domingo, 24 de maio de 2015

1794-Reflexos Espirituais da Escravidão


Tudo depende dos negros

No romance de Nei Lopes os personagens tentam criar ambientes de resistência na cidade. É o caso do fictício Café Rio Negro, infiltrado em uma zona elitizada. A exclusão também passa por uma questão geográfica — os personagens precisam adaptar sua cultura a um espaço que lhes é hostil. Retrata, pois, o que a realidade cuspia e cospe na cara das pessoas: a exclusão era e é ampla a começar pela limitação dos guetos. Aos negros era e é reservado o subúrbio, as ruas estreitas e mal iluminadas, o morro, a favela, os serviços menos nobres, os salários mais curtos. A entrada de um negro num restaurante, teatro ou clube, só com terno e gravata, isto é, só se for negro com pinta europeia.

Embora citado no romance, Lopes destaca numa entrevista que concedeu: o aspecto mais emblemático sobre esse ponto é a fundação do Clube Renascença, em 1951. Buscava-se criar um espaço sócio-recreativo para a classe média negra que se estruturava, e que era proibida de ingressar nos clubes de brancos da mesma classe econômica. Hoje o Renascença, apesar do esforço de fazer efetivamente “cultura” no sentido transformador da palavra, só é visto como uma casa “de samba”, uma conotação semelhante a que têm, hoje, ainda por conta da discriminação, os bailões.

Isso acontece em razão dos mesmos mecanismos que negam ao samba sua condição de elemento fundamental e definidor da cultura musical brasileira, colocando-o sempre no gueto espaço-temporal do carnaval e, portanto, festa de negro. Dentro dessa engrenagem perversa, que obedece inclusive às regras da cultura de mercado, um clube “de negros”, como é, ainda, o perfil do Renascença, é mais aceitável como uma casa de samba (carnavalesca, enfim), jamais como uma “casa de cultura”, onde se pense as questões do povo afro. Felizmente, no nosso “Rena”, ainda tem gente trabalhando para fazer valer, lá, esta condição, como é o caso do produtor Asfilófio de Oliveira, o Dom Filó, dono de acervo filmográfico de valor inestimável, exibido em sessões semanais no clube, para um público que não é necessariamente o das rodas de samba.

O romance retrata o momento em que “os pretos e mulatos começam a reivindicar melhor posição no conjunto da sociedade”. E Lopes analisa a evolução desse movimento, 60 anos depois ao cobrar que os negros teriam de ser representados na proporção exata de sua presença na população brasileira.

“No meu entender, diz ele, a política partidária atrapalhou e continua atrapalhando muito. Ela criou conselhos, assessorias, etc, para a participação do povo negro na política. E, com isso, acomodou a situação de exclusão e dificultou a expansão da consciência dos afrodescendentes sobre seus interesses específicos, que precisam ser defendidos de verdade, a sério, em todas as instâncias legislativas, em todo o território nacional, nas cidades e no campo. Temos que ser representados na proporção exata de nossa presença na população brasileira, por parlamentares que trabalhem por nossos direitos com dedicação exclusiva. Mas diante do que se vê hoje, negro não vota em negro, pobre não vota em pobre, mulher não vota em mulher”.

Nei vê como uma ameaça sinistra permanência da cultura negra atualmente. O samba e as religiões africanas, por exemplo, estão ameaçados no Brasil contemporâneo. Quem vive nas periferias das grandes cidades sabe do que estou falando. E essa ameaça vem ganhando um poder cada vez maior, de maneira assustadora. E sendo legitimada pelos poderes constituídos. A ameaça tem vindo das chamadas “igrejas eletrônicas”, donas de poderosas concessões de radiodifusão, que demonizam a cultura afro-brasileira de todas as formas. E isso volta e meia tem sido noticiado pela grande imprensa. Outra pedra no caminho é a “cultura negra sem negros”, gerada no âmbito da indústria cultural, do marketing, dos patrocínios, daqueles que são financiados para explorar a cultura e não são negros e nem tem compromissos com a cultura negra. Põem o negro na cena, mas a língua falada é a do branco e também a estrangeira.

Vê-se a esta altura do contexto que falta aos negros intelectuais capazes de puxar a frente de um movimento que sem violência, porém com energia promova a valorização dos negros, lute por uma consciência de que as conquistas têm de ser conquistadas e não caídas do céu por graça e favor de algum mecenas.

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