sábado, 25 de julho de 2015

1804-Mesmo distante de Deus


Alguém iluminou o Ocidente

Introdução

A Idade Média muito mereceu o termo medieval utilizado presentemente para qualificar coisas e ações torpes, retardadas, cruéis. Foi um tempo de trevas, opressão, patrulhamento intelectual, caça às bruxas, tendo nas guerras chamadas de Cruzadas e na Inquisição os seus pontos culminantes da baixeza humana.

Se havia e ainda há intolerância religiosa no Oriente Médio perpetrada contra cristãos assim que o Islã assumiu o controle da Terra Santa (a partir de 683 d.C.), como se denominou Jerusalém, a contrapartida intolerante orquestrada pelos cristãos, durante as Cruzadas (século XI) nada deixou a dever.

Foi um tempo em que muito teríamos para evoluir, pois as bases estavam e ainda estão lançadas. Do ponto de vista religioso nada mais foi criado ou melhorado, apenas retalhado, novamente por conta da intolerância, da prepotência, da soberba e da ignomínia tendo como fatos centrais a cisão da Igreja Católica dando origem à Igreja Católica Ortodoxa (1054 d.C.), um pouco mais tarde com o surgimento das igrejas protestantes (século XVI) e mais tarde ainda com o crescimento das igrejas evangélicas e pentecostais (a partir de 1650 d.C., mas muito intensamente de 1901 em diante).

A Filosofia, por seu lado, aproveitou o bom começo com os pensadores gregos e deu enormes saltos, principalmente durante a Renascença e em seguida com o Iluminismo que a sucedeu.

Esta postagem pretende contar a história da construção da liberdade de pensar ao longo dos séculos XVII e XVIII e contextualizar o que aconteceu com as sociedades bafejadas pelo que se denominou Iluminismo, bem como clarear o outro lado, que se abateu sobre as sociedades cujos opressores na figura do clero e dos monarcas não se ofereceram para iluminar.

Acender ou não acender a luz

Aquele período histórico incluindo Renascença ( entre o final do século XIV e início do século XVII) e Iluminismo (século XVIII) pode ser dividido, pelo menos, em duas fases distintas às quais alguns autores procuram aclarar: houve um Iluminismo "Radical", a partir das ideias de Espinosa, Descartes, Malebranche, Diderot, D'Argens, Rousseau, D'Holbach, Voltaire, Hobbes, Hume, La Mettrie, Shaftesbury, Mandeville, Tindal, Montaigne e outros; e um Iluminismo "Moderado" (mas não menos importante), a partir das ideias de Newton, Locke, Pascal, dentre outros, todos devidamente adaptados ao pensar sob a tutela das instituições religiosas vigentes: católicos, luteranos e calvinistas.

A luta por liberdade de expressão e criação, de um lado, e a censura, nem sempre precisa, felizmente, mas aguerrida, por outro, constituiu muito do turbulento período histórico do Iluminismo europeu. Alguns países se destacaram na construção de uma esfera pública de livre discussão, tanto quanto possível à época, como a Holanda e a Inglaterra; outros mantiveram-se mais ou menos atados aos poderes eclesiásticos e imperiais, como a Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Suíça, etc.

O analista crítico, norte-americano, Jonathan I. Israel, destaca especialmente quatro filósofos, dentre muitos, que contribuíram para minar a autoridade político-eclesiástica no Iluminismo: Descartes, Espinosa (provavelmente o mais odiado e perseguido), Leibniz e Wolff. Muitos pensadores se declararam ateus para fugir dos grilhões condenatórios da Igreja.

Só para não perder a oportunidade de comentar: não fossem os luminares da Filosofia Moderna e seu rompimento com a opressão intelectual exercida pela Igreja, nós não teríamos avançado na Astronomia e ainda estaríamos acreditando que a Terra é o centro do Universo; estaríamos acreditando que Jesus é Deus; estaríamos acreditando que no cálice da consagração durante a missa, o vinho se transforma em sangue; estaríamos acreditando que Jesus subiu aos céus na posse do corpo biológico; não conheceríamos o modelo republicano de governo; estaríamos impedidos de pensar Deus de outra forma que a Bíblia o apresenta, isto é, que o mundo foi criado em sete dias há mais ou menos 8 mil anos e que a humanidade foi criada exatamente como está atualmente; e, sem questionar, estaríamos aceitando que o Arcanjo Gabriel terá sido, mesmo, o responsável por introduzir no corpo da Virgem Maria, o embrião que deu causa ao nascimento de Jesus; que foram e ainda são as principais divergências entre a fé raciocinada e as posições dogmáticas da igreja romana.

Especialmente as ideias de Espinosa tornaram-se uma das principais fontes iluministas para confrontar as tradições cristãs católica e reformista. A tese espinosista de os eventos relatados nas denominadas "Sagradas Escrituras" serem explicáveis naturalmente, bem como a sua teoria de uma substância eterna e imutável imanente, possibilitaram a construção da modernidade tal como a conhecemos.

Espinoza fez uma análise histórica da Bíblia, colocando-a como fruto de seu tempo. Criticou os dogmas rígidos e rituais sem sentido nem poder, bem como o luxo e a ostentação da Igreja. Por suas opiniões, um homem tentou matá-lo com um punhal. Escapou graças à sua agilidade. Ofereceram uma pensão para ele manter fidelidade à sinagoga e Espinoza recusou. Foi então excomungado, em 1656. Amaldiçoaram-no em ritual. Depois disso, viajou pela Holanda. Os judeus não falavam com Espinoza, mas os cristãos sim. Apesar disso, não se converteu ao cristianismo. Seus familiares quiseram deserdá-lo. Lutou pela herança do pai e ganhou a causa. Mas recusou a recebê-la, só queria fazer valer seus direitos.

Espinoza bateu mais forte

O ponto principal do pensamento de Espinoza é a comunhão entre Deus e a natureza. Spinoza critica a religião porque ela está alimentada pelo medo e a superstição. Devemos fazer uma interpretação racional da Bíblia. A diferença entre filosofia e religião é que a primeira busca a verdade e a segunda precisa da obediência para ser realizada. Espinoza foi excomungado. Desde então, viveu à parte. Isso implica buscar vivências incomuns às galerias. Espinoza buscou a espiritualidade racionalista, é profunda sua cultura e é clara sua visão de assuntos que estão fora da subjetividade, e envolvem um conhecimento complexo, conhecimento este que nos dias de hoje são marcados pela banalização cultural e a ideologia deturpada pelas derrotas sucessivas. Desse modo, Espinoza, numa época ainda pura nos conceitos, fala de Deus, da alma e da mente.

Em sua crítica aos rígidos controles e ao patrulhamento ideológico exercido pela religião e pelo Estado, Espinoza afirmava que os dois devem estar subjugados à Deus, à alma e à mente. Espinoza não acreditava na divindade de Cristo, mas o colocava como o primeiro entre os homens. Na mesma época que Locke defendeu o liberalismo político Espinoza pregava que os direitos naturais são as regras do ser. Somos forçados a obedecer às leis naturais, que são divinas e eternas.

Falava a ajuda mútua como necessária e útil para o bem da sociedade. Sem ela, os homens não podem viver confortavelmente nem cultivar seus espíritos. O objetivo do Estado não deve ser tirânico (como em Hobbes) mas libertário. O direito natural em Espinoza é compatível com a democracia: é nas grandes massas que a natureza humana melhor se manifesta

Descartes influenciou Espinoza, que desenvolveu alguns assuntos do filósofo francês. Espinoza comenta as noções cartesianas de Deus e suas substâncias: o pensamento e a extensão, que existem separados. Espinoza era monista. Pensamento é uma extensão da substância primordial, Deus. A diferença, é, que, Descartes explora o lado gnosiológico da fundamentação e origem do conhecimento. Espinoza vai para o lado ético, em busca da verdade e do sentido da vida. O racionalismo de Descartes parte em direção à metafísica; o de Spinoza, que defendia Deus como única substância, parte para a imanência. Espinoza vai ao microscópico, Descartes vai ao macroscópico.

Como diz nos Pensamentos Metafísicos, livro de sua autoria, Eternidade é a junção de essência e existência. O tempo pertence à razão, é um modelo de pensar a pluralidade, também, pois tudo é Deus, e ele é Uno.

Como Descartes, Spinoza fala que temos a noção clara do que é verdade, pois ela é certa e suprime toda a dúvida. Fala que o bem e o mal são pareceres que só existem nas relações. Mas reconhece como bom e na Ética diz, que certas coisas são-nos agradáveis, e nos esforçamos para que elas sejam frequentes. Mas uma coisa tomada em si não nem boa nem má.

Deus é imutável, porque não pode mudar e ser outro Deus. Na natureza tudo são substâncias e seus modos. Deus é simples, a grande substância. Espinoza refuta as distinções do Aristotelismo sobre Deus.

Espinoza achou quatro tipos de percepção:

A primeira é arbitrária; a segunda vem da experiência; na terceira a essência de uma coisa é tomada pela de outra. Por exemplo quando se acha que o universal sempre é acompanhado de uma propriedade. Não é adequada. A última percepção é a da essência.

Para o melhor modo de perceber, temos de ver quais os meios para conseguirmos nosso fim.

1º temos de conhecer a natureza das coisas e a nossa, para aperfeiçoá-la.
2º temos de deduzir as diferenças e as concordâncias das coisas.
3ºtemos de ver o que essas coisas poder sofrer.
4º temos de associar isso com a natureza e a potência das coisas.

Assim Spinoza, com um estilo que lembra o de Bacon, descreve seu método para melhor percebemos. E chega a conclusão que a melhor percepção é a da essência.

As coisas estão compreendidas na essência da ideia infinita de Deus. Ele é a causa de tudo, substância incriada, onipotente e onisciente.

As coisas ficam marcadas na alma, além do intelecto. A memória é uma rede de representações associativas dos objetos. Deus conhece a alma. E a alma conhece à Deus. O pensamento é um atributo divino. A alma não conhece a si mesma, e conhece sem adequação o corpo. A alma não tem vontade nem é livre. Todas as ideias que se referem à Deus são verdadeiras. A mente humana é disposta de tal forma que pode funcionar ordenadamente. Com um certo número de imagens, expressando esse número, há “embaralhamento”. Quem tem uma ideia verdadeira, o sabe sem dúvida. Espinoza, desenvolvendo seu lado racionalista diz que a razão percebe a coisa em si e a eternidade, que são comuns à todas as coisas. A mente humana é uma parte do intelecto infinito de Deus. Conhecer Deus eterno e infinito nos ensina a nos conduzirmos perante o dinheiro, coisas fora de nós, suportar a vida, não desprezar, não expor ninguém ao ridículo, não odiar. A moral de Espinoza parte de sua metafísica.

O corpo humano pode ser afetado de diversas maneiras, e sua potência aumentada e diminuída. A alma pode ser passiva ou ativa. As ideias adequadas existem em Deus, são ativas. O corpo humano é mais engenhoso que as máquinas.

Spinoza influenciou muito a filosofia posterior. Hume cita-o. Não gozou de muita reputação, mas sim desprezo, até que Lessing afirmou não existir outra filosofia senão a de Espinoza. Junto com Fichte e Kant, foi fundamental para Hegel e Schelliing. Nietzsche admirava-o, apesar de discordar. O espinozismo foi inicialmente rejeitado, mas depois, no século XIX foi reabilitado. Influenciou Marx e Freud, que tinham uma visão naturalista do mundo.

Radicais e moderados

Apesar dos anos borbulhantes, muitos pensadores se mantinham neutros para não perder a confiança dos bispos e monarcas. Nem por isso perderam importância. Mas os avanços, mesmos, vieram os com filósofos radicais. Os assim chamados pelos censores da época, foram todos classificados como "ateus", embora nem todos aceitassem esta qualificação. Muitos foram deístas ou agnósticos, mas não necessariamente ateus. Contudo, as suas ideias desafiaram o poder político vigente, quer imperial, quer eclesiástico, quanto aos seus fundamentos (magister dixit – o mestre disse): referindo-se à fala incontestável da autoridade papal e de Aristóteles (devidamente cristianizado), de onde nos veio a infalibilidade do Papa.

O autor de “Iluminismo Radical” (norte-americano, Jonathan I. Israel), analisa diferentes pensadores e suas contribuições filosóficas as quais deram condições para a modernidade se desenvolver como um espaço público livre para pensar sem sanções (ainda que imperfeita). Dividido em cinco partes e trinta e oito capítulos, num estilo leve e agradável (para mim), contribui para uma melhor compreensão dos enormes esforços e sacrifícios (não raro pessoais) a fim de constituir a modernidade como o momento histórico no qual os direitos individuais liberais (autonomia moral e livre-pensar) puderam surgir.

Uma leitura recomendada nesta época na qual os arcaicos fundamentalismos dão ares de um retorno, pondo em questão as bases da racionalidade moderna construída com enorme esforço no renascimento e iluminismo. E também para responder a uma recorrente questão quanto a ser a filosofia inútil: as ideias movem e transformam o mundo (apesar da opinião de Marx).

Grata surpresa: "Iluminismo radical"

Já havia cruzado várias vezes com o livro Iluminismo radical, de Jonathan I. Israel, publicado pela Editora Madras. Olhei sua capa algumas vezes, e vi os rostos de Voltaire, Diderot, Rosseau, Robespierre, Locke e mais dois senhores que não são meus conhecidos. Não me chamou, então, atenção o livro, que me pareceu ser um calhamaço de quase novecentas páginas dedicadas ao Iluminismo francês principalmente.

Após uma conversa sobre Spinoza, o espirituoso professor Antônio Serra fala do protagonismo que era dado a Spinoza neste livro.

Leiam comigo uma passagem do Prefácio: "Meu segundo objetivo [o primeiro era mostrar o Iluminismo europeu como um movimento único, apesar das diferenças "acidentais"] é demonstrar que o Iluminismo Radical, longe de constituir um desenvolvimento periférico, é uma parte integral e vital de um quadro maior e era, à primeira vista, mais coeso em âmbito internacional do que a corrente principal do Iluminismo [a moderada]. Quase sempre, a corrente principal moderada estava reagindo com consciência e até mesmo movida a desespero, àquilo que era percebido de forma geral como a perigosa ameaça colocada pelo pensamento radical. Muitos estudiosos, creio, irão se surpreender pela proeminência dada aqui ao papel de Espinosa e do Espinosismo não apenas no continente, mas até mesmo no contexto britânico, onde, em termos historiográficos, há uma persistente recusa de se reconhecer que Espinosa teve qualquer influência. No entanto, uma leitura minuciosa nos primeiros materiais sugere, ao menos para mim, que Espinosa e o Espinososimo era, de fato, a coluna vertebral intelectual do Iluminismo Radical europeu em todos os lugares e não apenas na Holanda, Alemanha, França, Itália e Escandinávia, mas também na Grã-Bretanha e Irlanda".

Iluminismo e Filosofia

O ideal da razão auto-responsável como fonte de dignidade, herdado de Descartes, desempenhou um papel essencial na radicalização do iluminismo. Sua realização mais influente foi a postura de desprendimento radical, de suplantação da tradição, que para os iluministas era fonte de heteronomia. Essa postura contribui para a definição iluminista de filósofo como pensador autônomo. Vejamos como Diderot (1713-1784) apresenta no verbete sobre o ecletismo:

Eclético é um filósofo que, calcando sob os pés o preconceito, a tradição, a respeitabilidade, a concordância universal, a autoridade - numa palavra, tudo quanto intimida o povo -, ousa pensar por si mesmo, ascender aos mais claros princípios gerais, examiná-los, discuti-los e não admitir nada exceto pelo testemunho de sua própria razão e experiência. (DIDEROT apud TAYLOR, 1997, p. 418).

O iluminismo trazia consigo o desejo de anular grilhões. Essa rejeição/libertação compreende a negação da religião e da metafísica e a afirmação da bondade e da importância da natureza. Para o iluminismo, o pleno exercício da razão auto-responsável produz a maior clareza possível sobre sua própria natureza e seu significado (cf. TAYLOR, 1997, p. 451). O exercício da razão desacorrentada leva ao desmascaramento do erro, liberta a dignidade da natureza e possibilita a autonomia. O resultado seria o progresso tanto do conhecimento quanto dos costumes. Para os iluministas o avanço da racionalidade científica possibilitaria por si um "aumento" da autonomia. Mas segundo Foucault (1996, p. 107-108), a relação entre crescimento das capacidades científicas e o crescimento da autonomia não são tão simples quanto supunham os iluministas. Para ele, as tecnologias diversas transmitiam formas de relações de poder com fins econômicos ou de regulação social, o que em vez de possibilitar a autonomia gerava uma nova forma de heteronomia.
Os iluministas radicais aderiram ao materialismo e ao ateísmo, não somente como resultado final da razão auto-responsável, mas também como forma de serem fiéis às exigências de sua concepção de natureza (cf. TAYLOR, 1997, p. 420). Para Holbach, por exemplo, o homem é um ser inteiramente físico, e a dimensão moral é sua existência física considerada relativamente a algumas de suas formas de agir (cf. idem). Assim, o homem teria um impulso inerente de se autopreservar que corresponde ao amor por si, que é uma tendência a buscar a felicidade, o bem-estar, o prazer. O homem lutando por necessidade para preservar e aumentar sua felicidade é para ele, a verdadeira base da vida moral e da autonomia.
O utilitarismo de Bentham (1748-1832) e Helvétius reconhecia apenas um bem: o prazer (cf. ibid, p. 428). Queriam acabar com a distinção entre bens morais e não-morais e tornar todos os desejos humanos dignos de consideração. Na sua teoria moral, dor e prazer são os critérios da ação correta, mas não da forma como afetam um indivíduo e sim da forma como afetam a todos. Devemos procurar a maior felicidade para o maior número possível de pessoas. Essas concepções aparecem como uma reivindicação de autonomia como auto-responsabilização e busca do aumento da felicidade por meio do progresso racional. O ideal de auto-responsabilidade influenciou Kant embora ele não o conceba exatamente como os iluministas. Já o utilitarismo para ele, não atende a reivindicação de autonomia e é, portanto, heteronomia.
Hume (1711-1776) também pode ser considerado um iluminista radical. Defendia que o método do raciocínio experimental preconizado por Bacon (1561-1626) e Newton (1642-1747), o qual já havia construído sólida visão da natureza física, deveria ser aplicado também à natureza humana, ou seja, não apenas aos objetos, mas também aos sujeitos. Ele reduz a origem das ideias a impressões, a hábitos, o que contrapunha as ideias de ciência e metafísica dos filósofos racionalistas. Nos Prolegômenos (KANT, 1959, p. 28), Kant afirma que foi Hume que o despertou do "sono dogmático". Mas para Kant sua contribuição não vai muito além disso, todo sistema filosófico kantiano vai ter como um dos objetivos contrapor-se ao empirismo cético de Hume.

Para Hume as paixões são algo original e próprio da natureza humana, independente da razão. A própria vontade pode ser redutível às paixões, ou ainda, redutível a uma impressão que deriva do prazer e da dor. "Para ele, livre-arbítrio seria sinônimo de não-necessidade, vale dizer, causalidade, constituindo assim, um absurdo. Segundo Hume, aquilo que habitualmente se chama liberdade nada mais seria que a simples espontaneidade, ou seja, a não coação externa" (REALE, 1990, p. 572). Ao não considerar a determinação interna, Hume proclama a vitória do jogo das paixões, e assim, nega a razão prática, nega que a razão possa guiar a vontade. Essa noção de autonomia de Hume como simples ausência de coação externa para que as paixões possam ser vivenciadas, é oposto ao defendido por Kant, e representa muito bem o que este filósofo designou como heteronomia.

Sinopse da época e sua influência

Democracia, liberdade de pensamento e expressão, tolerância religiosa, liberdade individual, autodeterminação política dos povos, igualdade sexual e racial – esses valores tornaram-se predominantes nas décadas que se seguiram a sua consagração pela Declaração dos Direitos Humanos da ONU em 1948. Mas, mesmo que esses ideais não mais pareçam radicais hoje em dia, a sua origem foi extremamente radical – muito mais do que a maioria dos historiadores estão dispostos a reconhecer. Em A Revolução das Luzes, o aclamado Jonathan Israel traça as raízes filosóficas dessas ideias a partir dos estratos do pensamento iluminista menos respeitáveis – a que ele chama o Iluminismo Radical. O Iluminismo Radical surgiu inicialmente como um movimento clandestino de ideias, quase inteiramente encobertas da vista do público durante sua primeira fase, amadureceu em oposição à corrente moderada e dominante do Iluminismo na Europa e na América do século XVIII. Durante as décadas revolucionárias de 1770, 1780 e 1790, o Iluminismo Radical surgiu abertamente e provocou uma reação longa e amarga. A Revolução das Luzes mostra que essa oposição vigorosa deveu-se principalmente aos impulsos poderosos da sociedade para defender os princípios da aristocracia, da monarquia, do império e da hierarquia racial –, princípios ligados à defesa da censura, à autoridade da Igreja, à desigualdade social, à segregação racial, à discriminação religiosa e aos extensos privilégios dos grupos dominantes. Ao contar essa história fascinante, esta obra revela a origem surpreendente de nossos valores mais queridos e ajuda a explicar por que, até hoje, eles são frequentemente reprovados e atacados por certos círculos.

Ateísmo no Iluminismo

O movimento cultural do século XVIII conhecido como Iluminismo apresentava-se como continuação do Renascimento em seu racionalismo e antropocentrismo, embora a medida humana já não fosse a do sábio ou a do artista, mas a de todo cidadão, a quem se dirigia a Enciclopédia. Os ingleses adotaram o deísmo — o Deus da razão meramente humana; David Hume, como empirista, rejeitou toda metafísica e, portanto, as provas racionais da existência de Deus, mas declarou aceitar, como homem, a irracionalidade da fé, gerada pelo medo do desconhecido. Os franceses seguiram duas correntes distintas: a mais radical, a do materialismo ateu, era representada por Denis Diderot, entre outros, e a corrente deísta foi significativamente exposta por Voltaire, para quem Deus era o "Geômetra Eterno". Na Alemanha, Kant negou a possibilidade da prova metafísica da existência de Deus. A religião de Hegel era pura intelectualidade, tendo sido interpretada como teísta, como panteísta e como ateia.

Heteronomia

Heteronomia (do grego heteros, "diversos" + nomos, "regras") é um conceito criado por Kant para denominar a sujeição do indivíduo à vontade de terceiros ou de uma coletividade. Se opõe assim ao conceito de autonomia ou livre arbítrio onde o ente possui arbítrio e pode expressar sua vontade livremente. É um conceito básico relacionado ao Estado de Direito, em que todos devem se submeter à vontade da lei. Se opõe também a anomia que é a ausência de regras.

Em Direito, a heteronomia é a característica da norma jurídica que estabelece que esta se impõe à vontade do destinatário — ou seja, a lei é imposta ao indivíduo, e exterior a ele, podendo ser criada por um ente interno (como o Estado), um ente supraestatal (como um bloco econômico) ou um ente internacional (como a ONU).

A consciência moral evolui da heteronimia para a autonomia, ou seja, as pessoas começam por interiorizar as normas e obedecendo-lhes por medo do castigo — heteronomia —, até que essa situação evolui para um patamar que consiste na autodeterminação das pessoas em função de princípios e valores morais justificados de forma racional - autonomia. A heteronomia significa que a sujeição às normas jurídicas não está dependente do livre arbítrio de quem a elas está sujeito, mas, pelo contrário, se verifica uma imposição exterior de que decorre da sua natureza obrigatória.

Para Lévinas, heteronomia não é escravidão, sendo justamente seu contrário. A moralidade não é baseada em uma vontade soberana do Eu, e sim no respeito da liberdade do Outro e para isso é necessário estar disposto a limitar-se para não se impor perante um outro. A obediência à lei criada por outros não significa servidão ou submissão a um tirano, mas sim a superação da pretensão do Eu em ser o fundamento último e único de todas as regras. A heteronomia é a norma, a regra externa e não depende da vontade do sujeito.

Em Pedagogia, para Paulo Freire, o sistema educacional impõe excessiva heteronomia em seus educandos, desestimulando assim o desenvolvimento de capacidade de iniciativa, criatividade, emancipação e a construção de um "ser para si". Segundo ele, sem autonomia as crianças se tornam adultos conformistas, com pouco senso crítico e vulneráveis a sistemas sociais, políticos e econômicos opressores. Em seu livro Pedagogia da autonomia acredita que os oprimidos culpam causas mágicas e míticas como o destino, a sina, a vontade de Deus pela sua falta de liberdade. Assim a autonomia seria vista como inacessível, inatingível e irrealizável levando ao conformismo e perpetuando o sistema opressor.

Na América Latina a heteronomia foi imposta violentamente pelos colonizadores e pela Igreja católica, resultando em uma cultura paternalista, sectária, alienada, irracional, acrítica, com dependência emocional pelos opressores. Ao invés de buscar autonomia o oprimido eventualmente adere aos valores impostos e passa a admirar o opressor, imitá-lo e reproduzir a opressão.

Freire defende que a escola é um ambiente essencial para superar a heteronomia. Para isso o modelo "bancário" em que o aluno é um sujeito passivo, mero ouvinte que deve memorizar ideias, deve ser superado. A "pedagogia da autonomia" defende um constante debate de ideias, a valorização do pensamento crítico, métodos participativos, estimulando a luta pelos seus direitos e pelos direitos de outros. Não se planeja assim criar indivíduos egoístas, desobedientes e autossuficientes, e sim indivíduos capazes de compreender a razão das regras, rejeitando sistemas opressores, sendo aberto a comunicação e a mudanças.

Imperativo categórico

Imperativo categórico é um dos principais conceitos da filosofia de Immanuel Kant. Sua ética tem como conceito esse sistema. Para o filósofo alemão, imperativo categórico é o dever de toda pessoa doar conforme os princípios que ela quer que todos os seres humanos sigam, se ela quer que seja uma lei da natureza humana, ela deverá confrontar-se realizando para si mesmo o que deseja para o amigo. Em suas obras Kant afirma que é necessário tomar decisões como um ato moral, ou seja, sem agredir ou afetar outras pessoas.

O imperativo categórico é enunciado com três diferentes fórmulas (e suas variantes), são estas:

1. Lei Universal: "Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal."

a) Variante: "Age como se a máxima da tua ação fosse para ser transformada, através da tua vontade, em uma lei universal da natureza."

2. Fim em si mesmo: "Age de tal forma que uses a humanidade, tanto na tua pessoa, como na pessoa de qualquer outro, sempre e ao mesmo tempo como fim e nunca simplesmente como meio".
3. Legislador Universal (ou da Autonomia): "Age de tal maneira que tua vontade possa encarar a si mesma, ao mesmo tempo, como um legislador universal através de suas máximas."

a) Variante: "Age como se fosses, através de suas máximas, sempre um membro legislador no reino universal dos fins."

O imperativo hipotético é condicional, na medida em que subordina o imperativo a um determinado fim, e só tem valor se – e somente se – procuramos atingir esse fim em particular. Por isso, o imperativo hipotético é apenas um meio para se atingir esse fim

“Todos os imperativos ordenam ou hipotética ou categoricamente. Os hipotéticos representam a necessidade prática de uma ação possível como meio de alcançar qualquer coisa que se quer ou que é possível que se queira. O imperativo categórico é aquele que nos representa uma ação como objetivamente necessária por si mesma, sem relação com qualquer outra finalidade. No caso da ação ser apenas boa como meio para qualquer outra coisa, o imperativo que ordena é hipotético; se a ação é boa em si, então o imperativo é categórico” (Kant).

BIBLIOGRAFIA

Iluminismo Radical: A Filosofia e a Construção da Modernidade 1650-1750, de Jonathan I. Israel
Tradução de Claudio Blanc
São Paulo: Madras, 2009, 878 pp.

sábado, 18 de julho de 2015

1803-Um triste reconhecimento


Nada sabemos sobre Deus

Introdução

Temos proclamado, por conta das pesquisas que fizemos, que nesta Era de Aquário, já iniciada, nada ficará escondido, toda mentira será desnudada e que nenhum dogma se manterá incólume. Faz parte desses novos tempos iluminados pelo cinturão de fótons (onde penetramos juntamente com a Era de Aquário) que acompanha a majestosa estrela 1400 vezes mais luminosa que o nosso Sol, chamada Alcione.

Nesta postagem consoante com o novo formato que damos ao blog, iremos aproveitar trabalhos de outros pesquisadores, um dos quais Reinaldo José Lopes, da Abril Editora, para questionar o Deus bíblico que nos deu Moisés.

Como você sabe, a Torá judaica passou a existir em torno do século XII antes de Cristo, justamente num trabalho do egípcio Moisés à frente de um numeroso clã judaico desejoso de escapar do cativeiro a que estava submetido e, então, juntamente com o Êxodo, a bíblia judaica nos deu a Gênese, onde está a história de Deus segundo a concepção daqueles dirigentes do povo. Os escritos sagrados judaicos foram grandemente reforçados no reinado de Salomão, um pouco mais tarde.

A propósito do “Nada sabemos sobre Deus”, há que recordar que quem primeiro intuiu Deus – sem saber seu nome e sua forma – foram os homens das cavernas, hoje rotulados como uma espécie indígena, pois, provavelmente viviam nus ou seminus, se alimentavam daquilo que recolhiam, moravam em tocas e cavernas, mais tarde choças, e com o tempo foram descobrindo o fogo e as ferramentas com as quais deram impulso às suas existências. Ao olhar para a natureza, os nascimentos, as mortes, a chuva, os trovões, os raios, os rios, as estações, aqueles arqui-ancestrais começaram a imaginar a existência de uma força fora do controle humano e digna de todo respeito.

Evoluímos muito depois daquela tosca humanidade (eram humanos, mas nem tanto) e mesmo assim continuamos discordando uns dos outros sobre Deus.

Apesar de a bíblia judaica referir-se que Deus falou a Abraão “eu sou teu único Deus; antes e depois de mim nenhum outro Deus haverá”, dando origem ao tetragrama YHWH, de onde nos vem os nomes Javé, Jeová, é preciso resgatar que a peregrinação do povo hebreu entre os cativeiros que se abateram sobre o clã, serviu e muito para muitos contatos seus com deuses de outros clãs. Já é possível mensurar que a fé judaica tem contribuições de outras culturas. E que num aspecto os judaicos mexeram substantivamente: tiraram de suas escrituras sagradas todos os conteúdos relativos à espiritualidade. Perdão, leitores, é isso que se lê no Antigo Testamento incorporado à Bíblia Católica.

A humanidade que foi governada pelos regimes helênico e romano também muito pouco sabia sobre Deus, pois entre os deuses mitológicos e o Sol, que eram venerados nesse meio milênio de tempo, a opção judaica foi preferir ficar com algo mais razoável. No cativeiro da Babilônia os hebreus haviam conhecido a doutrina do persa Zoroastro e no cativeiro do Egito haviam conhecido o deus Ra que, no fundo, também remetia ao Sol.

Mais atrás, no tempo, seus profetas encontraram a doutrina de Hamurabi.

Então é sobre isso que este trabalho quer se deter. O Deus bíblico judaico, adotado também pelos romanos a partir da cristianização do citado regime, pode ser fusão de vários deuses pagãos. É o que dizem alguns pesquisadores. E cabe reprisar, com ênfase: nada sabemos sobre Deus.

Mas, antes de entrar nas fusões do saber sagrado que nos deu Javé, uma palavrinha sobre os deuses pagãos. A maioria das correntes religiosas acreditava que o seu Deus era o bom e então os deuses de outros clãs eram desqualificados como falsos ou pagãos. Mas, só eram pagãos para os outros clãs, menos para aquele clã que o respeitava.

Antes de Jeová, um deus babilônico

Vamos ressalvar a bem da verdade que as falas de Deus para Abraão se deram muito antes do cativeiro judaico na Babilônia, mas não estavam escritas. Foram incluídas na Torá por Moisés, mais de mil anos depois. Qualquer estudioso que queira se voltar para a busca de Deus tem, antes de tudo, procurar entender como os homens buscavam seus deuses e nesse caminho há de topar como Hamurabi, também escrito assim: Hammurabi; ou assim: Hammu-rabi e também assim: Khammu-rabi. Vê-se aí que a expressão “rabi” fartamente encontrada entre judeus e cristãos, inclusive ao referir-se a Jesus, está presente aí dois mil anos antes de Cristo. Para os judeus, rabi é sinônimo de mestre ou messias.

Hamurabi não era apenas um líder religioso. Ele ocupou o trono da Babilônia como rei, em tudo muito semelhante ao que ocorreu no Egito, antes, e também em Israel, depois. Durante o governo de Hamurabi, no primeiro império babilônico, organizou-se um dos mais conhecidos sistemas de leis escritas da antiguidade: O Código de Hamurabi.

Hamurabi escreveu um código, um conjunto de leis, uma bíblia, uma Torá, possivelmente inaugurando este modo de legislar com as coisas divinas, o que muito aconteceu, em seguida, com os hebreus ou judeus, de onde nos veio os Dez Mandamentos.

Código de Hamurabi representa um conjunto de leis escritas, sendo um dos exemplos mais bem preservados desse tipo de texto oriundo da Mesopotâmia. Acredita-se que foi escrito pelo rei (Hamurabi ou alguém de sua assessoria), aproximadamente em 1700 a.C. Foi encontrado por uma expedição francesa em 1901 na região da antiga Mesopotâmia, correspondente onde hoje está a cidade de Susa, no Irã.

Não é um pergaminho, como se poderia pensar, é um monumento monolítico talhado em rocha de diorito, sobre o qual se dispõem 46 colunas de escritas acádica, com 282 leis em 3600 linhas. A numeração vai até 282, mas a cláusula 13 foi excluída por superstições da época. O treze era número macabro. A peça tem 2,25 m de altura, 1,50 metro de circunferência na parte superior e 1,90 na base. No topo do monolito (monumento construído a partir de um só bloco de rocha) encontra-se uma representação de Hamurabi em frente ao deus sumeriano do sol, Shamash.

A sociedade estava dividida em três classes, sobre as quais também pesavam as aplicações do código.

Eram: (1) Awilum: homens livres, proprietários de terras, que não dependiam do palácio e do templo; (2) Muskênum: camada intermediária formada por funcionários públicos, que tinham certas regalias no uso de terras; e (3) Wardum: escravos, que podiam ser comprados e vendidos até que conseguissem comprar a própria liberdade.

Pontos principais do código de Hamurabi:

·         Lei de talião (olho por olho, dente por dente, a mesma que aparece, depois, na Torá judaica);

·         falso testemunho (que também aparece na Torá);

·         roubo e receptação (de certa forma o 7º mandamento judaico);

·         estupro (que nos mandamentos mosaicos aparece como não cobiçar a mulher do próximo);

·         família (nas leis judaicas vem como honrar pai e mãe);

·         escravos (a questão dos escravos não está na lei judaica e nem a próxima e última do código de Hamurabi);

·         ajuda a fugitivos (exilados, desterrados, flagelados).

O objetivo deste código era homogeneizar o reino juridicamente e garantir uma cultura comum. No seu epílogo, Hamurabi afirma que elaborou o conjunto de leis "para que o forte não prejudique o mais fraco, a fim de proteger as viúvas e os órfãos" e "para resolver todas as disputas e sanar quaisquer ofensas".

Durante as futuras diferentes invasões sofridas pela Babilônia, o código foi deslocado para a cidade de Susa por volta de 1200 a.C. Foi nessa cidade que ele foi descoberto. Hoje, o código pode ser admirado em Paris, no museu do Louvre, na sala 3 do Departamento de Antiguidades Orientais.

Outros códigos existiram entre os sumérios que viveram entre 4.000 anos a.C. a 1900 a.C. na Mesopotâmia. No entanto, o Código de Hamurabi foi o que chegou até nós de forma mais completa. Os sumérios viviam em pequenas comunidades autônomas, o que dificultou o conhecimento desses registros.

O código de Hamurabi trata de temas cotidianos e abrange matérias de ordem, civil, penal e administrativa como, por exemplo, o direito da mulher de escolher outro marido caso o seu seja feito prisioneiro de guerra e não tenha como prover a casa, ou a obrigação do homem de prover o sustento dos filhos mesmo que se separe de sua mulher (em circunstâncias e situações tais como são encontradas na Torá judaica e no Alcorão islâmico).

O estudioso que queira se voltar para a descoberta de como os povos antigos chegaram aos códigos religiosos e, por tabela, a Deus, tem de partir de um pressuposto: a vida coletiva exigiu a criação de regras de convivência e estas deveriam servir também para regrar o comportamento religioso, principalmente naquelas civilizações que misturavam a vida civil com a vida religiosa, ainda encontrados hoje entre judeus de muçulmanos. Assim, o governante era também o Papa, se quisermos comparar com o que nasceu no Vaticano nos séculos posteriores.

O que mais continha o Código de Hamurabi?

O código de Hamurabi, como foi aludido superficialmente, trata de temas cotidianos e abrange matérias de ordem, civil, penal e administrativa como também, e por exemplo, da religião e da moral, estilos que foram mantidos na Torá e no Alcorão, ainda que com outros conteúdos.

Algumas partes da Torá abordam aspectos mais apurados de algumas seções do código de Hamurabi que tem a ver com o direito de propriedade, e devido a isso alguns especialistas sugerem que os hebreus tenham derivado sua lei deste código. No entanto, segundo a Torá, desde a época de Noé, já existiam sete preceitos (Sheva Mitzvót bnei Noach) que são transmitidos oralmente de uma geração a outra, e que posteriormente foram escritas na Torá, que por sua vez prega 613 preceitos apenas para os judeus, enquanto que os outros povos continuaram obrigados a cumprir aqueles sete preceitos. Portanto era de se esperar que alguém possa ter escrito algo que já existia de forma oral.

E então, afinal, Javé

Voltando a Jeová ou Javé, esse Deus ganha personalidade e atributos que são compartilhados com outras divindades do Oriente, a saber: Pai celestial El, jovem guerreiro Baal e até 'senhora' Asherah teriam influenciado os criadores de Javé ou Jeová ou Yahweh. Com um detalhe: nas divindades que o inspiraram havia a figura feminina. Com Javé ele é o Criador hermafrodita, pois nenhuma deusa fêmea é citada, a ponto de, para obter a primeira mulher, ser necessário extirpar uma ripa da costela do primeiro homem. Algo assim meio controverso, pois se o primeiro homem tivesse vindo de entre as costelas da primeira mulher, figurativamente, seria de melhor aceitação. 

A afirmação de que o Deus Javé é uma cópia ou uma síntese de outros deuses pode soar desrespeitosa para com judeus ou cristãos, mas não está muito longe da verdade (que a Era de Aquário insiste em desvelar): Javé, o Deus do Antigo Testamento, parece ter múltiplas personalidades. Para ser mais exato, especialistas que estudam os textos bíblicos, leem antigas inscrições encontradas nos arredores de Israel ou escavam sítios arqueológicos e reconhecem a influência conjunta de diversos deuses pagãos antigos no retrato de Javé traçado pela Bíblia. Lembre-se que pagão era, sempre, o deus do outro.

A ideia aqui nesta postagem não é demonstrar que o Deus bíblico não passa de mais uma personagem da mitologia. Os pesquisadores querem apenas entender como elementos comuns à cultura do antigo Oriente Próximo, e principalmente da região onde hoje ficam o Estado de Israel, os territórios palestinos, o Líbano e a Síria, contribuíram para as ideias que os antigos israelitas tinham sobre os seres divinos. As conclusões ainda são preliminares, mas há bons indícios de que Javé é uma fusão entre um deus idoso e paternal e um jovem deus guerreiro, com pitadas de outras divindades – uma delas do sexo feminino.

O deus cananeu El, era retratado como um pai sábio e idoso, foi muito importante nos primórdios da religião israelita, inclusive para a fundação da família, do clã, que é um traço profundo naquela cultura.

O ponto de partida dessas análises é o fundo cultural comum entre o antigo povo de Israel e seus vizinhos e adversários, os cananeus (moradores da terra de Canaã, como era chamada a região entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo em tempos antigos). A Bíblia retrata os israelitas como um povo quase totalmente distinto dos cananeus, mas os dados arqueológicos revelam profundas semelhanças de língua, costumes e cultura material – a língua de Canaã, por exemplo, era só um dialeto um pouco diferente do hebraico bíblico.

Aí entra a cultura de Ugarit

Os cananeus não deixaram para trás uma herança literária tão rica quanto a Bíblia. O povo hebreu escreveu mais. No entanto, poucos quilômetros ao norte de Canaã, na atual Síria, ficava a cidade-Estado de Ugarit, cuja língua e cultura eram praticamente idênticas às de seus primos do Sul, os judeus. Ugarit foi destruída por invasores bárbaros em 1200 a.C., mas os arqueólogos recuperaram numerosas inscrições da cidade, nas quais dá para entrever uma mitologia que apresenta semelhanças (e diferenças) impressionantes com as narrativas da Bíblia. “Por isso, Ugarit é uma parte importante do fundo cultural que, mais tarde, daria origem às tribos de Israel”, resume Christine Hayes, professora de estudos clássicos judaicos da Universidade Yale (EUA).

Uma das figuras mais proeminentes nesses textos é El – nome que quer dizer simplesmente “deus” nas antigas línguas da região, mas que também se refere a uma divindade específica, o patriarca, ou chefe de família, dos deuses. “Patriarca” é a palavra-chave: o El de Ugarit tem paralelos muito específicos com a figura de Deus durante o período patriarcal, retratado no livro do Gênesis e personificado pelos ancestrais dos israelitas: Abraão, Isaac e Jacó. Não dá para esquecer que Eloim ou Elohim é uma palavra equivalente a Javé quando se refere a divindades.

Nos textos da Bíblia há, por exemplo, referências a El Shadday (literalmente “El da Montanha”, embora a expressão normalmente seja traduzida como “Deus Todo-Poderoso”), El Elyon (“Deus Altíssimo”) e El Olam (“Deus Eterno”). O curioso é que, na mitologia ugarítica, El também é imaginado vivendo no alto de uma montanha (como os deuses do Olimpo, na Grécia) e visto como um ancião sábio, de vida eterna. E depois entre os judeus novamente a ação relativa a Deus está sempre em torno de um monte ou montanha.

Tal como os patriarcas bíblicos, El é uma espécie de nômade, vivendo numa versão divina da tenda dos beduínos; e, mais importante ainda, El tem uma relação especial com os chefes dos clãs, tal como Abraão, Isaac e Jacó: eles os protege e lhes promete uma descendência numerosa. Ora, a maior parte do livro do Gênesis é o relato da amizade de Deus com os patriarcas israelitas, guiando suas migrações e fazendo a promessa solene de transformar a descendência deles num povo “mais numeroso que as estrelas do céu”.

Israel ou “Israías”?

Outros dados, mais circunstanciais, traçam outros elos entre o Deus do Gênesis e El: num dos trechos aparentemente mais antigos do livro bíblico, Deus é chamado pelo epíteto poético de “Touro de Jacó” (frase às vezes traduzida como “Poderoso de Jacó”), enquanto a mitologia ugarítica compara El frequentemente a um touro. Então não se pode esquecer que na Índia o animal vacum é sagrado. E que no zodíaco iremos também encontrar o touro.

Finalmente, o próprio nome do povo escolhido – Israel, originalmente dado como alcunha ao patriarca Jacó – carrega o elemento “-el”, lembra Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento do Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto (SP) e destaca como não acaso. Os anjos e arcanjos possuem nomes terminados em –el.

“É o nome do deus cananeu, mais um indício de que Israel surge dentro de Canaã, por um processo gradual”, diz Silva. Ele argumenta que, se Javé fosse desde sempre a divindade dos israelitas, o nome desse povo seria “Israías”. Isso porque o elemento adaptado como “-ías” em português (algo como -yahu) era, em hebraico, uma forma contrita do nome “Javé”. Curiosamente, o elemento se torna dominante nos chamados nomes teofóricos (ligados a uma divindade) dados a israelitas no período da monarquia (Davi/Salomão), a partir dos séculos 10 a.C. e 9 a.C.

E esse nome (provavelmente Yahweh em hebraico; a sonoridade original foi obscurecida pelo costume de não se pronunciar a palavra por respeito) é um enigma e tanto. As tradições bíblicas são um tanto contraditórias, mas pelo menos uma fonte das Escrituras afirma que Javé só deu a conhecer seu verdadeiro nome aos israelitas quando convocou Moisés para ser seu profeta e arrancar os descendentes de Jacó da escravidão no Egito. (A Moisés, Deus diz que apareceu a Abraão, Isaac e Jacó como “El Shadday”.) O problema é que ninguém sabe qual a origem de Javé, o qual nunca parece ter sido uma divindade cananeia, exatamente como diz o autor bíblico.

Um Senhor do deserto

A esmagadora maioria dos arqueólogos e historiadores modernos não coloca suas fichas no êxodo maciço e simultâneo de 600 mil israelitas (sem contar mulheres e crianças) do Egito, por dois motivos: a semelhança entre Israel e os cananeus e a falta de qualquer indício direto da fuga. Mas muitos supõem que um pequeno componente dos grupos que se juntaram para formar a nação israelita tenha sido formado por adoradores de Javé, que acabaram popularizando o culto. Quem seriam esses primeiros javistas? Uma pista pode vir de alguns documentos egípcios, que os chamam de Shasu – algo como “nômades” ou “beduínos”.

“Duas ou três inscrições egípcias mencionam um lugar chamado 'Yhwh dos Shasu', o que, para alguns especialistas, parece ser 'Javé dos Shasu'. Talvez sim, talvez não. Não temos como saber ao certo”, diz Mark S. Smith, pesquisador da Universidade de Nova York e autor do livro “The Early History of God” (“A História Antiga de Deus”, ainda sem tradução para o português).

“É menos provável que o culto a Javé venha de dentro da Palestina e da Síria, e um pouco mais plausível que ele tenha se originado em certas regiões da Arábia”, diz Airton da Silva. Mark Smith lembra que algumas das passagens poéticas consideradas as mais antigas da Bíblia – nos livros dos Juízes e nos Salmos, por exemplo – referem-se ao “lar” de Javé em locais denominados “Teiman” ou “Paran”. Aparentemente, são áreas desérticas, apropriadas para a vida de nomadismo. “Muitos especialistas localizam essa região no que seria o Noroeste da atual Arábia Saudita, ao sul da antiga Judá [parte mais meridional dos territórios israelitas]”, diz Smith.

De um idoso sábio a um jovem tirano

Baal, retratado como guerreiro (provavelmente a estatueta tinha uma lança na mão), lembra Javé por causa de sua luta contra monstros marinhos.

Seja como for, quando Javé entra em cena com seu “nome oficial”, durante o Êxodo bíblico, a impressão que se tem é que ele já absorveu boa parte das características de um outro deus cananeu: Baal (literalmente “senhor”, “mestre” e, em certos contextos, até “marido”), um guerreiro jovem e impetuoso que acabou assumindo, na mitologia de Ugarit e da Fenícia (atual Líbano), o papel de comando que era de El.

Indícios dessa nova “personalidade” de Deus surgem no fato de que, pela primeira vez na narrativa bíblica, Javé é visto como um guerreiro, destruindo os “carros de guerra e cavaleiros” do Faraó e, mais tarde, guiando as tribos de Israel à vitória durante a conquista da terra de Canaã. Tal como Baal, Javé é descrito como “cavalgando as nuvens” e “trovejando”. E, mais importante ainda, uma série de textos bíblicos falam de Deus impondo sua vontade contra os mares impetuosos (como no caso do Mar Vermelho, em que as águas engolem o exército egípcio por ordem divina) ou derrotando monstros marinhos.

Há aí uma série de semelhanças com a mitologia cananeia sobre Baal, o qual derrotou em combate o deus-monstro marinho Yamm (o nome quer dizer simplesmente “mar” em hebraico) ou “o Rio” personificado. Na mitologia do Oriente Próximo, as águas marinhas eram vistas como símbolos do caos primitivo e, por isso, tinham de ser derrotadas e domadas pelos deuses.

Javé também é associado à chuva e à fertilidade da terra pelos antigos autores bíblicos – atributos que aparecem entre as funções de Baal. Há, porém, uma diferença importante entre os dois deuses: outra narrativa de Ugarit fala do assassinato de Baal pelas mãos de Mot, o deus da morte, e da ressurreição do jovem guerreiro – provavelmente uma representação mítica do ciclo das estações do ano, essencial para a agricultura, já que Baal era um deus que abençoava a lavoura.

O lado guerreiro de Javé é talvez o mais difícil de aceitar para a sensibilidade moderna: quando os israelitas realizam a conquista da terra de Canaã, a ordem dada por Deus é de simplesmente exterminar todos os habitantes, e às vezes até os animais (embora, em alguns casos, os homens de Israel recebam permissão para transformar as mulheres do inimigo em concubinas).

Numa inscrição feita por ordem de Mesa (rei de Moab - país vizinho do antigo Israel) consta o texto que fala de genocídio por ordem divina, tal como se vê nos textos bíblicos.

Textos de outra nação da área, os moabitas (habitantes de Moab, a leste do Jordão) ajudam a lançar luz sobre esse costume aparentemente bárbaro. Um monumento de pedra conhecido como a estela de Mesa (nome de um rei de Moab em meados do século 9 a.C.) fala, ironicamente, de uma guerra de Mesa com Israel na qual o rei moabita, por ordem de seu deus, Chemosh, decreta o herem, ou “interdito”. E o herem nada mais é que a execução de todos os prisioneiros inimigos como um ato sagrado. Tratava-se, portanto, de um elemento cultural de toda a região.

Por esta mesma época Jefté à frente do exército de Israel autorizou um massacre contra 42 mil efraimitas que, embora também hebreus, não o aceitaram como dirigente máximo. Matava-se por pouca coisa. Como hoje.

Um lado feminino para Deus

Se a “múltipla personalidade” de Javé pode ser basicamente descrita como uma combinação de El e Baal, há uma influência mais sutil, mas também perceptível, de um elemento feminino: a deusa da fertilidade Asherah, originalmente a esposa de Baal na mitologia cananéia. Normalmente, Deus se comporta de forma masculina na Bíblia, e a linguagem utilizada para falar de sua relação com os israelitas é, muitas vezes, a de um marido (Deus) e a esposa (o povo de Israel). Mas o livro bíblico dos Provérbios, bem como algumas outras fontes israelitas, apresenta a figura da Sabedoria personificada, uma espécie de “auxiliar” ou “primeira criatura” de Deus que o teria auxiliado na obra da criação do mundo.

Segundo o texto dos Provérbios, Deus “se deleita” com a Sabedoria e a usa para inspirar atos sábios nos seres humanos. Para muitos pesquisadores, a figura da Sabedoria incorpora aspectos da antiga Asherah na maneira como os antigos israelitas viam Deus, criando uma espécie de tensão: embora o próprio Deus não seja descrito como feminino, haveria uma complementaridade entre ele e sua principal auxiliar.

Passando a limpo as escrituras

Livros bíblicos podem ter autoria 'falsa', afirmam alguns especialistas, conforme pesquisou Reinaldo José Lopes, da Editora Abril.

Escritores usavam nome de antigos profetas e apóstolos para se legitimar.
A prática também era a forma de continuar e atualizar obra de predecessores.

Trito-Isaías? Deutero-Zacarias? Epístolas Pastorais? A nomenclatura é complicada, mas se refere a um fato simples e, para as sensibilidades modernas, um tanto embaraçoso: é praticamente certo que os autores presumidos de uma série de livros bíblicos não sejam bem quem eles dizem ser. A chamada pseudoepigrafia, ou seja, o uso de uma identidade mais famosa e antiga para embasar a autoria de um novo texto, é um fenômeno relativamente comum no Antigo e no Novo Testamento.

Basta dizer que o livro do profeta Isaías provavelmente foi escrito por três (ou mais) autores (o Isaías histórico, o Deutero-Isaías e o Trito-Isaías); que cerca de metade das cartas de São Paulo tenham sua origem colocada sob suspeita por estudiosos atuais; e que nenhuma das chamadas cartas de São Pedro, também no Novo Testamento, possa ser atribuída a ele com segurança.

As razões que levaram ao fenômeno da pseudoepigrafia são complexas, e nem sempre justificariam um processo de direitos autorais movido pelos personagens bíblicos originais contra seus “plagiadores”. “A visão de autoria na Antiguidade era muito diferente da nossa”, explica o professor Gelci André Colli, da Faculdade Teológica Batista do Paraná, doutorando em teologia bíblica. Colli estudou um desses casos famosos, o livro de Isaías. “Na verdade, dar continuidade à obra de um profeta muitas vezes ficava nas mãos de seus discípulos e seguidores, que compilavam seus oráculos. Fazer isso era uma forma de honrar o mestre”, diz ele. E muitas vezes o continuador não era único, havia trabalhos de verdadeiras equipes, como também aconteceu quando o Vaticano adotou o cristianismo e precisou adaptar as escrituras sagradas ao que interessava aos imperadores e papas.

Seja entre os antigos israelitas, seja entre os primeiros cristãos, outro fenômeno comum era a necessidade de adequar a mensagem profética ou evangélica original a uma nova realidade e a novos problemas, que o autor original não havia enfrentado em vida. Escrever em nome dele fechava essa brecha entre o passado e o presente e, de quebra, emprestava ao novo escritor a autoridade do mestre falecido, garantindo que as comunidades a quem a mensagem era endereçada prestassem atenção. No caso de alguns livros judaicos que acabaram não entrando no cânon (lista oficial) da Bíblia, surgiu todo um gênero literário nesses moldes, o dos chamados “Testamentos dos Antigos”.

Três Isaías, dois Zacarias?

No caso do livro de Isaías, famoso entre os cristãos por causa das profecias diretamente associadas a Jesus, rabinos medievais já reconheciam ao menos uma grande divisão de estilo e temática entre o capítulo 39 e o 40 da obra como a conhecemos hoje.

“Entre os pergaminhos encontrados nas cavernas de Qumran, perto do mar Morto, temos um manuscrito muito longo e muito famoso de Isaías. E nele há uma lacuna depois do capítulo 39, e uma nova coluna começa no capítulo 40, o que parece sinalizar algum tipo de reconhecimento implícito de que há uma diferença entre essas duas seções”, afirma Christine Hayes, professora de estudos clássicos judaicos da Universidade Yale, nos Estados Unidos. E não é para menos, já que o Isaías histórico viveu por volta do ano 700 a.C., quando descendentes do rei Davi ainda viviam em Jerusalém e governavam Judá, no sul da Palestina – enquanto o autor do capítulo 40, e de vários subsequentes, fala de uma época em que Jerusalém estava destruída e boa parte de seus moradores vivia exilado na Babilônia, por volta do ano 550 a.C.

Até aí, o profeta não teria sido capaz de prever o que aconteceria 150 anos depois por inspiração divina. Ou sim? Não é essa a questão, argumenta Colli. “As pessoas têm um entendimento errado sobre o que é o profeta bíblico. Ele não é o sujeito que fecha os olhos e de repente vê, em detalhes, o que vai acontecer dali a centenas de anos. O profeta é aquele que vê o futuro, mas sempre a partir do presente. Ele olha o presente, analisa e indica o que a vontade divina revela”, diz o pesquisador.

Além dos dados de Qumran e do contexto histórico, características literárias também levam os pesquisadores a atribuir a autoria do capítulo 40 e seguintes a um profeta/poeta anônimo convencionalmente conhecido como Deutero-Isaías, ou Segundo Isaías (da palavra grega para “segundo”). “O estilo do Primeiro Isaías é muito mais direto, enquanto a qualidade e a beleza poética das descrições do Deutero-Isaías não têm rival em todo o Antigo Testamento anterior a ele”, exemplifica Colli.

"Também há uma diferença grande entre a prosa da primeira parte do livro e a poesia no capítulo 40. Finalmente, há uma diferença grande entre as mensagens de advertência e julgamento anteriores e as falas do Deutero-Isaías, que só predizem coisas boas para os exilados de Judá”, afirma o especialista. Para Colli, o anônimo Deutero-Isaías provavelmente fazia parte de um círculo de admiradores do Isaías original, os quais compilaram e ampliaram seus oráculos proféticos durante o exílio na Babilônia.

Como se a coisa não fosse suficientemente complicada, muitos estudiosos também enxergam uma mudança igualmente significativa a partir do capítulo 56 e até o fim do livro: esse seria o Trito-Isaías, um profeta que escreve depois da volta dos exilados para a Palestina e tem preocupações bem diferentes. Um fenômeno parecido estaria presente no livro do profeta Zacarias, que misturaria oráculos que vão do século 6 a.C. ao século 4 a.C.

Dois Pedros, vários Paulos?

A situação é ainda mais curiosa no caso das cartas atribuídas aos apóstolos Pedro e Paulo no Novo Testamento, afirma Bart D. Ehrman, pesquisador do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (EUA) e autor do livro “Pedro, Paulo e Maria Madalena”, recém-lançado no Brasil.

O fato é que, fora do cânon da Bíblia, há inúmeros textos atribuídos a Pedro e Paulo (dois Apocalipses, um de cada apóstolo, e até um Evangelho de Pedro) que foram rejeitados como inautênticos pelas comunidades cristãs que selecionaram o que deveria conter nos escritos sagrados da religião católica. No caso da Primeira Carta de Pedro, aceita como canônica, Ehrman afirma que, primeiro, é estranho que ela seja endereçada a comunidades da Ásia Menor (atual Turquia), fundadas e coordenadas originalmente por Paulo, e não por Pedro. Também surpreende o grego elegante e refinado do autor, enquanto o Pedro histórico era um pescador iletrado da Galileia, que provavelmente só falava aramaico.

“Naturalmente, seria possível que, após a ressurreição de Jesus, Pedro tivesse voltado à escola, aprendido grego, praticado como escrever excelentes textos nessa língua, estudado a fundo a Bíblia em grego e, ainda por cima, escrito uma carta como essa para um grupo de pessoas sobre as quais não há outras notícias de contatos de sua parte. Mas parece improvável”, escreve Ehrman.

Mais fortes ainda são as evidências contra a Segunda Carta de Pedro, que não é mencionada por nenhum outro autor cristão até o século 3 d.C. Ela lida com as dificuldades da demora do retorno de Jesus à Terra (um problema que só teria se tornado agudo para os cristãos da segunda e terceira gerações). Fala das cartas de São Paulo como se elas já fossem um texto sagrado (mas todas não estariam circulando ao mesmo tempo, as dele e as de Pedro?) e menciona “os vossos apóstolos”, como se o autor da carta não fosse ele próprio um apóstolo, supostamente.

Cabe um parêntesis para notificar ao leitor o que analistas concluem ao examinar o contexto cristão a partir dos anos 70 a 100 da nossa Era. Os discípulos e apóstolos ao invés de se apegarem à doutrina, riquíssima doutrina de Jesus, se apegaram à sua pessoa, o endeusaram e saíram pregando que ele retornaria para terminar sua obra. Como Jesus demorava a retornar, os pregadores cristãos estavam em pânico. Um grande erro estratégico que não ocorreu com Buda.

E, falando das epístolas de Paulo, elas sofrem de um problema parecido, diz Ehrman. Sete das 13 incluídas no Novo Testamento são incontestavelmente dele: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filêmon. O resto, explica o pesquisador, fica sob suspeita por não seguir o estilo literário das cartas incontestáveis, por apresentarem contradições flagrantes com a teologia paulina nessas cartas e por se referirem a um contexto histórico que só surgiu depois que Paulo já havia morrido.

O caso mais flagrante é o das chamadas Epístolas Pastorais, supostamente endereçadas pelo apóstolo a seus companheiros Tito e Timóteo, que teriam virado chefes das igrejas de Éfeso, na Ásia Menor, e da ilha de Creta. Para começar, o autor das Epístolas Pastorais pressupõe que seus destinatários trabalham em igrejas bem-organizadas, servidas por diáconos, ministradas por presbíteros (“ancestrais” dos modernos padres) e chefiadas por bispos. Acontece que, na época do Paulo histórico, tudo indica que essa organização ainda não havia emergido. Esta organização já esteve a cargo da igreja de Roma.

Coisa parecida se dá em relação ao papel das mulheres nessas igrejas. Ao que tudo indica, o Paulo original não via problemas com a participação direta das mulheres nas celebrações cristãs, profetizando e tomando a palavra para pregar. Já seus sucessores das Epístolas Pastorais proíbem terminantemente as cristãs de ocupar qualquer cargo de relevo na comunidade. Este fator também é notado com a igreja de Roma. Todos podemos aferir que com a caravana de Jesus haviam mulheres e até com muito destaque, como foi o caso de Madalena. Mas, com a igreja romana as mulheres foram alijadas da atividade religiosa principal. Uma herança do império helênico, copiada por Roma.

Similaridades específicas entre

as vidas de Jesus e de Krishna

Agora, esta postagem vai enfocar as Implicações de pontos de semelhança entre a vida de Jesus e Krishna.

Krishna é a segunda pessoa da Trindade Hindu. Ele é considerado como sendo uma das encarnações do Vishnu Deus. Alguns hindus acreditam que ele viveu na Terra durante talvez o segundo ou terceiro século a.C. No entanto, a “crença tradicional baseado em detalhes bíblicos e cálculos astrológicos dá o nascimento de Krishna” no ano 3228 a.C.

Yeshua de Nazaré é geralmente considerado como tendo nascido na Palestina cerca dos anos 4-7 a.C. Assim, se há muitos pontos de semelhanças entre estes dois indivíduos, a maioria dos céticos e alguns liberais religiosos aceitariam que os elementos da vida de Krishna foram incorporadas as lendas associadas com Jesus e não vice-versa. E também há uma corrente que incorpora a possibilidade dos dois trazerem influências de uma terceira fonte matriz: lendas orais transmitidas de geração a geração ao longo de milênios.

Há, então, controvérsias e impasses quase insuperáveis. Para os cristãos a Bíblia foi escrita sob a inspiração divina e não contém erros. Logo a vida de Krishna é a vida de Krishna e a vida de Jesus é a vida de Jesus. Ademais, na crença dos cristãos, Jesus é o único filho de Deus e único salvador do mundo. Vão além: as lendas da vida de Krishna são mentiras que Satanás criou para desacreditar o cristianismo antes de nascimento de Jesus. As semelhanças entre as duas vidas são simples coincidências. E também se diz que a vida de Krishna era um tipo de profecia predizendo a chegada do Messias cristão.

Correspondências entre eventos:

Vida de Jesus x vida de Krishna

Vamos ao que pesquisam os especialistas: Kersey Graves (1813-1883), um Quaker de Indiana foi quem muito levantou comparações entre a vida de Yeshua e Krishna (seus nomes estão grafados segundo a língua de seus países). Graves descobriu o que ele acreditava serem 346 elementos em comum nos escritos cristãos e hindus. Vale dizer, pois que isso parece ser uma evidência, não, centenas de evidências de que os incidentes da vida de Jesus foram copiados de Krishna. Apesar de parecer absurdo, muitos dos pontos de Graves, de semelhança, são uma extensão real.

Ele fez relatar algumas coincidências incríveis:

·         Yeshua e Krishna foram chamados de Deus e de Filho de Deus;

·         Tanto um como o outro foram enviados do céu para a terra na forma de um homem;

·         Ambos foram chamados Salvador, e a segunda pessoa da Trindade;

·         Para ambos, seu pai adotivo humano era um carpinteiro;

·         Em ambos os casos, um espírito era seu pai verdadeiro;

·         Krishna e Jesus eram de descendência real;

·         Ambos foram visitados ao nascer por homens sábios e pastores, guiados por uma estrela;

·         Anjos em ambos os casos, emitiram um alerta de que o ditador local planejava matar o bebê;

·         Para isso o ditador emitiu um decreto mandando sacrificar todas as crianças nascidas naquele período;

·         Em ambos os casos os pais fugiram para garantir a vida do filho;

·         Maria e José se hospedaram em Muturea;

·         Os pais de Krishna ficaram em Mathura;

·         Tanto Yeshua como Krishna se retiraram ao deserto quando adultos, e jejuaram;

·         Ambos foram identificados como “a semente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente”;

·         Jesus foi chamado de “o leão da tribo de Judá”;

·         Krishna foi chamado de “o leão da tribo de Saki”;

·         Ambos afirmaram: “Eu sou a ressurreição”;

·         Ambos se referiram ter existido antes de seu nascimento na Terra;

·         Ambos eram “sem pecado”;

·         Ambos eram homens-deuses: isto é, ser considerado humano e divino;

·         Ambos produziram milagres, incluindo a cura de doenças;

·         Tanto um como o outro teve seu primeiro milagre na pessoa de um leproso;

·         Ambos expulsavam demônios e ressuscitavam mortos;

·         Os dois escolheram discípulos para espalhar seus ensinamentos;

·         Ambos eram mansos e misericordiosos;

·         Ambos foram criticados por se associarem a pecadores;

·         Ambos encontraram uma mulher gentia, em um poço;

·         Ambos celebraram uma última ceia;

·         Ambos perdoaram seus inimigos;

·         E finalmente, ambos desceram ao Inferno, e foram ressuscitados;

·         Muitas pessoas testemunharam suas ascensões ao céu.

Erros do livro de Graves:                   

Devido tanto à negligência ou o conhecimento primitivo da história religiosa no final do século XIX, parece que Graves cometeu alguns erros em seu livro, trechos que naturalmente não foram aproveitados aqui nesta matéria. Ele relatou que: tanto Krishna como Yeshua nasceram em 25 de dezembro. Na verdade, Krishna é tradicionalmente dado como nascido no mês de agosto. O Janmashtami festival, em agosto, é realizado em homenagem a este nascimento.

O dia do nascimento de Jesus é desconhecida, mas acredita-se por muitos de ter sido também sobre agosto, setembro ou outubro, durante num dos anos entre 4 e 7 a.C. Os produtores do calendário juliano e do gregoriano, posterior, se perderam nos cálculos e assim nós estamos numa possível data de 2011 ou 2008 da Era Cristã.

25 de dezembro foi escolhido para o Natal para coincidir com um feriado romano pré-existente a Saturnalia, que recebia o retorno do Sol no hemisfério norte. 25 de dezembro também foi reconhecido nos tempos antigos como o dia do nascimento de vários outros homens-deuses, como Attis e Mithra, presumivelmente pelos mesmos motivos. É evidente que há um erro também aqui, pois o solstício ocorre, em geral, entre os dias 21 e 23.

As mães de Jesus e Krishna eram (?) virgens: Na verdade, o estado virginal no entendimento religioso, falo de Maria, queria referir-se sem pecado e nunca tocada por um homem. Era o seu caso no instante do anúncio por parte do arcanjo. Nas semanas seguintes ela se relacionou com José e engravidou. Estórias de inseminação angelical são para contar para as crianças da primeira infância.

Paulo e autor(es) do Evangelho de João parece que diretamente rejeitam o conceito da gravidez vinda dos céus. O autor do Evangelho de Marcos parece ter tido conhecimento do mesmo. Os autores de Mateus e Lucas aceitaram a crença. Os cristãos de hoje estão divididos. Como também é negada a existência de outros filhos entre José e Maria. E, no entanto, o evangelho deixa isso muito claro.

Se a igreja romana retirasse essa estória de gravidez induzida pelos céus e oferecesse a José a efetiva paternidade de Jesus, como de fato é o que houve, ficaria bem melhor de engolir. E isso não retira a santidade de Jesus, como não retira de nenhum dos demais santos da igreja.

Quanto ao estado virginal de Devaki (mãe de Krishna) é também uma questão de debate. Uma tradição afirma que Krishna foi seu oitavo filho

Há outros casos em que se trata de nascimentos virginais: “No contexto do mito e da religião, o nascimento virginal é aplicado a qualquer concepção milagrosa e o nascimento neste sentido, se a mãe é tecnicamente virgem é de importância secundária para o fato de que ela concebe e dá à luz por alguns outros meios que não o ordinário …. o próprio Vishnu divino, desceu para o útero de Devaki e nasceu como o filho de Krishna”.

As mães de Jesus e de Krishna tinham nomes semelhantes: Miriam (Maria) e Maia. Na realidade, a mãe de Krishna pode ter sido referido como Maia, mas apenas porque esta é a palavra hindi para “mãe”. Nome real de sua mãe era Devaki; nome de sua mãe adotiva foi Yashoda.

Há outros pontos de similaridade encontradas por outros escritores entre Krishna e Yeshua, não explorados por Graves: “O objeto do nascimento de Krishna foi para trazer uma vitória do bem sobre o mal”; Krishna “veio para a Terra para limpar os pecados dos seres humanos”; “Krishna nasceu enquanto seu pai adotivo Nanda estava na cidade para pagar seus impostos para o rei”.

Yeshua nasceu enquanto seu pai adotivo, José, estava na cidade para ser enumerados em um censo para que “todos pudessem ser tributados”, mas a história oficial nega a existência desse censo.

Jesus é dado como autor de uma frase: “se você tivesse fé como um grão de mostarda, você diria e a montanha lançar-se-ia ao mar”.

Krishna é relatado como tendo arrancado uma pequena montanha com a fala.

“A história sobre o nascimento do filho de Isabel João (Batista), primo de Jesus, corresponde com a história do mito de Krishna sobre o nascimento do filho de Nanda e Yasoda sua esposa”. Nanda foi o pai adotivo de Krishna.

O deus grego Dioniso, Jesus e Krishna foram aparecem como tendo sido colocados em uma cesta ou manjedoura depois do nascimento.

Foram Krishna e Yeshua crucificados e depois ressuscitados e levados para o céu no uso do próprio corpo.

Em seu livro, Graves afirmou categoricamente que tanto Yeshua e Krishna foram crucificados entre dois ladrões, com a idade de cerca de 30 a 36 por “mãos perversas”. No entanto, este pode ter sido uma ilusão. A “representação, comum ortodoxa da morte de Krishna relata que ele foi baleado no pé com uma seta enquanto estava debaixo de uma árvore”.

Mas, o autor, Jacolliot, referindo-se a “Bagaveda-Gita e as tradições bramânico”, afirma que o corpo de Krishna: “foi suspenso para os galhos de uma árvore por seu assassino, para evitar tornar-se a presa dos abutres. Sobre Jesus é dito que ele foi preso ao madeiro e como tal tem sido traduzido como árvore.

A Religião M. Guigniaut de l’Antiquité, afirma que “A morte de Krishna é muito diferente da relacionada. Uma tradição notável e convincente o faz perecer em uma árvore, para a qual ele foi pregado pelo golpe de uma flecha”.

Correspondências entre hinduísmo e cristianismo

Pelo menos em alguns ramos do cristianismo existem partes das crenças que se assemelham ao hinduísmo, como por exemplo:

·         A recompensa futura no céu ou a punição no mármore do inferno;

·         Hinduísmo e Catolicismo compartilham o conceito de purgatório;

·         Também quanto o dia de julgamento;

·         A ressurreição geral no mesmo corpo;

·         A necessidade de arrependimento dos pecados;

·         A salvação requer a fé no Salvador;

·         A crença nos anjos e espíritos maus (apenas nos maus);

·         A crença de que as doenças e enfermidades são causadas por espíritos malignos;

·         Uma guerra havida e outra por vir, no céu, entre os anjos bons e ruins;

·         O livre arbítrio é um fundamento da vida;

·         Deus é considerado a “Palavra de Logos”, “o Verbo da Criação”;

·         Seus textos religiosos falam de “um cego guiando outro cego”, “um novo céu e uma nova terra”, “água viva“, “Toda a Escritura é inspirada por Deus“, “Toda a Escritura é proveitosa para ensinar“, “morrer é um grande ganho“;

·         O jejum purifica;

·         É preciso nascer de novo.

Outros pontos de semelhança entre o Hinduísmo e o Cristianismo é, por exemplo, o papel da água: A maioria dos cristãos batiza seus membros maduros ou crianças na congregação. A algum tempo isto é feito através da imersão total em água, por vezes pela aspersão de água sobre a cabeça do indivíduo. Na Igreja Católica Romana, o batismo é um sacramento que lava do pecado original da pessoa. Imersão em água pelos hindus também é um ritual importante. “Água no hinduísmo tem um lugar especial, pois acredita-se que espiritualmente a limpeza traz poderes. Cada templo tem um lago perto dele e os devotos devem tomar um banho antes de entrar no templo”.

E, agora, o que sabemos de Deus?

É claro que não sabemos muito. Com tanta coisa para estudar, não é assim em cerca de 20 páginas do Word que se vai saber do Autor da Vida. Precisamos nos descobrir antes e quem ao descobrir-nos cheguemos a Ele.

Somos ainda crianças que acreditam em estórias, mitos, gigantes, salvadores. Cresceremos e chegaremos lá. Quem mais animou nossas estórias e vidas nesses últimos 30 séculos, foram os judeus e os romanos. Precisamos ouvir outras estórias. Essas que nos contaram são um tanto pobres e confusas.

Referências:

Kersey Graves, “Os Dezesseis Salvadores Crucificados”, Adventures Unlimited Press, Capítulo 32, página 279. (1875; Reimpresso 2001). Leia opiniões ou encomende este livro em segurança da Amazon.com loja de livros online.

“Festivais: Krishna Janmastami” em: http://www.andhratoday.com/

“Origens pagãs do mito de Cristo: Cristos pagãos: Krishna” em: http://home.earthlink.net/

Fred Nojd, “Jesus – de forma única” em: http://members.attcanada.ca/

Acharya S “, Sóis de Deus: Krishna, Buda e Cristo Revelados”, em: http://www.truthbeknown.com/

Jacolliot, “A Bíblia na Índia” Sun Publ. Co., (1992). Leia opiniões ou encomende este livro com segurança da Amazon.com loja de livros online.

M. Guigniaut, “Religião de l’Antiquité”

“Shiva vs Jesus: hindus Queime casas dos cristãos”, New York Times, 1999-MAR-23, em: http://www.churchstate.org/

“Água em Religião”, página A água, em: http://www.thewaterpage.com/

Jocelyn Rhys, “A Doutrina nascimento virginal: Detalhes das duas histórias do Evangelho”, (1922) em: http://www.geocities.com/

Thomas Boslooper, “O Virgem Nascimento” S.C.M. Imprensa, (1962), Páginas 148 e 149. Citado em: “O Virgem Nascimento de Cristo”, em: http://www.athmaprakashini.com/

“Krishna”, Wikipedia, 2007-outubro-07, em: http://en.wikipedia.org/

Material em outros sites que tratam de semelhanças entre Jesus e Krishna:

“Examinando a crucificação de Jesus e paralelos para crucificado sol G-ds # 3″, em: http://paganizingfaithofyeshua.netfirms.com/

“Cristos pagãos” em: http://home.earthlink.net/

“Jesus Cristo e Bhagavan Krishna: Cristianismo original ensinado por Jesus e Yoga original ensinada por Krishna, ambos são para a elevação da humanidade”, em: http://ompage.net/

Stephen Eck, “Hare Jesus: Hindu cristianismo Heritage” Revisão Cética, 1994, N º 3. Online em: http://www.infidels.org/

“Krishna e Jesus: o Salvador real. Por favor, Stand Up?” Em: http://www.atheistalliance.org/

Prithu das Adhikary, “Jesus e Krishna” em: http://www.omjesus.com/

Fred Nojd, “Jesus – de forma única” em: http://members.attcanada.ca/