segunda-feira, 16 de março de 2015

1725-Desigualdade e felicidade


“Para lavar a roupa da minha sinhá”

Como enfocamos na introdução desta nova série, viemos de uma sociedade construída num binômio de Casa Grande e Senzala. Na primeira, em tese, alimentação de primeira, educação de primeira, saúde de primeira, informação de primeira (guardadas as proporções de cada época). Na senzala, os restos dos animais sacrificados, a fumaça do fogo de chão, a cama no chão, a pouca higiene, o não banho, a não educação, a não atenção de saúde (que para tê-la precisava ir às grandes cidades e até para fora do país). Estou falando de um tempo em que havia tuberculose, sífilis, tifo, tétano, escorbuto, gangrena e todas essas doenças que hoje evitamos através de vacinas que, naqueles tempos não existiam. Passamos séculos vivendo esta realidade não só rural, urbana também.

Nessa sociedade de classes, os de cima, os filhos e netos de doutores e coronéis foram assumindo os postos de comando da comunidade, das províncias, das corporações, dos negócios, das religiões, da Nação. Foram abrindo comércios, indústrias e serviços e, do mesmo modo, freqüentando os melhores colégios, recebendo a melhor assistência médica e hospitalar, alimentando-se melhor. E foram ocupando os postos-chaves da vida brasileira.

O que hoje nós chamamos de povão, com muito raras exceções, servia, onde o servir significa dar duro para “lavar a roupa da minha sinhá”, entre tantas outras funções. Homens e mulheres do povão trabalhavam para muito mais que “lavar a roupa da minha sinhá”, davam duro para carregar peso, para subir escadas, para abrir buraco, para assentar pedra, para enfrentar o frio, o calor e a insalubridade (só admitida em 1990), trabalhavam para cortar cana, colher café, cavar a mina, sovar o pão, carregar o pálio, num sem fim de atividades pesadas e duríssimas.     

Como é que se encontra a mente de um pobre, despossuído, em contrapartida à mente de um rico de todas as posses? Calma, leitor, calma leitora, a pergunta se reporta incluindo períodos de reencarnações. Pergunte a um cientista da neurologia como se forma uma mente ideal e de que ferramentas biológicas ela depende? E multiplique isso por umas quatro reencarnações, claro, não necessariamente nas mesmas condições. É complicado pensar assim, mas isso aqui é um ensaio. E descubra que não será com quotas universitárias que vamos corrigir os desvios perpetrados contra nossos irmãos de pele escura pelos séculos dos séculos. Sinto muito, leitor, essa criatura pertence a um nível de carências a serem supridas antes de formar-se numa disciplina qualquer: ela tem um outro grave problema para resolver do ponto de vista psicológico. Porque ela terá tendências de exercer sua “superioridade universitária” diante dos simples que convivem com ela. Do mesmo modo que o superior discrimina o inferior, o inferior não fará diferente quando estiver por cima. Mudará de faixa com os mesmos preconceitos na invertida de quando discriminava na faixa inferior.

Mas, acalme-se, isto aqui não é um tratado sociológico destinado a aprofundar questões de discriminação, muito pelo contrário, tais questões entram aqui para enfocar o que as autoridades não fazem e nós não cobramos que façam. Discriminar novamente é abrir uma chance que não trará os resultados esperados, é frustrar outra vez. E esta série caminha no sentido contrário porque vai buscar, quer buscar a resolução e, de preferência, pelo caminho do amor.

Conta uma lenda que numa excursão pela floresta o jovem filho de um coronel rural e seu jovem escudeiro negro perderam-se e tiveram de pernoitar no mato à espera do Sol para orientarem-se no caminho de volta para casa. Havia um só cobertor e dois sanduíches no bornal. Por descuido da cozinheira que preparara o lanche um sanduíche saiu maior que o outro. Na hora de comerem, o “nobre” se apoderou do sanduíche maior. Mas, havia, por conta das suas idades, uma certa intimidade entre eles e o negrinho chiou. O “nobre” perguntou: se tu fosse pegar primeiro qual deles pegaria? Ante a resposta do fiel escudeiro, ficou evidente que o sanduiche maior caberia ao “ser mais importante” daquela missão. Não preciso falar do destino do cobertor, pois, pois.

E quando na barreira policial o “dotô” puxa da carteira e diz “sabes quem eu sou?” Claro, vem impresso por séculos de cultura o paradigma de que o de cima tem privilégio.

Esse é o problema psicológico-social que levanto: os serviçais, mesmo sob alguma reclamação, se conformam e aceitam ficar por baixo. O fazem por séculos, se tornou cultural. As mulheres negras se deitavam com os brancos e geravam filhos com eles para servir, por obedecer, mesmo que isso representasse o vilipêndio de suas vidas.

Essa realidade vem mudando. As desigualdades no mercado de trabalho estão amenizadas, mas não niveladas. O número de negros com formação universitária já é maior, mas na prática eles não têm igualdade de tratamento no mercado. O homem negro e a mulher negra se dão bem nos esportes, nos palcos...

A tragédia se torna mais ampla quando o mal pago trabalhador e morador da favela descobre que seu salário mensal pode vir numa só noite de trabalho sujo e que seu status pode subir estando dentro de um carro do ano, de uma moto incrementada, de uma esnobação num baile funk porque aí lhe dão atenção mais alguém que as mulheres de sua classe, lhe dão atenção também as branquinhas interessadas em aventura, conforto, farra e dinheiro. Isso é status. Isso é “felicidade”. A felicidade que a cultura ensinou. Assim se explica a fama de tanto negro famoso jogando bola, dando socos ou fazendo música.

Some-se aí a perigosa facilidade dos ganhos maiores com a chamada consciência negra desperta após longos séculos de opressão e exclusão e aí você começa a entender porque a quase totalidade dos bandidos brasileiros tem a pele negra ou são mestiços. Não porque a cor da pele determine a índole. Fala mais alto a negaça de chances numa sociedade preconceituosa.

Esses assuntos não são abordados, são escamoteados, dá processo, é tido como preconceito, noutros casos por medo, e sempre na maioria dos casos para fugir do tema porque ele bate à porta da consciência de muita gente. Mas essa é a realidade gritante que nasceu nas senzalas e mora no morro. Mora ali e olha para baixo à espera de uma virada, que não vem no atacado, vem no varejo, a que preço? Pior ainda quando vem de carona com o programa sectário de um partido político ou de uma religião de resultados.

Dá para o leitor ir tomando conta das coisas que estamos tirando de um baú chamado Brasil?

Uma mulher branca só foi se aproximar do “negro nojento” (como eram tratados os homens negros à época em que esses eram seus segundos nomes) agora pela década de 1980 em diante. As exceções não contam. Não fosse pelo interesse populista de Lula, aliás pelo seu vacilo (hoje sabemos) quando é que um negro presidiria o Supremo Tribunal Federal?

Dois meninos brancos se tivessem de disputar um sanduíche o fariam no par ou ímpar.

Reside aí a questão que estamos levantando sociologicamente mas que passa pela dimensão espiritual.

O político brasileiro também se posiciona acima da sociedade e da lei. E olha para os seus eleitores como se nós tivéssemos a obrigação de preservar seus privilégios. Dizem ser legal o que fazem. Mas, o que fazem tem origem numa consciência deturpada e imoral. Quantos de seus eleitores estão prontos para cortar esse mal?

Sociólogos, antropólogos, assistentes sociais, cientistas políticos, religiosos, psicólogos e mais quem queira vir, terão de apregoar fórmulas para cada um dos nossos problemas como Nação. Hoje não somos uma Nação. O cara que se emociona com o Hino Nacional executado num estádio de futebol, não é o mesmo que faz isso exilado no estrangeiro por que o País o obrigou a ir buscar sua felicidade econômica lá fora.

Uma parte do Brasil tem panca de Europa, a outra tem panca de África. Uma e outra não cabem dentro da outra. Estamos nivelando por cima e os de baixo não estão prontos (culturalmente) para subir. E, claro, quando se quer nivelar por baixo, os de cima não querem descer. E não será com o Big Brother (feito para entretenimento de uma galera que não se ergue) que iremos fazer a evolução. Nem com os bailes funk. E também não com a pobreza da evangelização de nossas igrejas (todas).

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