segunda-feira, 27 de abril de 2015

1767-A Voz do Silêncio

 

Linguagem para falar a “língua”

 
Sim, existem línguas e linguagens. Note-se que os programas de informática possuem ou não compatibilidades que permitem ou não o fluxo, a leitura de uns para com outros formatos, como WordPerfect, Works, Macintosh, Documentos HMTL, RTF, Texto MS-DOS, Doc, Dot e outros. Com as pessoas não é nada diferente, isto é, se não trabalhamos a afinidade dos códigos de percepção, decodificação, interpretação e compreensão, jamais chegaremos a comunicar na profundidade que podemos comunicar, entendendo a comunicação como comum relação, comum ligação, comum correspondência, comum reflexividade, reciprocidade, equivalência.

 

Quem não sabe que os conteúdos da informática buscaram correlação com a mente e o fazer humanos?

 

Os seres sábios experimentam a maravilha que é deixar de lado a vontade de falar de tudo que sabemos. Não há necessidade de nos expressarmos com palavras. Menos de 1% delas acabam tendo efeito quando ditas a esmo. O correto é reter silenciosamente as nossas percepções, aprofundá-las até que elas tenham permeado e transmutado todo o nosso ser e só então buscar uma comunicação adequada. A comunicação verbal precoce impede a transformação silenciosa que a verdade produz em nós e no outro. Todo discurso emerge de uma prática, mas nenhum discurso é mais forte do que a prática da qual emerge. O silêncio nos dá a possibilidade de praticar o que pensamos, em vez de dispersar energias expressando opiniões, muitas vezes infundadas e passíveis de vícios.

 

Os dolorosos fracassos nas tentativas de comunicar oralmente, experimentados por muitos líderes, ensinam que o melhor discurso é feito por ações, no poder do silêncio, relatadas depois não pelo próprio ator. Os grandes sábios ensinam que quando não podem ser transmitidos em silêncio, os segredos da vida espiritual são incomunicáveis.

 

Por outro lado, a renúncia à fala evita a dispersão e preserva a energia sagrada do que foi percebido por nós. A melhor maneira de viver é intuindo, testando, confirmando e aprofundando a vivência direta das nossas verdades.

 

Enfim, o Silêncio.


 

Isso mesmo, escrito com “S” e não com “s”, em respeito ao sagrado. Ao lado da palavra, dos símbolos, das imagens, dos sons, dos olores, dos sabores, dos toques, o Silêncio se apresenta como a sagrada morada do amor sublime e da sabedoria. O medo do desconhecido e o apego à rotina nos faz exagerar o papel das palavras em nossa vida. O amor sublime e a sabedoria são sempre mutilados quando os arrastamos para o território das palavras na tentativa de obter segurança. As palavras podem ir até o nível do supremo, mas o supremo não pode ser trazido para o nível das palavras. Não no todo. Só em parte.

 

Os pais mais ensinam seus filhos em silêncio, pelo exemplo, do que pelo uso das palavras, geralmente em excesso. Nem sempre os pais são sábios e nem sempre os seus exemplos são bons. Os instrutores espirituais autênticos falam e escrevem, mas sabem que toda transmissão verdadeira de sabedoria é silenciosa, independente do que possa ser dito ou escrito. Sabem que nunca o conteúdo transmitido é o mesmo recebido. E sabem que a verdadeira construção da sabedoria não é derivada do ato de uma mente depositar fórmulas em outra, mas do ato de uma mente estimular a outra a buscar suas fórmulas próprias. E tudo é sabedoria. A sabedoria não é patenteada. É como a luz, que não escolhe criar zonas de sombra aonde vai.

 

 A Comum União.


 

O Silêncio é o território da percepção direta e da comunhão, comum união, que é onde também ocorre a comunicação (ato de comum nicar = copular). É nele que ocorrem as coisas mais importantes da vida. É sempre em momento de silêncio que brilham o amor, a compreensão e o relâmpago de intuição. O Silêncio físico contém todos os sons, todas as músicas, todos os ritmos, assim como o espaço físico absoluto e infinito contém todas as estrelas, galáxias e planetas. No Silêncio psicológico, o meditador e o místico se unem finalmente a seu verdadeiro eu e compreendem todas as coisas ao mesmo tempo. A Superior Inteligência do Universo repousa no Silêncio, onde pode ser acessada por quem estiver à altura de merecer percebê-la, comunicar(-se) com ela. 

 

O sábio guarda o Silêncio dentro de si em todas as ocasiões. Ele se emociona, sim. Ele expressa seus sentimentos, luta, se esforça, é derrotado e vence. A diferença é que seus objetivos são altruístas. Por isso o Silêncio está ali o tempo todo ao lado dele, aconselhando-o. Ele não obedece a emoção como se ela fosse um comando para a ansiedade, a irritação, o medo, a luta. Ele busca conhecer as razões da emoção e atua na sua potencialização criadora.

 

O sábio sabe que é melhor amar que ser amado, curar que ser curado, carregar que ser carregado, servir que ser servido, iluminar que ser iluminado. E compreende silenciosamente as razões da existência do cosmos, das plantas, dos peixes, das aves, dos animais, dos homens, da chuva, do frio, do calor, da luz...

...assim como compreende e conhece a si mesmo.

 

Fim da série. Silêncio!

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