sábado, 25 de abril de 2015

1765-A Voz do Silêncio


Haverá silêncios para vencer e barulhos para perder?

O uso do silêncio é, pois, um instrumento indispensável para o guerreiro, para o líder, para o mestre que buscam a sabedoria. Mas, o silêncio não significa necessariamente a ausência de palavras. O sábio pode praticar um silêncio setorial enquanto convive fraternalmente com as pessoas, evitando pensar ou falar sobre questões pessoais e mantendo seus pensamentos e palavras em um nível acima das questões menores. A sinceridade com todos deve ser exercida em um plano superior, para que não se transforme em fator de destruição das relações humanas. A construção e a destruição de boas amizades contam com o fator comunicação. Não se inicia e não se acaba uma amizade se não pelas palavras, no primeiro caso, doces, no segundo, amargas. São abundantes os exemplos de amizades que terminam na abundância das palavras e de amizades que se afirmam no silêncio dos gestos. Captar ou descartar amizade e amor são também consequências dos atos de falar ou calar. A impessoalidade produz paz interior, assim como a preocupação consigo mesmo gera ruído emocional. À medida que o silêncio psicológico se amplia em nossa vida, passamos a poder ouvir com clareza crescente aquilo que os místicos chamam de a voz do silêncio, o som da nossa alma imortal, a música eterna que nunca cessa e que só escutamos enquanto nossos ouvidos são tapados por nossa agitação pessoal. Quem ouve a voz do silêncio recebe um magnetismo vital de grande poder. Não há fonte de energia maior que o contato com o mundo divino. A vitória humana passa pelo mundo divino.

E o barulho, o que é?


O filósofo Arthur Schoppenhauer afirmava que a inteligência do ser humano está na razão inversa da sua capacidade de suportar barulho. Escorados na lição do filósofo alemão, podemos dizer que a sociedade atual reprime a inteligência principalmente de nossos jovens submetendo-os a toda a sorte de barulho exterior. As atividades que se valem das máquinas de captar dinheiro não carecem de clientes criativos, muito pelo contrário; elas buscam transformar os seres humanos, desde quando ainda crianças em consumidores ávidos, barulhentos, compulsivos, escravos dos seus desejos criados artificialmente. Todos ganham, exceto o cliente, exceto o povo.

E a Inteligência Espiritual, o que é?


Por outro lado, a inteligência espiritual brilha na razão direta do nosso prazer pelo silêncio – nos planos físico, emocional e mental, é o que se recolhe das leituras que nos subsidiam. O amor e a amizade profundos andam juntos com a inteligência espiritual. Quando há verdadeira afinidade, as almas se compreendem sem necessidade de muitas palavras.

Então o silêncio não causa constrangimento nem precisa ser quebrado com palavras fúteis, porque é cheio de luz e significado.

Há também um tipo de silêncio que é feito de resignação. Mas, não é uma resignação acompanhada pela conformação de que se não há outro jeito, deixa como está. É uma resignação sábia. Ele surge em duas hipóteses: (1) a desagradável compreensão de que as palavras são incapazes de traduzir os nossos sentimentos mais nobres e profundos e (2) a generosa compreensão de que o que queremos traduzir não está ao alcance do interlocutor.

Em geral, perdemos muita energia tentando expressar o que não pode ser dito com palavras. Jogamos fora grandes quantidades de energia magnética tentando “impor” ou “vender” aos outros as nossas opiniões em discussões intermináveis, até que aceitamos o fato de que as palavras são instrumentos limitados. Elas só podem mostrar algo a quem já tem, dentro de si mesmo, todas as condições de ver aquilo que vemos e vê enquanto ouve. Esse silêncio nasce como um sinal de modéstia inteligente, uma calma aceitação sábia dos nossos limites.

Não é por menos que nossos sonhos noturnos são visões e não leituras. Ao percebermos nossos limites na comunicação verbal, percebemos que é inútil pretender só falar quando o que temos a comunicar exige mais que palavras. Aquilo que sabemos, sentimos ou intuímos nem sempre pode ser comunicado, não por outros motivos, é pela simples razão de que para os padrões das comunicações usuais os seus conteúdos são (ainda) intransmissíveis.

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