quinta-feira, 19 de março de 2015

1728-Desigualdade e felicidade


A felicidade do poder

Terminei a postagem anterior manifestando preocupação com os precipícios que se colocam diante da caminhada desse país que amo e pelo qual gostaria de ter feito mais e fazer ainda mais e buscar aliados para que nosso Brasil não se transforme numa Bolívia, numa Venezuela, bem entendido, não se transforme num socialismo bolivariano que se vinga da elite e quer entregar o poder àqueles que por séculos só serviram aos ricos. Não é com a divisão, é com a parceria que se constroi uma grande nação.

Sem preconceito em relação aos pobres, a cuja classe também pertenço, a questão não está em se sentar na cadeira que foi do Lula, é do Morales ou do Maduro. Precisamos de lideranças políticas que se preocupem em criar novos consensos e não em perseguir consensos já existentes e que não se sustentam no longo prazo, como é o caso atual válido para esses três países governados pela mesma política.

Bem, dá impressão que você está lendo textos de um blog de análise político-econômica, não é mesmo? Pois, não é. Todos esses argumentos andam paripassu com a questão espiritual e depois de levantadas as premissas que passam pelo poder militar, do dinheiro, do voto, precisa desembocar no poder do amor, que é espiritual.

Os últimos governos do Brasil têm um parentesco com o getulismo nos seus sentidos. Getúlio tinha um partido de direita rural (PSD) e um de esquerda urbana (PTB) e fazia o que os violinistas fazem: tocava com a direita e se apoiava na esquerda. No Brasil de Lula/Dilma é o inverso. Toca-se com a esquerda e apoia-se na direta. Um governo que dá Bolsa Família para os pobres e bolsa-BNDES para grandes grupos empresariais fica com uma boa parte da sociedade em suas mãos. É um governo que está tutelando as pessoas. Getúlio Vargas soube como ninguém usar a tutela econômica dos cidadãos com fins de dominação política e ficou quase 20 anos no poder. Mas, mergulhou num mar de lama e sem outra saída, suicidou-se. Nada parecido com a atual situação em que uma parte dos enlameados está presa ou processada, o cacique está solto e o trem descarrilou.

Mas, a proposta da série não é falar de política e políticos, mas sim, como você vê, de desigualdade e felicidade a par da questão espiritual. Na desigualdade exacerba-se o poder do dinheiro: quem não o tem acaba supervalorizando-o, e quem o tem acaba ficando com muito poder na sociedade. Viemos desse histórico socioeconômico. As maiores fortunas brasileiras ou foram construídas com o braço escravo ou com a caneta do governo, retiradas daí as exceções que são pouquíssimas.

Então pode parecer que dinheiro trás felicidade. Depende de qual felicidade seja a buscada. Existe muita gente feliz com outras coisas, sem dinheiro. Petrônio, autor de Satyricon, obra que mostra um milionário da Roma antiga, define o que lhe dava felicidade: "Só me interessam os bens que despertam no populacho a inveja de mim por possuí-los". Fazer inveja talvez seja a razão da felicidade de uma madame ao ostentar aquela jóia que a outra (rival) não pode comprar ou de um executivo montado num BMW ou Lamborghini pensando na mesma coisa.

O menino de uma pequena cidade ficou infeliz quando seu coleguinha (muito feliz) mostrou-lhe o Camaro adquirido por seu pai e ainda esnobou: “Esse você não tem!!!”

Lembra que nós já passeamos pela avenida onde os esnobes se afirmam como diferentes e agora lhe peço compreender o papel dos dois meninos. O feliz por ter assumido a diferença sobre o infeliz e este, que tudo fará para um dia esfregar na cara do outro algo que o outro também não tenha. Eis aqui, um dos caminhos do consumismo ostentador. Nesse caso, estamos lidando com dois meninos filhos de gente que pode comprar Camaro. Há uma outra situação em que não ocorre a explícita esnobação (esse você não tem). Estou falando de uma coisa surda e muda, contida, vista e engolida. Em certos colégios ou em certas quadras esportivas onde se encontram crianças dos dois brasis, aí alguém desce de um carro do ano, usando tênis de marca, enquanto o outro chega a pé, quem sabe de chinelo de dedo. Aqui os brasis se encontram frente a frente. No dia da eleição também eles se encontram na mesma fila de votação. Os resultados disso só serão conhecidos no futuro. Já são conhecidos em parte.

O Brasil que pensa não está olhando para isso. Um operário pau de arara chegou à presidência da República num país de magnatas. Uma mulher divorciada, ex-guerrilheira, chegou à presidência da República num país de machistas-positivistas. Isso é pouco?

Não é pouco, não. As elites pensantes saíram de férias e não dizem quando vão voltar. A felicidade que o poder pode trazer nesse caso brasileiro está na medida em que ele distribui dinheiro e não pelos avanços conquistados naquilo que é papel de governo. Uma parte do Brasil se contenta com a migalha que o poder distribui e acha que é feliz. Outra parte do Brasil empresarial reparte fatias mais grossas do bolo e acha que é feliz. Os distribuidores do dinheiro também retiram sua parte e acham que são felizes. Quem será colocado para se sentar na cadeira que foi do Lula, é do Morales e é do Maduro, não importa. Não importa para aqueles que acham que estão felizes. Para eles, o que não pode acontecer é a mudança.

A cada um segundo a sua necessidade, de cada segundo suas possibilidades. Essa fórmula faz com que se ponha uma fatia de pão na mesa do pobre e uma mala cheia de dólares na mão do empresário ungido pelo poder. Em troca, votos. Se isso não chega, não é suficiente, inventa-se uma copa, um carnaval, uma olimpíada. Aquela multidão que nada recebe, mas contribui e não pensa, não tem capacidade intelectual para refletir, vota na emoção, na ocasião. Tem a mesma cabeça daquela lourinha que estava a fim de badalação em entrou no carro do garotão, sem querer saber quem era ele. E ele era traficante.

São tragédias de um país que não cuidou de seus cidadãos: uma parte quer enriquecer; a outra parte quer se divertir.

Muito bem, senhor cientista político, agora chega. Uma coisa ainda não foi abordada: o que fazer com os caras que ganham dinheiro fraudando, matando, roubando? Resposta: cara, você está preocupado com isso? Sempre foi assim. Apenas está um pouco mais concorrido porque as leis, que são feitas por aqueles que se servem do poder, são leis brandas, amenas, precisam dar a idéia de que há justiça, mas, se sabe, justiça não há. Este é um país que dá asilo político a bandido italiano (por ideologia).

No caso brasileiro da famigerada distribuição de renda, que será o principal argumento da próxima campanha da situação, as pesquisas mostram que à medida em que a renda média por habitante de um país aumenta, isso se traduz em maior nível de bem-estar subjetivo. Mas só até um certo ponto. Depois essa relação desaparece. O subsidiado da Bolsa Família quererá mais. E se não houver mais, pode virar o casaco.

Para países que vêm de um patamar muito baixo, no início do processo de crescimento, o aumento da renda média por habitante tem forte correlação com o aumento da felicidade. É a ilusão de que o poder do dinheiro é sinônimo de felicidade, O Camaro é o céu. O fusca é o céu. Mas a partir do momento em que o país atinge um determinado nível de renda – cerca de US$ 10 mil de renda média anual por habitante – a relação entre crescimento econômico e aumento do bem-estar subjetivo fica muito tênue. Ainda estamos nesse patamar porque 60% dos brasileiros têm o mínimo para sobreviver. Pelo poder de compra, a renda média no Brasil está em torno de US$ 7.500 anuais – ainda temos algum espaço para crescer com ganhos de bem-estar subjetivo, mas não muito. É ilusão achar que um país com US$ 20 mil de renda média por habitante tem a metade da felicidade de outro país que tem renda de US$ 40 mil por habitante. Depois que você já satisfez suas necessidades vitais de consumo, se adaptou aos novos confortos, você vai dar uma importância crescente à posição relativa. Há um experimento feito em sala de aula, em vários países do mundo, em que se propõe aos alunos o que cada um prefere: estar numa sociedade em que ele ganha 100 e todo mundo ganha 50, ou numa sociedade em que ele ganha 150 e todo mundo ganha 300.
A resposta é que as pessoas preferem estar ganhando menos, mas o dobro do que os outros ganham. A posição relativa conta mais do que o nível absoluto de renda.

O IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, que mede a satisfação das pessoas, precisaria incluir a felicidade. Você pergunta ao indivíduo como é que ele se sente – satisfeito, medianamente satisfeito ou insatisfeito. Aí você tem padrões estatísticos e vai vendo como esses padrões evoluem no tempo. É subjetivo? É. Mas, a felicidade do menino do Camaro não deixa de ser felicidade se comparada com o menino pobre que ganhou sua primeira bicicleta.

Um exemplo simples: se eu tomo um copo de leite todas as manhãs, e isso me dá muita satisfação, o fato de o resto da cidade estar ou não tomando um copo de leite em nada irá alterar essa sensação. Mas suponha que eu me coloquei como objetivo comprar uma BMW, no que investi um bom tempo da minha vida. Agora, imagine que no dia seguinte eu acordo e descubro que todos os carros da cidade foram trocados por BMWs iguais à minha.

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