domingo, 15 de março de 2015

1724-Desigualdade e felicidade


Introdução

Os desiguais são diferentes? Sim ou não? É bom ser diferente?

Pense um pouquinho, reflita, não se deixe levar pelo meu raciocínio. Tenha o seu. Discorde de mim. Enriqueça nossos colóquios. Sem monólogos.

Pergunte a um desses meninos populares incrementados na roupa, no boné, no tênis, no óculo escuro, se ele gosta ou não de ser diferente. Ele dirá que sim, gosta, faz tudo o que estiver e não estiver ao seu alcance para ser diferente. Diferente de quem? Do outro menino, pobre como ele, morador da favela como ele, a quem as garotas não olham e de quem elas não se aproximam? Diferente de quem, se de uns tempos para cá o boné, o bermudão, o óculo, a tatuagem, parecem uniforme usado por toda uma geração (aliás tribo)? Eles não diferentes? Pensar diferente é quadrado, cafona, o que mais? Juro que não conheço o linguajar tribal.

Eles são esnobes, um termo que esteve entre nós nas décadas de 60 a 70, como sinônimo, exatamente, do diferente: vestes diferentes, carro diferente, penteado diferente e muitas vezes diferente até no modo de falar. Roberto Carlos já foi esnobe. Hoje o termo foi esquecido porque a doença das ondas trouxe outras expressões “fashion”.

Esnobe é um termo aportuguesado vindo das matrículas dos colégios nobres, mantidos pela Igreja num tempo que já se foi e muito mais marcado pelas diferenças sociais (nobres de um lado, plebeus de outro). Num espaço especial do livro-matrícula estava a anotação da condição social do aluno: filho do Conde, neto do Duque, era Nob. e também a abreviatura “S.Nob.” Sabe o que quer dizer s.nob? Sine nobilitate, isto é, do latim, sem nobreza. E qual é a ligação do registro da matrícula com o comportamento do garoto atual de subúrbio? Toda ligação. Aquele ser destituído de nobreza (intelectual, de poder financeiro, de caráter, de índole) sempre procurará aparecer pela via lateral, marginal, da ostentação, da quebra do paradigma, o autêntico papagaio de pirata e de coisas ainda muito mais graves, como é a questão da criminalidade impune.

Ah, desculpe, talvez você também não conheça essa expressão do “papagaio de pirata”. Os filmes de pirataria sempre apresentavam o pirata-mor com um papagaio no ombro e este geralmente ocupava a cena falando coisas desconexas: aparecendo na cena do outro. Hoje, quando a tevê entrevista alguém importante, sempre tem aquele gaiato que quer aparecer às costas do personagem principal. Esse é chamado de papagaio de pirata.

Guardadas as proporções e o mau uso da ilação, aqueles “marias vão com as outras” que se fantasiam para parecerem-se com os negros dos Estados Unidos (nestas ondas todas que tiveram Mickel Jackson como maior ícone), desculpe a ironia, são também papagaios de pirata ao querem ser iguais ao personagem da cena, embora estejam a 3 mil quilômetros de distância.

Bem, você também não conhece o jargão “maria vai com a outras”? Trata-se de uma metáfora para rotular a babaca, infeliz, sem iniciativa que, sempre ia atrás das outras meninas líderes das iniciativas do grupo (na escola, na sociedade, no jogo, no brinquedo).

Não estou afirmando que ser sem nobreza caiba dentro desses rótulos mencionados. Infelizmente as estruturas de nossa velha sociedade deram causa aos nobres (ainda hoje) e aos sem nobreza (ainda hoje) e ainda criou uma terceira linha, a dos escravos (de certa forma, ainda hoje).

Estou narrando que se dava o rótulo de esnobe àquele que queria aparecer mediante a quebra do paradigma desgastado, cansado, mofado, monótono de uma sociedade que se assumiu “a la européia” num trópico e ainda exige dos homens que pretendem ser “importantes” o uso do terno e da gravata em temperaturas acima de 30 graus.  E ainda está na moda as pessoas simples chamarem de doutor aquele que se veste ao rigor europeu. O ex-presidente Jânio Quadros, entre outras de suas “loucurinhas” propôs a oficialização do uso de um jaleco substituindo o terno e gravata entre os altos servidores públicos. Foi ridicularizado.

O Brasil é fruto de uma brutal diferença entre o “doutô”, o “coroné”, o “sim sinhô” (e por muitas décadas tendo a mulher ainda mais por baixo) e o despossuído, serviçal, escravo, dependente, mané, homem ou mulher. O primeiro veste terno e gravata, o segundo culotes e botas, muito do que a Europa incutiu em nós; os de baixo vestem-se simplesmente e até andam de chinelo.

Reproduzimos esse modelo de cidadãos de primeira, de segunda e terceira classe desde a Idade Média, antes dela, depois dela, nos feudos, nas fazendas de cana, gado e café, nas minas, nos engenhos. O sujeito não valia como ser, mas pelo que ele representava na casca, no envelope, no rótulo. Ainda é muito assim. E a questão de representar (a cena) incluía, antes a posse (valor econômico) e depois o saber (valor para-econômico). Hoje quando as ruas se tornam entupidas de carros, muito por conta dessa ostentação, pois o pobre é o que anda de ônibus (em nossos preconceitos), o que mais se vê são carrões que ocupam um espaço e meio para carros fazendo agravar o drama da mobilidade urbana. E nos condomínios fechados em que os boxes de estacionamento são de 12.5m2, é preciso ver a ginástica dos carrões para entrar e sair da vaga.

Nessa cultura euro, pobre, analfabeto, mulher, negro, índio, mestiço, não era uma classe. Estavam fora da qualificação. Em primeiro vinham os nobres, seus achegados por núpcias; em seguida o clero e as autoridades burocráticas; e em terceiro os ricos, cujo dinheiro servia para manter os primeiros, segundos e desclassificados serviçais (estes então em quarto lugar) a serviço de todos os demais.

Por simpatia ou por retribuição, o rei doava terras e pedia ao beneficiado uma contrapartida: fidelidade, lealdade. Ia além quando pedia para cuidar da segurança e em troca outorgava patentes militares. Com os títulos de coronéis ou capitães – dependendo do alcance da posse de outorgado – os outorgados, geralmente estancieiros rurais, tinham entre seus serviçais alguns escolhidos jagunços, matadores profissionais, que afastavam desafetos, índios e outras ameaças a bom soldo. Nas fronteiras com os países hispânicos muitas daquelas intermináveis guerras por conquista de terra, tinham os jagunços dos coronéis rurais como soldados-civis.

Os capitães do mato, encarregados de judiarias aos escravos eram oriundos dessa classe treinada para judiar e matar.

Sob chicote, maus tratos, palavrões, desconforto e ignomínia, centenas de homens e mulheres estavam a serviço de um coronel ou doutor, nunca militar de carreira e muitas vezes “doutô” sem formação universitária. Esses mandavam. E todos os demais obedeciam.

É para mexer nessas feridas do passado e do presente – para que o futuro seja outro – que esta série quer aprofundar o debate sobre desigualdade e felicidade.

Quero que você compreenda que não estou buscando nenhuma compensação, reparação, vingança, indenização em favor daqueles que ficaram do lado sem poder. Acredito que espiritualmente isso se resolva. Estou levantando um véu para entender a química social, política, econômica, cultural, psíquica, espiritual do meu País. De certa forma explicando o fenômeno PT-MST, etc.
 

Vamos juntos?

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