sábado, 11 de julho de 2015

1802-Ecos das profecias II


Eu salvador de mim

Introdução

Já abordamos algo muito semelhante em torno das postagens 1275, mas como em todas as séries os assuntos não se esgotam, aqui estamos de volta com a segunda abordagem sobre profecias. Muito do que sabemos de Deus e da história dos homens vem das profecias. O povo judeu, então, é mestre nesta questão. Não criou muito, copiou bastante.

Entendo que poucos profetas atingiram tanta popularidade quanto Daniel, Isaías, Nostradamus... Eram especialistas em tragédias. Vieram para anunciar que a dor promove transformações e só pode ser sentida na carne, portanto, materialmente. A alma não sente dor, talvez sinta sofrimento. A dor é privilégio de encarnados. E é na carne que somos árbitros de nossos atos, podemos pensar o que queremos, podemos assumir nossas atitudes, dirigir nosso falar e fazer o que queremos, claro, assumindo, por decorrência, os resultados disso.

Fomos muito truculentos em quase todos os nossos atos de um imenso período em que queríamos nos afirmar como pessoas, povos, nações. Nada mais tinha valor, só a força bruta. Justiça para que?

Mas, houve um momento em que os profetas viam o mar de sangue produzido e que estávamos dispostos a produzir e gritavam com toda a força de seus pulmões: parem! Deixaram escritos que não deixam a menor a dúvida sobre isso.

O divisor de eras ou águas nessa corrida sanguinária foi Jesus. E Jesus incomodava os afoitos guerreadores tanto quanto o juiz Sérgio Moro incomodou e incomoda os ladrões do dinheiro da Petrobrás (desculpem a comparação, mas ela é pertinente, contextual). Pertinente por que? Porque guerra sempre foi instrumento de enriquecimento. E agora vemos que roubo também é instrumento de enriquecimento. Os fornecedores de bens necessários à guerra e ao roubo, no primeiro caso é vencer, no segundo é esconder. O vencedor da guerra se apropria. O dissimulado ladrão se apropria. Sempre houve imensos lucros com as guerras. Agora vemos que também há imensos lucros com o roubo.

O defensor do amor, da paz e da ética tinha de ser silenciado, pedia o governo de Roma interessando na posse das riquezas dos povos dominados. Sérgio Moro corre risco de vida e de perda de poderes por interesse de quem não quer investigação e apuração de culpas.

E os judeus puxa sacos de Roma, ocupantes de cargos de honra e bem remunerados, faziam o coro. E o povo de Israel ouvia o messias e apanhava dos centuriões. Tanto que naquela tarde da execução, o povo foi afastado a chicotadas para que não criasse tumulto no instante derradeiro da sentença.

O povo que segue Jesus, no caso brasileiro, aguarda ansioso pela punição de todos os culpados.

O tempo é de apuração, elucidação, iluminação. Todos que agem nos esconderijos do poder, encobrem suas maracutaias e preferem agir nas sombras, devem estar preparados para o novo tempo.

Por que Moisés omitiu ou quem mentiu?

Um fato predominante no Antigo Testamento, todo ele hebraico, judaico, é que Moisés, um egípcio, hierofante dos templos de Tebas e Heliópolis, de onde a humanidade ocidental descobre a espiritualidade e a vida eterna da alma, isso mesmo, ele, Moisés, em todos os capítulos atribuídos a si na Bíblia judaica, nada fala sobre a alma. Vamos além: Davi, o grande, venerado e endeusado rei dos judeus e seu sucessor, exemplo olímpico de sabedoria, Salomão, seu filho, nenhum dos dois fala em espírito ou alma.

Teriam sido censurados pela Igreja de Roma? Terá sido por isso que o povo judeu ainda se anima de forma odiosa contra seus irmãos árabes? Seria por isso que o Estado Islâmico representa um grupo de desalmados homens que não temem a sua chegada na outra dimensão depois de fazer tudo o que fazem?

A civilização ocidental a jusante da cultura judaica perdeu esses, por assim dizer, 30 séculos, afastada do tema espiritual. Nem mesmo a magistral Doutrina de Jesus, toda ela calcada sobre a espiritualidade, a partir do batismo que deixou ser na água, nem assim a espiritualidade foi encarada como uma dimensão da vida. Mais que uma dimensão, hoje se cogita que a vida verdadeira é espiritual e que a dimensão material é apenas a cópia.

Iremos destinar mais 30 séculos para nos aproximar da dimensão espiritual abandonada lá atrás? Iremos sofrer com a visão míope das igrejas e dos homens por elas educados? Sinceramente, as profecias parece não terem servido para nada, nem as que previram a chegada de Jesus, nem as que previram e preveem uma crucial batalha entre o bem e o mal a qualquer dia, aqui entre nós.

O judaísmo chassídico

Minha proposta é voltarmos um pouco na história dos judeus para poder entender melhor o ambiente em que o pregador de sandálias, túnicas e cabelos longos chegou à Palestina e marcou a introdução do tempo novo que nem judeus, nem islâmicos, nem outros e outros conseguiram entender.

O judaísmo chassídico, também chamado de chassidismo, judaísmo hassídico ou hassidismo (do hebraico חסידים, Chasidut para os sefardim; Chasidus para os asquenazes, quer dizer: "piedosos" ou "devotos") é um movimento surgido no interior do judaísmo ortodoxo que promove a espiritualidade, através da popularização e internalização do misticismo, como um aspecto fundamental da fé judaica. Era tudo quanto Jesus Cristo gostaria de ter tido ao seu lado ao seu tempo. Infelizmente, quando Jesus veio, o judaísmo hassídico ou chassídico já não tinha expressão, mas estava latente. O que Jesus encontrou muito fortemente estruturado foi o judaísmo farisaico, dos fariseus tradicionalistas, que pregavam a amarração da fé nas letras dos antigos escritos sagrados. E Jesus era muito moderno para aqueles defensores do atraso.

Essa vertente (hassídica) não deixou de existir ao longo de praticamente toda a história judaica, portanto, estava lá no primeiro século cristão e antes disso. Hoje, no entanto, o uso do termo "chassidismo" ou "hassidismo", que é aplicado, se restringe à tendência desenvolvida na primeira metade do século XVIII (veja 18 séculos depois), na Europa Oriental - com o rabino Israel Ben Eliezer, mais conhecido como Baal Shem Tov - em reação ao judaísmo legalista ou talmúdico, mais intelectualizado.

Atribuem-se ao Baal Shem Tov o poder da cura e vários milagres, sobretudo no confronto com espíritos malignos, os quais ele teria vencido usando como arma a fé e a alegria de viver. O rabino ia de aldeia em aldeia levando o alívio aos doentes e divulgando seus ensinamentos. Alguma similitude com outra história que conhecemos? Afinal, ele reuniu seus seguidores em torno de um corpo doutrinário sistematizado, constituindo o hassidismo moderno como uma disciplina de natureza religiosa.

O elemento central do hassidismo é a devekut, isto é, a união mística com Deus - uma metodologia espiritual que tem como meta libertar o ser humano dos reveses da vida terrena e afastar o quanto mais possível os salvadores intermediários.

Seus discípulos pregam que o Homem tem o poder de se desligar dos bens materiais e de tudo o que está relacionado ao mundo por meio da prece meditativa, o daven, o qual pode conectar o indivíduo a Deus. Baal Shem Tov admite a Shekhiná, ou seja, a presença divina em cada vida, como uma prova da compaixão divina pelo ser humano e por todas as suas criaturas.

Por outro lado, uma das lideranças mais significativas do hassidismo no século XIX, Menahem Mendel de Kotzk, representa a polaridade oposta, pois destaca a revolta diante das imperfeições do Homem e de seus sofrimentos. Sua ira o conduz ao conceito do tikun olam, a redenção do Cosmos. Aqui entram as profecias que anunciam catástrofes e dor.

As ideias opostas destes dois ícones do movimento hassídico imprimem nesta corrente a piedade alegre e compadecida, de um lado, e a busca implacável da justiça austera, do outro. O hassid, seguidor dessa esfera mística, está constantemente imbuído da presença do Criador, pois se encontra quase sempre em estado de meditação, a qual não traz em si apenas os típicos lamentos judeus, mas igualmente as melodias que se repetem por um longo tempo e a coreografia hassídica de gratidão à vida.

A comunidade judaica se beneficiou amplamente do hassidismo, uma vez que ele provocou uma reestruturação extrema da sociedade judaica, reforçando o senso comunitário com base no conceito de uma vivência mística na vida cotidiana. A doutrina hassídica é um tanto complexa, pois se fundamenta no panenteísmo, segundo o qual Deus é a existência de fato, a essência de tudo que há. Em sua versão mais radical, afirma que nada existe a não ser o Criador, e tudo o mais é ilusão. Não se deve confundir o panenteísmo com o panteísmo, movimento que prega a imanência divina ao Universo e à natureza. Na concepção panenteísta, Deus se revela em cada evento universal, constituindo a realidade última, a única existência consistente. O mundo estaria encoberto por um manto que, uma vez removido, manifestaria tão somente a presença do Criador. Assim sendo, Ele está no interior de cada ser, mas também transcende a criatura, a qual nada mais seria que uma dissimulação do Ser Divino.

Portanto, a divindade atua como uma conexão entre todos os seres, os quais estão interligados em uma alteridade consagrada. Desta forma, todos podem ser recuperados e alteados, aprimorados de tal forma que podem, assim, voltar ao seio divino. Cada indivíduo tem como papel principal na existência promover esse resgate seu e do outro. Eis porque o hassid não acredita no mal e o vê apenas como uma máscara deturpada do que ainda não foi salvo. Por esta proposta religiosa ficam afastados os salvadores, quebradores de galhos, zeradores de faltas, encarregados de indultos, pois a salvação pertence a cada um ao corrigir-se e adquirir dignidade diante das leis divinas.

Quem eram os macabeus?

Esse povo poderia nos dar preciosos detalhes para enriquecer a história de Jesus. Para muitos estudiosos, a era dos macabeus é como uma “caixa-preta” escondida entre o término da escrita dos últimos livros do Antigo Testamento e a vinda de Jesus Cristo. Um período de cerca de 200 anos.

Da mesma forma que certos detalhes são revelados quando a caixa-preta de um avião é analisada após um desastre, podemos obter certo entendimento fazendo uma análise detalhada da era dos macabeus — um período de transição e transformação para a nação judaica. E, nesse caso, o desastre foi a chegada e o destino dado ao Mestre Jesus, homem.

Quem eram os macabeus? Que influência exerceram sobre o judaísmo antes da vinda do predito Messias? Daniel aborda isso em 9:25, 26.

Vamos por partes olhando primeiro a influência do helenismo. Alexandre Magno, o Grande, conquistou territórios desde a Grécia até a Índia (336-323 a.C.). Seu vasto império contribuiu para a expansão do helenismo — o idioma e a cultura da Grécia. Os oficiais e os soldados de Alexandre casaram-se com mulheres locais, causando uma fusão da cultura grega com as culturas estrangeiras. Depois da morte de Alexandre, seu império foi dividido entre seus generais. No início do segundo século a.C., Antíoco III, da dinastia greco-selêucida, na Síria, arrebatou Israel do controle dos Ptolomeus gregos do Egito. Que influência o governo helenista teve sobre os judeus em Israel? Um historiador escreve: “Visto que os judeus não podiam evitar o contato com seus vizinhos helenizados e muito menos com seus próprios irmãos no exterior, a absorção da cultura e do modo de pensar dos gregos foi inevitável. Não dava nem para respirar, no período helenista, sem absorver a cultura grega!”

Os judeus adotaram nomes gregos e — uns mais, outros menos — adotaram também os costumes e a vestimenta gregos. O poder sutil da assimilação estava em ascensão.

Vamos olhar agora a corrupção. Os sacerdotes estavam entre os judeus mais suscetíveis à influência helenista. Muitos deles achavam que aceitar o helenismo significava permitir que o judaísmo acompanhasse a evolução dos tempos. Um desses judeus era Jasão (chamado Josué em hebraico), irmão do sumo sacerdote Onias III. Enquanto Onias estava em Antioquia, Jasão ofereceu um suborno às autoridades gregas. O que ele queria? Que o nomeassem sumo sacerdote em lugar de Onias. O governante greco-selêucida Antíoco Epifânio (175-164 a.C.) rapidamente aceitou a oferta. Os governantes gregos nunca haviam interferido no sumo sacerdócio judaico, mas Antíoco precisava de dinheiro para suas campanhas militares e também gostava da ideia de ter um líder judeu que promovesse a helenização de maneira mais ativa. A pedido de Jasão, Antíoco concedeu a Jerusalém o status de cidade grega (polis). E Jasão construiu um ginásio de esportes onde judeus jovens e até sacerdotes participavam de competições e outros eventos.

Olhemos como traição gera traição. Três anos depois, Menelau, que pode não ter sido da linhagem sacerdotal, ofereceu um suborno maior e, sentindo-se ameaçado, Jasão fugiu. Para pagar Antíoco, Menelau tirou grandes somas de dinheiro do tesouro do templo. Visto que Onias III (exilado em Antioquia) manifestou-se contra isso, Menelau providenciou que fosse assassinado.

Quando se espalhou um boato de que Antíoco havia morrido, Jasão voltou a Jerusalém com mil homens na tentativa de tirar o sumo sacerdócio de Menelau. Mas Antíoco não estava morto. Quando soube do que Jasão tinha feito e da agitação entre os judeus em desafio à sua política de helenização, Antíoco reagiu com muita dureza contra a facção de Jasão.

Mais reação. Em seu livro The Maccabees (Os Macabeus), Moshe Pearlman escreve: “Embora os registros não sejam específicos, parece que Antíoco concluiu que permitir aos judeus uma certa liberdade religiosa tinha sido um erro político. Em sua opinião, a recente rebelião em Jerusalém não se tinha originado de razões puramente religiosas, mas do sentimento pró-Egito existente na Judéia, e esses sentimentos políticos tinham se manifestado de forma perigosa exatamente porque, de todo o povo sob seu domínio, somente os judeus tinham procurado e conseguido obter uma ampla medida de separatismo religioso. Ele decidiu que isso iria acabar”.

O estadista e erudito israelense Abba Eban resume o que aconteceu a seguir: “Numa rápida sucessão durante os anos 168 e 167 a.C. os judeus foram massacrados, o Templo foi saqueado e a prática da religião judaica foi proscrita. A circuncisão e a observância do sábado eram punidas com a morte. O insulto final veio em dezembro de 167, quando Antíoco ordenou a construção de um altar dedicado a Zeus, dentro do Templo, e exigiu que os judeus sacrificassem carne suína — obviamente impura, de acordo com a lei judaica — ao deus dos gregos”.

Durante esse período, Menelau e outros judeus helenizados continuaram em suas posições, oficiando no templo agora profanado.

Embora muitos judeus aceitassem o helenismo, um novo grupo, autodenominado hassidins — os pios — incentivava a obediência mais estrita à Lei de Moisés. Revoltado com os sacerdotes helenizados, o povo cada vez mais tomava o lado dos hassidins. Estabeleceu-se uma era de martírio à medida que os judeus, em todo o país, eram forçados a escolher entre adotar os costumes e sacrifícios pagãos e a morte. Os livros apócrifos dos Macabeus relatam numerosos episódios de homens, mulheres e cri
anças que preferiram morrer a transigir. Percebe-se nisso uma extraordinária proximidade entre os Macabeus e os hassídicos.

A noite chegará ao fim

Vamos dar um mergulho nas profecias de um período de cerca de dois mil anos antes da chamada Era Cristã para entender o que os grandes médiuns e adivinhos da comunidade hebraica quiseram mencionar sobre a presença entre nós de Jesus de Nazaré. Nenhum outro líder espiritual foi tão anunciado e celebrado.

Entre todos, talvez seja o profeta Isaias o que mais anunciou o Senhor Jesus. Na verdade, o Novo Testamento diz que Isaias viu a Gloria de Jesus: “Assim se exprimiu Isaías, quando teve a visão de sua glória e dele falou” João 12,41.

É possível identificar o momento em que o profeta viu a gloria do Senhor com a ocasião de seu chamamento, quando viu “o Senhor sentado num trono muito elevado; as franjas de seu manto enchiam o templo” Isaías 6,1.

Isaias profetizou a vinda de Jesus falando praticamente tudo sobre ele, como, por exemplo, sua pregação, sua obra, sua rejeição, sua eternidade, etc. Uma profecia em particular – a do capitulo 9 de Isaias - fala do nascimento de Jesus.

O primeiro anúncio de Isaias foi de que a noite do povo chegaria ao fim: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz”; Isaías 9,1. Uma das principais características dos profetas era trazer mensagem de esperança. Nesse trecho, Isaias se refere especialmente a uma região desprezada pelo povo de Israel, que era a Galileia, sempre habitada por estrangeiros e, por isso, desprezada pelos israelitas. E ele previu: Deus, entretanto, não a deixará abandonada para sempre. Nem as trevas a continuariam obscurecendo.

Naquele tempo Israel estava sendo terrivelmente ameaçado pela Síria, e logo a Assíria projetaria sua sombra sobre a nação. Na invasão dos assírios, a região de Galileia seria a primeira a cair. A afirmar que restauraria a Galileia, Deus incluía toda a nação naquele momento, oprimida pelo inimigo, com o povo literalmente “em trevas”, mas, com a libertação que viria do Senhor, veria “grande luz”: “O povo que andava em trevas viu uma grande luz; e sobre os que habitavam na terra de profunda escuridão resplandeceu a luz” – Isaías 9,2. Em vez de tristezas, o povo teria alegrias, pois qualquer vestígio de batalhas desapareceria, segundo o profeta no capítulo 9, versículos 3 a 5. O lugar mais tenebroso seria o primeiro a ver a luz.

Apesar de haver um cumprimento literal dessa profecia com a restauração do exilio da Babilônia e a reconstrução da nação, incluindo Galileia, que geograficamente foi a primeira a ser habitada com a volta do exílio, certamente o momento de maior iluminação que aquele povo já viu se deu bem mais tarde, quando um jovem com não mais que 30 anos andou por aquela região pregando a palavra de Deus e realizando os sinais mais maravilhosos jamais vistos. Seu nome: Jesus de Nazaré.

Embora Jesus tenha nascido em Belém, passou a maior parte de sua vida e os primeiros anos de seu ministério justamente da Galileia, a ponto de ser discriminado pelos judeus, chamado de galileu e de nazareno (capital da Galileia), que não aceitavam que um galileu pudesse ser profeta. Jesus honrou aquela região com sua presença. O povo de lá foi o primeiro a ver a luz. Assim, a profecia de Isaías se cumpriu totalmente, conforme o Novo Testamento testifica, quando Jesus se mudou de Nazaré para Cafarnaum, na Galileia. “Deixando a cidade de Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, à margem do lago Tiberíades, nos confins de Zabulon e Neftali, para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías”; Mateus 4,13-14.

Foi a partir daí que Jesus começou a pregar e dizer – “Arrependei-vos e fazei penitência, porque é chegado o reino dos céus”; Mateus 4,17.

Em todo momentos difíceis pelos quais o povo de Israel passou, a ideia de um libertador que viria, começou a ser disseminada. Ele seria o “Messias”, literalmente, o “ungido”, que teria a missão especifica de libertar o povo. Da própria Bíblia o povo extraia essa noção lendo, por exemplo, sobre o descendente de Maria, como escreve Lucas 1,31-33: “Eis que conceberás e darás a luz a filho e nele porás o nome de Jesus”. Extraía também a promessa de que Deus levantaria um profeta igual a Moisés: “O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é a ele que devereis ouvir” (Moisés através de Deuteronômio 18,15). E também sobre o descendente de Davi que assentaria para sempre no seu trono: “Quando chegar o fim de teus dias e repousares com os teus pais, então suscitarei depois de ti a tua posteridade, aquele que sairá de tuas entranhas, e firmarei o seu reino. Ele me construirá um templo, e firmarei para sempre o seu trono real” 2º Samuel 7,12-13.

Sempre que o povo se encontrava numa situação desesperadora, voltava os olhos para o Messias esperado aguardando a proteção dele. Aquela não era um espera injustificada porque, de fato, o Messias viria. Isaias, com olhar profético o viu como já nascido, e afirmou: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu” Isaías 6,9. Esse menino seria a concretização de todos os sonhos de Israel. O nascimento dele seria a verdadeira luz que iluminaria a todos os que jaziam nas sombras da morte. Jesus se identificou com o Messias que o Novo Testamento chama de o Cristo. Quando André, irmão de Pedro, encontrou-se com Jesus foi dizer a seu irmão: “Achamos o Messias (que quer dizer Cristo) e o levou a Jesus” João 1,41-42.

Pena que o povo judeu, esperando por um rei terreno, nunca viu em Jesus as características do Messias profetizado por Isaias, que foi muito além do que um rei terreno pode produzir. Este foi, sem nenhuma dúvida, o maior erro de fé de toda a história humana.

Sempre será excelso perguntarmos como estaria o povo judeu nos tempos atuais se tivesse ele assumido a doutrina de Jesus?

Isaías previu a vinda de Jesus

e Daniel previu o holocausto judeu

O que mais pode ter faltado ao povo hebreu para fazer a leitura de seu destino se os seus principais profetas previram tudo?

Há um capítulo do livro de Daniel, o 12, em que ele anota o recado da espiritualidade: “guarda isso secreto, e conserva este livro lacrado até o tempo final”. Todos quiseram retirar esse lacre, mas foi João Evangelista que voltou ao tema cerca de 700 anos mais tarde. E o tema era a ira de Deus contra os hebreus através da Besta do Apocalipse, prevista por João e ocorrida durante o período da II Grande Guerra. Tudo previsto.

Esse era o tempo previsto para a derrota de Satã e a implantação definitiva do Reino de Deus entre os homens.

Daniel adverte então já se referindo à destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C. e novamente se referindo às Cruzadas no século XI, para finalmente referir-se ao fim do holocausto, quando escreve: “Dn 12;11 - Desde o tempo em que for suprimido o holocausto perpétuo e quando for estabelecida a abominação do devastador, transcorrerão mil duzentos e noventa dias” cada dia representado por um ano.

João Evangelista deixou claro já antes de escrever o Apocalipse: “I João 2;18: Filhinhos, esta é a última hora. Vós ouvistes dizer que o Anticristo vem. Eis que já há muitos anticristos, por isto conhecemos que é a última hora”. Previu também, depois, nos textos apocalípticos, que a vingança contra os hebreus, viria através do descendente de Davi (Jesus) através do próprio Davi (reencarnado na figura de Adolf Hitler, como demonstramos na série anterior).

Foi a partir da Guerra movida pelo Führer alemão contra as nações livres, que ocorreu o holocausto judeu, mas na sequência foi criado o Estado de Israel devolvendo aos judeus a sua Pátria.

Mas, uma coisa ficou faltando cumprir-se das profecias todas: o reconhecimento judeu de que Jesus foi o Messias esperado por eles e não reconhecido por eles.

Qual poderia ser o segundo nome de Jesus

Perguntamos ao Universo (linhas atrás): como estaria o povo judeu nos tempos atuais se tivesse ele assumido a doutrina de Jesus?

A resposta não quer calar: estaria como um povo excelso, sem nenhuma dúvida eleito por Deus como exemplo para o mundo. Pena que não foi assim e o estigma que o torna o povo mais perseguido do planeta continua mais vivo que nunca.

O menino visto por Isaias teria qualidades que dificilmente poderiam a ser atribuídas a um homem comum. O profeta disse que “o seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz” Isaías 9,6b. O primeiro título “Maravilhoso e Conselheiro”, aponta para a realidade supra-humana do Messias. Ele seria extremamente além do comum, por isso a designação maravilhosa pode ser trazida como sobrenatural. Como Conselheiro, o Messias teria a sabedoria plena. Uma vez ungido pelo Espírito Santo, teria em si toda a sabedoria necessária para salvar seu povo.

O segundo titulo “Deus Forte”, demonstra o elemento divino do Messias. Ele não seria apenas um homem; teria à própria natureza divina. Isaias já havia profetizado que o Messias seria o “Emmanuel”, que literalmente significa “Deus Conosco”. Agora ele vai além atribuindo ao Messias o titulo que é dado ao próprio Deus – Deus Forte – isto pode ser visto em Isaías 10, no qual o profeta fala sobre a conversão do povo: “Naquele tempo, o restante de Israel e os remanescentes da casa de Jacó deixarão de apoiar-se naquele que os fere, mas apoiar-se-ão com confiança no Senhor, o Santo de Israel. Um resto de Jacó voltará para o Deus forte” Isaías 10,20-21. Não há como negar, Isaias entendia que o Messias de alguma forma seria homem, e, ao mesmo tempo, o Próprio Deus. E previa, por extensão, o fim do sofrimento do povo judeu.

O terceiro título conferido ao Messias por Isaias é “Pai da Eternidade”. Não devemos entender esse título como Pai da Eternidade e sim como Pai Eterno. Ele seria para o povo o Pai eternamente disponível, eternamente amoroso, eternamente cuidadoso, ou seja, alguém que cuidará de seus filhos para sempre. As correntes filosóficas espiritualistas creditam a Jesus o posto de maior espírito dirigente do planeta.

O quarto título “Príncipe da Paz”, Deus já havia se revelado a Gerdeão como o Senhor da paz, aquele que põe fim às guerras, aquele que garante a paz. O Messias seria o Príncipe da Paz, pois não só acabaria com a guerra, mas traria prosperidade após a batalha. Ao examinarmos a II Grande Guerra como o confinamento dos espíritos das trevas, pode-se crer que o planeta se encaminha para a paz entre os povos. E novamente o mundo olha para o Oriente Médio a espera de que judeus e palestinos se entendam.

Assim vemos que o Messias teria todas as qualidades para salvar e cuidar de seu povo. Seria um sobrenatural conselheiro capaz de ajudar seu povo e, ao mesmo tempo, o Deus Forte que garantiria a vitória, sendo uma fonte de segurança eterna e estabelecendo uma paz perene.

Nem é preciso dizer que somente Jesus cumpre perfeitamente essa profecia. Ele é o verdadeiro representante de Deus e verdadeiro homem. Somente Ele tem a sabedoria eterna; somente Ele é o agente do Deus poderoso; somente Ele é nosso Pai Eterno planetário; somente Ele nos garante a paz. Não há duvidas, Isaías anunciou Jesus.

O anunciado que foi rejeitado

A beleza das decorações ou as alegrias das confraternizações do Natal parecem enraizar-se no mais recôndito do coração humano. A preparação para o Natal é um caminho interior para dar sustento e consistências aos caminhos da vida e às vicissitudes que desafiam cotidianamente a existência humana. Mas, podíamos fazer mais. Isso é pouco.

Tradicionalmente a Igreja Católica na sua liturgia do Tempo do Advento, inclui na proclamação da Palavra de Deus, a profecia de Isaías (capítulos 6 a 9). Os ecos dessa sua profecia têm forças indicativas indispensáveis.

Trata-se de uma profecia que cultiva a inclinação para ouvi-la em razão de ressoar a sua voz com uma singular plenitude.

É ímpar a beleza com que Isaías anuncia o Messias. Um anúncio com força de interpretação do presente indicando caminhos novos e a premência de novos propósitos assumidos em âmbito pessoal para configurar e sustentar um tempo novo sempre esperado por todos em cada etapa da história. A profecia tem, pois, força de interpelação. Necessária quando se considera o congelamento de consciências e a naturalidade de certas posturas advindas de arriscadas relativizações de valores e de compromissos cidadãos.

Isaías era um ser internacionalista. Sua leitura ia além das fronteiras judaicas. Atuou na história de Israel na segunda metade do século VIII antes de Cristo. Historicamente, profetizou quando a poderosa Assur se preparava para conquistar a Síria e a Palestina, tendo assistido a queda do reino de Israel e de Samaria, vendo com os próprios olhos a extrema desolação de Jerusalém. Portanto, um tempo de derrocadas e desolações morais e na infraestrutura dessas sociedades. Sua palavra torna-se um forte sinal de esperança. Seus discursos ganharam uma admirável contundência na ordem interna da sociedade, situando bem o contexto político mais global e incidindo sobre a conduta moral de cada cidadão, mostrando, com argumentos incontestáveis, o quanto este valor ou a falta dele tem força definidora nos rumos da sociedade, levando-a a conquistas ou a derrocadas.

É sempre assim com os seres humanos. Os ouvidos não ouvem a mente não aprende e corpo paga. Os judeus precisaram perder grande parte de suas conquistas, daquilo que estava confortável, precisaram sentir na carne a dor da perda para entenderem o que os seus profetas vinham prevenindo. É difícil compreender por que durante milênios os hebreus vieram ouvindo as vozes de seu Deus através dos profetas e justamente no caso de Jesus, nada feito, a voz dos profetas já não valia mais. Os líderes da época, confortados em posições de destaque no regime romano, preferiram trair o seu destino e o destino de seu povo. 

O discurso de Isaias atingia assim uma amplitude jamais vista. Essa amplitude é força educativa indispensável para que uma sociedade supere seus descompassos e consiga fixar seu horizonte emoldurado por razões que não incluam a mesquinhez, a desonestidade, a ganância, a mentira, a luxúria, a birra, o fanatismo.

O enfrentamento deste embate não pode prescindir das referências morais com suas raízes em tradições e fontes sapienciais. Embora mantidos muitos desses valores, faltou aos judeus à época a compreensão que alcançou o pequeno grupo de também judeus que seguiram Jesus.

O profeta ajuda uma sociedade perdida a assumir a convicção de que seus desastres advêm da imoralidade, da teimosia, da birra, da intolerância, da exclusão, da soberba. E a restauração de sua força brotará sempre da busca de uma conduta ilibada centrada no respeito à vida, na verdade, na justiça, na solidariedade humana, no amor.

O profeta, pois, educa a consciência moral do povo e mostra-lhe que ela é o sustentáculo de suas conquistas, de sua recomposição e a dinâmica de superação de suas incontáveis fragilidades gerando descompassos e pesando sobre os próprios ombros. A derrocada moral dos chefes, a regra de um jogo em que vale tudo e qualquer coisa, situa o povo num exílio que traz amarguras. Estamos falando do mais brutal exílio em relação à Casa de Deus.

Também faz perder a independência porque torna as pessoas reféns de políticos, traficantes, sistemas aprisionadores da dignidade humana, alimenta as ilusões dos números e das posses onde a dignidade parece depender da ostentação, seja no vestir, no morar ou no andar pelas ruas sobre rodas, tendo como resultado da projeção das ruínas dos verdadeiros valores, das instituições ruídas e extremamente enfraquecidas no seu poder, aquelas mesmas que um dia pareceram inabaláveis e inexpugnáveis, a começar pelas Igrejas.

A profecia tem, então, como meta a correção desta obstinação que cega impedindo de fixar o olhar noutro alguém. Seu anúncio messiânico convida a encontrar a realidade nova que está visível no coração desse tempo indicando que o novo não virá do simples poder e das posses, mas da simplicidade amorosa da manifestação de Deus.

Anuncia assim que ‘um broto vai surgir do tronco seco... das velhas raízes um ramo brotará’. O sinal será dado pelo próprio Deus, pois ‘eis que a jovem conceberá e dará à luz um filho e lhe porá o nome de Emmanuel’.

Isaías, entendido de política internacional, e à luz dela interpreta com autoridade os acontecimentos, trás ao povo o único caminho possível no encontro com o Messias, na força de sua presença, para a superação de tudo o que desfigura uma sociedade que foi poderosa. Um povo que foi forte, de reis imbatíveis agora exilados, cassados, discriminados, enxotados.

Essa presença do Messias, Cristo Jesus, o Menino Deus do Natal, é a única fonte com força para incidir na conduta de cada um fazendo com que todos sejam capazes de readquirir sua própria dignidade.

Tem de ser entendido: Jesus não veio salvar, veio ensinar a senha para abrir as portas das prisões. Os judeus queriam um governante salvador. Tinham um Messias libertador. Preferiram ser salvos ao invés de libertos. Deu no que deu.

Uma sociedade diferente da lógica que Deus chama de mãos sujas de sangue, dos que, gananciosamente, ajuntam casas a casas, emendando terreno com terreno, diz o profeta Isaías, até não sobrar espaço para mais ninguém, tornando-se donos de tudo. Essa sociedade maior muito, muito, cópia do que Israel modelou para grande parte da humanidade, se fez dona do planeta, conspurcou a Terra com sua ambição de ter mais e agora se vê assustada com a elevação da temperatura, com o degelo das calotas, com as aberrações climáticas e geológicas, com a miséria de 1/3 da humanidade, com a crise econômica internacional, com o colapso à vista.

Na verdade, o profeta Isaias revela onde estão as raízes dos males que afligem o povo. Comprova que o povo anda para trás porque abandonou o seu Senhor, na pretensão de ser dono de algo pequeno. A vinda do Messias, o Cristo Libertador, num tempo de uma Nova Aliança, traz os ecos da profecia como imposição: "Lavai-vos, limpai-vos, tirai das minhas vistas as injustiças. Parai de fazer o mal e aprendei a fazer o bem. Buscai o que é correto, defendei o direito, fazei justiça". Natal é busca do novo pela força dos ecos de uma profecia.

O inicio da Era de Aquário reforça o que Isaias anuncia. Os tempos são outros para judeus, muçulmanos, católicos, budistas, evangélicos, ateus, todos nós.

Vamos parar de desejar “Feliz Natal” de forma hipócrita, convencional, frívola. A humanidade não precisa de um Natal Feliz, precisa de Felicidade em Todos os Dias.  E a felicidade universal passa pela pacificação daqueles que brigam por razões de fé. Fomos condicionados a ser fraternos na semana do Natal. Pensamos que o Natal é a razão de ser de todo o ano de labutas e lamúrias. Isso pode ser mudado. Está sendo mudado.

Haveria uma maldição sobre os judeus?

No recente segundo volume sobre Jesus de Nazaré, Bento XVI sustenta que é um erro culpar todo o povo judeu por sua morte. Aqui, o autor expõe as causas desse lamentável erro, e a interpretação do texto de Mateus. Segundo o Evangelho de Mateus, durante o processo de Jesus os judeus pronunciaram uma frase que, sem querer, marcou a história e o destino do povo hebreu em sua relação com os cristãos: “Que seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos!” (Mt 27,25).

Este grito foi interpretado, no decorrer dos séculos, como uma maldição que o povo judeu jogou sobre si mesmo, assumindo a responsabilidade pela morte de Jesus, em cuja pessoa poderia estar o Messias esperado pelos judeus.

Desde então muitos citam esse versículo como prova de que Deus rejeitou Israel; e pior ainda, serviu para justificar as atrocidades e perseguições cometidas contra esse povo, como se esses sofrimentos fossem um castigo divino.

Hutton Gibson, pai do ator Mel Gibson, em seu livro “O inimigo ainda está aqui” (2003) escreveu: “Quando Pôncio Pilatos negou a aceitar a responsabilidade pela morte de Jesus, a culpa caiu nos judeus presentes; foi um crime superior ao pecado original e ao da torre de Babel; por isso, o castigo caiu sobre as futuras gerações judias, que sofreram muitos desastres como o holocausto, pela maldição que eles lançaram sobre suas cabeças”.

Com razão o teólogo inglês G. C. Montefiore chegou a escrever: “Essa é uma das frases responsáveis por oceanos de sangue humano, e por incessantes rios de miséria e desolação”. Mas por que ficou registrada no Evangelho?
 
O episódio aparece somente em São Mateus, o único dos três evangelhos que é original; Marcos e Lucas são cópias de Mateus. Segundo Montefiore, quando as autoridades judias levaram Jesus perante Pilatos para que fosse julgado, o governador romano percebeu que o entregaram por inveja, e tentou liberá-lo. Para isso recorreu a um ardil. Pensou que se Jesus enfrentasse um famoso preso chamado Barrabás, para que o povo escolhesse aquele que deveria ficar em liberdade, o povo poderia optar por Jesus. Mas se equivocou. Os sumos sacerdotes e dirigentes judeus convenceram a multidão a pedir a liberdade do delinquente (Mt 27;15-23). Pilatos, vendo frustrado seu estratagema, disse aos judeus que não podia condenar Jesus à morte, porque não encontrava nele nenhum delito. Esta frase já teria que ter servido para acabar com o julgamento: o juiz já se pronunciara. Mas a nova tentativa também não funcionou porque as pessoas, instigadas pelos sumos sacerdotes, começaram a ficar alteradas e a gritar: “ Crucifica-o, crucifica-o” (Mt 27,22-23). Pilatos ficou com medo da turba emocionalmente comprometida, e certo de que nada que fizesse salvaria Jesus, mas pelo contrário sua negativa a condená-lo provocaria maiores distúrbios, realizou um último gesto simbólico. Diante de todos lavou as mãos dizendo: “ Eu não sou responsável pelo sangue deste homem; este é um problema vosso” (Mt 27,24).
 
É muito difícil acreditar que Pilatos tenha realizado este gesto. Efetivamente, o lavatório das mãos como expressão de inocência pública é um costume judeu, estabelecido por Moisés, e ordenado no Antigo Testamento. Segundo a mentalidade semita, o sangue derramado de uma pessoa inocente tinha a propriedade de manchar não só o culpado, mas todos aqueles que cruzassem com o morto, e inclusive todo o povoado onde fora cometido o crime. Por isso, Moisés ordenou que quando numa cidade descobrissem um cadáver e não fosse possível identificar o malfeitor, os dirigentes deveriam reunir-se em um rio e lavar as mãos, dizendo: “Nossas mãos não derramaram este sangue”. Depois deveriam orar a Deus: “Que este sangue inocente não caia no meio de seu povo, Israel”. Assim, os dirigentes e o povo ficavam livres da culpa (Dt 21,1-9).

Na Bíblia várias vezes se fala da lavagem de mãos. Lemos nos Salmos: “Lavo minhas mãos em sinal de inocência, dando voltas ao redor de seu altar” (Sal 26,6). E também: “Em vão mantive puro meu coração, lavando minhas mãos na inocência” (Sal 73,13). Que Pôncio Pilatos, sendo romano, tivesse realizado um ritual próprio da cultura hebraica resulta inverossímil. Por isso, muitos autores afirmam que a cena é uma criação do evangelista Mateus que, ao escrever aos leitores de origem judaica, utiliza essa imagem para fazê-los compreender o que o governador não o condenou; quem o condenou foi o povo judeu.

Como resposta a sua lavagem de mãos, Mateus diz que o povo judeu gritou: “Que seu sangue (de Jesus) caia sobre nós e sobre nossos filhos!” (Mt 27,24- 25). Esta é a frase que para muitos resulta desconcertante. Na realidade é uma fórmula legal frequente no Antigo Testamento, indicando a pessoa que deveria assumir a responsabilidade por um delito, e sofrer o castigo correspondente, que era a morte. O livro do Levítico diz: “Se alguém amaldiçoar seu pai ou sua mãe certamente será morto; que seu sangue caia sobre ele” (Lv 20,9); “Quem se deitar com a mulher de seu pai morrerá; seu sangue cairá sobre ele” (Lv 20,11); “Se um homem se deitar com outro homem, os dois morrerão; seu sangue cairá sobre eles” (Lv 20,13). Quando Davi se encontrou com o soldado que matara o rei Saul, disse-lhe: “Por ter matado ao ungido de Javé, seu sangue cairá sobre sua cabeça” (1 Sm 2,16). E quando Joabe, general do exército de Davi, matou o general Abner sem consentimento do rei, Davi exclamou: “O sangue de Abner cairá sobre a cabeça de Joabe e sua família” (2 Sm 3,29).

Ora, os judeus e principalmente os tradicionalistas fariseus conheciam todos os textos sagrados da Torá e conheciam a passagem narrada por Jeremias em pleno tempo quando, em situação análoga a Jesus, estava por ser condenado à morte e declarou às autoridades de Jerusalém: “Sabei, porém, que se me condenardes à morte, será de sangue inocente que maculareis esta cidade e seus habitantes” (Jr 26,15).

Mas, o sentido da frase fica mais claro no evangelho de Mateus. Significa que a multidão presente no julgamento de Jesus assumiu a responsabilidade de sua execução. Por isso, Roma se torna não autora daquele ato, como pretendem alguns autores. Beneficiada, mas não autora.

Mas a cena tem detalhes curiosos. Em primeiro lugar, o povo judeu não emprega a fórmula como corresponde. Quando alguém na Bíblia invocava o castigo de sangue, fazia-o sobre a cabeça de outro, de um terceiro, nunca sobre a própria. Em compensação, em Mateus o povo judeu o aplica sobre si, como se quisesse incriminar-se, autocastigando-se, em vez de livrarem-se dos efeitos do sangue, que era o sentido da fórmula.
                                                                                                     
Em segundo lugar, resulta interessante que o grito seja lançado por “todo o povo”. Até esse momento Mateus vinha relatando que só “uma multidão” presenciava o julgamento, isto é, um grupo limitado de pessoas. A “multidão” apresenta-se perante o governador (Mt 27,15), pede a libertação de Barrabás (Mt 27,20-21), exige a crucificação de Jesus (Mt 27,22), e presencia a lavagem de mãos (Mt 27,24). Mas de repente, Mateus parece esquecer-se deste grupo, e diz que é todo o povo quem agora reclama sobre si o sangue de Jesus. Trata-se de uma mudança intencionada. Em Mateus, a expressão “o povo” sempre alude a Israel como raça, etnia, nação global. Por isso ao substituir “a multidão” por “povo” estava dizendo a seus leitores que o sangue de Jesus, invocado nesse dia, não caiu unicamente sobre os assistentes ao processo, senão sobre toda a nação judia e sobre as gerações futuras.

Que significado tem esta cena? Sempre foi interpretada no sentido de que todos os judeus, de todos os tempos são culpáveis da morte de Jesus. Um dos primeiros em defender essa postura foi Orígenes (séc. III), que dizia que o sangue de Jesus “caiu sobre todas as gerações posteriores de judeus, até o final dos tempos”.

Tiveram a mesma opinião: Melito de Sardes (s.II), Santo Agostinho (séc.IV), São Jerônimo (séc.IV), São João Crisóstomo (séc.IV), Teofilato (séc.IX), Tomás de Aquino (séc.XIII) e Calvino.

Por sua vez Martin Luther afirmou que a miséria na qual viviam os judeus em sua época, e sua posterior condenação eterna, devia-se a que recusaram o Filho de Deus. Certamente houve outras interpretações mais mitigadas, mas em geral foi essa a que primou, e fez com que muitos cristãos desenvolvessem aversão pelo povo hebreu. Alguns estudiosos, para saírem do aperto, sugerem que se a lavagem de mãos não é considerada histórica, a resposta dos judeus também não deve ser considerada como tal; portanto, essas palavras carecem de importância. Mas isso não resolve o problema de fundo: por que Mateus, inspirado por Deus, conservou essa frase nos lábios dos judeus? Quis aludir a alguma espécie de castigo?
 
Para piorar as coisas Mateus conta que, em seu último discurso em público, Jesus recordou aos judeus que eles derramaram muito sangue inocente ao longo da história, “desde o justo Abel até Zacarias” (Mt 23,33-36): “Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno? Vede que vos envio profetas, sábios e doutores. Matareis e crucificareis uns e açoitareis outros nas vossas sinagogas. ... Em verdade vos digo, todos esses crimes pesam sobre esta raça”.

Por que Jesus nomeia Abel e Zacarias? É que Abel era o filho de Adão e Eva, morto por seu irmão Caim. E Zacarias era um famoso sacerdote de Jerusalém, do século IX a.C., que por ter-se animado a denunciar a imoralidade na qual viviam os israelitas, foi apedrejado até a morte no pátio do Templo. Zacarias morreu dizendo: “Que Javé veja isto e lhes peça contas” (2 Cro 24,20-22). Jesus os mencionou de propósito porque Abel é o primeiro inocente assassinado da Bíblia (Gn 4,8), e Zacarias o último.

O que Jesus quis dizer nessa oportunidade é que toda a história do povo judeu, desde o primeiro ao último livro da Bíblia, estava manchada de crimes e mortes inocentes. E esse sangue clamava ao céu (Gn 4,10), exigindo um justo castigo. Por isso concluiu aquele sermão com uma frase inquietante: “Asseguro-lhes que tudo isso recairá sobre esta geração” (Mt 23,36).

A morte de Jesus e a maldição dos judeus acompanha a trajetória da Igreja Cristã e o périplo judaico em busca de paz.  Toda a história do povo judeu, desde o primeiro ao último livro da Bíblia, estava manchada de crimes e mortes inocentes. E esse sangue clamava ao céu (Gn 4,10), exigindo um justo castigo.

Jesus está de volta e eloquente

Dois milênios antes de Cristo, dizem-nos as Escrituras Judaicas, Deus promete ao patriarca Abraão, raiz do povo hebreu: “Na tua descendência, serão benditas todas as nações” (Gênesis, 22). Estava predito que a bênção alcançaria todo o povo hebreu desde Abraão passando por Jacó, Moisés, Isaías, João Batista, Jesus, que são os principais ícones da doutrina judaica. E mais: o projeto da salvação humana não se restringe só ao povo judeu, mas recebe do povo judeu extraordinárias contribuições. Vimos com o passar dos séculos que as contribuições se dividem em construtivas e não construtivas.

Jesus trouxe uma transformação necessária ao tradicionalíssimo povo judeu e enfrentou uma pesada ideologia judaica na figura dos fariseus.

Toda a discordância fundamental era pelo não desejo de mudar. E Cristo só tinha transformações em sua doutrina.

Ao se anunciar povo eleito de Deus, os judeus acharam-se perfeitos e isso lhes autorizava manter as tradições, nada mais. E insistiam na assertiva de que Deus estava com eles permitindo a progressão de uma cultura de castas segundo o que alguns são mais e outros são menos, o que acabou por estabelecer também a escravidão entre nós.

Na verdade, foram os judeus também levados à condição de escravos. No exato momento em que Jesus pregava a igualdade, a fraternidade e comia com os pagãos, visitando e curando necessitados pobres e desvalidos, mas também membros da aristocracia romana imperial, e visitando territórios inimigos dos judeus para dizer alto e bom som TODOS SOMOS UM, a arrogância, a soberba e o fanatismo judaico não permitiram que isso fosse visto e assimilado como ideal de vida.

Quanto se pode lamentar, hoje, por esta reação dos fariseus. Jacó, filho de Abraão, no leito de morte, abençoou cada um de seus 12 filhos. Ao por as mãos sobre Judá (o futuro patriarca da tribo mais destacada), profetizou: “Não se apartará o cetro (reinado) de Judá, nem o bastão de comando, até que venha aquele (Messias) a quem devem obediência aos povos”. Jesus descendia dessa tribo.

Aproximadamente, dez séculos antes de Cristo, o profeta Balaão, em êxtase, profetizou: “Vê-lo-ei, não agora, nem de perto. Uma estrela procederá de Jacó, de Israel subirá o cetro...” (Números, 24). O profeta Isaías, sete séculos antes, anteviu o Messias: “Do tronco de Jessé (pai do rei Davi), sairá um rebento, e das suas raízes um novo rebento” (Isaías, 11). Mais adiante: “Uma virgem conceberá e dará à luz um filho, chamado Emmanuel (isto é, Deus no meio dos homens)”. Naquele mesmo tempo, o profeta Miquéias anunciava: "E tu, Belém de Éfrata, de ti, tão pequenina, sairá o que há de reinar, cujas origens são desde a eternidade”.

Esta profecia nos remete ao primeiro capítulo do evangelista João, uma obra-prima da literatura universal: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus,... e o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. Revisitando esta doutrina: “No princípio era o Espírito e o Espírito estava junto de Deus e o Espírito se encarnou e habitou entre nós”. O Espírito Superior chamado Cristo, pertencente aos mais elevados escalões divinos desceu sobre Joshua Bar Levi, filho de Yussef Bar Levi e de Maria de Nazaré, descendentes de Jacó e Davi para trazer inicialmente aos judeus e por extensão ao mundo tudo, um novo Reino, o Reino de Deus.

Num tempo de reconciliação, aproximação e convergência de ideologias,  religiões e filosofias, certamente é chegado o tempo da Igreja de Roma rever suas posições (via Papa Francisco) quanto às coisas que trouxeram tantos sofrimentos aos povos, notadamente aos judeus, muçulmanos e cristãos (refiro-me desde as cruzadas até os nossos dias) e certamente também tempo das lideranças judaicas reverem os posicionamentos de seus líderes ancestrais. Refiro-me à hipótese de aceitar Jesus Cristo como o Messias anunciado. Dois mil anos depois nenhum outro messias judaico ocupou a cena que estava reservada a Jesus. Como teimar que Jesus não era o Messias esperado?
 
porque Jesus não se sentou ao trono de Davi para governar Israel teria sido motivo para a comunidade judaica rejeitá-lo? Esse é um posicionamento muito limitado, pois o Messias veio para governar o planeta todo.

Concluo este artigo relembrando que muito do que sabemos sobre Deus e da história dos homens nos vem das profecias. Profecias que os judeus aparecem como os principais envolvidos por elas.

Só porque Jesus sugeriu algumas alterações no modo de vida dos judeus teria sido motivo para tanto rebuliço por parte dos porta-vozes fariseus? Será que o povo judeu não alterou nada nesses dois mil anos?

Onde está a coerência? Seria isso uma queda de braço? Pensando bem, quem está perdendo e perdendo feio nesses dois mil anos?

Honestamente, o holocausto judaico em todo o redor do mundo poderia ou não poderia ser o efeito de tantas causas remotas?

Haveriam outras profecias ou outras verdades que nós não conhecemos?

Podemos voltar a este assunto.

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