sábado, 23 de maio de 2015

1793-Reflexos Espirituais da Escravidão


Uma retomada dignificante

Pois, então, a libertação dos escravos estava oficializada, o 13 de maio havia sido chamado como data significativa desse episódio, o 20 de novembro tinha sido nomeado como um dia para significar a consciência do negro como ser humano igual a todos os demais humanos do planeta, mas a realidade mostrava que os negros ocupavam os mais humildes cargos e as mais humildes funções na vida socioeconômica do Brasil e fora dele. Parecia faltar à classe (isso não existe, aparece aqui como tentativa de explicar o que na realidade acontecia, acontece) dos negros uma liderança, se me permitem, uma elite cultural capaz de chamar os seus irmãos para fora da sombra. Os negros não podiam mais ficar apenas a espera de salvadores externos, libertadores vindos de fora. Já se haviam passados 60 anos desde o fim da escravidão e a única coisa notável que acontecia parecia ser o fato de que o negro já não era escravo. E ponto. Estamos, pois, no ano 1950. Mas, tristemente se pode constatar que em outros 60 anos para frente, nada ou quase nada mudou. 

Fincado em uma travessa obscura da Esplanada do Castelo, o Café e Bar Rio Negro aparece como o reduto da negritude carioca, aquela um tanto semelhante a “dos poetas africanos e antilhanos de fala francesa”. Era lá que artistas e intelectuais negros se reuniam para discutir os rumos da política e da sociedade nos anos 1950. Entre duas rodadas de chope gelado, uísque escocês e sanduíche de pernil assado, seus frequentadores construíam um espaço de resistência em um Centro da cidade cada vez mais branco e elitizado.

Embora apareça em detalhes nas páginas de “Rio Negro, 50”, novo romance de Nei Lopes (dá quase para sentir o cheiro de pernil assado dominando o ar), a casa nunca existiu na vida real. Trata-se de um espaço fictício, criado pelo escritor e compositor para resgatar uma história esquecida: a da consolidação do movimento negro no Brasil — esta, sim, verídica. Autoridade nas questões afro-brasileiras, o autor faz um apanhado da efervescência dos anos 50, década decisiva no reconhecimento da contribuição do negro à cultura do país.

Misturando ficção e pesquisa histórica, personagens reais e imaginários, o romance trouxe como pano de fundo as ricas manifestações do período, como a Orquestra Afro-Brasileira de Abigail Moura, os desafios do samba partido-alto e o Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias Nascimento. Episódios marcantes — como a assinatura da Lei Afonso Arinos, primeiro código brasileiro a incluir o preconceito de raça entre as contravenções penais — são passados a limpo pela clientela do Rio Negro, composta por um dramaturgo militante (baseado no icônico Abdias), um jornalista pesquisador das tradições afro-brasileiras e um sempre atento vendedor de amendoim, que faz a ligação com outro estabelecimento colored do centro da cidade, o Abará, frequentado pela turma do futebol e das boates e onde se bebia cachaça e comia ovo cozido com molho de pimenta.

Enquanto o povo, indignado pela derrota na final da Copa, procura clones do jogador Bigode (o lateral que podia ter evitado o chute que marcou o gol da vitória do Uruguai) para linchar, os personagens debatem a repressão ao candomblé (uma “religião feita pelo povo e para o povo”), a profissionalização das escolas de samba (uma “violência” à identidade do negro), ou ainda o surgimento do Renascença Clube, associação recreativa da classe média negra.

Carioca do Irajá, Lopes consolidou uma trajetória literária desde os anos 80. Como você percebe, o romance é posterior a 1950, mas retrata a vida real da época como se fosse uma reportagem atualíssima. Seus romances (o “Rio Negro, 50” não foi o único) mostram a história do país do ponto de vista do povo negro. Em “Rio Negro, 50” ele focou nos intelectuais e artistas da década de 50 porque como negro também identificou naquele período o afloramento do protagonismo do povo negro na cultura brasileira em quase todos os setores, da religiosidade ao teatro musicado, passando pelo rádio, pela aglutinação política, sem falar no futebol e outros esportes. Tudo o que aconteceu naquela década repercutiu depois, apesar do recrudescimento da subserviência aos padrões ditos “globalizados” que veio com a década de 1970.

No livro e em entrevistas que concedeu, Nei Lopes explica que o que houve foi como um eco tardio do que ocorrera na França nos anos de 1910-20 e no Harlem nova-iorquino até a década de 40. Lá primeiro e aqui depois começou-se a pensar a vida dos negros a partir de uma perspectiva própria, incentivando-se o orgulho pelas nossas peculiaridades e pela nossa História.

Em um determinado momento do livro, narra a visita da antropóloga americana Katherine Dunham ao Rio e a sua decepção com o racismo no país. Katherine foi uma panafricanista, como outros artistas da Diáspora africana. Ela, artista e cientista social, pesquisou e atuou em seu país, no Caribe e no Brasil, sempre dentro dessa perspectiva. Abdias Nascimento foi o grande elo dessa corrente panafricanista no Brasil. Mas havia outros, como Guerreiro Ramos, Sebastião Rodrigues Alves, Edison Carneiro, Ironides Rodrigues, e outros, além dos militantes de São Paulo, que vinham dos anos 30, época da Frente Negra Brasileira. Foi um tempo de grande articulação internacional.

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