ou consentimento (num dado grau ou nível, ainda que incipiente) daquele que deseja ou, pelo menos, concorda com ser hipnotizado. Na maioria dos indivíduos, é possível induzi-la com métodos e técnicas diversos. Quando um hipnotizador induz um transe hipnótico, estabelece uma relação ou comunicação muito estreita com o hipnotizado. Isso, de fato, é essencial para o sucesso da hipnose. Hipnose muitas vezes é empregada em tratamentos psicológicos, médicos e odontológicos (e/ou psiquiátricos). Quando em uso por psicólogos e médicos — sendo o paciente submetido à hipnose, para o desejado fim terapêutico — fala-se apropriadamente em hipnose terapêutica (hipnoterapia).

Com efeito, é possível tratar alguns problemas de comportamento, como o tabagismo, as disfunções alimentares (como anorexia, bulimia, desnutrição e obesidade), bem como a insônia, entre tantos problemas, com o uso adequado e competentemente supervisionado da hipnose — a hipnoterapia.

Então parece que com passinhos curtos, porém progressivos, a ciência vai andando na direção do espírito.

segunda-feira, 30 de março de 2015

1739-A Fé a serviço da Ciência


Histéricos ou obsediados?

Numa sociedade de costas para a espiritualidade os histéricos são doentes mentais de fundo físico e devem ser tratados com poções químicas. Na sociedade que se dispõe olhar por cima dos muros de concreto, os sintomas histéricos podem estar associados à obsessão ou, como queiram, à mediunidade, e podem ser tratados por terapeutas da alma. E não se pode esquecer que obsessão, como se aprende, nem sempre é de fundo maligno.

Por falta das visões mais amplas, os pobres histéricos, que em séculos anteriores tinham sido lançados à fogueira ou exorcizados, em épocas recentes, e mais esclarecidas, estavam sujeitos à maldição do ridículo; seu estado era tido como indigno de observação clínica, como se fosse simulação e exagero (...) Na Idade Média, a descoberta de áreas anestésicas e não-hemorrágicas (sigmata Diaboli) era considerada “prova de feitiçaria". Distúrbios sensoriais podem:

Abranger os sentidos da visão, audição, paladar, tato e olfato;

Variar desde sensações peculiares até a hiperestesia, alfagesia, analgesia em partes do corpo ou anestesia total; 

Produzir zonas histerógenas que, quando tocadas, podem desencadear surto histérico; 

Causar grande sofrimento com dores agudas, para as quais nenhuma causa orgânica pode ser determinada. 

Os distúrbios motores podem incluir uma gama de manifestações, como paralisia total, tremores, tiques, contrações ou convulsões. Afonia, tosse, náusea, vômito, soluços são muitas vezes de origem histérica. Episódios de amnésia e sonambulismo são considerados reações de dissociação histérica.

Existe uma extremada necessidade de as clínicas psiquiátrica e psicológica abrirem-se para os estudos da obsessão sem nenhuma necessidade de admitir o espiritismo como fonte do estudo da obsessão. Os seus profissionais deveriam começar por entender que a telepatia (longe de ser um tema espírita) é um tema só não demonstrado cientificamente (o é na prática) porque esbarra, justamente, no preconceito da ciência em estudar o que os microscópios e cinescópios não capturam.

Na prática, hoje, se pode colocar dois sensitivos a muitos quilômetros de distância e organizar uma pauta de transmissões telepáticas absolutamente demonstrativas de que, no futuro, os celulares poderão ser substituídos pelas transmissões mentais. O que fazemos hoje é treinar e acostumar-nos com a transmissão de ideias através de ondas eletromagnéticas produzidas por aparelhos a partir de baterias com o concurso do elemento lítio. No futuro as transmissões serão também por ondas eletromagnéticas, porém em frequências ainda mais altas que as micro-ondas, em ondas alimentadas pela energia humana. O aparelho? A mente humana.

Pois bem, se telepaticamente é possível uma mente interagir com outra, essa interação também é possível na indução, fenômeno em que uma onda invade uma outra frequência e causa alteração nos conteúdos. Isso, do ponto de vista espiritual, tem nome de obsessão. A ciência vai chegar lá antes do que ela própria acredita.

Quanta gente obsediada vem sendo tratada com remédios narcóticos, em geral piorando a situação em que se encontram, pelo simples fato de que a obsessão não é considerada como hipótese dos distúrbios mentais do paciente tratado.

O que está faltando para a nossa medicina é ampliar seu campo de pesquisas e chegar à alma, como veremos na próxima postagem.    

domingo, 29 de março de 2015

1738-A Fé a serviço da Ciência


Da histeria nasce uma revelação espiritual
 
A palavra “milagre” chegou às línguas atuais através do sânscrito, onde era usada para definir o maravilhoso, o portentoso, o muito apreciado. E entre nós sempre houve quase unanimidade: necessitamos de um agente de caráter carismático forte para dar partida no sentimento que se transforma em emoção, comoção, para se fazer energia poderosa e produzir o maravilhoso, o portentoso, o muito apreciado, chamado milagre.
De forma científica Charcot cuidou de entender as doenças psicóticas para além do que a medicina podia explicar. Vamos entrar na histeria. Entenda com elevação a frase seguinte: Francisco de Assis e Santa Tereza eram “histéricos”, quer dizer, dotados de características psíquicas diferenciadas, que lhes propiciavam faculdades superiores ao comum das pessoas. A expressão foi utilizada nesse sentido e não como sintoma de doença. Se Charcot afirma que os ambientes dos santuários dedicados a esse homem e a essa mulher superiores eram propícios à cura pela fé não terá querido que a expressão “histeria”, atribuída a ambos, fosse entendida no sentido negativo, que posteriormente o termo adquiriu. Seria um contrassenso dizer que aqueles ambientes, se fossem negativos, poderiam contribuir para a cura de males físicos e morais, como se o diabo (figura imaginária, do contra) se dedicasse a fazer o Bem.
Histeria (do francês hystérie e este, do grego στέρα, "matriz"). O termo tem origem no termo médico grego hysterikos, que se referia a uma suposta condição médica peculiar às mulheres, causada por perturbações no útero, hystera em grego. O termo histeria foi utilizado por Hipócrates, que pensava que a causa da histeria fosse um movimento irregular de sangue do útero para o cérebro. Segundo a Psicanálise, é uma neurose complexa caracterizada pela instabilidade emocional. Os conflitos interiores manifestam-se em sintomas físicos, como por exemplo, paralisia, cegueira, surdez, etc. Pessoas histéricas frequentemente perdem o autocontrole devido a um pânico extremo. Foi intensamente estudada por Charcot e Freud. No final do século XIX, Jean-Martin Charcot, que empregava a hipnose para estudar a histeria, demonstrou que ideias mórbidas podiam produzir manifestações físicas. Seu aluno, o psicólogo francês Pierre Janet (1859-1947), considerou como prioritárias, para o desencadeamento do quadro histérico, muito mais as causas psicológicas do que as físicas. Posteriormente, Sigmund Freud (1856-1939), em colaboração com Breuer, começou a pesquisar os mecanismos psíquicos da histeria e postulou em sua teoria que essa neurose era causada por lembranças reprimidas, de grande intensidade emocional. A sintomatologia, que ao mesmo tempo frustrou e estimulou os médicos do século XIX, foi o grande desafio para Freud, que, a partir desse quadro, ainda misterioso, desenvolveu técnicas específicas para conduzir o tratamento de suas pacientes: nascia a Psicanálise, como resposta a esse desafio. Aos poucos foi-se observando que a histeria não era um distúrbio que acometia exclusivamente as mulheres, mas nelas predominava. Teorizou-se, então, outra segmentação da estrutura neurótica: estava-se diante dos obsessivos que, com sintomas diferentes, também apresentavam grande sofrimento psíquico. Esta sintomatologia, nesse caso predominantemente masculina, não pode ser tratada como exclusiva dos homens. Nas palavras de Freud: "O nome “histeria” tem origem nos primórdios da medicina e resulta do preconceito, superado somente mais tarde, que vincula as neuroses às doenças do aparelho sexual feminino. Na Idade Média, as neuroses desempenharam um papel significativo na história da civilização; surgiam sob a forma de epidemias, em consequência de contágio psíquico, e estavam na origem do que era fatual na história da possessão e da feitiçaria. Alguns documentos daquela época provam que sua sintomatologia não sofreu modificação até os dias atuais. Uma abordagem adequada e uma melhor compreensão do fenômeno tiveram início apenas com os trabalhos de Charcot e da escola do Salpêtrière, inspirada por ele. Até essa época, a histeria tinha sido a bête noire (besta negra) da medicina. Assunto superado, hoje. A histeria saiu das listas negativas para entrar no catálogo dos fenômenos quase normais para não chegar ao termo paranormais.
Para irmos além, a próxima postagem ainda será sobre o mesmo tema.

sábado, 28 de março de 2015

1737-A Fé a serviço da Ciência


Por que a inclusão de Deus?

Pois bem, aí está um ponto controverso. Os ateus adorariam vê-lo comprovado. Os céticos olhariam para um milagre com frieza. Os muito religiosos ficariam contrariados com a notícia de um milagre acontecido sem a intervenção de um santo. E, no entanto, milagres acontecem todos os dias em situações em que nem mesmo é invocada a intervenção de um santo, de um deus. Por que? Porque as nossas necessidades de encontrar um salvador externo criaram deuses, poderes extra homem e chegamos ao Deus principal, na verdade, uma concepção humana. Ninguém terá como afirmar e comprovar que é assim fora da fé.

O próprio Charcot tinha posição quanto à questão da inclusão de Deus nos milagres: “É sobretudo nos santuários religiosos que a cura pela fé encontrou ambiente mais propício para ocorrer”. A expressão “santuários religiosos” deve ser interpretada com bastante elasticidade, pois o número de correntes religiosas e filosóficas aumentou em progressão geométrica, de tal forma que atualmente seu número se conta aos milhares, tentando levar os seres humanos à aproximação com Deus através da fé no Pai Celestial. Não importa qual dessas formas de crer em Deus as criaturas humanas escolham, porque o que conta mesmo é sua certeza na Paternidade Divina – melhor dizendo, no Poder Divino que pode estar dentro de nós - e no cumprimento de Suas Leis (Universais), que Jesus resumiu no “Amor ao próximo como a si mesmo”. Atrás dessa palavra (Amor) pode estar toda a explicação que buscamos desde que fomos despertos para a inteligência. Se os templos da antiguidade, inclusive do Egito e da Grécia, detinham avançadas informações sobre a vida espiritual para conhecimento dos adeptos em condições de compreender tais realidades, hoje em dia essa facilidade se fez acessível a qualquer pessoa que se interesse pelo assunto, através de uma bibliografia disponível em todos os idiomas do mundo civilizado, contando-se aos milhões. Ninguém mais, em princípio, pode se dizer sem condições de conhecer a existência ou não de Deus e dos caminhos que conduzem a Ele ou outra forma de líder com o poder da vida. Em qualquer lugar do planeta chega a Verdade, em claridade variável, mas não há ausência absoluta da Luz do Conhecimento para quem quer que se disponha a aproximar-se mentalmente desse Autor cuja existência não é fé que explica, é a ciência. Como poderá existir tanta coisa certíssima, complexíssima, se não tiver por trás, antes, acima, um Autor? Que outra força terá inventado uma árvore? Árvore que nós destruímos e não somos capazes sequer de refazer uma de suas folhas. E, no entanto, dentro de uma simples semente está a árvore inteira.

Se a descoberta não é feita pelo seu próprio processo intelectual, a explicação parece óbvia: a força íntima humana necessita de um disparador e se não sabemos onde está, a ligação da força íntima com o poder autor se encarrega de dispará-la. É quando o instrumento que serve a fé vai buscar a canoa para que o incapaz de nadar faça a travessia que por suas próprias forças não faz. A canoa é o santo, o terapeuta, o guia espiritual...

Se é possível o alcance do milagre da cura sem intervenção de um ente divino – como tem acontecido – por que os centros de cura pela fé são casas religiosas, geralmente espíritas, umbandistas ou mistas? A resposta sempre terá de ser: 97 é o placar das curas milagrosas em presença de entes divinos contra 3 das curas sem presença de entes divinos. O raciocínio é o mesmo já esboçado. No interior das casas religiosas o paciente direciona sua fé antes para o ente divino em busca de força (que possui e não sabe usar) e depois a direciona para seus males. Tire-se fora o fator “ente divino” e coloque-se no centro da questão a mente potenciada do paciente, apenas, e o resultado será o mesmo. Na cultura que temos, todavia, sempre haverá maior trânsito e aceitação quando se tratar de abrir-se, sempre ou quase, para o poder divino que está fora. Na verdade, está dentro e não é visto. Precisa ser visto fora para acender dentro.

E há mais para narrar. O mundo espiritual trabalha em função dessa propagação, inclusive dotando o mundo dos encarnados da presença de médiuns dedicados à constatação aos olhos de todos de que a morte mata apenas o corpo, mas o espírito sobrevive e pode comunicar-se com os encarnados, além da divulgação da reencarnação, de tal forma que a tendência é todas as correntes religiosas e filosóficas evoluírem no sentido dessa certeza. Não se trata de crer. A estrutura científica do universo é assim. Apenas as religiões mais retrógradas firmam posição contrária a isso não por outro motivo: afirmaram outra coisa e agora não querem corrigir.

Em todas as épocas existiram taumaturgos, desde Simão, o mago, até o príncipe de Hohenlohe no começo do século, passando pelo diácono Pâris, que tinham o dom de realizar curas ditas milagrosas, ou seja, inspirar a cura pela fé e até mesmo Frei Bruno, o pároco do Oeste Catarinense da década de 1950. Normalmente o próprio doente não sabe como se conduzir para propiciar a própria cura, necessitando de quem lhe conduza a fé em direção a Deus para (de retorno) receber o tratamento adequado.

Se aparece alguém que auxilie o doente nesse caminho, a cura tem toda chance de ocorrer. Jesus mesmo deu esse testemunho, quando, por exemplo, curou muitos doentes, sendo que, depois de perguntar-lhes se eles criam que Ele podia curá-los, eles respondiam afirmativamente, Ele conjugava Sua Vontade afinada com o poder que conhecemos pelo nome de Deus com a dos doentes cheios de certeza no Poder Divino, e, então, a Vontade (de Deus) se manifestava, recuperando tecidos lesionados, atrofias longamente mantidas e ocasionando diversos outros benefícios orgânicos e mentais. Quanto à cura moral, muito se pode fazer, como nos casos de Paulo de Tarso, Zaqueu e Maria de Magdala, que creram e foram iluminados por esta Luz (que chamamos) Divina, que espantou as trevas interiores que eles traziam.

Mas, por outro lado, foram muitas as vezes em que Jesus arrematava: “a tua fé de curou”, como se estivesse a afirmar: a cura não foi minha, você tem aí dentro de seu íntimo o poder que acha vir de fora.

sexta-feira, 27 de março de 2015

1736-A Fé a serviço da Ciência


O paciente e a sua participação

Olhem bem e ouçam bem senhores médicos e cientistas agnósticos e até ateus: se fizerem muita questão, podemos deixar Deus do lado de fora do laboratório ou centro médico. O que vocês vão ler não são coisas tiradas dos meandros de mentes condicionadas por crendices, também chamadas de carolas.

Das fontes de onde emanam as bases para que esta série tivesse sido organizada, são destacados dois requisitos a serem levados em conta para o alcance da cura: um “a disposição especial do psiquismo do doente”, traduzível na sua fé inabalável (fé apenas e não fé nisto ou naquilo) e, dois, “não se tratar o problema de casos como a amputação de membro ou órgão completo”.

Já temos experimentado ajudar pacientes que se negam acreditar nos próprios poderes e o resultado não foi bom. Já, em se tratando de pacientes racionalmente portadores de fé, o resultado é deslumbrante.

Há, porém, um limite para o poder mental dos seres humanos medianos, os quais não conseguem ultrapassá-lo nas suas condições intelecto-morais atuais. É o caso em que aparece a muleta: um santo, um poder externo.  De outro lado, há exceções conhecidas, casos de pessoas dotadas de poder mental excepcional, embora raridades no nosso meio terreno, mas já relatados com frequência.

Quem se interesse por conhecer esses casos de superpoderes mentais pode consultar as obras especializadas, na área científica, ou mesmo informar-se sobre a mediunidade, que representa uma realidade de contato entre os seres humanos encarnados e aqueles que estão vivendo no mundo espiritual. Há muito material na Internet, atualmente. Tirando-se as fantasias, vale conhecer.

Um número expressivo de médicos contemporâneos de Charcot reconheceu a possibilidade de cura pela fé em determinados casos de paralisia e convulsões, tumores e úlceras. Tempos depois, pelo menos no Ocidente, a classe médica se dividiu entre a crença e a descrença e talvez chegou a ser mínimo o número de profissionais da saúde que confiavam na autocura.

O orgulho não é mau só como causa de dor, é mau também porque gera a falta de fé (em Deus, numa energia, numa inteligência), além da supervalorização da Ciência, sem contar a mentalidade financista de grande parte desses profissionais, o que faz com que prefiram ver seus pacientes passando por grandes dificuldades a acreditar que possa haver cura fora das técnicas médicas consagradas pelas universidades e academias. Diga-se de passagem, as universidades e academias também deixam a desejar quando se limitam a ignorar tantas coisas fantásticas que ainda estão fora dos currículos de ensino.  

O conservadorismo, apesar de parecer o contrário, vigora também no meio científico, pois as academias tendem a se transformar em verdadeiros museus de conhecimentos já consagrados, mas fazem oposição aos inovadores, principalmente àqueles que procuram mostrar a realidade espiritual. Tal oposição já foi mais dura contra os que lhes retiram a autoridade ao mostrar a (outra) Verdade. Por isso todo idealista tem de pagar um pesado tributo de incompreensão e sacrifícios por trazer para a humanidade ideias mais avançadas. Mas, isso tende a mudar repentinamente. A cura pela fé representa a consagração do poder da mente humana, que Jesus demonstrou na prática, quando os doentes tinham a certeza do Poder de Deus e se submetiam a ele. Pode retirar Jesus e Deus desses textos. Nada mudará.

Aqueles que se julgam superiores pelo simples fato de serem cientistas, estão completamente enganados, pois são feitos da mesma essência dos demais seres, portanto, atrelados a preconceitos, limitações, falhas morais e toda uma gama de condicionamentos que, se eles não tiverem a humildade suficiente, contaminam toda sua forma de pensar, transformando-os em instrumentos da estagnação ao invés da contribuição ao progresso da humanidade. Somente as virtudes possibilitam a abertura mental para o conhecimento da Verdade, que é o que aprendemos chamar de Deus. Essa força que sustenta o Universo mostra possuir um fragmento seu instalado no íntimo da consciência humana e é essa potencial energia que parece ser acionada quando se fala que a fé entra em ação. Nesse caso, fé é o ato de acreditar que esta força pode fazer a diferença. Pode trocar o nome se o nome causa arrepios. Chame isso de autoconfiança, autonomia, poder íntimo, qualquer coisa que tenha um pouco a ver com o que aqui chamamos de fé.

quinta-feira, 26 de março de 2015

1735-A Fé a serviço da Ciência


Desarmem-se, a luta não é armada

Quem foi Jean-Martin Charcot? Foi um médico e cientista francês que alcançou fama no terreno da psiquiatria, na segunda metade do século XIX. Foi um dos maiores clínicos e professores de medicina da França e o fez juntamente com Guillaume Duchenne, fundador da moderna neurologia. Parece tudo haver começado a partir dele. Suas maiores contribuições para o conhecimento das doenças do cérebro foram o estudo da afasia (perda de memória), a descoberta do aneurisma cerebral e das causas de hemorragia cerebral. Durante as suas investigações,Charcot concluiu que a hipnose era um método que permitia tratar diversas perturbações psíquicas, em especial a histeria. Charcot é tão famoso quanto seus alunos: Sigmund Freud, Joseph Babinski, Pierre Janet e outros. A Síndrome de Tourette, por exemplo, foi batizada por Charcot em homenagem a um de seus alunos, Georges Gilles de la Tourette, assim com o Mal de Parkinson, descoberto sob sua coordenação, foi assim nomeado como homenagem a James Parkinson, seu aluno.

Nas suas buscas aprofundadas na intimidade cerebral dos pesquisados, Charcot descobriu a consciência e entendeu ser ela a memória do espírito. Vasculhou ciências outras que pudessem contribuir e teve certeza de que o Espiritismo de Kardec era uma grande contribuição à ciência.

E hoje, Charcot (espírito), não satisfeito com o que fez, já atua novamente entre nós.

Vamos chamar a atenção dos leitores, principalmente dos médicos, para que o debate sobre o assunto transcorra de forma amena, sem radicalismos. Radicalismo traduz amor próprio exagerado, muito mais do que a intenção de descobrir a Verdade, que deve prevalecer, embasada nos fatos, sem parcialidade ou superficialidade. Os fatos é que devem ser o argumento central da hipótese que se faz tese, que se faz teoria, que se faz fato consumado. Qualquer outro dado que não seja fato, feito, concreto, por mais que possa acirrar discussões ou dividir os debatedores; estes, se interessados verdadeiramente na verdade nunca devem ser tomados de radicalidade.

Quantas verdades consideradas fundadas caíram por terra em nossa trajetória científica? Quantas vezes os sisudos defensores de certas posições tiveram de curvar-se a outras visões sobre o mesmo assunto?

Nos debates costumam despontar a teimosia e o orgulho, sendo que, muitas vezes, o tema em discussão passa a ser secundário, como de fato se torna, porque cada um procura defender até absurdidades para não reconhecer que está sem razão.

Os autores das fontes que abastecem esta série e também o organizador do blog pedem a quem venha a questioná-las que proceda de forma cortês e que realmente debata com conhecimento de causa, primeiro estudando o assunto com isenção e profundidade, para depois entrar no debate.

Iremos procurar evitar o uso da palavra “milagre”. A expressão deve ser compreendida como toda forma de cura em que não se utilizam os meios tradicionais ou convencionais da Medicina. Mas, existem milhões de casos em que a cura ocorreu sem a intervenção de nenhum recurso médico ou farmacológico. O que dizer?

No seu livro, já citado, Charcot afirma que essas formas alternativas de cura fazem parte da “ordem natural das coisas”. Baseado na prática, na vivência do dia a dia, sem preconceito contra as curas pela fé nem de forma tendenciosa no sentido da sua admissibilidade, Charcot e sua equipe chegaram à conclusão da sua veracidade e possibilidade nas condições que são enumeradas a seguir. Portanto, não há nada que se estranhar se a expressão “milagre” é utilizada igualmente pelas correntes tradicionais do Cristianismo, porque a Ciência tem como objetivo a descoberta da Verdade, qualquer que seja ela, veja, mesmo que vinda do âmago de um milagre. Os cientistas devem observar e concluir, sem ter medo das palavras, por piores ou extraordinárias que elas sejam.

“O milagre terapêutico tem seu determinismo, e as leis que presidem sua gênese e sua evolução começam a ser, sobre mais de um ponto de vista, conhecidas suficientemente para que o conjunto de fatos que se engloba sob esse título se apresente com uma frequência assaz abundante para estar acessível à nossa apreciação”, afirma Charcot. Ocorrendo a conjugação dos requisitos para a cura pela fé, sua concretização é tão certa como uma regra matemática. Charcot viu a força do poder mental em ação e não duvidou de que fosse “determinante” quando tudo estava favorável à transformação da idealização dos pacientes em cura real.

A mente dos pacientes, muitas vezes, induzida pelo médico, que conheça técnicas avançadas de sugestão, hipnose ou outra, potencializa recursos para a autocura. Nada há que se estranhar, pois na atualidade a Ciência mais avançou e muitos fatos antes questionáveis aparentemente são admitidos como naturais pelos próprios cientistas materialistas.

As coisas vêm se tornando recorrentes desde os últimos 20 anos que as principais faculdades de medicina do planeta criaram cadeiras específicas para o estudo e ensino da fé como complemento da cura. Qualquer interessado pode buscar tais informações no Google.
Vamos à frente?

quarta-feira, 25 de março de 2015

1734-A Fé a serviço da Ciência


Postulados à luz de Charcot

Seguem-se as reflexões retiradas da cátedra de Charcot nas condições abordadas na Introdução.

Primeiro postulado - A cura pela fé deve ser objeto de pesquisa e reflexão sérias por parte de todos os profissionais da Medicina, porque, uma vez que o objetivo dessa Ciência é a cura, se a fé consegue curar os pacientes em muitas situações, principalmente quando a Medicina não consegue a solução, os médicos não devem rejeitar essa forma de curar como indigna de consideração. A postura apresentada por este médico e cientista é de lealdade à Verdade, pois a Ciência não deve ser tendenciosa, principalmente se, com uma postura acovardada ou retrógrada, prejudica terceiros, no caso, os doentes, que têm nos médicos um ponto de referência para se curarem de seus eventuais males. Quem é médico deve procurar a Verdade, seja ela qual for, sob pena de trair seu compromisso com a própria consciência e com o juramento da profissão. Se passar a ser desconsiderado pelos seus pares, pelo menos estará em paz com Deus e com sua própria consciência, o que é mais tranquilizador do que contemporizar com a inverdade. É preciso coragem para pesquisar a Verdade e, mais ainda, para afirmá-la e adotá-la.

Segundo postulado - O próprio Charcot experienciou, na sua clínica, essa forma de terapia, com sucesso, em muitos casos, que explicita na sua obra. Não se aventurou às custas dos pacientes, mas sim aprendeu técnicas seguras, que expôs no seu livro, para serem aplicadas com conhecimento de causa em benefício dos doentes em geral. Se tivesse partido de uma tese para iniciar sua exposição, poderia ser facilmente questionado, mas fez diferente: vivenciou vários casos de cura pela fé no dia a dia da sua profissão. Sua proposição não se trata de aventura, divagação, surrealismo, mas a pura e simples constatação do que aprendeu e praticou, com resultados concretos de cura.

Terceiro postulado - Tendo alcançado renome como cientista, ao expor para a classe médica e para os leitores em geral estas informações, foi criticado por muitos, ridicularizado por outros tantos, mas preferiu afirmar a Verdade, claramente: se a cura pela fé é uma realidade, como médico, deveria continuar a aplicar esse método, pois, acima da sua posição de destaque nos meios científico e profissional, levava em conta o interesse dos pacientes, que, naturalmente, queriam sarar, não importando os meios utilizados para tanto. Assim devem proceder os médicos: colocar em primeiro lugar o interesse dos pacientes de se verem curados.

Outro importante personagem que penetrou fundo no mundo dos espíritos, chegou a conversar com eles, mas precisou desconversar com a sociedade, foi Carl Gustav Jung. Bem depois da época de Charcot, nem assim ainda se pôde abrir com naturalidade e franqueza certos temas do maior interesse da coletividade. Certos setores corporativistas, fanáticos, soberbos, autoritários, eram e são muros ainda intransponíveis para a abertura das mentes.

Então, a priori, me parece perfeitamente defensável mergulhar nas teses de Charcot. É o que levaremos adiante nesta série, se for do seu interesse. Continue conosco.

terça-feira, 24 de março de 2015

1733-A Fé a serviço da Ciência


Introdução

Já publicamos, recentemente, uma série sobre a cura pela fé ou pela autossugestão, mas como o assunto é vasto, sempre vão surgindo fatos novos a ponto de abrirem-se espaços para mostrar, entre outras coisas, que a fé sempre esteve a serviço da ciência. O contrário é que não é verdadeiro. Todo pesquisador ao se lançar na investigação leva fé no resultado. Caso contrário, não investiria tempo, dinheiro e conhecimentos naquele sentido. Mas, admita-se, há uma tremenda má vontade dos escalões científicos para com o tema fé. E eu sei por que. O domínio manipulado da crença num deus antropomórfico afastou a classe científica da classe clerical e junto com as divergências, infelizmente, e de arrasto, foi a fé. Não a fé que se quer conceituar aqui, mas a deturpação da fé sob a denominação de crença. Aí, a fé aparece palidamente na temática científica. Quando se trata de temas sagrados, envolvendo a deidade, o interesse é zero. Mas, se convidarmos o cientista para um diálogo envolvendo a fé livre de congregações, uma fé laica, ele, por certo, dirá: “você quer dizer falar naquilo que eu acredito antes de poder provar? Ok, vamos ao assunto”. 

O planeta contou por quase 70 anos com a presença encarnada entre nós do médico e cientista francês cujo espírito já atua entre nós complementando seu trabalho em prol do planeta. Refiro-me a Jean-Martin Charcot (1825-1893), que em vida foi autor do livro “A Cura pela Fé”, 1897, (não publicado no Brasil e, como se vê, publicado após sua morte).

Como o seu livro não circulou entre nós, brasileiros, o que foi uma pena, hoje somos obrigados a buscá-lo nas esporádicas reservas dos sebos europeus para conhecer o que lá contém. Ou atalhar o caminho pedindo ajuda ao próprio Charcot ou, melhor dizendo, a espíritos muito próximos dele para obter trechos essenciais dos seus ensinamentos. É o que iremos fazer ao pedir ajuda de outro espírito: Irmão José, que trabalha no Brasil, no Triângulo Mineiro, através do médium Carlos A. Baccelli.

E assim você, leitor, você leitora, já começa a se perguntar: uma série em que se aborda a fé a serviço da ciência vai se valer de uma psicografia? Pode isso?

Sim, pode. Já tivemos sentenças judiciais em que o depoente era um espírito. E a Bíblia quase inteirinha, por acaso, não é uma obra psicografada pelos profetas? A palavra profetizar desde sempre foi tomada como a arte de falar com a ajuda dos espíritos.

A análise que Irmão José faz da obra de Charcot chamou a atenção do responsável por este blog. Para conhecer coisas tão profundas quanto Charcot tem a ensinar, o blog vai aonde pode ir.

Este tema se inclui nos seus interesses por conhecimento útil?

Então vem...

segunda-feira, 23 de março de 2015

1732-Desigualdade e felicidade


O que é diferença, afinal? 

Muitas vezes, ouvimos as pessoas utilizarem o termo DIFERENÇA como se ela fosse apenas respeito pelas opiniões contrárias ou pelas ideias contraditórias. O argumento que corrobora esse tipo de afirmação é o de que devemos ter “respeito pelas diferenças” ou de que devemos aceitar os “diferentes”, dar voz aos “excluídos”, dialogar “democraticamente”.

Mas, afinal, o que é a Diferença, mote e inspiração para o título desta série?

Diferença é um modo de pensar, ou seja, é um exercício do pensamento que possui determinadas premissas ou um determinado modo de se entender o homem, a natureza, as coisas do mundo, as relações, a sociedade, a linguagem, os valores, a vida, enfim.

A filosofia da Diferença faz parte de uma linha de pensamento que “quebrou” as concepções filosóficas e científicas que eram tidas como verdadeiras. Essa quebra de paradigmas da ciência resultou em um novo modo de pensar que se caracteriza pela interdisciplinaridade e por novos modos de entender o que é sujeito e o que é objeto. Ou seja, ela entende que as ciências estão sempre se transformando e se relacionando, e que, por isso, tanto o sujeito quanto o objeto do conhecimento são construções, ou criações, do discurso cientifico de que fazem parte.

Dessa forma, a filosofia da Diferença enquadra-se no pensamento complexo. A teoria do pensamento complexo entende que pensamento (ou consciência), linguagem, verdade, razão, sujeito, objeto são inseparáveis, e não partes separadas que possuem uma existência em si. Elas são partes que se inter-relacionam e se confrontam, para poder existir. Dessa forma, a linguagem mistura-se com o pensamento e com o conceito de sujeito, e passa a ser encarada como uma rede de significações e atribuições, e não apenas uma representação do real. Ou seja: não existe mundo, ou seres, fora da linguagem.

Para o pensamento complexo, aquilo que entendemos como homem está em constante transformação, em constante organização paradigmática, constantemente se autoproduzindo. Nesse sentido, a significação das coisas do mundo não está presente apenas no signo, aquilo que precisa ser interpretado por alguém. Para o pensamento complexo, o signo é uma unidade que faz parte do processo contínuo e infinito de produção de sentido. Em outras palavras, a combinação de signos está presente na significação, mas a própria significação, entendida como criação de sentido, está sempre em suspenso, sempre imanente. Ou seja, vivemos mergulhados na imanência, na busca pelo sentido, e para isso, interpretamos signos.

Os filósofos da Diferença, como Foucault, Deleuze, Guattari e Derrida, entre outros, fazem parte de uma linha filosófica que tem como expoentes Espinosa, Bergson e Nietzsche, uma filosofia que se interessa pela diversidade, pluralidade e singularidade, ao invés de uma filosofia baseada numa Ideia universal e numa totalidade que contém partes singulares. Ou seja, a filosofia da Diferença se interessa menos pelas semelhanças e identidades e muito mais pela singularidade e particularidade.

E o que é uma singularidade? De forma alguma, é algo único, original, uma Identidade imutável no sentido clássico do termo. Os filósofos da Diferença entendem como singularidade um conjunto de coisas-seres-signos-ideias. Ou seja, singularidade é sempre um bloco que depende da situação em que ela se dá. Por essa via, essa filosofia coloca em xeque a nossa capacidade de acreditar em fazer juntos, em partilhar. A filosofia da Diferença estimula uma individualidade sabedora de sua dependência com os outros e com o mundo.

Por isso, um dos principais objetivos dos filósofos da Diferença é desconstruir os mundos construídos pela linguagem, os chamados discursos, a fim de chegar ao grau zero, ao ponto inicial de determinada construção, ao pensamento sem imagem. Ao exercitar o pensamento dessa forma, podemos perceber até que ponto estamos todos mergulhados num mesmo discurso, até que ponto esse discurso se tornou algo natural, algo que faz parte do senso comum e daquilo que nos torna “iguais”, aquilo que nos identifica.

Deleuze, em seu livro Diferença e Repetição, fala sobre um tipo de pensamento que se opõe à imagem dogmática, aquilo que ele chama de pensamento sem imagem: um pensamento que começa sempre pela diferença, no meio de alguma coisa, num eterno retorno do diferente. A ideia de Eterno Retorno vem de Nietzsche, que afirma que pensar, mais do que reconhecer uma Ideia pré-concebida, é exercitar o pensamento transdisciplinar, transversal, que começa sempre pela diferença, no meio de alguma coisa, a partir de um acontecimento que faça sentido e que force o pensador a pensar, a criar conceitos. Ou seja, pensar é criar conceitos, não é re-fletir, ou re-presentar.

Os filósofos da Diferença vão contra qualquer ideia de que precisamos viver em igualdade ou em “comunidade”, pois acreditam que o que caracteriza a vida é a multiplicidade, o grande coletivo de singularidades que se descobre quando deconstruímos o senso comum. Ou seja, o principal objetivo do exercício do pensamento da Diferença é compreender os mundos possíveis e toda a multiplicidade de caminhos e construções que estão porvir a partir do eterno retorno do pensamento sem imagem.

O método de exercício do pensamento sugerido por Deleuze para se chegar ao pensamento sem imagem é buscar encontrar os elementos díspares ou contraditórios que fazem parte de um “ente” - um discurso, ser ou coisa -, ou seja, deve-se buscar encontrar aquilo de contraditório que forma a identidade de algo ou de alguém, aquilo que o faz singular. Toda singularidade é feita de elementos paradoxais, de elementos contraditórios. Ela é feita de pelo menos uma série divergente, em que o sentido transita ora de um lado, ora de outro. Assim, ao enxergarmos a diferença presente nos fenômenos da vida eliminamos qualquer forma de mediação que possa atrapalhar essa visão, como as forças poderosas de certas afecções do desejo, como o egoísmo, o ódio, a inveja.

Por isso, podemos afirmar que a filosofia da Diferença entende que não existem princípios absolutos e objetivos, mas sim, opiniões, pontos de vistas, forças intensas ou menos intensas. Entretanto, o fato de aceitar que existem formas singulares de ser e de pensar não quer dizer aceitar tudo como válido. Justamente por compreender que o mundo é um caos-errante, desordenado, desequilibrado e nada definitivo, a filosofia da Diferença entende que todos temos uma potência de Ser que precisa estar sempre livre, sempre disponível.

Então, como essa filosofia valora essas diferentes formas do pensar? Para ela, qualquer criação, qualquer forma de pensar que tenha a intenção de controlar ou tolher a liberdade de pensamento que nos é própria, é ruim. Qualquer forma de pensar que se baseie no senso comum, no uso da linguagem como representação de mundo, no entendimento de que somos desiguais e que devemos ser iguais, é vista como ruim, é desvalorizada pelos filósofos da Diferença.

E como essa filosofia se manifesta na escrita? Os filósofos da Diferença escrevem sobre o presente, sobre os fatos externos ao pensador, e não a partir de sua interioridade. Para tanto, utilizam principalmente o Aforismo. Aforismo é o uso de sentenças breves, o uso de máximas. O aforismo possui intensidade porque resume em poucas palavras aquilo de contraditório que nos é próprio, com humor e ironia. Além disso, a escrita filosófica da Diferença utiliza-se da poesia. Dessa forma, os filósofos da Diferença escrevem textos difíceis, poéticos, polifônicos.

O cruzamento da literatura com a filosofia é marcante nos escritos dos filósofos da Diferença. Muito mais do que entender a filosofia e a arte como duas áreas do saber, eles compreendem que elas se entrecruzam e se completam. Para eles, há filosofia na literatura porque a literatura é a clinica de um povo, ela é a nossa saúde.

Por isso, muito mais do que respeito às diferenças, o pensamento da Diferença acredita que somos fruto de uma criação do sentido, de uma busca pela significação e, por isso, vivemos em constante transformação. Além disso, ao compreender o papel fundamental dos signos e da linguagem, o pensamento da Diferença busca desconstruir o senso comum, descobrir seus paradoxos e contradições para, a partir deles, chegar ao pensamento sem imagem. É só aí, então, que podemos ser capazes de criar algo novo, singular, feito de humor e de poesia, num eterno retorno do Diferente.

Contribuiu para esta última postagem da série: Eliana Pougy.

domingo, 22 de março de 2015

1731-Desigualdade e felicidade


Igualdade e felicidade

A igualdade de oportunidades, de direitos, de deveres, na diversidade, nas diferenças parece ser um caminho para que cada um ande e se realize segundo sua aptidão e ambição, sem desprezar o mérito.

Felicidade, obviamente, é o estado de quem é feliz, com sensação de bem estar e contentamento, que pode ocorrer por diversos motivos segundo o valor que represente a cada um: posse, distinção, conquista, vitória, reconhecimento, amor, saúde, prazer, diferença, etc. Embutida numa ou mais dessas situações a felicidade não pode ser efêmera e sim, se não duradoura, ao menos capaz de gerar satisfação por algum ou por bastante tempo, onde o indivíduo se sinta plenamente feliz e realizado, afastado de qualquer tipo de sofrimento ou constrangimento.

A felicidade, em geral, é formada por diversas emoções e sentimentos, que pode ser por um motivo específico, como relatado, como um sonho realizado, um desejo atendido, mas também há pessoas que são notórias por estarem sempre felizes e de bom humor, em que não é necessário nenhum motivo específico para estarem em um estado constante de felicidade.

A felicidade já foi abordada por diversos filósofos, pela psicologia e pelas religiões. Os filósofos associavam a felicidade com o prazer, uma vez que é difícil definir a felicidade como um todo, de onde ela surge, os sentimentos e emoções nela envolvidos. Os filósofos estudavam qual o comportamento e estilos de vida poderiam levar os indivíduos à felicidade plena.

Pelo ângulo da psicologia, na Universidade de Oxford um questionário pretendeu medir (e não conseguiu), através de vários métodos e instrumentos, o nível de felicidade das pessoas a partir dos fatores físicos e psicológicos, renda, idade, preferências religiosas, políticas, estado civil, etc. Freud defendia que todo indivíduo é movido pela busca da felicidade, mas essa busca seria uma coisa utópica, uma vez que para ela existir não poderia depender do mundo real, onde a pessoa pode ter experiências como o fracasso, portanto, o máximo que o ser humano poderia conseguir seria uma felicidade parcial. Jung concebeu a idéia de Individuação, na qual abordou a possibilidade de uma vida plena, entendida a individuação como liberdade e autonomia em relação ao mundo (um pouco semelhante à tese de Freud).

Uma abordagem possível para se discutir a idéia de felicidade é a que esta pode ser entendida como plenitude, que, por sua vez, pode ser correlacionada a uma dimensão ética do viver. Sendo assim, minhas idéias se voltam para Jung ao tentar identificar se os processos de desenvolvimento psicológico na vida adulta acentuariam a busca da felicidade mais pautada em valores éticos, pessoais e subjetivos e menos ligada à satisfação imediata, ao consumismo-materialismo. Esses valores éticos devem ser entendidos como sinais de maturidade psicológica ou espiritual. Uma pessoa madura psicológica e espiritualmente é capaz de estabelecer relações nas quais há influência mútua sem perda da identidade; de reconhecer-se como uma pessoa individualizada em acordo com seus próprios desejos, anseios, ambições, potencialidades e objetivos.

Do ponto de vista da Filosofia, foram diversos os filósofos que estudaram e analisaram a felicidade. Para o grego Aristóteles, a felicidade diz respeito ao equilíbrio e harmonia praticando o bem; para o também grego, Epicuro, a felicidade ocorre através da satisfação dos desejos; Pirro de Élis também acreditava que a felicidade acontecia através da tranquilidade. Para o filósofo indiano Mahavira, a não violência era um importante aliado para atingir a felicidade plena. Os filósofos chineses também pesquisaram sobre a felicidade. Para Lao Tsé, a felicidade poderia ser atingida tendo como modelo a natureza. Já Confúcio acreditava na felicidade quando há harmonia entre as pessoas.

A doutrina religiosa budista também analisou a felicidade, que se tornou um dos seus temas centrais. O budismo acredita que a felicidade ocorre através da liberação do sofrimento e pela superação do desejo, através do treinamento mental.
 
A escritora Mônicka Christi, brasileira, é autora da frase “A melhor definição de felicidade plena é a tranqüilidade de nossa consciência”, com a qual comungo plenamente, pois entendo que felicidade sem espiritualidade é ou será sempre algo efêmero, parcial.

Na visão espírita, os critérios para se atingir a felicidade são muito exigentes e acabamos por entender que em sã consciência não há quem não deseja ser feliz, mas os caminhos para tanto passam por uma santidade enquanto seres encarnados.

Para Divaldo Pereira Franco: “O grande desafio da criatura humana é a própria criatura humana”, ou seja, o nosso grande desafio somos nós mesmos, nosso autoconhecimento, levando-nos de volta à definição de Jung: libertar-se, desprender-se das ofensas do mundo, da necessidade de ganhar, de ser superior, de ter razão sempre, de ter cada vez mais, de identificar-se com os próprios êxitos e de buscar fama e reconhecimento.

Sabemos que não somos somente aparência material, física. O ser humano é pré-existente ao corpo e a ele sobrevive. Através desse conceito é que conseguimos entender nossos enigmas, as problemáticas do inter-relacionamento, da dor, do desamor.

Allan Kardec, diz no Evangelho Segundo o Espiritismo ao buscar explicações nos ensinamentos de Cristo, que a felicidade não é deste mundo. Não quis ele, afirmar que aqui é um vale de lágrimas, mas sim, que este mundo é uma escola. E como toda escola, nela existe a disciplina e quem não a respeitar precisa ser reeducado, repetir ano letivo, cumprir as regras; no nosso caso, precisa voltar, reencarnar, recomeçar. E então o ser feliz é aquele que já não reencarna e, portanto, não é (mais), efetivamente, deste mundo.

A felicidade tem uma conotação diferente para cada criatura, de acordo com nível intelectual de cada um. Por estarmos, em maioria, ligados ao material, muitos condicionam a conquista da felicidade à aquisição de bens materiais, outros ancoram o sonho da felicidade na busca da fama, do sucesso, do poder. Para outros a felicidade está associada à inexistência de problemas, e a lista prossegue sem fim. Temos que lembrar que a vida não é um problema, é um desafio. Ela nos apresenta oportunidades de crescimento nos setores que mais necessitamos. Por detrás dos problemas existem lições, desafios, tarefas, experiências. E a grande ventura tomará conta de nós quando vencermos os obstáculos que a vida nos apresenta.

Lembremo-nos da felicidade de Francisco de Assis, conquistada na humildade, na pobreza e no serviço ao próximo. O santo da humildade era moço rico, mas vivia amargurado na riqueza que possuía, só encontrou a paz depois que se entregou à riqueza do espírito. Não nos esqueçamos de Paulo de Tarso, que na condição de poderoso Saulo era infeliz, mas voltou a viver após o célebre encontro da felicidade pessoal que Cristo lhe dera. Gandhi encontrou a sua felicidade na luta pela paz. Madre Tereza e Irmã Dulce, apesar dos inúmeros padecimentos que sofreram, conseguiram encontrar a felicidade na felicidade que podiam proporcionar aos desvalidos do caminho. Como esquecer a permanente alegria de Chico Xavier? E problemas na vida não lhe faltaram. Divaldo Pereira Franco, outro exemplo de felicidade por fazer outros felizes diz: “Quando nós começarmos a tornar a Terra digna de nela viver por amor, o Reino de Deus estará entre nós”.  Essa é a felicidade coletiva.

A felicidade não está fora de nós, ela é, antes de tudo, um estado de espírito. Ser feliz é nossa atitude diante da tarefa que viemos fazer na Terra, que é “progredir espiritualmente” e de preferência ajudando outros a progredirem também.

Gandhi disse: “Todo aquele que possui coisas de que não precisa é um ladrão.” E Aristóteles disse: “A felicidade consiste em fazer o bem.” Divaldo P. Franco disse que aprendeu que a finalidade da vida é ser feliz através da felicidade proporcionada aos outros. E o apóstolo Paulo disse: “Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão em necessidade, fechar-lhe o coração, como poderá permanecer nele o amor de Deus?” 

Então, para fechar a série retorno à questão das desigualdades sociais no Brasil. Transportemos todos esses ensinamentos de amor, espiritualidade e ajuda ao próximo para, através deles nos libertarmos das cadeias que nos aprisionam, e descubramos, caro leitor, a caminho da maioridade espiritual, o que cabe, a quem pode, fazer o que possa fazer para que o Brasil venha a ser uma efetiva Nação, não dividida (e oposta) entre quem se serve e entre quem é servidor.
 
É evidente que se torna vago dizer aqui “fazer o que se possa para que o Brasil venha a ser uma efetiva Nação”. Chovem perguntas: o que eu posso fazer nesse sentido. As respostas sempre serão vagas porque há tanto a fazer e um indivíduo pode sentir-se uma andorinha fazendo sozinha o verão. Acontece que não é a andorinha que faz o verão. E se você leitor puder modificar seu modo de ver a realidade brasileira e conseguir influenciar outra pessoa a também proceder assim, esse é o efeito do canarinho diante do incêndio da floresta. Eu e você levamos a nossa gota d’água. Pior é quando o incêndio prospera e lá nenhuma gota d’água aparece.

Quanto à igualdade, quanto à monotonia da igualdade, defendida pela filosofia marxista e nunca atingida naqueles países por muitas décadas governados por algo semelhante ao marxismo, existe filosofia que defende a diferença como algo inerente e associado ao ser humano. Será o tema da próxima postagem.

sábado, 21 de março de 2015

1730-Desigualdade e felicidade


O vacilo das urnas e o seu resultado

O Brasil que emergiu do regime militar estava com muita sede de democracia e ela veio com democratismo. Democratismo é a fórmula que propõe discutir e votar temas que os participantes mal conhecem e que o manipulador leva de arrasto.

Quer um exemplo de democratismo? Vá a audiência pública em que a militância do PT se faça presente. Ela ganha no grito, no barulho, não há debate, não se estabelece a controvérsia. No final, o aplauso pelo fato de que o tema foi a debate e recebeu o apoio coletivo. Uma pinóia, isso não é e nunca foi democracia.

Nas eleições de 2014 também não houve democracia. A militância paga do PT foi de porta em porta onde havia uma concessão de Bolsa Família e avisou: se perdermos, a bolsa dança. E todos sabemos que não dançaria. Ninguém mais cancela a Bolsa Família sem oferecer algo muito mais atrativo que a simples esmola.

A outra parte do eleitorado estava sob a tutela dos contratos do PAC, Petrobrás, Eletrobrás, etc. etc.

O que entristece é ver boa parte do empresariado brasileiro tutelado pelo governo e neutralizado na sua capacidade de crítica pelo fato de depender de obséquios, favores, subsídios e proteção que o governo oferece. O empresariado brasileiro em boa parte se comporta como súdito e não como cidadão. Repete o comportamento daquele pobre que recebe Bolsa Família e tem medo que o PT deixe o poder. O governo abriu esse balcão de negócios. Começou a negociar caso a caso tarifa de proteção para setor e a abrir os cofres dos bancos estatais para determinados ramos de empresas. Como é que um empresário que está dependendo de um crédito de um banco estatal vai poder aparecer publicamente criticando o governo? Ele fica tolhido. A elite empresarial está no bolso do governo.

Já era assim no Império. A República Velha precisou se afirmar e usou das mesmas ferramentas. O governo militar foi buscar dinheiro externo e chamou os empresários para repartir o bolo. Fernando Henrique privatizou e novamente agradou àqueles que tiraram proveito disso. E Lula completou o tabuleiro com as inúmeras barganhas feitas com o dinheiro do BNDES. Os 10% mais ricos do Brasil são os que mamam nas tetas do poder. Entre os 90% que estão fora desses números, 60% não sabem votar ou estão beneficiados pela Bolsa Família. Sobram 30% da classe média e dos aposentados que têm todos os motivos para votar na oposição, mas não sentem firmeza nas propostas oposicionistas. Sai dessa.

Um argumento nunca repetido nas rodas que analisam o Brasil: o governo militar cometeu um grande pecado ao não preparar uma elite para governar em sua sucessão. Logo que os militares voltaram para a caserna o governo passou às mãos dos exilados. E como as sabe, o exilado foi aplicar aquilo que lhe deu a condição de exilado. E por que ele foi exilado? Porque na avaliação da direita militar o país estava caminhando para o comunismo. Ironia, essa é a bandeira do PT.  

sexta-feira, 20 de março de 2015

1729-Desigualdade e felicidade


 
O brasileiro é feliz?

Os inventores do comunismo cometeram três graves equívocos nas suas concepções. O primeiro foi o ateísmo. Eles podiam ser contra a Igreja dominadora, mas a igreja não é Deus e o ser humano não sobrevive sem Deus. O segundo foi achar que todos ficariam felizes usando as mesmas roupas, os mesmos sapatos, ganhando o mesmo valor. O terceiro foi esquecer de avisar os governantes que democracia é uma coisa boa e que sobrevive onde há liberdade. Diante da inexistência dos três pressupostos, o marxismo fracassou inapelavelmente.


Faz parte da mente humana: a satisfação e o prestígio que aquele bem possa nos trazer simplesmente acaba. Quero mais. Lembra do esnobe? Será que eu teria me empenhado tanto para conquistar algo se soubesse que todo mundo iria conseguir a mesma coisa? Provavelmente não. Há uma enorme competição na sociedade por bens posicionais, que conferem algum tipo de diferença valorizada pelos outros. O Brasil veio assim. Somos culturalmente assim. Fazemos isso no ventre da mãe a caminho da concepção. Fazemos isso hoje no automático. E pior, fazemos isso e depredamos. O cara que se atira sobre a carga do caminhão que tombou e pega o que pode, é o mesmo que arrebenta com o mangue para erguer um shopping center, um hotel.

Outro pior: de uns tempos para cá a chamada corrida armamentista do consumo está ficando cada vez mais aguerrida. Talvez isso represente um padrão de convivência mais associado à cultura americana. É a influência americana. Cuba é a exceção das exceções. A China vai mudar também.

Claro tem de haver, entre os educadores, o cuidado para que essa corrida não leve a frustrações, especialmente entre os jovens que mal se formam e já estão empenhados em ficar logo ricos. O perigo sempre estará no que a principal fonte de motivação para o sucesso no mundo econômico-financeiro parece ser a insegurança em relação ao emprego. Os jovens estão muito preocupados em encontrar algum tipo de inserção num mundo em que os empregos bons são poucos e nos quais muitos não irão encontrar uma inserção dentro das regras atuais do jogo. Dá para perceber que os alunos hoje – aqueles com os quais o país poderá contar - estão muito mais atentos à economia e à preparação para o mundo do trabalho porque têm muito medo do futuro. Isso mudou da geração que hoje se faz idosa para a atual. Quando o país crescia, os aposentados de hoje não precisavam se preocupar se ia ou não ter emprego. Hoje, os jovens começam a pensar em emprego no segundo ano da faculdade, e acabam dando mais atenção e valor para o estágio do que para os estudos, o que é um desperdício. Você não vê isso em nenhum país desenvolvido. Por que é assim? É porque há uma precarização das relações de trabalho no Brasil, e os jovens estão muito inseguros em relação ao futuro. Parte do diferencial agora é ter um bom emprego – este é, hoje, um bem posicional no Brasil, infelizmente.

O sonho do futuro será estar num mundo que fosse exatamente o contrário: você ensinar o jovem a poupar uma parte da sua renda desde muito cedo em vez de gastar gerando dívidas. Com o horizonte de idade agora estendido a 80, 90 anos, as pessoas vão ter que se preocupar muito mais cedo com o ciclo de vida, com seu futuro.

Essa extensão do ciclo de vida deveria levar a uma ampliação da capacidade de agir no presente tendo em vista o futuro.

Será que o brasileiro é feliz apesar da desigualdade de renda?  A desigualdade exacerba o poder do dinheiro. Primeiro porque quem não o tem acaba supervalorizando-o. As coisas brilham com muito mais intensidade para quem está na escuridão. Se você tem pouco dinheiro o valor dele fica exacerbado aos seus olhos, na sua imaginação. Você imagina que se tivesse dinheiro todos os problemas da sua vida estariam resolvidos – e não é assim. Para os que têm muito, também se exacerba o valor do dinheiro, pois isso dá a eles um enorme poder na sociedade.

Existem várias pesquisas sobre felicidade no Brasil, e o que aparece que é mais surpreendente sobre o bem-estar subjetivo é o seguinte: se você pergunta para o brasileiro se ele se considera feliz, quase 70% dirá que sim, independentemente de renda e faixa etária. Mas aí você pergunta para a mesma mostra: "os brasileiros em geral são felizes?". Só 25% dirá que sim. Ou seja não há uma consistência entre o que cada uma das partes pensa a seu próprio respeito e o que essas mesmas partes pensam a respeito do todo a que elas pertencem. É como se o todo no Brasil fosse menor que a soma das partes.

Será que poderíamos trocar Produto Interno Bruto por Felicidade Nacional Bruta?  Os economistas acadêmicos estão voltados cada vez mais para essa dimensão subjetiva. Os economistas que estudam o comportamento humano estão se dando conta de que o mundo objetivo não é toda a realidade. Não há uma relação bem comportada entre as mudanças no mundo objetivo e as mudanças subjetivas. Isso é especialmente verdade nos países da alta renda, que no campo da pesquisa econômica viviam a ilusão de que quanto mais renda melhor, necessariamente. Descobriu-se que nos países de ponta da felicidade que o dinheiro compra havia alta taxa de suicídios. Será que o sujeito feliz suicida-se?

Ao trabalhar com mais afinco e mais competitivamente para aumentar o seu nível de renda você pode estar sacrificando outros valores, o que torna o seu nível geral de felicidade menor. Pode estar sacrificando, por exemplo, a convivência com os amigos, a família, a educação dos filhos, uma vida mais contemplativa, menos estressada e menos voltada para o imediato da competição do dia-a-dia. E se a riqueza trás ócio, o ócio também se abate como tristeza e depressão.