domingo, 19 de abril de 2015

1759-Ganhar asas e voar


 
A iluminação da consciência
 
A iluminação tem como destino o êxtase. O êxtase (ex stasis) significa sair de um modo de pensamento e de percepção biológica e culturalmente determinado para entrar num modo místico. Neste modo, o homem retorna ao estado primordial de afazeres. O retorno, porém, encontra-se num nível mais elevado. Ele é tanto um círculo (revolução) como uma progressão linear (evolução): “um movimento espiralado ascendente”, como ensina John White na introdução de “O Mais Elevado Estado de Consciência” (Edição Cultrix/ Pensamento, SP, 1972). O homem recupera sua condição primitiva mas, ao invés de permanecer inconsciente ou sem nenhuma noção dela, tal como os animais, ele se torna superconsciente dessa condição. É paradoxal: “ao recuperar sua natureza animal, o homem se torna Deus” (obra citada) ibidem.
 
Os homens e mulheres ocidentais têm mais dificuldade de conectarem-se com o sagrado do que os orientais, notadamente os budistas, em cuja meditação alcançam conexões de terceira dimensão.
 
Conosco, a modelação das redes neurais do cérebro é uma das dificuldades do chamado homem/mulher ocidental, dito(a) civilizado(a), para se colocar nessa linha de comunhão com o mundo ao qual pertence e do qual se afastou por convenções nem ainda hoje sempre claras para a maioria. Fomos anestesiados do ponto de vista espiritual e o anestésico acabou por obliterar os canais de respiração da alma.
 
Considerando que havia, ou há, redes desconexas ou “compartimentos” do sistema nervoso do cérebro, na iluminação, há uma ruptura que resulta numa integração das trilhas nervosas pelas quais pensamos e sentimos. Nas conexões, nossos múltiplos “cérebros” tornam-se um único cérebro. O neocórtex (a parte do “pensamento-intelecto”), o sistema límbico e o tálamo (a parte da “sensação-emoção”) e o bulbo raquiano (a parte da “intuição-inconsciente”) atingem um modo de comunicação intercelular anteriormente inibido, mas sempre possível. O limiar é transposto e explicável, provavelmente, em função não só da mudança eletroquímica celular mas também do desenvolvimento de novas terminações nervosas. Embora se realize mediante funções neurofisiológicas, o resultado é um novo estado de consciência. Este, por sua vez, cria um novo modo de percepção e sensação que conduz à descoberta de formas lógicas não-racionais (porém não irracionais), que são de vários níveis/integradas/ simultâneas, não lineares/sucessivas/do tipo ou...ou.
 
Como pode uma pessoa alcançar o estado supremo de consciência?
 
Há muitas portas para o mesmo quarto. Mudando o sentido: sai-se de um pequeno quarto para um quarto maior, para outro maior, para outros sucessivamente maiores até se chegar a um ambiente que não tem paredes. Isso é a liberdade. As saídas têm de ser buscadas. Algumas têm sido descobertas; outras têm sido desenvolvidas. As situações clássicas impulsoras têm sido a dança, o jejum e a dieta, a autotortura, o choque elétrico, o isolamento sensório, a sobrecarga sensória, os episódios psicóticos, o trauma e o nascimento pela provação, a fadiga extrema, as relações sexuais e a simples contemplação da natureza e, também, nem sempre a ingestão de substâncias alucinógenas. Mas, há quem consiga isso apenas meditando.
 
As abordagens sistemáticas, que muitas vezes requerem uma adesão e uma disciplina rigorosa, inclui a oração, a ioga, o zen, o sufismo, o tantra, a meditação transcendental, alguns alucinógenos, a hipnose e os métodos secretos, tais como os de Gurdjieff e de Madame Blavatsky. Recentemente, os espetáculos com efeito de luzes, a biorregeneração e a integração estrutural (“Rolfing”) também se têm mostrado eficientes. Uma introspecção decidida – que Gurdjieff chamou de o caminho do homem inteligente - tem conduzido algumas pessoas a um estado de salvação (não confunda este termo com o que se diz do ponto de vista católico).
 
Nenhum desses métodos, porém, constituem um caminho seguro para alcançar a libertação (agora você obteve o significado da palavra salvação).
 
Evelyn Underhill, em seu livro Mysticism, distingue três estágios no caminho para o êxtase: o despertar do eu, a purificação do eu e a iluminação do eu. Pode-se utilizar outros termos como “estágio meditativo”, “estágio purgativo”, mas o mais importante é: por mais arduamente que se busque o “estágio iluminativo”, ele nunca poderá ser alcançado – mas apenas descoberto. Há um conceito cristão, um tanto desacreditado e posto de lado, que se aplica muito neste caso: a “graça” ou “o estado de graça”. É próximo a isto, mas muito mais que isto.
 
Também é importante insistir que iluminação não é alucinação ou ilusão. Mesmo se fosse, seria valioso experimentá-la tendo-se apenas em vista seu efeito benéfico sobre as vidas humanas. Contudo, como tentaremos demonstrar adiante, o estado supremo de consciência é muito mais do que pura subjetividade. Ele é subjetivo, mas de uma maneira paradoxal: a iluminação revela que aquilo que é mais profundamente pessoal é também mais universal (encontrado na obra já citada). No estado místico, a realidade e a idealidade tornam-se una.
 
Permaneceremos nesse assunto.

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