sábado, 30 de maio de 2015

1796-Uma Nação se faz com...


Jovens roubados pela educação

Introdução

Em nenhuma cultura (que se preze) do mundo a educação fica em segundo plano. Foi tradicional nos países que se prezam a Educação e a Cultura estarem juntas no mesmo ministério, inclusive no Brasil, por décadas a fio. Chegou-se a cunhar um jargão, hoje meio esquecido, de que um país se faz com homens e livros e, naturalmente, com mulheres e livros.

Mas, essa parece não ter sido a preocupação dos governos e, por extensão, dos políticos e dos eleitores do Brasil.

Chegamos a 2015 com os mais sofríveis números em termos educacionais, com professores do primeiro e segundo graus recebendo os históricos mais baixos salários e temos uma universidade tacanha que ensina para a formação de empregados e não de empreendedores.

Vou relatar fatos e números que conheço, convivi com eles e podem, talvez, explicar o crime de lesa pátria cometido pelos governos com a nossa conivência nesses últimos 55 anos em que estamos afirmando sem titubear: nossos jovens foram roubados pela educação.

Você vem comigo? Agradeço e espero não apenas a sua leitura, espero seu engajamento numa luta nacional pela ressurreição da educação. Creio que não seria bem o termo ressurreição aludindo a que antes de 1960 tenhamos tido uma boa educação. Mas, entenda leitor de pouca idade e ouça a voz de quem estudou nos anos 1950 e anteriores: estudávamos em até dois turnos de 4 horas; aprendíamos com profundidade; treinávamos civismo; tínhamos latim, francês e inglês na 5ª série em diante; respeitávamos o mestre, a mestra, como se fossem nosso pai ou nossa mãe que ali estava.

Algumas frases que recolhi e gosto de reler (sobre educação):

Não eduque seu filho para ser rico, eduque-o para ser feliz. Assim ele saberá o valor das coisas e não o seu preço. (Max Geringher)

Eduque com responsabilidade porque um país sem educação não pode ser considerado uma nação, mas uma fábrica de marginais. (Nildo Lage)

A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria. (Paulo Freire)

Não há vida sem correção, sem retificação. (Paulo Freire)

Bem, vamos aos argumentos do crime de lesa pátria, a seguir.

Deixou de haver uma campanha nacionalista

Dentre as várias manobras estratégicas em atenção aos seus interesses, o governo militar de 1964, desta vez silenciou o guru da nova educação libertadora brasileira, que empeçava. Cassou os direitos políticos de Paulo Freire, que esteve exilado por longos anos. Mas, com a anistia, retornou ao Brasil já envelhecido e faleceu em 1997.

Apesar de formado em direito e filosofia, Freire nunca exerceu nenhuma das duas profissões. Preferiu trabalhar como professor numa escola de segundo grau em Pernambuco, lecionando língua portuguesa.

Em 1961, com a inauguração de era nacionalista em Pernambuco, orquestrada pelo líder de esquerda, Miguel Arraes, Paulo Freire tornou-se diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife e, no mesmo ano, realizou junto com sua equipe as primeiras experiências de alfabetização popular que viria ser o embrião do Método Paulo Freire. Obtinham resultados excelentes em alfabetização em apenas 45 dias.

Embarcando nos eficazes resultados de Pernambuco, o governo brasileiro (na gestão do presidente João Goulart e sob orientação do primeiro-ministro Tancredo Neves), que se empenhava na realização das chamadas reformas de base onde se incluía a educação, aprovou a multiplicação dessas primeiras experiências pernambucanas num Plano Nacional de Alfabetização, que previa a formação de educadores em massa e a rápida implantação de 20 mil núcleos (os círculos de cultura) por todo País.

Mas, tudo acabaria três anos mais tarde. Não era só a educação nacionalista que alcançava os camponeses, agricultores, moradores de bairros suburbanos. O governo federal era nacionalista. E esse posicionamento era contrário aos interesses do capital internacional nesse tempo representado pelos Estados Unidos e pela Inglaterra. E isso era interpretado e combatido pela oposição como uma inclinação para o comunismo, porque quem estava inimigo do capitalismo eram os comunistas. E, de fato, os comunistas brasileiros estavam ganhando muito espaço no governo de Goulart que, na verdade, era um trabalhista, nacionalista, de esquerda, mas não comunista.

Veio a revolução militar, a queda do governo constitucional e a instalação do regime de exceção, que governava por decretos, chamados de Atos Institucionais. O Congresso e o Judiciário foram fechados.

Cassado, entre muitos, em 1964, e exilado no Chile, Paulo Freire publicou no Brasil seu primeiro livro, “Educação como Prática da Liberdade”, baseado fundamentalmente na tese Educação e Atualidade Brasileira, com a qual concorrera, em 1959, à cadeira de História e Filosofia da Educação na Escola de Belas Artes da Universidade do Recife.

O livro foi bem recebido, e Freire foi convidado para ser professor visitante da Universidade de Harvard em 1969, coincidindo com o lançamento pelo governo militar do Brasil, do Mobral – Movimento Brasileiro pela Alfabetização em paralelo a uma brutal alteração nos conteúdos da educação brasileira com a reformulação das matérias de Educação Moral e Cívica (EMC) e Organização Social e Política no Brasil (OSPB), que antes espargiam formação e cidadania e agora trabalhavam a obediência e o respeito, embora não tivessem abandonado as propostas contra a corrupção e a desnacionalização. Não podemos esquecer que os militares eram nacionalistas, mas jamais bateram o pé contra os Estados Unidos. A escola de agora retirara o que se poderia chamar de pedagogia do oprimido, como veremos adiante, que retornou com a Teologia da Libertação, através da Igreja.

Ainda temos muito o que enfocar.

Tempo de olhar pelos pobres

Durante o período de governo militar cresceu gigantescamente a miséria brasileira, nem só pelo jeito de governar, mas empurrada pelo êxodo rural. Enquanto a mecanização das lavouras e pomares avançava financiada pelo Banco do Brasil e BNDES, as sobras humanas do campo vinham engrossar as favelas urbanas. No Rio de Janeiro uma enorme contribuição à pobreza foi, também, a transferência da capital federal para Brasília.

Com as igrejas vazias porque os pobres urbanos eram cooptados para as religiões evangélicas, em vertiginoso crescimento, a Igreja Católica brasileira e a latino-americana, tomaram posição em favor dos pobres. Boa parte dos bispos, padres, diáconos e coordenadores das pastorais foram trabalhar junto a pobreza (Pastorais da Saúde, da Educação, Operária e da Terra), através das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs): uma escola a la Paulo Freire com o reforço do construtivismo do francês Jean Piaget.

Abro um parêntese para destacar a doutrina (por assim dizer) de Piaget: sua abordagem é construtivista principalmente porque ajuda a pensar o conhecimento científico na perspectiva da criança ou daquele que (embora adulto) aprende. O seu estudo é principalmente centrado em compreender como o aprendiz passa de um estado de menor conhecimento a outro de maior conhecimento, o que está intimamente relacionado com o desenvolvimento pessoal do indivíduo. Piaget chama de epistemologia a sua teoria do conhecimento porque está centralizada no conhecimento científico. E também de genética porque, além de atentar-se no como é possível alcançar o conhecimento - ele estuda as condições necessárias para que o aprendiz chegue na fase adulta possível do conhecimento. Disto, surge o termo em Piaget “epistemologia genética ou psicogenética”. O aprendizado vai além da mente, mexe com a consciência.

Enquanto, na escola oficial, era proibido falar de política (mesmo que não partidária, mas esclarecedora, reveladora, criadora de consciência), porque já não se ensinava EMC (Educação Moral e Cívica) e nem OSPB (Organização Social-Política do Brasil), nos porões e até debaixo de árvores as CEBs ensinavam os brasileiros refletir sua realidade histórica. Retiradas do currículo oficial através de uma nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a EMC e a OSPB eram maximizadas nos ensinamentos das CEBs. Aquele rompante petista e radical inicial de bater nos governantes cobrando moralidade e transparência, vem da origem do partido, virtude que foi mais tarde abandonada e entregue a outras legendas dissidentes do PT.

Todo poder corrompe e as reeleições corrompem muito mais

Veja leitor(a) como as coisas se passam: os assuntos levados aos “alfabetizandos” políticos, pelas CEBs, eram de formação política e abriam a “caixa preta” da história sociopolítica do Brasil, pintando até com cores mais fortes e dramáticas. Os brasileiros excluídos e roubados da educação, semianalfabetos, trabalhadores rurais e urbanos, suas esposas e filhos tinham a informação de que historicamente os mandantes, no Brasil, governaram para os ricos, eram homens abastados (excluídas as mulheres) que tinham o direito do voto; eram seus filhos que podiam frequentar os melhores colégios, geralmente particulares (enquanto os colégios públicos continuavam medíocres); e eram os filhos dos ricos que frequentavam os cursos superiores; eram esses mesmos que assumiam os cargos de poder no legislativo, executivo e judiciário; eram esses mesmos que abriam empresas e controlavam os salários (baixos); eram exatamente esses que permaneceram no poder no Brasil por exatos 500 anos.

Na Pastoral da Terra era ensinado sem reservas que as terras desse imenso Brasil, até o fim do Império (que coincidiu com o fim da escravidão), não eram vendidas e sim doadas pelo imperador àqueles que se comprometessem manter a ordem nas vilas e fronteiras, os chamados coronéis rurais.

A dedução dos grupos de reflexão (assim eram chamados os aprendizes de um mesmo núcleo) amadureceu pela necessidade de existir um partido estruturado de baixo para cima. Do contrário, os excluídos jamais chegariam ao poder. E isso aconteceu com o nascimento do PT. Mas o controle do partido acabou nas mãos de uma elite burguesa. Por que? Pela inexistência de escolaridade o comando fluiu para as mãos daqueles que tinham curso superior, logo, filhos de pais abastados, aqueles que se revoltam e caem longe do pé.   

Voltemos às origens. Veja que coisa brutal transferida para a cabeça dessas criaturas alcançadas pela Teologia da Libertação, uma criação doutrinária do excepcional padre Leonardo Boff, um catarinense de Concórdia. A libertação nas falas de Jesus teria de ser o principal programa da Igreja Cristã, mas historicamente não foi e não é. Para ser uma mente livre, um corpo livre, uma alma livre (da escravidão) o ser humano tem de ter cidadania, saber votar, saber escolher os representantes que fazem as leis, leis que irão ser executadas pelos governos, leis que passarão a ser as bases dos julgamentos pelos magistrados e tribunais. Na paralela e com os mesmos objetivos (ou quase) surge em Campinas, SP, a Pedagogia da Libertação, um trabalho do nosso Paulo Freire, de volta ao Brasil.

Paulo Freire delineou uma Pedagogia da Libertação, intimamente relacionada com a visão marxista do Terceiro Mundo e das consideradas classes oprimidas na tentativa de elucidá-las e conscientizá-las politicamente. As suas maiores contribuições foram no campo da educação popular para a alfabetização e a conscientização política de jovens e adultos operários, chegando a influenciar em movimentos como os das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

Pronto, os nomes de Jesus e de Marx estavam colocados do mesmo lado. Os modelos governamentais ditadura e democracia estavam nivelados. Gnósticos, agnósticos e ateus rasgavam as diferenças. Marx era ateu e os governos comunistas derivados de sua doutrina foram totalitários e mandaram fechar as igrejas, os veículos de comunicação livres e os tribunais colegiados de justiça. A ditadura é mais velha que a democracia; esta nasceu como evolução da política dos homens. Voltar à ditadura era involuir, andar para trás. Jesus combatia os ditadores e, embora não tenha usado a palavra democracia – desconhecida pelos judeus – pregava o respeito, a moral, a ética, o humanismo, valores inerentes à democracia, logo, era um democrata. Aonde essas duas linhas poderiam concordar e complementar-se?

Os cinco séculos de poder viciado manipulado por autoritários representantes do mais absurdo patrimonialismo herdado de reis e súditos da península ibérica, abriram na América Latina os mais profundos fossos entre ricos e pobres. E ao fechar-se, no Brasil, o ciclo de 502 anos de poder da direita, com apenas um pequeno ensaio de menos de três anos, com Jango, a esquerda iria experimentar uma sucessão de reeleições e mandatos, suficientes para derrogar a flama ética de honradez e transparência “vendida” pelo PT. Também um crime de lesa pátria. 

Quantas respostas ainda aguardam na fila das elucidações em próximas postagens.

Jesus e Marx no mesmo partido?

Creio que nem Boff e nem Freire foram ao fundo das consequências de suas teses. O primeiro, filho de agricultores e padre de uma igreja capitalista, jamais poderia, de origem, ser um comunista, mas como a fruta pode cair longe do pé, foi tomado como tal quando se aliou ao Partido dos Trabalhadores, um partido comunista. O segundo, um pernambucano da gema, de classe média rural, com ascendentes nas ricas famílias donas de engenhos e escravagistas, os Freire, talvez fosse mais uma fruta caída longe do pé. E não era um cristão convicto.

Então, vamos lá, um padre e um comunista se postam à frente de milhões de operários rurais e urbanos e trazem Jesus e Marx lado a lado como gurus de uma revolução educadora-evangelizadora política: os pobres, os excluídos, os oprimidos querem o poder para se libertarem. Liberdade quanto à opressão exercida pelos séculos de capitalismo selvagem, comandado por fazendeiros, estancieiros, empresários, políticos, juízes, membros das forças policiais e armadas e até pela Igreja.

No entanto, a obra de Paulo Freire não se limita a esses campos, tendo eventualmente alcance mais amplo, pelo menos para a tradição de educação marxista, que incorpora o conceito básico de que não existe educação neutra. Segundo a visão de Freire, todo ato de educação é um ato político. E as CEBs não deixavam por menos. Assim deram causa ao nascimento do MST e do PT, como instrumentos de poder (dos pobres) para libertação, trabalho que se realizado à luz da doutrina cristã teria de ser pacífica, amorosa, solidária. Mas, a partir dos treinamentos realizados em Cuba, a militância de ambos passou a ser agressiva e truculenta. Se não vai no protesto, no grito, no bandeiraço, vai na pancadaria, na quebradeira. Em mais de uma oportunidade deixou transparecer que se for preciso eliminar alguém para salvar a reputação da instituição, ferra; com ferro quente e com ferro frio.

É pena que os exemplos de libertação trazidos aos novos membros da aprendizagem petista e emessetista tenham sido os exemplos de Cuba e mais recentemente da Venezuela, onde não há democracia e onde se prende, se condena e se mata sem respeito aos direitos civis e sem nenhuma conotação com a cristandade. Certamente, isso não é libertação. Nunca foi. Isso é atraso.

Não ficaria completa a informação sem dizer que as CEBs não existem mais. Depois que o padre Leonardo Boff foi excluído da Igreja, a CNBB preservou apenas as pastorais, mas elas não são mais instrumentos políticos e sim pastorais limitados à fé. Em compensação a escola cubana de militância e guerrilha abriu filiais no Brasil, em vários locais. Ali são recebidos novatos que tenham potencial para serem algo parecido com o que foi Lula e ao que é Stédile ou José Rainha. Durante meses eles são adestrados e conscientizados para aquilo que é o objetivo do MST e do PT, o poder.

Como educar-libertar sem castrar

Não é fácil, nem breve preparar uma população para o exercício da democracia plena com inclusão efetiva após 500 anos de poder sem o necessário compromisso com democracia e inclusão e nem pela recente inclusão via paternalismo. Fácil é o democratismo que tem apenas a urna como instrumento. Fácil é ensinar o semialfabetizado assinar o nome na cédula de votação e digitar uma série de números no teclado de uma urna. No democratismo, o povo apenas referenda o que se trama nos gabinetes dos diretórios partidários. No democratismo o povo é obrigado a escolher entre os candidatos postos – se souber discernir – aquele que seja menos ruim para sufragar. Nesse democratismo, os candidatos compram seus mandatos e do povo só querem mesmo o voto, o número de sufrágios que lhes garantam o mandato. Isso não é democracia.

A democracia é, tem de ser, mais que isso, melhor que isso. Mas, hoje, quem ainda aplica traços democráticos em algumas de suas instâncias de deliberação partidárias é o PT, é o MST. Na base da intimidação, mas fazem. Mas, o PT como governo não se comprometeu com o povo. Comprometeu-se com seus filiados e militantes e usou o povo do mesmo jeito que os coronéis rurais faziam ao tempo do voto a cabresto. Como governo, o PT não apresentou nada diferente para transformar de vez para sempre a realidade dos pobres. Não foi além do Bolsa Família que, aliás, não criou, ampliou.

Os governos comunistas não são democráticos, são populistas, são clientelistas, são paternalistas, trocam favores por obediência, privilégios por apoios e exercem pressão e terrorismo sobre a desobediência e a oposição. Com o PT não foi muito diferente.

Lutar pelos pobres, educá-los, emancipá-los, enriquecê-los, certamente, é uma pedagogia de libertação e uma teologia de libertação que têm as bênçãos do primeiro maior filósofo da Libertação, Jesus.

Um socialismo próximo da perfeição não pode abdicar da solidariedade, se não o monstro tem a cara mascarada daquele que dá esmolas, daquele que dá por que dar alivia-lhe as dores de consciência. Dá porque em contrapartida espera que o esmoleiro não o incomode e se torne útil. Esta foi a fórmula cubana, venezuelana e brasileira de socialismo sem compromisso com as transformações sociais, em que a elite de poder legisla a entrega da esmola através da Caixa Econômica Federal, enquanto a elite de poder se abasta nos cargos prenhes de corrupção.

A esmola mensal enviada ao esmoleiro não pede contrapartida libertadora. Não copia Jesus. Não copia Freire. O necessitado, analfabeto ou quase, sem qualificação profissional, parece apto a gerar mais filhos. E vai ficar à sombra, esperando a chuva chegar para poder beber água e copulando com sua(s) esposa(s) para apresentar mais uma certidão ao mecenas, uma nova credencial para aumento de mesada. A cada pouco nasce mais um miserável na estatística do IBGE.

E o pior, o mais terrível nisso tudo: o militante do PT ou do MST, nas vésperas do próximo pleito irá bater à porta de sua choupana, erguerá o dedo e ameaçará: se não votar, perderemos; se perdermos, acabará a mesada.

Também é terrível: com os reaizinhos no bolso o esmoleiro já nem planta sua hortinha ou lavourinha e nem cria seu bichinho, pois vai ao mercado mais próximo e compra tudo o que precisa.

Fazendo uma análise acabada: não houve e não há educação para a libertação; não há pedagogia de libertação; nem teologia de libertação; ao contrário, reforçou-se a elite de poder, agora mais cruel que antes, agora mais irada, que exerce opressão e intimidação sobre os miseráveis sem futuro, um papel muito próximo ao papel dos capitães do mato da escravidão. A militância paga – capitã do mato – garante voto na urna, garante presença no protesto, garante barulho na audiência pública e está a caminho de, através dos conselhos populares, substituir o poder legislativo, bem como se faz em Cuba.

E a elite, aquela que já estudava, cursava o terceiro grau, lia Marx, tinha discurso para a roda dos bares, essa está feliz, o partidão está no poder, sobram cargos em comissão, a burguesia (que ela acha que não é), a outra burguesia teve de aceitar “os nossos postulados” vindos de fora, imperialistas tanto quanto o capital vindo de fora. O nacionalismo acabou.

Enquanto isso, a educação brasileira revela-se a pior dentre os medíocres. Não temos um plano pedagógico, pagamos mal os professores, as edificações estão caindo aos pedaços, a qualificação do trabalhador é sofrível, não temos uma escola para empreendedores, o sonho dos jovens é entrar para o serviço público, garantir uma aposentadoria integral e trabalhar o menos possível ou se mandar para fora do País.

Se for diferente do que está narrado, me chuta o traseiro, nunca mais volte a acessar este blog. Eu mereço. Claro mereço que você nunca abandone o blog.

Ah, me desculpe porque não vou falar do aparelhamento do Estado, da corrupção, da volta da inflação, da volta do desemprego. Isso é chato demais. Fica pra outra série.

Mas, não pense que a série acaba aqui. Ainda falta mais um capítulo tratando da ignorância, da inaptidão, da inapetência, da indolência e da exclusão.

As elites (burras) de poder

Iniciamos esta série escrevendo que em nenhuma cultura (que se preze) do mundo a educação fica em segundo plano. Resgatamos um jargão, hoje meio esquecido, de que um país se faz com homens e livros e, naturalmente, com mulheres e livros.

Mas, lamentamos que essa parece não ter sido a preocupação dos governos e, por extensão, dos políticos e dos eleitores do Brasil. Não só do Brasil. Temos uma legião de países fornecendo migrantes e imigrantes, exilados e fugitivos em direção daqueles que cuidaram – embora não como deveriam cuidar – da preparação de seus filhos para a afirmação, para a dignidade.

Vamos recordar que o atraso tecnológico se dá com o analfabetismo e com a pobreza. Foi assim que o Brasil foi atropelado na década de 1950 pela mecanização das lavouras. A exuberante mão de obra da enxada, do saraquá, da foicinha de corte, do machado, da picareta, da pá, foi dispensada com a chegada das roçadeiras, das plantadeiras, das ceifadeiras, das pás carregadeiras, das motosserras, etc. O que fizemos com o excedente de trabalhadores excluídos? Uma parte deixamos vir para as periferias em busca de empregos (que não haviam) e nem tinham qualificação para serviços urbanos. Grande parte deles se transformou em miseráveis e as consequências todas disso eu nem quero abordar aqui, mas você sabe que vai parar na prostituição, nas drogas, na violência. A outra parte nós exportamos para o Moto Grosso, Amazônia, Paraguai, Bolívia, Bahia, etc. Estes, naturalmente não caíram na miséria, mas causaram um grande estrago ao meio-ambiente do País ao destruírem as florestas para implantar suas lavouras e pastagens. Houve, aqui, uma seleção natural e você sabe que os migrantes que foram para o Norte e Centro-Oeste tinham alguma escolaridade, algum capital, alguma qualificação. E foram embora de suas regiões de origem não como paus-de-arara das estórias lamentáveis que conhecemos, mas foram porque tinham da aptidão, apetência e estavam livres da indolência. Alguns fracassaram, mas 80% ou mais deram certo. Pagamos um alto preço ecológico com a abertura daquelas fronteiras agrícolas, mas a perda daquelas vidas seria, por certo, um preço mais alto.

O segundo ato dessa história nós iríamos viver quando os filhos de brasileiros se mandaram para outros países, notadamente Estados Unidos, para disputar empregos de quinta categoria.

O terceiro ato dessa história nós estamos vivendo agora, quando haitianos e outros aportam as nossas fronteiras a procura de trabalho e comida. Desde a África e Oriente Médio chegam à Europa milhares de refugiados tocados para fora de seus países não só pela fome e pela falta de trabalho, mas também pelas guerrilhas; guerrilhas que justamente objetivam o poder para mudar a realidade de miséria que ali está.

Lá, como aqui, as elites burras de poder deixam escapar a verdadeira chance de construção de uma nação forte quando condenam ao abandono grande parte de seus concidadãos.

A Europa, os Estados Unidos, o Canadá, a Inglaterra, a França, os Países Baixos, a Austrália, a África do Sul (e quase também o Chile) são, hoje, as nações mais prósperas para onde se voltam os olhos imigrantes. Mas eles chegam também para a Itália, para a Grécia, para a Espanha, devido a proximidade para aqueles que atravessam o Mediterrâneo.

O modelo de economia exercido nos países de ponta só funciona com educação plena, com emprego abundante, com estabilidade de governo. Os países que “exportam” exilados, foragidos, flagelados, exportam por tabela sua miséria, sua péssima escola, suas instabilidades institucionais, seus desgovernos e até a sua violência e mandam junto com seus descartes humanos a ignorância, a inaptidão, a inapetência, a indolência, e que os torna excluídos no país natal e continuarão exclusos dos processos de desenvolvimento no país para onde forem.

Esse não é um problema apenas para aqueles que recebem os desterrados, o problema é, muito mais, dos países de origem, o problema é de toda sociedade da Terra.

Esta consciência tem de juntar-se ao meio ambiente, que veio na esteira do choque de humanismo que tivemos quando as mulheres de ergueram e passaram a pedir respeito e de imediato o meio ambiente passou a ser também foco. Agora chegou a vez do analfabetismo, da ignorância, da inaptidão, a inapetência e da indolência entrarem para a lista dos males que queremos combater.

Só assim os jovens do mundo todo estarão livres de serem roubados pelos governos de seus próprios países através da falta de uma Educação Libertadora.

E os passos iniciais a serem dados por todos nós é cobrar das elites (burras) de poder um direcionamento para a Educação diferente do que fizemos até agora. O ensino básico mal e mal alfabetiza; o ensino médio não é profissionalizante; o terceiro grau ensina empregados.

Agora, sim, fim do artigo.    

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