sábado, 27 de junho de 2015

1800-O concerto para a harmonia da vida


 
A buscada afinação entre cordas, metais e percussão

Introdução

Nós humanos, somos seres, ao mesmo tempo, completos e complexos. Somos transitórios, mutantes. Somos energéticos. Sensíveis. Evolutivos. Os seres de hoje pela manhã, serão diferentes hoje à noite. A vida é assim. O tempo modifica-nos. Também não somos completamente exatos, apesar de sermos matemáticos. Somos uma mistura de tudo um pouco: somos corpo, somos mente, somos espírito, somos emoções, somos intelecto, somos consciência. À mesa de refeições, somos corpo. Lendo um bom livro, somos mente. Dormindo, somos espírito. Diante da pessoa querida, somos emoção. Ao dormir, permitimos que nosso espírito se desprenda da “cadeia” exercida pelos nossos sentidos e “viaje”. Ele vai e retorna com impressões que, às vezes, registramos em sonhos, outros vezes não. No geral, ficamos intrigados, pois são sonhos extras, de difícil interpretação. Isso ocorre quando nosso corpo, nossa mente e nosso espírito estão fora da afinação e pior ainda quando atrapalhados por nossas convulsões atabalhoadas.

Importa, para esta postagem, analisar o ser humano a partir de afinação energética comparado a uma filarmônica. Você acha que isso seria possível?

Se sim ou se não, de qualquer forma, você é nosso(a) convidadado(a) para esta imersão num assunto que pode ser palpitante.

Cadê a filarmônica que estava aqui?

Diz o maestro dos maestros: percutimos com o corpo, trombeteamos com a mente e filarmonizamos com o espírito, afinamos e desafinamos com as emoções e com as tempestades mentais.  Nestes múltiplos campos (ou dimensões), quando corretamente integrados, temos a harmonia de nosso concerto para a vida. Contudo, os seus desvios podem nos afastar da nossa essência. É quando quebramos a naturalidade de nosso ser total. E as quebras tem sempre sabor amargo.

Quem cultua somente o corpo como um fim, apega-se a algo que não somos unicamente nós. São os corpos esculturais, só esculturais, só de fachada e prazer, nada mais que isso. E veja que no plano do prazer podem estar também os corpos deformados pelo excesso de comida e de bebida. Podem estar os corpos infectados pela prática do sexo inseguro. Pode ser por coisa ainda pior.

É claro que o corpo é o Lar da Alma e devemos cuidar bem dele, mas nunca se apegar a parte física da matéria e achar que somos só corpo. Vamos muito além disso. O Lar da Alma não fica só na aparência, só na casca.

Quem se apega demais à mente, vive exclusivamente para os intentos e as conquistas mentais. Dá valor excessivo aos diplomas e ao conhecimento, à curiosidade e nem sempre por aquilo que edifica. Não que não tenham valor, mas conhecimento sem vivência não tem sentido. “Mais vale um grama de sabedoria do que uma tonelada de conhecimento”, comenta o vice-reitor da Unipaz, Roberto Crema.

Nos dias atuais, nós corremos o risco de conhecermos muito e não sabermos praticamente nada. Somos analfabetos de nós mesmos. Fomos à lua e ainda não aterrissamos em nossos corações. A diferença básica entre conhecimento e sabedoria é a utilidade de seu conteúdo.

Para que servem as emoções?

Vamos primeiro às emoções antes de enfocar o Espírito. Quanta gente hoje fica a enaltecer o que chama de adrenalina para uma espécie de gozo emocional, uma experiência de risco, um desafio a si mesmo e não raro leva o ato ao extremo do doping: bebida, maconha, cocaína, craque, LSD, etc. Parece tão absurdo sepultar um ideal, um estado saudável, alguns sonhos, em troca de uma loucurinha de alguns minutos em companhia da velocidade, do êxtase, do desafio, da aposta, do inusitado, do aplauso efêmero...

Uma emoção pode ser comparada a uma pedra atirada sobre um pequeno lago. Ela não apenas provocará ondas que sacudirão a superfície. Ela irá depositar-se no fundo onde o lodo será remexido e fará turvar-se a estrutura da água. Poucas são as emoções que não remexem o fundo do lago de nossas vibrações emocionais. Até o amor, chamado amor cego, nos impede de ver muitas verdades sobre a pessoa que achamos amar.

Água limpa, visão ultra

Ficaremos um pouquinho mais na metáfora do lago e de seu conteúdo. Mas acrescentaremos uma segunda e uma terceira figura: o intelecto, que não vê direito quando a água está turva. E, por último, mas nem por isso por ser menos importante, vem o Ser Espiritual. Por ele e com ele estabelecemos a ligação transcendental com o universo, com um Ser Supremo, com uma Energia Natural, com Aquele que É, com uma Grande Força, chamada de Deus. Todos temos esta potencialidade de ligação dentro de nós.

Já houve o tempo em que o mais importante era quem tinha um QF (Quociente de Força) para produzir com os braços. Mais tarde um pouco passou a ser um bom QI (Quociente de Inteligência) para produzir pensando. Também já passou a época em que além do QI, também importava o QE (Quociente Emocional), pois era necessário produzir e encantar. Agora, o valor está naquele que agregou a todos os outros Quês o QS Quociente Spiritual, para produzir, pensar, encantar(-se) e ser feliz agora e sempre.

O que é normal no ser humano

É aceito entre os grandes mestres que um Ser Humano harmônico não adoece, não se cansa, não se desmotiva, não se suicida. Para isso, é necessária uma vida simples e baseada em valores que se completam sobre os quatro esteios: mente, corpo, espírito e emoção. E olha que o ser humano não nasce assim, pronto e acabado. No dizer de Gurdjief, o ser humano se forma, se cria, se transforma no decorrer de sua existência. Por isso estamos aqui, para nos transformamos em verdadeiros seres humanos.

Um ser humano verdadeiro não se droga; um ser humano não tem vícios degradantes; um ser humano não mata, nem se mata; um ser humano não faz guerra; um ser humano não é mesquinho; um ser humano possui a autoestima verdadeira e sincera, nem acima e nem abaixo do seu mérito. O verdadeiro e esperado ser humano (na concepção elevada), não mente, não inventa coisas que não serviriam a ninguém; não maquina o mal; tem de ser capaz de receber ele próprio de bom grado todas as suas criações. Aliás, só terá criação naquilo que ele próprio aproveite para sua elevação. A vida em desarmonia do quadripé “mente, corpo, emoção e espírito” além de não nos conduzir à Essência do Eu, nos afasta do verdadeiro propósito da nossa humanidade. Centrados no Corpo, somos só animais; centrados na Mente, somos só racionais; centrados nas Emoções, somos só instabilidade; centrados no Espírito, somos só divinos. A dedicação exclusiva a apenas uma dessas dimensões anulará as demais.

E o Ego é músico?

Você lembra que nós propomos comparar o ser humano a uma filarmônica? Pois, então. O ego toca alguma coisa?

O Eu não é o ego. O ego é um script implantado e/ou desenvolvido a partir do espetáculo que o viver permitiu. Eu e você temos a tendência de seguir alienadamente sem questionar o roteiro do script. O ego é mental, decorado, implantado, com perversão do instinto animal para satisfazer ene objetivos que nem sempre são nossos, pertencem às convenções. Nele vivemos pra platéia, para as palmas, repetimos o chipanzé do circo, o cavalo do padeiro, em troca verdadeiramente de bananas ou milho. Só externo, estômago e sexo. E o íntimo? Bem, você diria: o sexo entra ou não entra nos conteúdos do íntimo? Sim, dependendo do como. Um sexo com significação sagrada para deleite dos envolvidos, compromissados com o que demanda desde aquele ato, é um caminho. Existem outros que são como beber um copo d’água para aplacar uma fortuita sede.

O ego não é o Eu. É sua sombra e na maioria das vezes seu opositor. O Eu é a verdade, é a Essência da Alma. É o coração em harmonia com a razão. São os dois em harmonia com o corpo. É cada um de nós saber qual o seu propósito nesta existência.

Muitos são os caminhos do equilíbrio, todos com seus valores. Busquemos o nosso. Afinal de contas, só encontramos o que procuramos e mesmo assim somos surpreendidos por achados que não nos pertencem. Quando encontramos o que não era procurado, tendemos passar batidos sem ver. E se dedicamos mais tempo ao fútil e ao absurdo, nossas descobertas se inscreverão como futilidades absurdas. Se você e eu não buscarmos o bem, o útil e o belo, nossas descobertas estarão fadadas ao registro do mal, do inútil e do escabroso. Nunca foi tão verdadeira a frase “pedi e dar-se-vos-á”. Isto é, dar-se-vos-á aquilo que estiveres buscando. Se não estiveres buscando passarás ao lado e não verás.   

A cada um de nós, o poder divino que preside nossas vidas ofertar-nos-á régias colheitas segundo o que foi semeado. Saibamos, porém, que não será uma tarefa simples e fácil, pois no dizer da professora Lúcia D. Torres “crescer dói” e nós acrescentamos, “é mais fácil nada semear e deixar o espaço para que cresça o joio; por ser mais exuberante o viço do joio, somos levados ao comodismo divertido e irreverente das semeaduras daninhas”.

Mestre de si mesmo

Mestre ou maestro? O segundo. Iniciamos este artigo no propósito de demonstrar a riqueza humana que é quando a filarmônica está redondinha, afinada, ensaiada, levando a cabo não importa se é uma partitura ou se se trata de um improviso. Importa que metais, cordas e percussão se entendam no andor, andem em beleza.

O ser humano que cotidianamente se esforça por vencer o ego, domar o ego, domesticá-lo para que não se oponha ao Eu e sim contribua para a Vida, é aquele que ao fim de uma jornada encontra tempo para perguntar-se “como me saí?”, “como dirigi?”. E sem a deturpação do malandro que conclui “me dei bem!”, levanta as premissas do que realizou para o bem de todos e de si também, concluindo por melhorar ainda mais e não o contrário.

Com toda certeza estamos falando de uma sociedade sem polícia, sem justiça, sem cadeia, sem procon, sem fiscais e se quiser ser mais detalhista, sem cadeados, sem fechaduras, sem portarias, sem cancelas. Seria isso um sonho? Seria isso um delírio, um devaneio? Você não preferiria viver num mundo assim, do que ter de pagar duas vezes pela segurança, duas vezes pela saúde, duas vezes pela educação, pagar pelos fiscais que não fiscalizam, pagar pelos servidores que não estão nos seus postos, pagar pela justiça que não julga, pagar pelo governo que não governa?

Onde está o problema? No cidadão que quer vantagens ao eleger alguém, direitos a mais, deveres a menos, passar por baixo da cerca, pular o muro, apropriar-se do que não lhe pertence, tudo, tudo, na dimensão do ego.

Veja, já estamos indicando fiscais para fiscalizar os fiscais, juízes para corrigir juízes, policiais para supervisionar policiais, câmeras para detectar quem não faz o que deve ser feito. Aonde isso vai parar?

Estamos abrindo manchetes na imprensa para destacar quem é honesto e devolve a carteira achada, mas permitimos que mil vezes mais alguém roube a carteira que não deveria sair da mão de seu dono.

O concerto para a harmonia da vida passa pela afinação dos componentes que, na orquestra da sociedade, percutem, solam através das cordas e alardeiam através dos metais. Sem isso viveremos no caos, no barulho, na infecção.

Entretanto, falar é pouco. Ler é pouco. O que é nós estamos fazendo para buscar a afinação? A harmonia?

(Produzido em parte com apoio do educador e facilitador Maneca Mendes)

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