domingo, 22 de março de 2015

1731-Desigualdade e felicidade


Igualdade e felicidade

A igualdade de oportunidades, de direitos, de deveres, na diversidade, nas diferenças parece ser um caminho para que cada um ande e se realize segundo sua aptidão e ambição, sem desprezar o mérito.

Felicidade, obviamente, é o estado de quem é feliz, com sensação de bem estar e contentamento, que pode ocorrer por diversos motivos segundo o valor que represente a cada um: posse, distinção, conquista, vitória, reconhecimento, amor, saúde, prazer, diferença, etc. Embutida numa ou mais dessas situações a felicidade não pode ser efêmera e sim, se não duradoura, ao menos capaz de gerar satisfação por algum ou por bastante tempo, onde o indivíduo se sinta plenamente feliz e realizado, afastado de qualquer tipo de sofrimento ou constrangimento.

A felicidade, em geral, é formada por diversas emoções e sentimentos, que pode ser por um motivo específico, como relatado, como um sonho realizado, um desejo atendido, mas também há pessoas que são notórias por estarem sempre felizes e de bom humor, em que não é necessário nenhum motivo específico para estarem em um estado constante de felicidade.

A felicidade já foi abordada por diversos filósofos, pela psicologia e pelas religiões. Os filósofos associavam a felicidade com o prazer, uma vez que é difícil definir a felicidade como um todo, de onde ela surge, os sentimentos e emoções nela envolvidos. Os filósofos estudavam qual o comportamento e estilos de vida poderiam levar os indivíduos à felicidade plena.

Pelo ângulo da psicologia, na Universidade de Oxford um questionário pretendeu medir (e não conseguiu), através de vários métodos e instrumentos, o nível de felicidade das pessoas a partir dos fatores físicos e psicológicos, renda, idade, preferências religiosas, políticas, estado civil, etc. Freud defendia que todo indivíduo é movido pela busca da felicidade, mas essa busca seria uma coisa utópica, uma vez que para ela existir não poderia depender do mundo real, onde a pessoa pode ter experiências como o fracasso, portanto, o máximo que o ser humano poderia conseguir seria uma felicidade parcial. Jung concebeu a idéia de Individuação, na qual abordou a possibilidade de uma vida plena, entendida a individuação como liberdade e autonomia em relação ao mundo (um pouco semelhante à tese de Freud).

Uma abordagem possível para se discutir a idéia de felicidade é a que esta pode ser entendida como plenitude, que, por sua vez, pode ser correlacionada a uma dimensão ética do viver. Sendo assim, minhas idéias se voltam para Jung ao tentar identificar se os processos de desenvolvimento psicológico na vida adulta acentuariam a busca da felicidade mais pautada em valores éticos, pessoais e subjetivos e menos ligada à satisfação imediata, ao consumismo-materialismo. Esses valores éticos devem ser entendidos como sinais de maturidade psicológica ou espiritual. Uma pessoa madura psicológica e espiritualmente é capaz de estabelecer relações nas quais há influência mútua sem perda da identidade; de reconhecer-se como uma pessoa individualizada em acordo com seus próprios desejos, anseios, ambições, potencialidades e objetivos.

Do ponto de vista da Filosofia, foram diversos os filósofos que estudaram e analisaram a felicidade. Para o grego Aristóteles, a felicidade diz respeito ao equilíbrio e harmonia praticando o bem; para o também grego, Epicuro, a felicidade ocorre através da satisfação dos desejos; Pirro de Élis também acreditava que a felicidade acontecia através da tranquilidade. Para o filósofo indiano Mahavira, a não violência era um importante aliado para atingir a felicidade plena. Os filósofos chineses também pesquisaram sobre a felicidade. Para Lao Tsé, a felicidade poderia ser atingida tendo como modelo a natureza. Já Confúcio acreditava na felicidade quando há harmonia entre as pessoas.

A doutrina religiosa budista também analisou a felicidade, que se tornou um dos seus temas centrais. O budismo acredita que a felicidade ocorre através da liberação do sofrimento e pela superação do desejo, através do treinamento mental.
 
A escritora Mônicka Christi, brasileira, é autora da frase “A melhor definição de felicidade plena é a tranqüilidade de nossa consciência”, com a qual comungo plenamente, pois entendo que felicidade sem espiritualidade é ou será sempre algo efêmero, parcial.

Na visão espírita, os critérios para se atingir a felicidade são muito exigentes e acabamos por entender que em sã consciência não há quem não deseja ser feliz, mas os caminhos para tanto passam por uma santidade enquanto seres encarnados.

Para Divaldo Pereira Franco: “O grande desafio da criatura humana é a própria criatura humana”, ou seja, o nosso grande desafio somos nós mesmos, nosso autoconhecimento, levando-nos de volta à definição de Jung: libertar-se, desprender-se das ofensas do mundo, da necessidade de ganhar, de ser superior, de ter razão sempre, de ter cada vez mais, de identificar-se com os próprios êxitos e de buscar fama e reconhecimento.

Sabemos que não somos somente aparência material, física. O ser humano é pré-existente ao corpo e a ele sobrevive. Através desse conceito é que conseguimos entender nossos enigmas, as problemáticas do inter-relacionamento, da dor, do desamor.

Allan Kardec, diz no Evangelho Segundo o Espiritismo ao buscar explicações nos ensinamentos de Cristo, que a felicidade não é deste mundo. Não quis ele, afirmar que aqui é um vale de lágrimas, mas sim, que este mundo é uma escola. E como toda escola, nela existe a disciplina e quem não a respeitar precisa ser reeducado, repetir ano letivo, cumprir as regras; no nosso caso, precisa voltar, reencarnar, recomeçar. E então o ser feliz é aquele que já não reencarna e, portanto, não é (mais), efetivamente, deste mundo.

A felicidade tem uma conotação diferente para cada criatura, de acordo com nível intelectual de cada um. Por estarmos, em maioria, ligados ao material, muitos condicionam a conquista da felicidade à aquisição de bens materiais, outros ancoram o sonho da felicidade na busca da fama, do sucesso, do poder. Para outros a felicidade está associada à inexistência de problemas, e a lista prossegue sem fim. Temos que lembrar que a vida não é um problema, é um desafio. Ela nos apresenta oportunidades de crescimento nos setores que mais necessitamos. Por detrás dos problemas existem lições, desafios, tarefas, experiências. E a grande ventura tomará conta de nós quando vencermos os obstáculos que a vida nos apresenta.

Lembremo-nos da felicidade de Francisco de Assis, conquistada na humildade, na pobreza e no serviço ao próximo. O santo da humildade era moço rico, mas vivia amargurado na riqueza que possuía, só encontrou a paz depois que se entregou à riqueza do espírito. Não nos esqueçamos de Paulo de Tarso, que na condição de poderoso Saulo era infeliz, mas voltou a viver após o célebre encontro da felicidade pessoal que Cristo lhe dera. Gandhi encontrou a sua felicidade na luta pela paz. Madre Tereza e Irmã Dulce, apesar dos inúmeros padecimentos que sofreram, conseguiram encontrar a felicidade na felicidade que podiam proporcionar aos desvalidos do caminho. Como esquecer a permanente alegria de Chico Xavier? E problemas na vida não lhe faltaram. Divaldo Pereira Franco, outro exemplo de felicidade por fazer outros felizes diz: “Quando nós começarmos a tornar a Terra digna de nela viver por amor, o Reino de Deus estará entre nós”.  Essa é a felicidade coletiva.

A felicidade não está fora de nós, ela é, antes de tudo, um estado de espírito. Ser feliz é nossa atitude diante da tarefa que viemos fazer na Terra, que é “progredir espiritualmente” e de preferência ajudando outros a progredirem também.

Gandhi disse: “Todo aquele que possui coisas de que não precisa é um ladrão.” E Aristóteles disse: “A felicidade consiste em fazer o bem.” Divaldo P. Franco disse que aprendeu que a finalidade da vida é ser feliz através da felicidade proporcionada aos outros. E o apóstolo Paulo disse: “Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão em necessidade, fechar-lhe o coração, como poderá permanecer nele o amor de Deus?” 

Então, para fechar a série retorno à questão das desigualdades sociais no Brasil. Transportemos todos esses ensinamentos de amor, espiritualidade e ajuda ao próximo para, através deles nos libertarmos das cadeias que nos aprisionam, e descubramos, caro leitor, a caminho da maioridade espiritual, o que cabe, a quem pode, fazer o que possa fazer para que o Brasil venha a ser uma efetiva Nação, não dividida (e oposta) entre quem se serve e entre quem é servidor.
 
É evidente que se torna vago dizer aqui “fazer o que se possa para que o Brasil venha a ser uma efetiva Nação”. Chovem perguntas: o que eu posso fazer nesse sentido. As respostas sempre serão vagas porque há tanto a fazer e um indivíduo pode sentir-se uma andorinha fazendo sozinha o verão. Acontece que não é a andorinha que faz o verão. E se você leitor puder modificar seu modo de ver a realidade brasileira e conseguir influenciar outra pessoa a também proceder assim, esse é o efeito do canarinho diante do incêndio da floresta. Eu e você levamos a nossa gota d’água. Pior é quando o incêndio prospera e lá nenhuma gota d’água aparece.

Quanto à igualdade, quanto à monotonia da igualdade, defendida pela filosofia marxista e nunca atingida naqueles países por muitas décadas governados por algo semelhante ao marxismo, existe filosofia que defende a diferença como algo inerente e associado ao ser humano. Será o tema da próxima postagem.

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