sábado, 13 de junho de 2015

1798-Quem acha que nao vai morrer?


A morte na opção de Smith e de Sachs

Introdução

O melhor dos observadores já percebeu que lidar com a vida e com a morte não nos compete olimpicamente. Podemos atalhar certos caminhos da vida evitando a concepção através de inúmeras práticas contraceptivas e podemos interromper a vida através de inúmeras práticas suicidas ou assassinas, desde o aborto até quando, mais tarde, alguém se candidate a ceifar a própria vida ou a vida de outrem. Mas, não nos é fácil determinar o momento da concepção natural e nem o momento da morte natural. Essas duas ações parecem reservadas ao Autor da Vida através de suas leis. O Autor da Vida estabelece quando conceder e quando interromper a andança das almas pelo universo biológico. Isto, para falar apenas do mergulho da alma no corpo físico, eis que preliminarmente havemos de reconhecer que a própria existência das almas é um pressuposto do mesmo Outorgador.

Mas, de uma situação não podemos fugir: morrer. Diz-se morrer para o ato de abandonar o corpo biológico em seu estado pré-deteriorado. E fomos educados para ter medo de morrer. Tivemos tantas experiências de guerras e desavenças sempre interrompendo o curso da vida, que acabamos por odiar a morte e os seus causadores, sejam pessoas ou situações, como doenças e acidentes. Em sociedades onde não se mata, morre-se com larga idade e a morte é sempre bem-vinda, entendida como a mesma naturalidade do nascimento, entendido este como a maturidade e o fim da gestação.

Mas, como não há outra alternativa a todos quantos nasceram, muitos ficam a conjecturar como gostariam de morrer. Conhecemos muitos jeitos de morrer e a morte digna será, sempre, a mais desejada. Muitos gostariam de morrer dormindo; de repente, acometidos por ataques. Mas, há três situações opostas em que a morte é colocada em cheque: (1) repentina, não nos permitiria despedir-nos dos seres que amamos; (2) prolongada, levaria à exaustão os seres amados aguardando e envolvendo-se com o momento decisivo; (3) nem repentina nem prolongada, de forma a permitir as despedidas.

Pode-se optar por como morrer?

Se você pudesse escolher como gostaria de morrer, que tipo de morte escolheria? Para facilitar sua decisão, eis quatro causas mais comuns de morte (eu espero que você não opte por morrer jovem):

1) Quedas e acidentes.

2) Demência, depois dos 80 ou 90 anos.

3) Falência de órgãos.

4) Câncer.

Mas, isso não responde à pergunta da frase inicial. Meus familiares já me disseram que a melhor morte é acordar morto, isto é, morrer dormindo.

O médico Richard Smith, ex-editor do British Journal of Medicine, criou, em janeiro, um pequeno alvoroço, na Inglaterra, ao afirmar que, dos quatro tipos (de morte) acima, o câncer é de longe a opção mais digna. “A morte por câncer é a melhor”, diz ele. “Você pode dizer adeus, refletir sobre sua vida, deixar últimas mensagens, talvez visitar lugares especiais pela última vez, ouvir suas músicas favoritas, ler poemas queridos, e preparar, de acordo com suas crenças, o encontro com seu criador, ou desfrutar esquecimento eterno”.

É a oportunidade que o escritor e neurologista Oiver Sachs está aproveitando. Num artigo comovente no New York Times, dias atrás, ele avisa a todos que deve morrer em breve, pois foi diagnosticado com câncer terminal no fígado, e agradece pela vida que teve. O texto é de chorar:

“Não posso negar que estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Eu amei e fui amado; doei muito e retribuí; li e viajei e refleti e escrevi. Eu tive uma boa relação com o mundo, a relação especial de escritores e leitores. Acima de tudo, eu fui uma criatura sensível, um animal pensante neste planeta maravilhoso, e isso já é um enorme privilégio e aventura”.

Uma despedida como essa não seria possível em outros tipos de morte daqueles relacionados no início deste texto e nem mesmo no caso da morte durante o sono. Quem é vítima de um acidente tem uma morte repentina, não pode dar adeus ou investir numa conciliação ou reconciliação há muito tempo adiada. A morte por demência costuma chegar só depois de longos anos depois da perda total de consciência e aí nem mesmo pensar direito o paciente pode fazer. A falência de órgãos causa uma morte hospitalar, rodeada de médicos, tubos, remédios horríveis, apreensão continuada, ansiedade. Qual será o dia? Já dá para encomendar os funerais? Os amigos e familiares vêm visitar e não sabem o que falar ao redor do moribundo. Uma das piores sensações do ser humano é perceber que está sendo alvo de piedade. Toda a autoestima, aquele orgulhozinho que todo formando extravasa quando recebe o diploma, vai para o espaço. Até o torcedor do mais pobre dos times da série A fica em alta quando seu preferido não é rebaixado e melhor ainda quando ganha de um dos grandes. Imagina quando se torna campeão! Mas, na segunda-feira pela manhã, time rebaixado, dia do vencimento das principais contas do mês, falta dinheiro na conta, está chovendo, o trânsito está uma lesma, o patrão não perdoa atrasos, pela janela da viatura parada no congestionamento avista a bandeira do outro time, que comemora a permanência na série A, toca o celular, é o filho comunicando que a empresa onde é estagiário o dispensou e agora ouve pelo rádio que o seu candidato a deputado acaba de ser preso na Operação Lava a Jato, envolvido em maracutaias... O que mais? Se puser mais aqui haverá infarto do miocárdio e a morte estará entre uma outra categoria que também mata muito, não incluída na lista de Smith: diagnósticos que derivam do mau funcionamento do sistema cardíaco, cerebral e pulmonar por conta da mesma causa: estresse, obesidade, ociosidade, má alimentação, tabagismo, alcoolismo...

Infarto? A dor é tanta, o estresse se multiplica e nem dá tempo de dizer tchau para as pessoas mais queridas, tamanho é o desejo que aquilo acabe logo, se não pela ação dos socorristas médicos e paramédicos, ao menos, pela perda dos sentidos. E, como se sabe, quando perdemos os sentidos, há uma grande probabilidade de que tenha sido interrompida a irrigação sanguínea no cérebro e... o resto você já sabe.

Esse sofrimento todo por conta da perda da estima. O ser humano é movido por um ou vários impulsos obra(s) do desejo, da ambição, da paixão, do sonho. Ao morrerem desejos, ambições, paixões, sonhos, entramos na linha negativa da vida e costumamos achar que não valemos nada. Isso, claro, é uma ofensa pra mamãe, pro papai, pra Deus, mas é assim que começamos morrer de forma ainda mais cruel que acidente, queda, suicídio, demência, falência dos órgãos, câncer. Perdão, na sequência de uma perda de dignidade como a relatada, cabe esperar por um diagnóstico desagradável e tão ameaçador quanto às situações relatadas.

Voltando para Smith e Sachs, sobra o câncer terminal como a doença dos sonhos. “Fique longe de oncologistas superambiciosos”, diz o médico Smith, “e vamos parar de gastar bilhões tentando curar o câncer, pois isso provavelmente nos levará a uma morte muito mais horrível”.

Quem diria: o câncer, para muita gente uma sentença, uma prova inequívoca da má sorte, talvez seja nossa melhor opção para morrer.

Mais uma vez, perdão. Isso tudo vale para quem é fatalista, vive por viver e tem medo de morrer. A morte é uma coisa tão certa quanto nascer, claro, para quem saiu do ventre materno ou mesmo acabou sua contagem ali mesmo.

Aquele ou aquela que sabe que vai morrer, aquele ou aquela que está convencido(a) de que o cemitério não será sua última morada (agora já existe também a opção da cremação e do congelamento), aquele ou aquela que pensa na eternidade, no retorno a outras vidas ou mesmo com apenas esta, são pessoas que a qualquer tempo precisam ser despertadas para pensar na próxima vida e não apenas nesta aqui. O que eu quero ser depois desta vida?

Quanto tempo você quer?

Um dos mais extraordinários mestres da dimensão menos conhecida do ser humano, o subconsciente, foi Carl Gustav Jung. Chegou a ser incompreendido entre os de sua classe porque nos últimos 15 anos de sua vida tornou-se um espiritualista, deu mostras de ser médium, lidou com coisas profundas, conversou com nazistas, entendeu o que havia no íntimo daquela fatia social e chegou, mesmo, a ser acusado de nazista.

Não era um nazista, mas compreendia como ninguém o íntimo dos nazistas. Cinquenta anos depois dos estragos nazistas, melhor dizendo, das lições deixadas por eles, os primeiros novos trabalhos (depois de Jung) começam a aparecer e trazem a clareza de compreender o que se passa no futebol, quando apenas o meu time é bom, ou na fé, quando apenas a minha é verdadeira, ou na política quando apenas o meu partido é o certo. Não vai distância considerável disso para com o Estado Islâmico e em que o nazismo de Hitler foi um episódio jamais isolado.

Temos aí um sintoma: olhando pela janela, alguém vê passarem pela rua pessoas malvestidas, de chinelo de dedo ou algo parecido, cabelo desalinhado, com alguns dentes a menos na boca e, em geral, de cor morena ou negra, e o que lhe vem à mente é que o seu mundo é outro, não é o mesmo mundo daqueles transeuntes. Esta separatividade, eu e o outro; o meu é melhor; eu sou superior; quem não está comigo, está contra mim; tudo se inscreve num princípio norteador do sentimento que nos passam os nazistas e os membros do Estado Islâmico, apenas, com a diferença: em conhecidos casos um pouquinho mais intenso, mas todo este sentimento, tem a mesma fonte, é o mesmo sentimento, um sentimento que pode, entre nós, iniciar na família, na escola, nas empresas, nos estádios, nos grupos ou classes sociais, pode ganhar vitamina, pode ser corrigido, mas ele se alimenta do sangue do monstro que Jung chamou de Abraxas.

Já é conhecida a estória dos dois lobos, o bom e o mau, que trazemos conosco. Sabemos que um deles vencerá. Àquele que você alimentar, vencerá. E quando, ao longo dos séculos, a estimulação foi para reforçar a separação entre batizados e pagãos, nobres e sem nobreza, escravos e senhores, senhores e vassalos, quem sai, saiu, sairá ganhando é, sem dúvida, o lobo mau.

Quando alguém vê um nordestino, um gaúcho, um manezinho da Ilha, um argentino, um morador de rua, um petralha, um coxinha, um viado, uma lésbica, com repugnância, com nojo, com aversão, sente-se incomodado, evita, repele, agride, é porque “aquele/aquela” está dentro do padrão detestável e vai para o círculo da separatividade. Desse estágio à ação de retaliação demonstrada pelos islâmicos degoladores, a distância é muito pequena.

Jung percebeu isso quando mergulhou no oceano que representa o subconsciente humano e voltou de lá falando num tal de Abraxas, o monstro que somos a caminho da reconciliação do mal e do bem, que é quando o ser humano derrota seu ego e descobre que o monstro pode ser monstruosamente bom. Nessa senda ele encontrou o espírito nazista.

Um teste revelador

O educador percebera num grupo de alunos uma tendência por criticar e ridicularizar certos tipos humanos como os que nos referimos atrás (petralha, coxinha, viado, lésbica, etc.), isso que mais recentemente é chamado de “bulling” e propôs a eles um laboratório comportamental. Aceita a proposta, começou por perguntar a eles se aceitavam transformar-se em neonazistas. De jeito nenhum, temos ojeriza àquela gente, foi a uníssona resposta. Então vamos antes estudar os nazistas. Depois de 50 minutos de análise, foi possível a todos eles entenderem o que era o espírito nazista. E o educador arrematou: em que vocês são diferentes deles? Resposta: faltava apenas pegar em armas e partir para a luta.

Quanto tempo você leitor, você leitora, acha que precisa para domesticar-se e declarar-se livre das monstruosidades do Abraxas pessoal? Esse é o tempo que você levará indo e vindo, vida após vida.

Então, nisso, a morte deixa de ser apavorante porque representa o tempo que ficaremos viajando no trem da vida ou na estação de passageiros a espera de novo embarque. 

Enquanto você faz seus planos (e o faça sem ajuda de ninguém) porque aqui não cabe nenhuma ajuda ou interferência externa, eu vou adiante a procura do próximo tema que contribua para a nossa maioridade espiritual.

Nenhum comentário:

Postar um comentário