domingo, 29 de março de 2015

1738-A Fé a serviço da Ciência


Da histeria nasce uma revelação espiritual
 
A palavra “milagre” chegou às línguas atuais através do sânscrito, onde era usada para definir o maravilhoso, o portentoso, o muito apreciado. E entre nós sempre houve quase unanimidade: necessitamos de um agente de caráter carismático forte para dar partida no sentimento que se transforma em emoção, comoção, para se fazer energia poderosa e produzir o maravilhoso, o portentoso, o muito apreciado, chamado milagre.
De forma científica Charcot cuidou de entender as doenças psicóticas para além do que a medicina podia explicar. Vamos entrar na histeria. Entenda com elevação a frase seguinte: Francisco de Assis e Santa Tereza eram “histéricos”, quer dizer, dotados de características psíquicas diferenciadas, que lhes propiciavam faculdades superiores ao comum das pessoas. A expressão foi utilizada nesse sentido e não como sintoma de doença. Se Charcot afirma que os ambientes dos santuários dedicados a esse homem e a essa mulher superiores eram propícios à cura pela fé não terá querido que a expressão “histeria”, atribuída a ambos, fosse entendida no sentido negativo, que posteriormente o termo adquiriu. Seria um contrassenso dizer que aqueles ambientes, se fossem negativos, poderiam contribuir para a cura de males físicos e morais, como se o diabo (figura imaginária, do contra) se dedicasse a fazer o Bem.
Histeria (do francês hystérie e este, do grego στέρα, "matriz"). O termo tem origem no termo médico grego hysterikos, que se referia a uma suposta condição médica peculiar às mulheres, causada por perturbações no útero, hystera em grego. O termo histeria foi utilizado por Hipócrates, que pensava que a causa da histeria fosse um movimento irregular de sangue do útero para o cérebro. Segundo a Psicanálise, é uma neurose complexa caracterizada pela instabilidade emocional. Os conflitos interiores manifestam-se em sintomas físicos, como por exemplo, paralisia, cegueira, surdez, etc. Pessoas histéricas frequentemente perdem o autocontrole devido a um pânico extremo. Foi intensamente estudada por Charcot e Freud. No final do século XIX, Jean-Martin Charcot, que empregava a hipnose para estudar a histeria, demonstrou que ideias mórbidas podiam produzir manifestações físicas. Seu aluno, o psicólogo francês Pierre Janet (1859-1947), considerou como prioritárias, para o desencadeamento do quadro histérico, muito mais as causas psicológicas do que as físicas. Posteriormente, Sigmund Freud (1856-1939), em colaboração com Breuer, começou a pesquisar os mecanismos psíquicos da histeria e postulou em sua teoria que essa neurose era causada por lembranças reprimidas, de grande intensidade emocional. A sintomatologia, que ao mesmo tempo frustrou e estimulou os médicos do século XIX, foi o grande desafio para Freud, que, a partir desse quadro, ainda misterioso, desenvolveu técnicas específicas para conduzir o tratamento de suas pacientes: nascia a Psicanálise, como resposta a esse desafio. Aos poucos foi-se observando que a histeria não era um distúrbio que acometia exclusivamente as mulheres, mas nelas predominava. Teorizou-se, então, outra segmentação da estrutura neurótica: estava-se diante dos obsessivos que, com sintomas diferentes, também apresentavam grande sofrimento psíquico. Esta sintomatologia, nesse caso predominantemente masculina, não pode ser tratada como exclusiva dos homens. Nas palavras de Freud: "O nome “histeria” tem origem nos primórdios da medicina e resulta do preconceito, superado somente mais tarde, que vincula as neuroses às doenças do aparelho sexual feminino. Na Idade Média, as neuroses desempenharam um papel significativo na história da civilização; surgiam sob a forma de epidemias, em consequência de contágio psíquico, e estavam na origem do que era fatual na história da possessão e da feitiçaria. Alguns documentos daquela época provam que sua sintomatologia não sofreu modificação até os dias atuais. Uma abordagem adequada e uma melhor compreensão do fenômeno tiveram início apenas com os trabalhos de Charcot e da escola do Salpêtrière, inspirada por ele. Até essa época, a histeria tinha sido a bête noire (besta negra) da medicina. Assunto superado, hoje. A histeria saiu das listas negativas para entrar no catálogo dos fenômenos quase normais para não chegar ao termo paranormais.
Para irmos além, a próxima postagem ainda será sobre o mesmo tema.

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