segunda-feira, 13 de abril de 2015

1753-O que é Deus?

 

A Espiritualidade

 
Costuma-se referir-se a Deus como Senhor e Pai, herança da Bíblia judaica e da sua sequência chamada Novo Testamento. Sempre que se nos referimos a Deus como Senhor e, de certa forma, como Pai, estamos atrelando sua concepção a algo antropológico, humano. Mesmo sem querer ocorre a colação porque viemos desde priscas eras chamando de senhor o dono das terras feudais, o rei que dava e tirava, premiava e punia, o pai biológico frente à sua prole, o juiz, o governante, etc.
 
Quando chamamos Deus de Pai o associamos ao Homem que fertilizou nossa Mãe e deu causa às nossas vidas. Assim, o responsável por estes textos está propondo descolar Deus das figuras de Senhor e de Pai. Podemos entende-lo como algo criador (sem descer para o terreno do criacionismo bíblico e suas absurdas interpretações sobre o início da vida) e podemos entende-lo como uma espécie de Pai, descolado da concepção macho-fêmea que dá origem aos nascimentos biológicos nos reinos humano, animal, vegetal, que é quando nos referimos ao pai de uma obra, títulos que encontramos com frequência nas áreas da física, da química, da literatura, etc.
 
Autor, sim, como causa principal, origem, inventor, instituidor, fundador, criador das leis ou legislador, princípio em si, são expressões muito mais próximas daquilo que modernamente os estudiosos de Deus conseguem conceber para dar-lhe um caráter dissociado do homem. Não porque o homem não mereça ser um deus, talvez o seja ou venha a ser, mas porque como homem ele está muito mais próximo da figura do destruidor da obra de Deus do que de seu colaborador. Somos capazes de destruir uma floresta inteira e de tudo que nela há, mas somos incapazes de refazer sequer uma pequena folha das tantas árvores que são destruídas.
 
Somos crianças pouco interessadas em aprender como seu deu e se dá a obra do Autor da Vida. E quando nos dedicamos a isso temos a tendência de querer suplantar ou substituir o Autor da Vida.
 
É evidente que houve avanços. Mesmo que queiramos entender a vida humana como uma passagem pelo corpo em última, única e definitiva experiência como seres de carne e osso, e apesar do privilégio em relação a todo o resto do mundo natural, como é pintada em algumas culturas predominantes, alguns homens foram além: acrescentam-se-lhes ao corpo, a alma, o espírito, o ente capaz de sobreviver à morte. Isso, porém, parece não ter mudado o comportamento do homem em relação aos outros homens e à natureza não humana, pois na qualidade de privilegiados filhos (filho aqui como obra) de Deus, ainda cremos que louvando e fazendo oferendas, iremos merecer um juízo favorável ao encerrar-se a única jornada terrena do homem. Por isso, no entender de milhões de seres humanos, dentro de sua normalidade cultural, esse ser capaz de muitas coisas, depois de reinar sobre toda a natureza (inclusive a humana), usar e abusar dela, descansará em paz, sem responder por erros ou sem culpas. Pode morrer em paz, ainda que o mundo natural e as futuras gerações fiquem ameaçados. A maioria das religiões tolera esse entendimento entre os seus fiéis. O mundo onde se insere o homem, principalmente ocidental, move-se sobre esse precário tapete cultural.
 
Também ocidentais, porém mais profundos, os espiritualistas foram aprender com os orientais e definem um karma para o homem e compreendem que a colheita não pode ser outra senão o resultado do plantio, ainda que, em alguns casos, afastada a hipótese da reencarnação. Mesmo assim, para uma boa parte dos espiritualistas, o meio ambiente não está necessariamente incluído na quota kármica do plantar-colher.
 
O que pode significar a “luz no fim do túnel escuro” é a minúscula, porém crescente comunidade de homens muito mais perceptivos, sensíveis, eticamente preparados por pensamentos, atitudes e ações, que promovem a inversão do paradigma e, no final, identificam quem vai obter a efetiva colheita.
 
Para esses, o corpo humano é um feixe de energia cósmica (divina) que possui um corpo físico, não o contrário, como entendem uns. Nosso corpo nos é dado por empréstimo pela natureza. Em determinadas condições, podemos usá-lo com sucesso durante um certo tempo. A colheita geral será dada não a um homem, a toda a espécie. Enquanto isso, cada homem estará voltando à matéria, em sucessivas encarnações no corpo biológico, respondendo por si e pelos seus semelhantes, até que sejam dignos de viver e desfrutar na dimensão cósmica (divina). Este deve ser o entendimento do que está escrito em Mateus 22; 36ss: “Amarás o Senhor teu Deus (suas leis e suas obras) de todo teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito. Amarás teu próximo como o ti mesmo” (entendendo que o homem atual será também o homem do futuro).
 
Agora o principal: por este entendimento, Deus não está no céu, está em todos os lugares e se manifesta através de toda a natureza, sua obra, seu corpo físico. A natureza é um todo. Nada é separado. O corpo do homem é dado pela natureza, que é a manifestação física de Deus. O espírito do homem é dado por Deus e adquire poder manifestado na natureza. O amor a Deus sobre todas as demais coisas, incluindo a natureza. A sua condição de Deus-aprendiz não lhe permite inventar, apenas transformar, melhorar, aperfeiçoar. O amor ao próximo como a si mesmo, inclui todos os homens. Este é um novo homem sob uma nova ótica e ética, um novo paradigma, uma nova ciência, uma nova filosofia e uma nova religião.
 
Do ponto de vista científico e filosófico, sempre foi assim. Do ponto de vista religioso, para os ocidentais, desde Cristo deveria ser assim. Os interessados em alterar isso têm ou tiveram interesses pelo domínio da natureza inteira, onde os homens sempre estiveram incluídos. Infelizmente.

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