sábado, 30 de maio de 2015

1796-Uma Nação se faz com...


Jovens roubados pela educação

Introdução

Em nenhuma cultura (que se preze) do mundo a educação fica em segundo plano. Foi tradicional nos países que se prezam a Educação e a Cultura estarem juntas no mesmo ministério, inclusive no Brasil, por décadas a fio. Chegou-se a cunhar um jargão, hoje meio esquecido, de que um país se faz com homens e livros e, naturalmente, com mulheres e livros.

Mas, essa parece não ter sido a preocupação dos governos e, por extensão, dos políticos e dos eleitores do Brasil.

Chegamos a 2015 com os mais sofríveis números em termos educacionais, com professores do primeiro e segundo graus recebendo os históricos mais baixos salários e temos uma universidade tacanha que ensina para a formação de empregados e não de empreendedores.

Vou relatar fatos e números que conheço, convivi com eles e podem, talvez, explicar o crime de lesa pátria cometido pelos governos com a nossa conivência nesses últimos 55 anos em que estamos afirmando sem titubear: nossos jovens foram roubados pela educação.

Você vem comigo? Agradeço e espero não apenas a sua leitura, espero seu engajamento numa luta nacional pela ressurreição da educação. Creio que não seria bem o termo ressurreição aludindo a que antes de 1960 tenhamos tido uma boa educação. Mas, entenda leitor de pouca idade e ouça a voz de quem estudou nos anos 1950 e anteriores: estudávamos em até dois turnos de 4 horas; aprendíamos com profundidade; treinávamos civismo; tínhamos latim, francês e inglês na 5ª série em diante; respeitávamos o mestre, a mestra, como se fossem nosso pai ou nossa mãe que ali estava.

Algumas frases que recolhi e gosto de reler (sobre educação):

Não eduque seu filho para ser rico, eduque-o para ser feliz. Assim ele saberá o valor das coisas e não o seu preço. (Max Geringher)

Eduque com responsabilidade porque um país sem educação não pode ser considerado uma nação, mas uma fábrica de marginais. (Nildo Lage)

A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria. (Paulo Freire)

Não há vida sem correção, sem retificação. (Paulo Freire)

Bem, vamos aos argumentos do crime de lesa pátria, a seguir.

Deixou de haver uma campanha nacionalista

Dentre as várias manobras estratégicas em atenção aos seus interesses, o governo militar de 1964, desta vez silenciou o guru da nova educação libertadora brasileira, que empeçava. Cassou os direitos políticos de Paulo Freire, que esteve exilado por longos anos. Mas, com a anistia, retornou ao Brasil já envelhecido e faleceu em 1997.

Apesar de formado em direito e filosofia, Freire nunca exerceu nenhuma das duas profissões. Preferiu trabalhar como professor numa escola de segundo grau em Pernambuco, lecionando língua portuguesa.

Em 1961, com a inauguração de era nacionalista em Pernambuco, orquestrada pelo líder de esquerda, Miguel Arraes, Paulo Freire tornou-se diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife e, no mesmo ano, realizou junto com sua equipe as primeiras experiências de alfabetização popular que viria ser o embrião do Método Paulo Freire. Obtinham resultados excelentes em alfabetização em apenas 45 dias.

Embarcando nos eficazes resultados de Pernambuco, o governo brasileiro (na gestão do presidente João Goulart e sob orientação do primeiro-ministro Tancredo Neves), que se empenhava na realização das chamadas reformas de base onde se incluía a educação, aprovou a multiplicação dessas primeiras experiências pernambucanas num Plano Nacional de Alfabetização, que previa a formação de educadores em massa e a rápida implantação de 20 mil núcleos (os círculos de cultura) por todo País.

Mas, tudo acabaria três anos mais tarde. Não era só a educação nacionalista que alcançava os camponeses, agricultores, moradores de bairros suburbanos. O governo federal era nacionalista. E esse posicionamento era contrário aos interesses do capital internacional nesse tempo representado pelos Estados Unidos e pela Inglaterra. E isso era interpretado e combatido pela oposição como uma inclinação para o comunismo, porque quem estava inimigo do capitalismo eram os comunistas. E, de fato, os comunistas brasileiros estavam ganhando muito espaço no governo de Goulart que, na verdade, era um trabalhista, nacionalista, de esquerda, mas não comunista.

Veio a revolução militar, a queda do governo constitucional e a instalação do regime de exceção, que governava por decretos, chamados de Atos Institucionais. O Congresso e o Judiciário foram fechados.

Cassado, entre muitos, em 1964, e exilado no Chile, Paulo Freire publicou no Brasil seu primeiro livro, “Educação como Prática da Liberdade”, baseado fundamentalmente na tese Educação e Atualidade Brasileira, com a qual concorrera, em 1959, à cadeira de História e Filosofia da Educação na Escola de Belas Artes da Universidade do Recife.

O livro foi bem recebido, e Freire foi convidado para ser professor visitante da Universidade de Harvard em 1969, coincidindo com o lançamento pelo governo militar do Brasil, do Mobral – Movimento Brasileiro pela Alfabetização em paralelo a uma brutal alteração nos conteúdos da educação brasileira com a reformulação das matérias de Educação Moral e Cívica (EMC) e Organização Social e Política no Brasil (OSPB), que antes espargiam formação e cidadania e agora trabalhavam a obediência e o respeito, embora não tivessem abandonado as propostas contra a corrupção e a desnacionalização. Não podemos esquecer que os militares eram nacionalistas, mas jamais bateram o pé contra os Estados Unidos. A escola de agora retirara o que se poderia chamar de pedagogia do oprimido, como veremos adiante, que retornou com a Teologia da Libertação, através da Igreja.

Ainda temos muito o que enfocar.

Tempo de olhar pelos pobres

Durante o período de governo militar cresceu gigantescamente a miséria brasileira, nem só pelo jeito de governar, mas empurrada pelo êxodo rural. Enquanto a mecanização das lavouras e pomares avançava financiada pelo Banco do Brasil e BNDES, as sobras humanas do campo vinham engrossar as favelas urbanas. No Rio de Janeiro uma enorme contribuição à pobreza foi, também, a transferência da capital federal para Brasília.

Com as igrejas vazias porque os pobres urbanos eram cooptados para as religiões evangélicas, em vertiginoso crescimento, a Igreja Católica brasileira e a latino-americana, tomaram posição em favor dos pobres. Boa parte dos bispos, padres, diáconos e coordenadores das pastorais foram trabalhar junto a pobreza (Pastorais da Saúde, da Educação, Operária e da Terra), através das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs): uma escola a la Paulo Freire com o reforço do construtivismo do francês Jean Piaget.

Abro um parêntese para destacar a doutrina (por assim dizer) de Piaget: sua abordagem é construtivista principalmente porque ajuda a pensar o conhecimento científico na perspectiva da criança ou daquele que (embora adulto) aprende. O seu estudo é principalmente centrado em compreender como o aprendiz passa de um estado de menor conhecimento a outro de maior conhecimento, o que está intimamente relacionado com o desenvolvimento pessoal do indivíduo. Piaget chama de epistemologia a sua teoria do conhecimento porque está centralizada no conhecimento científico. E também de genética porque, além de atentar-se no como é possível alcançar o conhecimento - ele estuda as condições necessárias para que o aprendiz chegue na fase adulta possível do conhecimento. Disto, surge o termo em Piaget “epistemologia genética ou psicogenética”. O aprendizado vai além da mente, mexe com a consciência.

Enquanto, na escola oficial, era proibido falar de política (mesmo que não partidária, mas esclarecedora, reveladora, criadora de consciência), porque já não se ensinava EMC (Educação Moral e Cívica) e nem OSPB (Organização Social-Política do Brasil), nos porões e até debaixo de árvores as CEBs ensinavam os brasileiros refletir sua realidade histórica. Retiradas do currículo oficial através de uma nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a EMC e a OSPB eram maximizadas nos ensinamentos das CEBs. Aquele rompante petista e radical inicial de bater nos governantes cobrando moralidade e transparência, vem da origem do partido, virtude que foi mais tarde abandonada e entregue a outras legendas dissidentes do PT.

Todo poder corrompe e as reeleições corrompem muito mais

Veja leitor(a) como as coisas se passam: os assuntos levados aos “alfabetizandos” políticos, pelas CEBs, eram de formação política e abriam a “caixa preta” da história sociopolítica do Brasil, pintando até com cores mais fortes e dramáticas. Os brasileiros excluídos e roubados da educação, semianalfabetos, trabalhadores rurais e urbanos, suas esposas e filhos tinham a informação de que historicamente os mandantes, no Brasil, governaram para os ricos, eram homens abastados (excluídas as mulheres) que tinham o direito do voto; eram seus filhos que podiam frequentar os melhores colégios, geralmente particulares (enquanto os colégios públicos continuavam medíocres); e eram os filhos dos ricos que frequentavam os cursos superiores; eram esses mesmos que assumiam os cargos de poder no legislativo, executivo e judiciário; eram esses mesmos que abriam empresas e controlavam os salários (baixos); eram exatamente esses que permaneceram no poder no Brasil por exatos 500 anos.

Na Pastoral da Terra era ensinado sem reservas que as terras desse imenso Brasil, até o fim do Império (que coincidiu com o fim da escravidão), não eram vendidas e sim doadas pelo imperador àqueles que se comprometessem manter a ordem nas vilas e fronteiras, os chamados coronéis rurais.

A dedução dos grupos de reflexão (assim eram chamados os aprendizes de um mesmo núcleo) amadureceu pela necessidade de existir um partido estruturado de baixo para cima. Do contrário, os excluídos jamais chegariam ao poder. E isso aconteceu com o nascimento do PT. Mas o controle do partido acabou nas mãos de uma elite burguesa. Por que? Pela inexistência de escolaridade o comando fluiu para as mãos daqueles que tinham curso superior, logo, filhos de pais abastados, aqueles que se revoltam e caem longe do pé.   

Voltemos às origens. Veja que coisa brutal transferida para a cabeça dessas criaturas alcançadas pela Teologia da Libertação, uma criação doutrinária do excepcional padre Leonardo Boff, um catarinense de Concórdia. A libertação nas falas de Jesus teria de ser o principal programa da Igreja Cristã, mas historicamente não foi e não é. Para ser uma mente livre, um corpo livre, uma alma livre (da escravidão) o ser humano tem de ter cidadania, saber votar, saber escolher os representantes que fazem as leis, leis que irão ser executadas pelos governos, leis que passarão a ser as bases dos julgamentos pelos magistrados e tribunais. Na paralela e com os mesmos objetivos (ou quase) surge em Campinas, SP, a Pedagogia da Libertação, um trabalho do nosso Paulo Freire, de volta ao Brasil.

Paulo Freire delineou uma Pedagogia da Libertação, intimamente relacionada com a visão marxista do Terceiro Mundo e das consideradas classes oprimidas na tentativa de elucidá-las e conscientizá-las politicamente. As suas maiores contribuições foram no campo da educação popular para a alfabetização e a conscientização política de jovens e adultos operários, chegando a influenciar em movimentos como os das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

Pronto, os nomes de Jesus e de Marx estavam colocados do mesmo lado. Os modelos governamentais ditadura e democracia estavam nivelados. Gnósticos, agnósticos e ateus rasgavam as diferenças. Marx era ateu e os governos comunistas derivados de sua doutrina foram totalitários e mandaram fechar as igrejas, os veículos de comunicação livres e os tribunais colegiados de justiça. A ditadura é mais velha que a democracia; esta nasceu como evolução da política dos homens. Voltar à ditadura era involuir, andar para trás. Jesus combatia os ditadores e, embora não tenha usado a palavra democracia – desconhecida pelos judeus – pregava o respeito, a moral, a ética, o humanismo, valores inerentes à democracia, logo, era um democrata. Aonde essas duas linhas poderiam concordar e complementar-se?

Os cinco séculos de poder viciado manipulado por autoritários representantes do mais absurdo patrimonialismo herdado de reis e súditos da península ibérica, abriram na América Latina os mais profundos fossos entre ricos e pobres. E ao fechar-se, no Brasil, o ciclo de 502 anos de poder da direita, com apenas um pequeno ensaio de menos de três anos, com Jango, a esquerda iria experimentar uma sucessão de reeleições e mandatos, suficientes para derrogar a flama ética de honradez e transparência “vendida” pelo PT. Também um crime de lesa pátria. 

Quantas respostas ainda aguardam na fila das elucidações em próximas postagens.

Jesus e Marx no mesmo partido?

Creio que nem Boff e nem Freire foram ao fundo das consequências de suas teses. O primeiro, filho de agricultores e padre de uma igreja capitalista, jamais poderia, de origem, ser um comunista, mas como a fruta pode cair longe do pé, foi tomado como tal quando se aliou ao Partido dos Trabalhadores, um partido comunista. O segundo, um pernambucano da gema, de classe média rural, com ascendentes nas ricas famílias donas de engenhos e escravagistas, os Freire, talvez fosse mais uma fruta caída longe do pé. E não era um cristão convicto.

Então, vamos lá, um padre e um comunista se postam à frente de milhões de operários rurais e urbanos e trazem Jesus e Marx lado a lado como gurus de uma revolução educadora-evangelizadora política: os pobres, os excluídos, os oprimidos querem o poder para se libertarem. Liberdade quanto à opressão exercida pelos séculos de capitalismo selvagem, comandado por fazendeiros, estancieiros, empresários, políticos, juízes, membros das forças policiais e armadas e até pela Igreja.

No entanto, a obra de Paulo Freire não se limita a esses campos, tendo eventualmente alcance mais amplo, pelo menos para a tradição de educação marxista, que incorpora o conceito básico de que não existe educação neutra. Segundo a visão de Freire, todo ato de educação é um ato político. E as CEBs não deixavam por menos. Assim deram causa ao nascimento do MST e do PT, como instrumentos de poder (dos pobres) para libertação, trabalho que se realizado à luz da doutrina cristã teria de ser pacífica, amorosa, solidária. Mas, a partir dos treinamentos realizados em Cuba, a militância de ambos passou a ser agressiva e truculenta. Se não vai no protesto, no grito, no bandeiraço, vai na pancadaria, na quebradeira. Em mais de uma oportunidade deixou transparecer que se for preciso eliminar alguém para salvar a reputação da instituição, ferra; com ferro quente e com ferro frio.

É pena que os exemplos de libertação trazidos aos novos membros da aprendizagem petista e emessetista tenham sido os exemplos de Cuba e mais recentemente da Venezuela, onde não há democracia e onde se prende, se condena e se mata sem respeito aos direitos civis e sem nenhuma conotação com a cristandade. Certamente, isso não é libertação. Nunca foi. Isso é atraso.

Não ficaria completa a informação sem dizer que as CEBs não existem mais. Depois que o padre Leonardo Boff foi excluído da Igreja, a CNBB preservou apenas as pastorais, mas elas não são mais instrumentos políticos e sim pastorais limitados à fé. Em compensação a escola cubana de militância e guerrilha abriu filiais no Brasil, em vários locais. Ali são recebidos novatos que tenham potencial para serem algo parecido com o que foi Lula e ao que é Stédile ou José Rainha. Durante meses eles são adestrados e conscientizados para aquilo que é o objetivo do MST e do PT, o poder.

Como educar-libertar sem castrar

Não é fácil, nem breve preparar uma população para o exercício da democracia plena com inclusão efetiva após 500 anos de poder sem o necessário compromisso com democracia e inclusão e nem pela recente inclusão via paternalismo. Fácil é o democratismo que tem apenas a urna como instrumento. Fácil é ensinar o semialfabetizado assinar o nome na cédula de votação e digitar uma série de números no teclado de uma urna. No democratismo, o povo apenas referenda o que se trama nos gabinetes dos diretórios partidários. No democratismo o povo é obrigado a escolher entre os candidatos postos – se souber discernir – aquele que seja menos ruim para sufragar. Nesse democratismo, os candidatos compram seus mandatos e do povo só querem mesmo o voto, o número de sufrágios que lhes garantam o mandato. Isso não é democracia.

A democracia é, tem de ser, mais que isso, melhor que isso. Mas, hoje, quem ainda aplica traços democráticos em algumas de suas instâncias de deliberação partidárias é o PT, é o MST. Na base da intimidação, mas fazem. Mas, o PT como governo não se comprometeu com o povo. Comprometeu-se com seus filiados e militantes e usou o povo do mesmo jeito que os coronéis rurais faziam ao tempo do voto a cabresto. Como governo, o PT não apresentou nada diferente para transformar de vez para sempre a realidade dos pobres. Não foi além do Bolsa Família que, aliás, não criou, ampliou.

Os governos comunistas não são democráticos, são populistas, são clientelistas, são paternalistas, trocam favores por obediência, privilégios por apoios e exercem pressão e terrorismo sobre a desobediência e a oposição. Com o PT não foi muito diferente.

Lutar pelos pobres, educá-los, emancipá-los, enriquecê-los, certamente, é uma pedagogia de libertação e uma teologia de libertação que têm as bênçãos do primeiro maior filósofo da Libertação, Jesus.

Um socialismo próximo da perfeição não pode abdicar da solidariedade, se não o monstro tem a cara mascarada daquele que dá esmolas, daquele que dá por que dar alivia-lhe as dores de consciência. Dá porque em contrapartida espera que o esmoleiro não o incomode e se torne útil. Esta foi a fórmula cubana, venezuelana e brasileira de socialismo sem compromisso com as transformações sociais, em que a elite de poder legisla a entrega da esmola através da Caixa Econômica Federal, enquanto a elite de poder se abasta nos cargos prenhes de corrupção.

A esmola mensal enviada ao esmoleiro não pede contrapartida libertadora. Não copia Jesus. Não copia Freire. O necessitado, analfabeto ou quase, sem qualificação profissional, parece apto a gerar mais filhos. E vai ficar à sombra, esperando a chuva chegar para poder beber água e copulando com sua(s) esposa(s) para apresentar mais uma certidão ao mecenas, uma nova credencial para aumento de mesada. A cada pouco nasce mais um miserável na estatística do IBGE.

E o pior, o mais terrível nisso tudo: o militante do PT ou do MST, nas vésperas do próximo pleito irá bater à porta de sua choupana, erguerá o dedo e ameaçará: se não votar, perderemos; se perdermos, acabará a mesada.

Também é terrível: com os reaizinhos no bolso o esmoleiro já nem planta sua hortinha ou lavourinha e nem cria seu bichinho, pois vai ao mercado mais próximo e compra tudo o que precisa.

Fazendo uma análise acabada: não houve e não há educação para a libertação; não há pedagogia de libertação; nem teologia de libertação; ao contrário, reforçou-se a elite de poder, agora mais cruel que antes, agora mais irada, que exerce opressão e intimidação sobre os miseráveis sem futuro, um papel muito próximo ao papel dos capitães do mato da escravidão. A militância paga – capitã do mato – garante voto na urna, garante presença no protesto, garante barulho na audiência pública e está a caminho de, através dos conselhos populares, substituir o poder legislativo, bem como se faz em Cuba.

E a elite, aquela que já estudava, cursava o terceiro grau, lia Marx, tinha discurso para a roda dos bares, essa está feliz, o partidão está no poder, sobram cargos em comissão, a burguesia (que ela acha que não é), a outra burguesia teve de aceitar “os nossos postulados” vindos de fora, imperialistas tanto quanto o capital vindo de fora. O nacionalismo acabou.

Enquanto isso, a educação brasileira revela-se a pior dentre os medíocres. Não temos um plano pedagógico, pagamos mal os professores, as edificações estão caindo aos pedaços, a qualificação do trabalhador é sofrível, não temos uma escola para empreendedores, o sonho dos jovens é entrar para o serviço público, garantir uma aposentadoria integral e trabalhar o menos possível ou se mandar para fora do País.

Se for diferente do que está narrado, me chuta o traseiro, nunca mais volte a acessar este blog. Eu mereço. Claro mereço que você nunca abandone o blog.

Ah, me desculpe porque não vou falar do aparelhamento do Estado, da corrupção, da volta da inflação, da volta do desemprego. Isso é chato demais. Fica pra outra série.

Mas, não pense que a série acaba aqui. Ainda falta mais um capítulo tratando da ignorância, da inaptidão, da inapetência, da indolência e da exclusão.

As elites (burras) de poder

Iniciamos esta série escrevendo que em nenhuma cultura (que se preze) do mundo a educação fica em segundo plano. Resgatamos um jargão, hoje meio esquecido, de que um país se faz com homens e livros e, naturalmente, com mulheres e livros.

Mas, lamentamos que essa parece não ter sido a preocupação dos governos e, por extensão, dos políticos e dos eleitores do Brasil. Não só do Brasil. Temos uma legião de países fornecendo migrantes e imigrantes, exilados e fugitivos em direção daqueles que cuidaram – embora não como deveriam cuidar – da preparação de seus filhos para a afirmação, para a dignidade.

Vamos recordar que o atraso tecnológico se dá com o analfabetismo e com a pobreza. Foi assim que o Brasil foi atropelado na década de 1950 pela mecanização das lavouras. A exuberante mão de obra da enxada, do saraquá, da foicinha de corte, do machado, da picareta, da pá, foi dispensada com a chegada das roçadeiras, das plantadeiras, das ceifadeiras, das pás carregadeiras, das motosserras, etc. O que fizemos com o excedente de trabalhadores excluídos? Uma parte deixamos vir para as periferias em busca de empregos (que não haviam) e nem tinham qualificação para serviços urbanos. Grande parte deles se transformou em miseráveis e as consequências todas disso eu nem quero abordar aqui, mas você sabe que vai parar na prostituição, nas drogas, na violência. A outra parte nós exportamos para o Moto Grosso, Amazônia, Paraguai, Bolívia, Bahia, etc. Estes, naturalmente não caíram na miséria, mas causaram um grande estrago ao meio-ambiente do País ao destruírem as florestas para implantar suas lavouras e pastagens. Houve, aqui, uma seleção natural e você sabe que os migrantes que foram para o Norte e Centro-Oeste tinham alguma escolaridade, algum capital, alguma qualificação. E foram embora de suas regiões de origem não como paus-de-arara das estórias lamentáveis que conhecemos, mas foram porque tinham da aptidão, apetência e estavam livres da indolência. Alguns fracassaram, mas 80% ou mais deram certo. Pagamos um alto preço ecológico com a abertura daquelas fronteiras agrícolas, mas a perda daquelas vidas seria, por certo, um preço mais alto.

O segundo ato dessa história nós iríamos viver quando os filhos de brasileiros se mandaram para outros países, notadamente Estados Unidos, para disputar empregos de quinta categoria.

O terceiro ato dessa história nós estamos vivendo agora, quando haitianos e outros aportam as nossas fronteiras a procura de trabalho e comida. Desde a África e Oriente Médio chegam à Europa milhares de refugiados tocados para fora de seus países não só pela fome e pela falta de trabalho, mas também pelas guerrilhas; guerrilhas que justamente objetivam o poder para mudar a realidade de miséria que ali está.

Lá, como aqui, as elites burras de poder deixam escapar a verdadeira chance de construção de uma nação forte quando condenam ao abandono grande parte de seus concidadãos.

A Europa, os Estados Unidos, o Canadá, a Inglaterra, a França, os Países Baixos, a Austrália, a África do Sul (e quase também o Chile) são, hoje, as nações mais prósperas para onde se voltam os olhos imigrantes. Mas eles chegam também para a Itália, para a Grécia, para a Espanha, devido a proximidade para aqueles que atravessam o Mediterrâneo.

O modelo de economia exercido nos países de ponta só funciona com educação plena, com emprego abundante, com estabilidade de governo. Os países que “exportam” exilados, foragidos, flagelados, exportam por tabela sua miséria, sua péssima escola, suas instabilidades institucionais, seus desgovernos e até a sua violência e mandam junto com seus descartes humanos a ignorância, a inaptidão, a inapetência, a indolência, e que os torna excluídos no país natal e continuarão exclusos dos processos de desenvolvimento no país para onde forem.

Esse não é um problema apenas para aqueles que recebem os desterrados, o problema é, muito mais, dos países de origem, o problema é de toda sociedade da Terra.

Esta consciência tem de juntar-se ao meio ambiente, que veio na esteira do choque de humanismo que tivemos quando as mulheres de ergueram e passaram a pedir respeito e de imediato o meio ambiente passou a ser também foco. Agora chegou a vez do analfabetismo, da ignorância, da inaptidão, a inapetência e da indolência entrarem para a lista dos males que queremos combater.

Só assim os jovens do mundo todo estarão livres de serem roubados pelos governos de seus próprios países através da falta de uma Educação Libertadora.

E os passos iniciais a serem dados por todos nós é cobrar das elites (burras) de poder um direcionamento para a Educação diferente do que fizemos até agora. O ensino básico mal e mal alfabetiza; o ensino médio não é profissionalizante; o terceiro grau ensina empregados.

Agora, sim, fim do artigo.    

terça-feira, 26 de maio de 2015

Aviso Geral aos Leitores


Mudança no formato das postagens do blog

Conversando com muitos dos frequentadores deste blog recolhemos a sugestão de que as séries assim como são levadas à página acabam causando perdas de sequência na sua leitura. As pessoas já não têm o tempo que gostariam de ter para vir aqui diariamente e acessar e ler. Acabam deixando esta tarefa para os fins de semana.

Então optamos por publicar, sempre na madrugada de todo sábado, um artigo completo válido para toda semana. Apenas um por semana. Um assunto por semana. Você, leitor, sabe que a partir das 5:00 horas de todos os sábados, Maioridade Espiritual estará com uma nova publicação em sua página. Aquilo que poderia ser uma série com vários capítulos, virá integralmente num único bloco. Se você puder ler tudo numa só carreira, ótimo. Se quiser fracionar e ler de outra forma, ótimo também. Se quiser copiar e transferir para um arquivo de seu computador e guardar como matéria de consulta e releitura, também ótimo.

Então, já neste próximo sábado (01/06/2015), tudo será implantado. Boa leitura. Obrigado pela preferência.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

1795-Reflexos Espirituais da Escravidão


Sem esperar milagres outros

Fui buscar aspectos da obra de Nei Lopes e trechos de suas entrevistas recentes com o propósito de utilizar argumentos não meus, comentários não meus e assim colocar na linha de frente um negro, vários negros, para falarem das ânsias e objetivos dos negros. É notória a ausência de vozes em defesa dos interesses dos negros. Buscando trocar votos por benemerência política tem demais. Partidos políticos fazem das tripas coração para obter os votos e a adesão dos negros. Estou convencido de que o que menos os negros necessitam é de tutela. Tutelados, como ocorreu e ainda ocorre com os índios, jamais se libertarão.
Fui buscar nomes de personalidades negras representativas da luta por melhores dias para os negros depois de 1888. Que decepção. Achei uma mãe-de-santo, Menininha do Gantois; uma cantora, Leci Brandão; uma analfabeta-escritora, Carolina Maria de Jesus; um poeta, escritor e teatrólogo, Solano Trindade; o fundador de um jornal, José Correia Leite; um professor exilado (1964), Milton Santos; uma enfermeira, líder e escritora, Alzira Rufino; um escritor, líder e professor, Abdias do Nascimento. Talvez haja outros, mas não com projeção na mídia e na história.

Um aspecto importante da obra de Nei Lopes é mostrar o protagonismo pouco evidente do negro na história do país e da literatura. Pesquisas mostram, infelizmente, que a literatura brasileira, pelo menos nas grandes editoras, ainda é predominantemente branca — por seus temas, personagens e autores. Como mudar essa situação?

Para Lopes, a grande questão da literatura, como de outros segmentos da ação cultural, são as relações que se tecem ao longo da vida. O escritor afrodescendente quase nunca é bem relacionado nos meios de produção editorial e no seu entorno, e assim raramente consegue mostrar o seu trabalho. No entanto, se ele canta bem, joga bem e pode engordar a conta de algum explorador de seus talentos, ele aparece e faz sucesso.

De modo geral, ele, seus avós ou seus pais não estudaram nas mesmas escolas que as pessoas hoje influentes. E este é apenas um exemplo. A sociedade brasileira continua extremamente estratificada e fechada: a entrada nos círculos de poder e decisão é muito difícil para o povo negro. Abro um parêntese para pedir sua atenção e interesse para a série “Jovens roubados pela educação”, que estará sendo postada aqui neste blog dentro de alguns dias que, a propósito, esmiúça a questão da não ascensão de mais de um terço dos brasileiros, justamente, excluídos pela deficiência da educação que recebem.

E, para boa parte desse círculo que exclui e se exclui a partir da formação escolar, o que mais se poderia esperar sair da pena de um escritor afrodescendente se não o espetáculo da miséria, da violência, da exclusão? Infelizmente, a cabeça pobre do pobre raciocina como adversária daqueles que enriqueceram enquanto ele empobreceu. Falta-lhe a riqueza mental para deduzir que a riqueza material está na natureza e que os mais capazes se apoderam dela. Imaginemos a riqueza como uma árvore frutífera cujos frutos da parte mais alta são os mais graúdos e numerosos justamente porque recebem mais luz solar. Assim, os frutos da parte baixa são apanhados pelas pessoas de baixa estatura, enquanto os frutos do alto são apanhados pelas pessoas de estatura mais alta ou que se valem de escadas; estes serão sempre favorecidos pela coleta dos melhores e mais numerosos frutos.

Com a formação educacional dá-se o mesmo. Educar-se, evoluir, qualificar-se, subir na escada para coletar melhor, aproveitar as oportunidades, é algo livre ao alcance de todos onde existir governantes a serviço da nação inteira. Do contrário e exatamente para que cada um fique “no seu lugar” é como atuam aqueles querem dominar e tirar proveito dessa estratificação.

“Eu sei que o nosso povo tem uma outra História e outras histórias. E eu seria um idiota se desprezasse toda essa grande experiência que está sendo a minha vida, todo esse imenso patrimônio que me foi legado”, disse Nei Lopes “lamentando que a nação negra demora muito para organizar-se e espargir a ideia de que a luta é sua e só sua, sem esperar por outros milagres”.

Fim da série iniciada, a propósito, no dia 13 de maio.

domingo, 24 de maio de 2015

1794-Reflexos Espirituais da Escravidão


Tudo depende dos negros

No romance de Nei Lopes os personagens tentam criar ambientes de resistência na cidade. É o caso do fictício Café Rio Negro, infiltrado em uma zona elitizada. A exclusão também passa por uma questão geográfica — os personagens precisam adaptar sua cultura a um espaço que lhes é hostil. Retrata, pois, o que a realidade cuspia e cospe na cara das pessoas: a exclusão era e é ampla a começar pela limitação dos guetos. Aos negros era e é reservado o subúrbio, as ruas estreitas e mal iluminadas, o morro, a favela, os serviços menos nobres, os salários mais curtos. A entrada de um negro num restaurante, teatro ou clube, só com terno e gravata, isto é, só se for negro com pinta europeia.

Embora citado no romance, Lopes destaca numa entrevista que concedeu: o aspecto mais emblemático sobre esse ponto é a fundação do Clube Renascença, em 1951. Buscava-se criar um espaço sócio-recreativo para a classe média negra que se estruturava, e que era proibida de ingressar nos clubes de brancos da mesma classe econômica. Hoje o Renascença, apesar do esforço de fazer efetivamente “cultura” no sentido transformador da palavra, só é visto como uma casa “de samba”, uma conotação semelhante a que têm, hoje, ainda por conta da discriminação, os bailões.

Isso acontece em razão dos mesmos mecanismos que negam ao samba sua condição de elemento fundamental e definidor da cultura musical brasileira, colocando-o sempre no gueto espaço-temporal do carnaval e, portanto, festa de negro. Dentro dessa engrenagem perversa, que obedece inclusive às regras da cultura de mercado, um clube “de negros”, como é, ainda, o perfil do Renascença, é mais aceitável como uma casa de samba (carnavalesca, enfim), jamais como uma “casa de cultura”, onde se pense as questões do povo afro. Felizmente, no nosso “Rena”, ainda tem gente trabalhando para fazer valer, lá, esta condição, como é o caso do produtor Asfilófio de Oliveira, o Dom Filó, dono de acervo filmográfico de valor inestimável, exibido em sessões semanais no clube, para um público que não é necessariamente o das rodas de samba.

O romance retrata o momento em que “os pretos e mulatos começam a reivindicar melhor posição no conjunto da sociedade”. E Lopes analisa a evolução desse movimento, 60 anos depois ao cobrar que os negros teriam de ser representados na proporção exata de sua presença na população brasileira.

“No meu entender, diz ele, a política partidária atrapalhou e continua atrapalhando muito. Ela criou conselhos, assessorias, etc, para a participação do povo negro na política. E, com isso, acomodou a situação de exclusão e dificultou a expansão da consciência dos afrodescendentes sobre seus interesses específicos, que precisam ser defendidos de verdade, a sério, em todas as instâncias legislativas, em todo o território nacional, nas cidades e no campo. Temos que ser representados na proporção exata de nossa presença na população brasileira, por parlamentares que trabalhem por nossos direitos com dedicação exclusiva. Mas diante do que se vê hoje, negro não vota em negro, pobre não vota em pobre, mulher não vota em mulher”.

Nei vê como uma ameaça sinistra permanência da cultura negra atualmente. O samba e as religiões africanas, por exemplo, estão ameaçados no Brasil contemporâneo. Quem vive nas periferias das grandes cidades sabe do que estou falando. E essa ameaça vem ganhando um poder cada vez maior, de maneira assustadora. E sendo legitimada pelos poderes constituídos. A ameaça tem vindo das chamadas “igrejas eletrônicas”, donas de poderosas concessões de radiodifusão, que demonizam a cultura afro-brasileira de todas as formas. E isso volta e meia tem sido noticiado pela grande imprensa. Outra pedra no caminho é a “cultura negra sem negros”, gerada no âmbito da indústria cultural, do marketing, dos patrocínios, daqueles que são financiados para explorar a cultura e não são negros e nem tem compromissos com a cultura negra. Põem o negro na cena, mas a língua falada é a do branco e também a estrangeira.

Vê-se a esta altura do contexto que falta aos negros intelectuais capazes de puxar a frente de um movimento que sem violência, porém com energia promova a valorização dos negros, lute por uma consciência de que as conquistas têm de ser conquistadas e não caídas do céu por graça e favor de algum mecenas.

sábado, 23 de maio de 2015

1793-Reflexos Espirituais da Escravidão


Uma retomada dignificante

Pois, então, a libertação dos escravos estava oficializada, o 13 de maio havia sido chamado como data significativa desse episódio, o 20 de novembro tinha sido nomeado como um dia para significar a consciência do negro como ser humano igual a todos os demais humanos do planeta, mas a realidade mostrava que os negros ocupavam os mais humildes cargos e as mais humildes funções na vida socioeconômica do Brasil e fora dele. Parecia faltar à classe (isso não existe, aparece aqui como tentativa de explicar o que na realidade acontecia, acontece) dos negros uma liderança, se me permitem, uma elite cultural capaz de chamar os seus irmãos para fora da sombra. Os negros não podiam mais ficar apenas a espera de salvadores externos, libertadores vindos de fora. Já se haviam passados 60 anos desde o fim da escravidão e a única coisa notável que acontecia parecia ser o fato de que o negro já não era escravo. E ponto. Estamos, pois, no ano 1950. Mas, tristemente se pode constatar que em outros 60 anos para frente, nada ou quase nada mudou. 

Fincado em uma travessa obscura da Esplanada do Castelo, o Café e Bar Rio Negro aparece como o reduto da negritude carioca, aquela um tanto semelhante a “dos poetas africanos e antilhanos de fala francesa”. Era lá que artistas e intelectuais negros se reuniam para discutir os rumos da política e da sociedade nos anos 1950. Entre duas rodadas de chope gelado, uísque escocês e sanduíche de pernil assado, seus frequentadores construíam um espaço de resistência em um Centro da cidade cada vez mais branco e elitizado.

Embora apareça em detalhes nas páginas de “Rio Negro, 50”, novo romance de Nei Lopes (dá quase para sentir o cheiro de pernil assado dominando o ar), a casa nunca existiu na vida real. Trata-se de um espaço fictício, criado pelo escritor e compositor para resgatar uma história esquecida: a da consolidação do movimento negro no Brasil — esta, sim, verídica. Autoridade nas questões afro-brasileiras, o autor faz um apanhado da efervescência dos anos 50, década decisiva no reconhecimento da contribuição do negro à cultura do país.

Misturando ficção e pesquisa histórica, personagens reais e imaginários, o romance trouxe como pano de fundo as ricas manifestações do período, como a Orquestra Afro-Brasileira de Abigail Moura, os desafios do samba partido-alto e o Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias Nascimento. Episódios marcantes — como a assinatura da Lei Afonso Arinos, primeiro código brasileiro a incluir o preconceito de raça entre as contravenções penais — são passados a limpo pela clientela do Rio Negro, composta por um dramaturgo militante (baseado no icônico Abdias), um jornalista pesquisador das tradições afro-brasileiras e um sempre atento vendedor de amendoim, que faz a ligação com outro estabelecimento colored do centro da cidade, o Abará, frequentado pela turma do futebol e das boates e onde se bebia cachaça e comia ovo cozido com molho de pimenta.

Enquanto o povo, indignado pela derrota na final da Copa, procura clones do jogador Bigode (o lateral que podia ter evitado o chute que marcou o gol da vitória do Uruguai) para linchar, os personagens debatem a repressão ao candomblé (uma “religião feita pelo povo e para o povo”), a profissionalização das escolas de samba (uma “violência” à identidade do negro), ou ainda o surgimento do Renascença Clube, associação recreativa da classe média negra.

Carioca do Irajá, Lopes consolidou uma trajetória literária desde os anos 80. Como você percebe, o romance é posterior a 1950, mas retrata a vida real da época como se fosse uma reportagem atualíssima. Seus romances (o “Rio Negro, 50” não foi o único) mostram a história do país do ponto de vista do povo negro. Em “Rio Negro, 50” ele focou nos intelectuais e artistas da década de 50 porque como negro também identificou naquele período o afloramento do protagonismo do povo negro na cultura brasileira em quase todos os setores, da religiosidade ao teatro musicado, passando pelo rádio, pela aglutinação política, sem falar no futebol e outros esportes. Tudo o que aconteceu naquela década repercutiu depois, apesar do recrudescimento da subserviência aos padrões ditos “globalizados” que veio com a década de 1970.

No livro e em entrevistas que concedeu, Nei Lopes explica que o que houve foi como um eco tardio do que ocorrera na França nos anos de 1910-20 e no Harlem nova-iorquino até a década de 40. Lá primeiro e aqui depois começou-se a pensar a vida dos negros a partir de uma perspectiva própria, incentivando-se o orgulho pelas nossas peculiaridades e pela nossa História.

Em um determinado momento do livro, narra a visita da antropóloga americana Katherine Dunham ao Rio e a sua decepção com o racismo no país. Katherine foi uma panafricanista, como outros artistas da Diáspora africana. Ela, artista e cientista social, pesquisou e atuou em seu país, no Caribe e no Brasil, sempre dentro dessa perspectiva. Abdias Nascimento foi o grande elo dessa corrente panafricanista no Brasil. Mas havia outros, como Guerreiro Ramos, Sebastião Rodrigues Alves, Edison Carneiro, Ironides Rodrigues, e outros, além dos militantes de São Paulo, que vinham dos anos 30, época da Frente Negra Brasileira. Foi um tempo de grande articulação internacional.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

1792-Reflexos Espirituais da Escravidão


Pedidos de perdão e de desculpa

A data de 13 de maio nem mais é considerada com tanto rigor como uma efeméride notável para os negros. De acerta forma, sim, a Lei Áurea contou com o engajamento de lideranças brasileiras, entre as quais alguns negros, mas acima de tudo a luta foi ética, assim como hoje se luta para derrubar a corrupção no exercício de funções públicas. Inúmeros setores da sociedade de então tinham vergonha da escravidão, como hoje temos da excessiva onda de corrupção no serviço público.

E chegou o dia em que a Consciência Negra decidiu escolher uma data para marcar a expansão dessa consciência: 20 de novembro, data que lembra Zumbi dos Palmares, o maior ícone da luta negra por liberdade. Ainda está por ser criada uma data para a reconciliação entre brancos e negros.

Em 1998, a Unesco designou o dia 23 de agosto como o "Dia Internacional de Recordação do Tráfico de Escravos e de sua Abolição". Desde então, tem havido uma série de eventos que reconhecem os efeitos da escravidão.

Em 30 de janeiro de 2006, Jacques Chirac (o então presidente francês) disse que 10 de maio seria, a partir de então, um dia nacional em memória das vítimas da escravidão promovida pela França, marcando o dia em 2001, quando o país aprovou uma lei que reconhecia a escravidão como um crime contra a humanidade.

Em 27 de novembro de 2006, Tony Blair, então primeiro-ministro britânico, fez um pedido de desculpas parcial pelo papel do Reino Unido no comércio de escravos africanos. No entanto ativistas dos direitos africanos denunciaram o discurso como "retórica vazia" que não conseguiu resolver o problema corretamente. Blair novamente pediu desculpas no dia 14 de março de 2007.

Em 31 de maio de 2007, o governador do Alabama, Bob Biley, assinou uma resolução expressando "profundo pesar" pelo papel do seu estado na escravidão e desculpas pelos erros e os efeitos remanescentes. O Alabama é o quarto estado do sul a fazer um pedido de desculpas formal pela escravidão, após Maryland, Virgínia e Carolina do Norte. Em 30 de julho de 2008, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou uma resolução pedindo desculpas pela escravidão e por leis discriminatórias posteriores. Em 18 de junho de 2009, o Senado dos Estados Unidos emitiu um comunicado pedindo desculpas condenando as "fundamentais injustiças, crueldades, brutalidades e desumanidades da escravidão". A notícia foi bem recebida pelo presidente Barack Obama.

Hoje, 137 anos depois de oficialmente cancelada a chancela legal para o exercício da escravidão, no Brasil, não deve haver mais espaço para revanche e sim para uma aproximação fraterna entre todos os brasileiros.

Com a palavra o Congresso Nacional Brasileiro.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

1791-Reflexos Espirituais da Escravidão


Alegria e espiritualidade

Os espíritos crianças do planeta quando começaram a ser aprisionados nas savanas africanas, brincavam, sorriam, cantavam, pulavam, subiam em árvores, caçavam, comportando-se exatamente como se comportam as crianças. E não foi diferente nas senzalas.
Argumenta-se que a sobrevivência das primeiras engenhocas, o plantio de cana-de açúcar, do algodão, do café, do cacau, e do fumo, além do gado e das charqueadas no sul, foram os produtos decisivos para que Lisboa enviasse, para o Brasil tantos escravos africanos, vindos de diversas partes da África, trazendo, consigo, seus hábitos, seus costumes, sua música, sua dança, sua culinária, sua língua, seus mitos, seus ritos e a inseparável religião. Não eram ateus. Ofereceram uma extraordinária contribuição ao folclore e à religiosidade dos brasileiros. Chamava a atenção de quem quer que fosse os bailados rituais e a energia e o entusiasmo de seus cânticos sagrados. Nenhum outro povo no Brasil foi igual.

Mesmo trabalhando 14 a 16 horas por dia, com precária alimentação e muitas sem água para beber, assim mesmo cantarolavam enquanto batiam enxada, machado, foice, pá, picareta ou enquanto puxavam arado no que deveria ser papel dos bois e cavalos ou passavam o dia cortando cana ou colhendo café. As mulheres dos serviços domésticos faziam com esmero o trabalho para suas sinhás e frequentemente se tornavam conselheiras das próprias patroas e suas filhas. Quantas dessas moçoilas de pele negra foram levadas para o coito com os rapazes da família do patrão e quantas se tornaram mães de mestiços que cresciam pelo pátio das fazendas sob os olhos e o entendimento de todos tratarem-se de filhos bastardos, porém amados e incluídos nos dois grupos étnicos.

A coroa Portuguesa autorizou a escravatura com a bênção papal, documentada nas bulas de Nicolau V conhecidas pelos nomes de “Dum diversas” e “Divino Amorecommuniti”, ambas de 1452, que autorizavam os portugueses a reduzirem os africanos à condição de escravos com o intuito de os cristianizar. Não foi o que aconteceu. Foi a fé negra que impregnou a Casa Grande. O Brasil, hoje, é muito mais umbandista de carteirinha do que católico de carteirinha.

A regulamentação da escravatura era legislada nas ordenações manuelinas. A adopção da escravatura vinha, assim, tentar ultrapassar a grande falta de mão de obra, que também se verificava por toda a Europa devido à recorrência de epidemias, muitas delas provenientes da África e do Oriente, além das guerras. Até a primeira metade do século XV, a população portuguesa apresentou queda demográfica constante.

Já falamos da questão demográfica de algumas regiões e temos dados gerais de que por muitas décadas os negros ocupavam isoladamente o primeiro lugar entre as etnias que habitavam o Brasil. Possivelmente, hoje, uma maioria brasileira está entre os negros puros e mestiços.

O futebol, o carnaval, o samba, o pagode, a capoeira, a Umbanda, o Candomblé, a feijoada são marcas indeléveis da contribuição negra à cultura brasileira.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

1790-Reflexos Espirituais da Escravidão


As marcas espirituais da escravidão

Já se disse de tudo a respeito do aspecto espiritual da escravidão. Pura especulação, chute, palpite. Essa questão não pode ser olhada apenas a partir do homem exclusivamente terreno e nem também dos últimos 30 séculos. Temos de ser amplos, abertos, cósmicos. O fato de as maiores levas de escravos deste planeta terem sido retirados da África e mandados para outros continentes para servir principalmente o homem ariano, indo-europeu, não quer dizer nada. Não se explica aí karma, nem dharma, para usar expressões de dívida e prêmio vindas do sânscrito, cuja pátria também escravizou e escraviza não aos negros, mas aos próprios irmãos da mesma etnia e não da mesma casta. Pode explicar muito mais que isso.

Tenho conversado com os pretos velhos da velha escola anterior ao cativeiro das eras cristãs. Na serenidade das suas ponderadas informações, vamos compreendendo como e porque uma criança é colocada no seio de uma família, numa sala de aula, a espera de sua maioridade para assumir suas próprias ações, responder por seus atos. Espíritos jovenzinhos, mandados para os primeiros falquejos a caminho da civilização que os acolheria no passo seguinte. Seus ritos: a enfumaçada senzala, hoje reproduzida nas terreiras de Umbanda e Candomblé, onde orixás ainda pedem um gole de marrafa, fumam seus charutos, abatem animais, retroagem aos tempos de Abraão e Jacó, não raro com sacrifício, mesmo, de humanos. O que dizer da religiosidade haitiana que quase toda se inclina pelo vodu? E põe sofrimento e aprendizado aos haitianos se não pelas suas condições políticas e econômicas, muito pelas condições geonaturais.

No meio das divindades primitivas que conversam com os afros espalhados pelo planeta, estão os seus luminares pretos velhos de fala macia, pregando o amor e a obediência, principalmente. Obediência, sim. São os mais legítimos habitantes do Éden, retratados na narrativa do africano Moisés, transformado em líder maior dos hebreus, mas filho da África. O que significa ter sido expulso do Éden? Significa ter desobedecido uma lei maior de Deus e mandado para fora do Éden, a fim de aprender, antes de tudo, obedecer. Ter por mestre um senhor severo, capaz de usar do chicote para corrigir uns na frente de outros, como exemplo.

Eis a saga do povo escravo. Quase todos os seus membros emergiram para a liberdade como gente obediente. Uns se revoltaram e foram à luta, mas 98% aprendeu a lição. Já pode voltar se encaminhar para o Éden.

Mas, antes de mudar o ângulo da conversa, uma pergunta se impõe: os membros da cadeia escravagista são quem pela interpretação dada pelos pretos velhos? São um pouquinho mais maduros, nem tão crianças, um pouco mais que adolescentes, por enquanto sem consciência do que são chamados a fazer, por isso cometem exageros. Mas, note dentre os senhores de escravos podem ser encontrados verdadeiros pais educadores severos porém dotados de ternura, prova disso é que numerosos escravos alforriados pela Lei Áurea nem foram embora, ficaram e gostaram de ficar onde estavam dado o modo como foram tratados enquanto submissos.       

terça-feira, 19 de maio de 2015

1789-Reflexos Espirituais da Escravidão


Não só lusos no banco dos réus

No século XIX, Portugal não apenas não era a única sociedade europeia a encontrar na religião a justificativa para a escravidão moderna, como tampouco a inventou. Se o cativeiro declinava desde a derrocada de Roma, ganhou força no Mediterrâneo dos séculos XIV e XV, impulsionado por Gênova e Veneza, primeiro em suas plantações de cana-de-açúcar no Oriente Médio, depois em Chipre, Creta e na Sicília. Destaca-se em semelhante processo o peso da crise do século XIV, cujo principal signo — a enorme fratura demográfica — resultou em panoramas razoavelmente distintos dentro da própria Europa. No norte impulsionou o incremento do exército de diaristas (boias frias) rurais e urbanos e a regulação de salários, além da introdução do trabalho compulsório para os indigentes. Na Itália e Península Ibérica, ao invés, incrementou a procura por escravos provenientes cada vez mais do mar Negro, sem contar os africanos e um número cada vez menor de mouros.

Portugal tampouco inventou o tráfico de africanos, que já existia sobretudo para o mundo islâmico e, secundariamente, para o Mediterrâneo antes mesmo da descoberta da América — 6 milhões de africanos foram exportados até 1500, seja por meio do Saara, ou do mar Vermelho, ou ainda pelo Índico (já no século VIII existiam escravos africanos em locais tão distantes como Java ou Cantão). A não ser como resultado de absoluta ignorância ou de mero posicionamento politicamente correto — calcado, não raro, na perigosa ideia de que raças efetivamente existem —, não há como descartar a prioridade muçulmana no comércio de africanos antes mesmo de este representar papel importante para Portugal e, depois, para as Américas.

A demanda americana potencializou o tráfico, é óbvio, mas jamais poderia ser atendida na escala em que foi sem que a posse de escravos (e, como derivação, o tráfico) representasse um dos poucos meios legítimos de enriquecimento individual dentro da África tradicional. Ali, o escravo podia ser comercializado, arrendado, legado, doado, penhorado e confiscado, motivo pelo qual a duração e o volume das exportações de negros expressam o arraigo do continente ao cativeiro, onde o tráfico atendia à simultânea demanda interna e externa por braços e úteros. Em parte devido aos tênues limites que os separava de outras vítimas da dependência pessoal, ainda não se pode precisar a exata quantidade de cativos existentes nos antigos estados de Gana, Mali, Songai, Congo, Monomotapa, Ndongo e em outras regiões. Mas nada indica que ali a sua participação demográfica fosse inferior à detectada para os escravos da Grécia, de Roma ou do sul dos Estados Unidos.

Razão parece ter o norte-americano John Thornton, para quem foi a hipertrofia de instituições corporativas — como a família, o clã e o próprio Estado — o que transformou a posse de escravos no meio mais eficiente de legítimo enriquecimento individual do africano. Tratava-se de um contexto que fazia com que a riqueza e prestígio de um homem estavam mediados pelo número de dependentes e clientes que conseguisse possuir. Do que resulta terem sido as elites africanas elementos tão ativos quanto as europeias e americanas no processo que tornava a escravidão a variável que amalgamava a Europa, a África e as Américas ao redor de um verdadeiro sistema atlântico — e não meras vítimas passivas da tragédia implícita à escravidão.

O livro de João Pedro Marques ensina que a responsabilidade maior de Portugal para com o cativeiro e o tráfico ocorreu no século XIX, quando razões de Estado impediram-no de, por muito tempo, associar-se à onda abolicionista que varria o Ocidente. Aqui cabe um parêntesis. Pois se é certo que, no século XIX, o Ocidente transformou o comércio negreiro em excrescência, o racismo — um dos seus pilares — teria de esperar o pós-1945 para ver-se alçado à condição de crime contra a humanidade. E o motivo é simples: o combate sem trégua ao tráfico de escravos não procedeu à integral separação entre raça e cultura, razão pela qual muitas vertentes abolicionistas amaldiçoavam a compra e venda de pessoas e, simultaneamente, insistiam na inferioridade do negro. Mais ainda: algo dessa paradoxal tensão oitocentista ainda viceja no imaginário do homem ocidental contemporâneo, sobretudo quando reduz o tráfico negreiro à condição de problema exclusivamente europeu ou americano. Semelhante movimento pode até apaziguá-lo ante a crescente demanda por correção política, mas infantiliza o negro e banaliza o drama humano — objetivo presente também no paternalismo que por séculos privou-o de dispor de si mesmo nas Américas.

Da junção entre semelhantes torções cobra viço a África mítica, alter ego da mãe preta cálida e inocente, ausente de hierarquias e indefesa frente à sanha atávica de mouros e cristãos à qual me referi anteriormente. Encobre-se assim o «trabalho sujo» a que se refere o historiador Jean Suret-Canale, representado pela captura e venda inicial de milhões de infelizes pelos africanos. Oculta-se igualmente a derivação: a renitência do cativeiro em vastas regiões de África, especialmente em países como Mauritânia, Mali, Sudão, Camarões e Nigéria, celeiros hoje de desgraçados de todas as idades — sabe-se que no Níger um único homem detém pelo menos 7000 escravos e no Chade pode-se alugar uma criança pelo equivalente a US$ 8 mensais.

Mesmo no caso da resistência ao fim da escravidão, Portugal não se encontrava sozinho no século XIX. A acompanhá-lo estava o Brasil, postergando o trauma, extraviando-se da modernidade e travando a nação no plano da paixão arcaica. Nessa época, os milhões de africanos desembarcados nos portos brasileiros o foram por iniciativa quase exclusiva do capital mercantil residente na América portuguesa. É que, desde o século XVIII, as comunidades traficantes de Rio de Janeiro, Salvador e Recife passaram a dominar o fundamental das etapas empresariais que garantiam o comércio negreiro, provendo-o de naus, de bens para o escambo, arregimentando tripulantes e garantindo o negócio por meio de suas próprias empresas seguradoras.

Em suma, de pequeno, o excelente livro de João Pedro Marques tem apenas o tamanho. São grandes as suas ambições, precisos os caminhos que as afiançam e cirúrgicas as suas conclusões. Resta torcer para que Portugal e a escravatura dos africanos contribua para que a relativa invisibilidade que se impôs ao negro em Portugal seja igualmente revertida. (Contribuiu para estas análises Manolo Florentino)

segunda-feira, 18 de maio de 2015

1788-Reflexos Espirituais da Escravidão


Lusos no banco dos réus

O escritor João Pedro Marques escreveu “Portugal e a Escravatura dos Africanos” (Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2004, 160 páginas). O autor — cujo fim é claramente o de atualizar o público lusitano, acadêmico ou não para a questão vergonhosa desse país acusado pela dupla falta de haver reintroduzido o cativeiro no Ocidente e de não tê-lo combatido adequadamente quando, séculos depois, quase todo o mundo o exorcizava – puxa as orelhas de todo mundo e lembra que o fim dos cativeiros na colônia (Brasil) representou também o fim do império.

Lembra Marques que praticamente até 1888 o único traço comum entre brasileiros-portugueses aqui no Brasil, era a escravidão.  

Talvez se possa considerar que Portugal e a escravatura dos africanos representa uma espécie de «resposta nacional» a estas imputações. Que seja. Entretanto, em termos mais amplos, os portugueses não estão sozinhos na contenda. A acompanhá-los está, por exemplo, o Brasil, onde o tráfico e a escravização ainda hoje operam como fantasmas em seu imaginário nacional. Aqui, segundo o livro, anualmente, produz-se um verdadeiro caudal de teses e dissertações nas quais, não obstante a eventual qualidade acadêmica, gastam-se rios de tinta em introduções transformadas em verdadeiras profissões de fé contra o cativeiro. Como se fosse necessário, como se a escravidão moderna não passasse de tecido morto. (Na verdade, estas anacrônicas tomadas de posição têm o seguinte subtexto: todos somos um pouco racistas, mesmo os negros, que discriminam os brancos).

Em um plano mais profundo, o que incomoda a muitos autores de ambas as margens do Atlântico está em outro lugar — na escolha que, em algum momento de suas histórias, Portugal e Brasil fizeram pela eterna manutenção do seu status quo. Opção amalgamada pelo catolicismo contra-reformista, é certo, mas para a qual, de diferentes modos, o tráfico de escravos e a escravidão assumiram papel de suma importância.

Fronteira vitoriosa na luta contra o islamismo, desde o início a nação portuguesa se confundiu de tal modo com a igreja que, quando a Reforma cindiu a cristandade, a Península Ibérica naturalmente se transformou em bastião do catolicismo. Como se não bastasse, os ganhos derivados do comércio oriental e das riquezas americanas permitiram a Portugal levar ao extremo um tipo de sociedade fundado na afirmação de valores aristocráticos e na esterilização de grande parte da riqueza social. Em vez de capturar nesses traços elementos de um projeto arcaico tão legítimo quanto a opção pelo capitalismo, a historiografia anglo-saxã — mas também a francesa e a alemã — esmerou-se em reduzi-lo a mero «atraso». E um dos maiores signos dessa decadência radicaria no pioneirismo lusitano no tráfico de africanos e no seu afinco à escravidão quando, embalado pelo puritanismo abolicionista do Oitocentos (período marcado pelas transformações do século XIX), o Ocidente denunciava a ambos. Eis como a escravatura se imprimiu como nódoa na imagem que se tem dos portugueses. E, por extensão, dos brasileiros.

Ironicamente, ao completarem-se duzentos anos da abolição do tráfico inglês (1807), os ganhos obtidos pela historiografia anglo-saxã permitem redefinir muito daquele ponto de vista que, nas palavras de João Pedro Marques, «pesadamente responsabiliza os lusitanos pela existência de instituições tão desumanas». Para tanto, o autor revela-se extremamente atualizado, demonstrando enorme intimidade com o que há de melhor acerca da escravidão ocidental, com destaque para o manejo de obras como as de David Brion Davis, Philip Curtin, David Eltis, Joseph Miller, John Thornton, Paul Lovejoy, Ralph Austen, dentre outros.

A verdade, sustenta Marques, é que até o século xviii a cultura ocidental encarava a escravidão como uma muitas vezes dolorosa forma de promover o progresso humano. Evitemos mal-entendidos. Ninguém em sã consciência questiona a crueldade implícita em todo tipo de escravidão — é absurdo pensar em bom ou mau cativeiro. Um exemplo: de acordo com o historiador norte-americano Joseph Miller, de cada 100 escravos apanhados em Angola, 36 morriam entre a captura e o traslado até a costa, 7 à espera do embarque nos negreiros, 6 pereciam durante a travessia oceânica e 23 feneciam nos primeiros anos de Brasil, ou seja, em quatro anos, 72% de mortalidade acumulada! Como esta série já mostrou.

Afiançando que a escravização do africano aguçou a visão depreciativa do negro, muito comum à cristandade, e que não era de modo algum apanágio apenas dos letrados ibéricos, Marques demonstra que infelizmente hoje ainda 55% dos norte-americanos adultos interpretam literalmente a Bíblia naquelas passagens em Noé amaldiçoa a descendência de Cam e que põe esses descendentes, justamente, entre os nativos da África e da América.

Imagine-se quão corrente e fácil é, na época moderna, associar os negros aos descendentes de Cam — aqueles que, por terem sido amaldiçoados por Noé, deveriam servir às proles de Sem (os asiáticos) e de Jafé (os europeus). Outros coevos juravam de pés juntos que, por derivarem de Caim, os africanos personificavam a própria maldição do Senhor. Não surpreende que os negros encontrassem no cativeiro a saída natural para o vício que os tecia. Contribuiu para essa maldade o aparecimento do Systema Naturae (1735), de Lineu: não melhorou as coisas — inscreveu o homem no reino animal, é certo, mas reiterou a inferioridade do africano, indolente e astuto, frente ao europeu, delicado, perspicaz e inventivo.