segunda-feira, 25 de maio de 2015

1795-Reflexos Espirituais da Escravidão


Sem esperar milagres outros

Fui buscar aspectos da obra de Nei Lopes e trechos de suas entrevistas recentes com o propósito de utilizar argumentos não meus, comentários não meus e assim colocar na linha de frente um negro, vários negros, para falarem das ânsias e objetivos dos negros. É notória a ausência de vozes em defesa dos interesses dos negros. Buscando trocar votos por benemerência política tem demais. Partidos políticos fazem das tripas coração para obter os votos e a adesão dos negros. Estou convencido de que o que menos os negros necessitam é de tutela. Tutelados, como ocorreu e ainda ocorre com os índios, jamais se libertarão.
Fui buscar nomes de personalidades negras representativas da luta por melhores dias para os negros depois de 1888. Que decepção. Achei uma mãe-de-santo, Menininha do Gantois; uma cantora, Leci Brandão; uma analfabeta-escritora, Carolina Maria de Jesus; um poeta, escritor e teatrólogo, Solano Trindade; o fundador de um jornal, José Correia Leite; um professor exilado (1964), Milton Santos; uma enfermeira, líder e escritora, Alzira Rufino; um escritor, líder e professor, Abdias do Nascimento. Talvez haja outros, mas não com projeção na mídia e na história.

Um aspecto importante da obra de Nei Lopes é mostrar o protagonismo pouco evidente do negro na história do país e da literatura. Pesquisas mostram, infelizmente, que a literatura brasileira, pelo menos nas grandes editoras, ainda é predominantemente branca — por seus temas, personagens e autores. Como mudar essa situação?

Para Lopes, a grande questão da literatura, como de outros segmentos da ação cultural, são as relações que se tecem ao longo da vida. O escritor afrodescendente quase nunca é bem relacionado nos meios de produção editorial e no seu entorno, e assim raramente consegue mostrar o seu trabalho. No entanto, se ele canta bem, joga bem e pode engordar a conta de algum explorador de seus talentos, ele aparece e faz sucesso.

De modo geral, ele, seus avós ou seus pais não estudaram nas mesmas escolas que as pessoas hoje influentes. E este é apenas um exemplo. A sociedade brasileira continua extremamente estratificada e fechada: a entrada nos círculos de poder e decisão é muito difícil para o povo negro. Abro um parêntese para pedir sua atenção e interesse para a série “Jovens roubados pela educação”, que estará sendo postada aqui neste blog dentro de alguns dias que, a propósito, esmiúça a questão da não ascensão de mais de um terço dos brasileiros, justamente, excluídos pela deficiência da educação que recebem.

E, para boa parte desse círculo que exclui e se exclui a partir da formação escolar, o que mais se poderia esperar sair da pena de um escritor afrodescendente se não o espetáculo da miséria, da violência, da exclusão? Infelizmente, a cabeça pobre do pobre raciocina como adversária daqueles que enriqueceram enquanto ele empobreceu. Falta-lhe a riqueza mental para deduzir que a riqueza material está na natureza e que os mais capazes se apoderam dela. Imaginemos a riqueza como uma árvore frutífera cujos frutos da parte mais alta são os mais graúdos e numerosos justamente porque recebem mais luz solar. Assim, os frutos da parte baixa são apanhados pelas pessoas de baixa estatura, enquanto os frutos do alto são apanhados pelas pessoas de estatura mais alta ou que se valem de escadas; estes serão sempre favorecidos pela coleta dos melhores e mais numerosos frutos.

Com a formação educacional dá-se o mesmo. Educar-se, evoluir, qualificar-se, subir na escada para coletar melhor, aproveitar as oportunidades, é algo livre ao alcance de todos onde existir governantes a serviço da nação inteira. Do contrário e exatamente para que cada um fique “no seu lugar” é como atuam aqueles querem dominar e tirar proveito dessa estratificação.

“Eu sei que o nosso povo tem uma outra História e outras histórias. E eu seria um idiota se desprezasse toda essa grande experiência que está sendo a minha vida, todo esse imenso patrimônio que me foi legado”, disse Nei Lopes “lamentando que a nação negra demora muito para organizar-se e espargir a ideia de que a luta é sua e só sua, sem esperar por outros milagres”.

Fim da série iniciada, a propósito, no dia 13 de maio.

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