terça-feira, 17 de março de 2015

1726-Desigualdade e felicidade


Somos assim ou ficamos assim?  

A noção popular de que poucos com muito e muitos com pouco gera conflitos sociais e mal estar humano sempre caminhou dissimulada pelo subconsciente principalmente de quem se aproveitou da fórmula para enriquecer e conquistar as melhores posições no cenário público e privado no mundo ocidental, de onde somos frutos. A sociedade capitalista se estrutura na posse do dinheiro ou dos bens que o dinheiro compra sem compaixão para com os recursos naturais de onde vem o produto e para com os recursos humanos que manipulam o que é transformado. O peixe vivo dentro da água não é mercadoria, nem o boi vai caminhando até a mesa de refeição, só para citar dois dos milhares de exemplos.

E é nessa disparidade entre propriedade e serviço, que Marx e Engels estruturaram sua tese. Com ódio, colocando em trincheiras opostas aqueles que sempre foram parceiros e nunca sentaram para negociar. Os sindicatos são uma evolução nessa caminhada, mas seu modo negociador deturpa a negociação e parte para o confronto. A greve geral não é e nunca foi o instrumento mais eficaz.

A disparidade ainda é considerada a principal causa da desigualdade social no Brasil e em diversos países do mundo. A desigualdade social no Brasil, apesar dos avanços das últimas décadas, ainda é considerada uma das mais altas do mundo e a medida não é propriamente social, é econômica e as medidas políticas surgiram como esmolas. Esmolas se dá aos inválidos. E o povo pobre do Brasil não é inválido, é carente de oportunidade.

Há momentos em que o social prevalece e recebe reforço racial. É quando o negrão é visto dirigindo uma lamborghini e o preconceituoso julga estar ele dirigindo o carro do patrão ou o carro roubado.

A desigualdade social – aquela que retira do pobre e geralmente negro ou mestiço a oportunidade de subir na escala – prejudica cidadãos de todas as faixas etárias, principalmente os jovens de baixa renda, impossibilitados de ascender socialmente pela falta de uma educação de qualidade, de melhores oportunidades no mercado de trabalho e de uma vida sadia e digna. O pior rombo, no entanto, é na mente, como tentarei explicar adiante.

A desigualdade social gera uma previdência enfraquecida que não consegue sustentar com dignidade os aposentados e permite a existência de um mercado de trabalho e uma educação elitista, onde poucos jovens de menor renda conseguem adquirir uma melhor formação escolar e profissional; e, dentre as piores consequências, propicia a ocorrência da violência urbana e rural, como brevemente já nos referimos nas postagens anteriores.

O Brasil europeu veio sofisticando o mercado de trabalho e agora se dá conta de que o candidato a preencher as vagas abertas e não preenchidas, é um cara cujo péssimo colégio onde estudou, somado a uma má alimentação e aos baixos cuidados com a saúde, não preenche os requisitos porque não alcança o índice exigido. Claro, o salário desemprego dá uma ajudazinha, mas essa é a cruel realidade. Esse é um trabalhador que fará sucesso na Europa ou nos EUA, trabalhando nos piores serviços que eles oferecem para o imigrante. Ou viverá aqui mesmo, sem dignidade, mendigo do Estado.

O principal desafio a fazer (que não fizemos) é promover o direito ao cidadão viver dignamente, tendo real participação da renda de seu país através da educação e da oportunidade no mercado de trabalho e, em situações emergenciais, receber dos governos benefícios sociais complementares até a estabilização de seu nível social por meios próprios de sustento e ascensão social. Esse “benefício” complementar, segundo os últimos governos da União, tem nome de Bolsa e pode ser uma perigosa armadilha de acomodação. Pior que acomodação, será a oficialização da esmola, olhada pelos que contribuem e a oficialização de seu recebimento olhado por quem a recebe. Chegaremos a uma sociedade em que metade se dignifica pelo trabalho/produção e outra metade, sem dignidade, mendiga. As duas acusando-se mutuamente e brigando nas urnas para eleger dirigentes que parem com isso ou que eternizem isso. Perceberam o fosso?

A atual disposição da renda brasileira possui fatores históricos enraizados desde os tempos das capitanias hereditárias, que concentravam a posse de terras, da escravidão que gerou uma massa de pessoas desassistidas e das monoculturas que não permitiam um maior acesso ao alimento e à riqueza gerada pela terra.

Em 2005, segundo o relatório do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o Brasil ficou em oitavo lugar na pesquisa sobre a desigualdade social, ficando brevemente à frente de nações como Guatemala, Suazilândia, República Centro Africana, Serra Leoa, Botswana, Lesoto e Namíbia. O relatório estudou 177 países. Segundo ele, no Brasil, cerca de 46,9 da renda nacional estavam nas mãos de 10% mais ricos da população. Entre os 10% mais pobres, a renda era de apenas 0,7% do PIB.

Em pesquisa realizada pelo IBGE nos anos de 2008 e 2009, detectou-se que a família brasileira gasta R$ 2.626,31 em média por mês. As famílias da região Sudeste gastam R$ 3.135,80 contra R$ 1.700,26 das famílias do Nordeste. Essa desigualdade no gasto mensal das famílias também é percebida entre as áreas urbana e rural. Na área urbana, a média de gasto é de R$ 2.853,13 contra R$ 1.397,29 nas áreas rurais.

Esse relatório faz parte das primeiras divulgações da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e visitou 60.000 domicílios urbanos e rurais no período de maio de 2008 a maio de 2009. O estudo considerou despesas, rendimentos, variação patrimonial e condições de vida das famílias.

Como se sabe, a classe média já despende mais que 2,6 mil reais por mês para viver; se jogarmos nesse montante o que gasta as classes abastadas, fica evidente imaginar qual será o gasto das famílias pobres. Dá para arriscar um salário mínimo? Experimenta viver com 788 reais/mês.

Os políticos que vemos pedindo voto pela televisão não têm uma visão de Nação, têm uma visão de poder. E o encontro dos dois brasis vai ficando pra depois. Até quando?

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