sexta-feira, 20 de março de 2015

1729-Desigualdade e felicidade


 
O brasileiro é feliz?

Os inventores do comunismo cometeram três graves equívocos nas suas concepções. O primeiro foi o ateísmo. Eles podiam ser contra a Igreja dominadora, mas a igreja não é Deus e o ser humano não sobrevive sem Deus. O segundo foi achar que todos ficariam felizes usando as mesmas roupas, os mesmos sapatos, ganhando o mesmo valor. O terceiro foi esquecer de avisar os governantes que democracia é uma coisa boa e que sobrevive onde há liberdade. Diante da inexistência dos três pressupostos, o marxismo fracassou inapelavelmente.


Faz parte da mente humana: a satisfação e o prestígio que aquele bem possa nos trazer simplesmente acaba. Quero mais. Lembra do esnobe? Será que eu teria me empenhado tanto para conquistar algo se soubesse que todo mundo iria conseguir a mesma coisa? Provavelmente não. Há uma enorme competição na sociedade por bens posicionais, que conferem algum tipo de diferença valorizada pelos outros. O Brasil veio assim. Somos culturalmente assim. Fazemos isso no ventre da mãe a caminho da concepção. Fazemos isso hoje no automático. E pior, fazemos isso e depredamos. O cara que se atira sobre a carga do caminhão que tombou e pega o que pode, é o mesmo que arrebenta com o mangue para erguer um shopping center, um hotel.

Outro pior: de uns tempos para cá a chamada corrida armamentista do consumo está ficando cada vez mais aguerrida. Talvez isso represente um padrão de convivência mais associado à cultura americana. É a influência americana. Cuba é a exceção das exceções. A China vai mudar também.

Claro tem de haver, entre os educadores, o cuidado para que essa corrida não leve a frustrações, especialmente entre os jovens que mal se formam e já estão empenhados em ficar logo ricos. O perigo sempre estará no que a principal fonte de motivação para o sucesso no mundo econômico-financeiro parece ser a insegurança em relação ao emprego. Os jovens estão muito preocupados em encontrar algum tipo de inserção num mundo em que os empregos bons são poucos e nos quais muitos não irão encontrar uma inserção dentro das regras atuais do jogo. Dá para perceber que os alunos hoje – aqueles com os quais o país poderá contar - estão muito mais atentos à economia e à preparação para o mundo do trabalho porque têm muito medo do futuro. Isso mudou da geração que hoje se faz idosa para a atual. Quando o país crescia, os aposentados de hoje não precisavam se preocupar se ia ou não ter emprego. Hoje, os jovens começam a pensar em emprego no segundo ano da faculdade, e acabam dando mais atenção e valor para o estágio do que para os estudos, o que é um desperdício. Você não vê isso em nenhum país desenvolvido. Por que é assim? É porque há uma precarização das relações de trabalho no Brasil, e os jovens estão muito inseguros em relação ao futuro. Parte do diferencial agora é ter um bom emprego – este é, hoje, um bem posicional no Brasil, infelizmente.

O sonho do futuro será estar num mundo que fosse exatamente o contrário: você ensinar o jovem a poupar uma parte da sua renda desde muito cedo em vez de gastar gerando dívidas. Com o horizonte de idade agora estendido a 80, 90 anos, as pessoas vão ter que se preocupar muito mais cedo com o ciclo de vida, com seu futuro.

Essa extensão do ciclo de vida deveria levar a uma ampliação da capacidade de agir no presente tendo em vista o futuro.

Será que o brasileiro é feliz apesar da desigualdade de renda?  A desigualdade exacerba o poder do dinheiro. Primeiro porque quem não o tem acaba supervalorizando-o. As coisas brilham com muito mais intensidade para quem está na escuridão. Se você tem pouco dinheiro o valor dele fica exacerbado aos seus olhos, na sua imaginação. Você imagina que se tivesse dinheiro todos os problemas da sua vida estariam resolvidos – e não é assim. Para os que têm muito, também se exacerba o valor do dinheiro, pois isso dá a eles um enorme poder na sociedade.

Existem várias pesquisas sobre felicidade no Brasil, e o que aparece que é mais surpreendente sobre o bem-estar subjetivo é o seguinte: se você pergunta para o brasileiro se ele se considera feliz, quase 70% dirá que sim, independentemente de renda e faixa etária. Mas aí você pergunta para a mesma mostra: "os brasileiros em geral são felizes?". Só 25% dirá que sim. Ou seja não há uma consistência entre o que cada uma das partes pensa a seu próprio respeito e o que essas mesmas partes pensam a respeito do todo a que elas pertencem. É como se o todo no Brasil fosse menor que a soma das partes.

Será que poderíamos trocar Produto Interno Bruto por Felicidade Nacional Bruta?  Os economistas acadêmicos estão voltados cada vez mais para essa dimensão subjetiva. Os economistas que estudam o comportamento humano estão se dando conta de que o mundo objetivo não é toda a realidade. Não há uma relação bem comportada entre as mudanças no mundo objetivo e as mudanças subjetivas. Isso é especialmente verdade nos países da alta renda, que no campo da pesquisa econômica viviam a ilusão de que quanto mais renda melhor, necessariamente. Descobriu-se que nos países de ponta da felicidade que o dinheiro compra havia alta taxa de suicídios. Será que o sujeito feliz suicida-se?

Ao trabalhar com mais afinco e mais competitivamente para aumentar o seu nível de renda você pode estar sacrificando outros valores, o que torna o seu nível geral de felicidade menor. Pode estar sacrificando, por exemplo, a convivência com os amigos, a família, a educação dos filhos, uma vida mais contemplativa, menos estressada e menos voltada para o imediato da competição do dia-a-dia. E se a riqueza trás ócio, o ócio também se abate como tristeza e depressão.

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