sábado, 25 de julho de 2015

1804-Mesmo distante de Deus


Alguém iluminou o Ocidente

Introdução

A Idade Média muito mereceu o termo medieval utilizado presentemente para qualificar coisas e ações torpes, retardadas, cruéis. Foi um tempo de trevas, opressão, patrulhamento intelectual, caça às bruxas, tendo nas guerras chamadas de Cruzadas e na Inquisição os seus pontos culminantes da baixeza humana.

Se havia e ainda há intolerância religiosa no Oriente Médio perpetrada contra cristãos assim que o Islã assumiu o controle da Terra Santa (a partir de 683 d.C.), como se denominou Jerusalém, a contrapartida intolerante orquestrada pelos cristãos, durante as Cruzadas (século XI) nada deixou a dever.

Foi um tempo em que muito teríamos para evoluir, pois as bases estavam e ainda estão lançadas. Do ponto de vista religioso nada mais foi criado ou melhorado, apenas retalhado, novamente por conta da intolerância, da prepotência, da soberba e da ignomínia tendo como fatos centrais a cisão da Igreja Católica dando origem à Igreja Católica Ortodoxa (1054 d.C.), um pouco mais tarde com o surgimento das igrejas protestantes (século XVI) e mais tarde ainda com o crescimento das igrejas evangélicas e pentecostais (a partir de 1650 d.C., mas muito intensamente de 1901 em diante).

A Filosofia, por seu lado, aproveitou o bom começo com os pensadores gregos e deu enormes saltos, principalmente durante a Renascença e em seguida com o Iluminismo que a sucedeu.

Esta postagem pretende contar a história da construção da liberdade de pensar ao longo dos séculos XVII e XVIII e contextualizar o que aconteceu com as sociedades bafejadas pelo que se denominou Iluminismo, bem como clarear o outro lado, que se abateu sobre as sociedades cujos opressores na figura do clero e dos monarcas não se ofereceram para iluminar.

Acender ou não acender a luz

Aquele período histórico incluindo Renascença ( entre o final do século XIV e início do século XVII) e Iluminismo (século XVIII) pode ser dividido, pelo menos, em duas fases distintas às quais alguns autores procuram aclarar: houve um Iluminismo "Radical", a partir das ideias de Espinosa, Descartes, Malebranche, Diderot, D'Argens, Rousseau, D'Holbach, Voltaire, Hobbes, Hume, La Mettrie, Shaftesbury, Mandeville, Tindal, Montaigne e outros; e um Iluminismo "Moderado" (mas não menos importante), a partir das ideias de Newton, Locke, Pascal, dentre outros, todos devidamente adaptados ao pensar sob a tutela das instituições religiosas vigentes: católicos, luteranos e calvinistas.

A luta por liberdade de expressão e criação, de um lado, e a censura, nem sempre precisa, felizmente, mas aguerrida, por outro, constituiu muito do turbulento período histórico do Iluminismo europeu. Alguns países se destacaram na construção de uma esfera pública de livre discussão, tanto quanto possível à época, como a Holanda e a Inglaterra; outros mantiveram-se mais ou menos atados aos poderes eclesiásticos e imperiais, como a Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Suíça, etc.

O analista crítico, norte-americano, Jonathan I. Israel, destaca especialmente quatro filósofos, dentre muitos, que contribuíram para minar a autoridade político-eclesiástica no Iluminismo: Descartes, Espinosa (provavelmente o mais odiado e perseguido), Leibniz e Wolff. Muitos pensadores se declararam ateus para fugir dos grilhões condenatórios da Igreja.

Só para não perder a oportunidade de comentar: não fossem os luminares da Filosofia Moderna e seu rompimento com a opressão intelectual exercida pela Igreja, nós não teríamos avançado na Astronomia e ainda estaríamos acreditando que a Terra é o centro do Universo; estaríamos acreditando que Jesus é Deus; estaríamos acreditando que no cálice da consagração durante a missa, o vinho se transforma em sangue; estaríamos acreditando que Jesus subiu aos céus na posse do corpo biológico; não conheceríamos o modelo republicano de governo; estaríamos impedidos de pensar Deus de outra forma que a Bíblia o apresenta, isto é, que o mundo foi criado em sete dias há mais ou menos 8 mil anos e que a humanidade foi criada exatamente como está atualmente; e, sem questionar, estaríamos aceitando que o Arcanjo Gabriel terá sido, mesmo, o responsável por introduzir no corpo da Virgem Maria, o embrião que deu causa ao nascimento de Jesus; que foram e ainda são as principais divergências entre a fé raciocinada e as posições dogmáticas da igreja romana.

Especialmente as ideias de Espinosa tornaram-se uma das principais fontes iluministas para confrontar as tradições cristãs católica e reformista. A tese espinosista de os eventos relatados nas denominadas "Sagradas Escrituras" serem explicáveis naturalmente, bem como a sua teoria de uma substância eterna e imutável imanente, possibilitaram a construção da modernidade tal como a conhecemos.

Espinoza fez uma análise histórica da Bíblia, colocando-a como fruto de seu tempo. Criticou os dogmas rígidos e rituais sem sentido nem poder, bem como o luxo e a ostentação da Igreja. Por suas opiniões, um homem tentou matá-lo com um punhal. Escapou graças à sua agilidade. Ofereceram uma pensão para ele manter fidelidade à sinagoga e Espinoza recusou. Foi então excomungado, em 1656. Amaldiçoaram-no em ritual. Depois disso, viajou pela Holanda. Os judeus não falavam com Espinoza, mas os cristãos sim. Apesar disso, não se converteu ao cristianismo. Seus familiares quiseram deserdá-lo. Lutou pela herança do pai e ganhou a causa. Mas recusou a recebê-la, só queria fazer valer seus direitos.

Espinoza bateu mais forte

O ponto principal do pensamento de Espinoza é a comunhão entre Deus e a natureza. Spinoza critica a religião porque ela está alimentada pelo medo e a superstição. Devemos fazer uma interpretação racional da Bíblia. A diferença entre filosofia e religião é que a primeira busca a verdade e a segunda precisa da obediência para ser realizada. Espinoza foi excomungado. Desde então, viveu à parte. Isso implica buscar vivências incomuns às galerias. Espinoza buscou a espiritualidade racionalista, é profunda sua cultura e é clara sua visão de assuntos que estão fora da subjetividade, e envolvem um conhecimento complexo, conhecimento este que nos dias de hoje são marcados pela banalização cultural e a ideologia deturpada pelas derrotas sucessivas. Desse modo, Espinoza, numa época ainda pura nos conceitos, fala de Deus, da alma e da mente.

Em sua crítica aos rígidos controles e ao patrulhamento ideológico exercido pela religião e pelo Estado, Espinoza afirmava que os dois devem estar subjugados à Deus, à alma e à mente. Espinoza não acreditava na divindade de Cristo, mas o colocava como o primeiro entre os homens. Na mesma época que Locke defendeu o liberalismo político Espinoza pregava que os direitos naturais são as regras do ser. Somos forçados a obedecer às leis naturais, que são divinas e eternas.

Falava a ajuda mútua como necessária e útil para o bem da sociedade. Sem ela, os homens não podem viver confortavelmente nem cultivar seus espíritos. O objetivo do Estado não deve ser tirânico (como em Hobbes) mas libertário. O direito natural em Espinoza é compatível com a democracia: é nas grandes massas que a natureza humana melhor se manifesta

Descartes influenciou Espinoza, que desenvolveu alguns assuntos do filósofo francês. Espinoza comenta as noções cartesianas de Deus e suas substâncias: o pensamento e a extensão, que existem separados. Espinoza era monista. Pensamento é uma extensão da substância primordial, Deus. A diferença, é, que, Descartes explora o lado gnosiológico da fundamentação e origem do conhecimento. Espinoza vai para o lado ético, em busca da verdade e do sentido da vida. O racionalismo de Descartes parte em direção à metafísica; o de Spinoza, que defendia Deus como única substância, parte para a imanência. Espinoza vai ao microscópico, Descartes vai ao macroscópico.

Como diz nos Pensamentos Metafísicos, livro de sua autoria, Eternidade é a junção de essência e existência. O tempo pertence à razão, é um modelo de pensar a pluralidade, também, pois tudo é Deus, e ele é Uno.

Como Descartes, Spinoza fala que temos a noção clara do que é verdade, pois ela é certa e suprime toda a dúvida. Fala que o bem e o mal são pareceres que só existem nas relações. Mas reconhece como bom e na Ética diz, que certas coisas são-nos agradáveis, e nos esforçamos para que elas sejam frequentes. Mas uma coisa tomada em si não nem boa nem má.

Deus é imutável, porque não pode mudar e ser outro Deus. Na natureza tudo são substâncias e seus modos. Deus é simples, a grande substância. Espinoza refuta as distinções do Aristotelismo sobre Deus.

Espinoza achou quatro tipos de percepção:

A primeira é arbitrária; a segunda vem da experiência; na terceira a essência de uma coisa é tomada pela de outra. Por exemplo quando se acha que o universal sempre é acompanhado de uma propriedade. Não é adequada. A última percepção é a da essência.

Para o melhor modo de perceber, temos de ver quais os meios para conseguirmos nosso fim.

1º temos de conhecer a natureza das coisas e a nossa, para aperfeiçoá-la.
2º temos de deduzir as diferenças e as concordâncias das coisas.
3ºtemos de ver o que essas coisas poder sofrer.
4º temos de associar isso com a natureza e a potência das coisas.

Assim Spinoza, com um estilo que lembra o de Bacon, descreve seu método para melhor percebemos. E chega a conclusão que a melhor percepção é a da essência.

As coisas estão compreendidas na essência da ideia infinita de Deus. Ele é a causa de tudo, substância incriada, onipotente e onisciente.

As coisas ficam marcadas na alma, além do intelecto. A memória é uma rede de representações associativas dos objetos. Deus conhece a alma. E a alma conhece à Deus. O pensamento é um atributo divino. A alma não conhece a si mesma, e conhece sem adequação o corpo. A alma não tem vontade nem é livre. Todas as ideias que se referem à Deus são verdadeiras. A mente humana é disposta de tal forma que pode funcionar ordenadamente. Com um certo número de imagens, expressando esse número, há “embaralhamento”. Quem tem uma ideia verdadeira, o sabe sem dúvida. Espinoza, desenvolvendo seu lado racionalista diz que a razão percebe a coisa em si e a eternidade, que são comuns à todas as coisas. A mente humana é uma parte do intelecto infinito de Deus. Conhecer Deus eterno e infinito nos ensina a nos conduzirmos perante o dinheiro, coisas fora de nós, suportar a vida, não desprezar, não expor ninguém ao ridículo, não odiar. A moral de Espinoza parte de sua metafísica.

O corpo humano pode ser afetado de diversas maneiras, e sua potência aumentada e diminuída. A alma pode ser passiva ou ativa. As ideias adequadas existem em Deus, são ativas. O corpo humano é mais engenhoso que as máquinas.

Spinoza influenciou muito a filosofia posterior. Hume cita-o. Não gozou de muita reputação, mas sim desprezo, até que Lessing afirmou não existir outra filosofia senão a de Espinoza. Junto com Fichte e Kant, foi fundamental para Hegel e Schelliing. Nietzsche admirava-o, apesar de discordar. O espinozismo foi inicialmente rejeitado, mas depois, no século XIX foi reabilitado. Influenciou Marx e Freud, que tinham uma visão naturalista do mundo.

Radicais e moderados

Apesar dos anos borbulhantes, muitos pensadores se mantinham neutros para não perder a confiança dos bispos e monarcas. Nem por isso perderam importância. Mas os avanços, mesmos, vieram os com filósofos radicais. Os assim chamados pelos censores da época, foram todos classificados como "ateus", embora nem todos aceitassem esta qualificação. Muitos foram deístas ou agnósticos, mas não necessariamente ateus. Contudo, as suas ideias desafiaram o poder político vigente, quer imperial, quer eclesiástico, quanto aos seus fundamentos (magister dixit – o mestre disse): referindo-se à fala incontestável da autoridade papal e de Aristóteles (devidamente cristianizado), de onde nos veio a infalibilidade do Papa.

O autor de “Iluminismo Radical” (norte-americano, Jonathan I. Israel), analisa diferentes pensadores e suas contribuições filosóficas as quais deram condições para a modernidade se desenvolver como um espaço público livre para pensar sem sanções (ainda que imperfeita). Dividido em cinco partes e trinta e oito capítulos, num estilo leve e agradável (para mim), contribui para uma melhor compreensão dos enormes esforços e sacrifícios (não raro pessoais) a fim de constituir a modernidade como o momento histórico no qual os direitos individuais liberais (autonomia moral e livre-pensar) puderam surgir.

Uma leitura recomendada nesta época na qual os arcaicos fundamentalismos dão ares de um retorno, pondo em questão as bases da racionalidade moderna construída com enorme esforço no renascimento e iluminismo. E também para responder a uma recorrente questão quanto a ser a filosofia inútil: as ideias movem e transformam o mundo (apesar da opinião de Marx).

Grata surpresa: "Iluminismo radical"

Já havia cruzado várias vezes com o livro Iluminismo radical, de Jonathan I. Israel, publicado pela Editora Madras. Olhei sua capa algumas vezes, e vi os rostos de Voltaire, Diderot, Rosseau, Robespierre, Locke e mais dois senhores que não são meus conhecidos. Não me chamou, então, atenção o livro, que me pareceu ser um calhamaço de quase novecentas páginas dedicadas ao Iluminismo francês principalmente.

Após uma conversa sobre Spinoza, o espirituoso professor Antônio Serra fala do protagonismo que era dado a Spinoza neste livro.

Leiam comigo uma passagem do Prefácio: "Meu segundo objetivo [o primeiro era mostrar o Iluminismo europeu como um movimento único, apesar das diferenças "acidentais"] é demonstrar que o Iluminismo Radical, longe de constituir um desenvolvimento periférico, é uma parte integral e vital de um quadro maior e era, à primeira vista, mais coeso em âmbito internacional do que a corrente principal do Iluminismo [a moderada]. Quase sempre, a corrente principal moderada estava reagindo com consciência e até mesmo movida a desespero, àquilo que era percebido de forma geral como a perigosa ameaça colocada pelo pensamento radical. Muitos estudiosos, creio, irão se surpreender pela proeminência dada aqui ao papel de Espinosa e do Espinosismo não apenas no continente, mas até mesmo no contexto britânico, onde, em termos historiográficos, há uma persistente recusa de se reconhecer que Espinosa teve qualquer influência. No entanto, uma leitura minuciosa nos primeiros materiais sugere, ao menos para mim, que Espinosa e o Espinososimo era, de fato, a coluna vertebral intelectual do Iluminismo Radical europeu em todos os lugares e não apenas na Holanda, Alemanha, França, Itália e Escandinávia, mas também na Grã-Bretanha e Irlanda".

Iluminismo e Filosofia

O ideal da razão auto-responsável como fonte de dignidade, herdado de Descartes, desempenhou um papel essencial na radicalização do iluminismo. Sua realização mais influente foi a postura de desprendimento radical, de suplantação da tradição, que para os iluministas era fonte de heteronomia. Essa postura contribui para a definição iluminista de filósofo como pensador autônomo. Vejamos como Diderot (1713-1784) apresenta no verbete sobre o ecletismo:

Eclético é um filósofo que, calcando sob os pés o preconceito, a tradição, a respeitabilidade, a concordância universal, a autoridade - numa palavra, tudo quanto intimida o povo -, ousa pensar por si mesmo, ascender aos mais claros princípios gerais, examiná-los, discuti-los e não admitir nada exceto pelo testemunho de sua própria razão e experiência. (DIDEROT apud TAYLOR, 1997, p. 418).

O iluminismo trazia consigo o desejo de anular grilhões. Essa rejeição/libertação compreende a negação da religião e da metafísica e a afirmação da bondade e da importância da natureza. Para o iluminismo, o pleno exercício da razão auto-responsável produz a maior clareza possível sobre sua própria natureza e seu significado (cf. TAYLOR, 1997, p. 451). O exercício da razão desacorrentada leva ao desmascaramento do erro, liberta a dignidade da natureza e possibilita a autonomia. O resultado seria o progresso tanto do conhecimento quanto dos costumes. Para os iluministas o avanço da racionalidade científica possibilitaria por si um "aumento" da autonomia. Mas segundo Foucault (1996, p. 107-108), a relação entre crescimento das capacidades científicas e o crescimento da autonomia não são tão simples quanto supunham os iluministas. Para ele, as tecnologias diversas transmitiam formas de relações de poder com fins econômicos ou de regulação social, o que em vez de possibilitar a autonomia gerava uma nova forma de heteronomia.
Os iluministas radicais aderiram ao materialismo e ao ateísmo, não somente como resultado final da razão auto-responsável, mas também como forma de serem fiéis às exigências de sua concepção de natureza (cf. TAYLOR, 1997, p. 420). Para Holbach, por exemplo, o homem é um ser inteiramente físico, e a dimensão moral é sua existência física considerada relativamente a algumas de suas formas de agir (cf. idem). Assim, o homem teria um impulso inerente de se autopreservar que corresponde ao amor por si, que é uma tendência a buscar a felicidade, o bem-estar, o prazer. O homem lutando por necessidade para preservar e aumentar sua felicidade é para ele, a verdadeira base da vida moral e da autonomia.
O utilitarismo de Bentham (1748-1832) e Helvétius reconhecia apenas um bem: o prazer (cf. ibid, p. 428). Queriam acabar com a distinção entre bens morais e não-morais e tornar todos os desejos humanos dignos de consideração. Na sua teoria moral, dor e prazer são os critérios da ação correta, mas não da forma como afetam um indivíduo e sim da forma como afetam a todos. Devemos procurar a maior felicidade para o maior número possível de pessoas. Essas concepções aparecem como uma reivindicação de autonomia como auto-responsabilização e busca do aumento da felicidade por meio do progresso racional. O ideal de auto-responsabilidade influenciou Kant embora ele não o conceba exatamente como os iluministas. Já o utilitarismo para ele, não atende a reivindicação de autonomia e é, portanto, heteronomia.
Hume (1711-1776) também pode ser considerado um iluminista radical. Defendia que o método do raciocínio experimental preconizado por Bacon (1561-1626) e Newton (1642-1747), o qual já havia construído sólida visão da natureza física, deveria ser aplicado também à natureza humana, ou seja, não apenas aos objetos, mas também aos sujeitos. Ele reduz a origem das ideias a impressões, a hábitos, o que contrapunha as ideias de ciência e metafísica dos filósofos racionalistas. Nos Prolegômenos (KANT, 1959, p. 28), Kant afirma que foi Hume que o despertou do "sono dogmático". Mas para Kant sua contribuição não vai muito além disso, todo sistema filosófico kantiano vai ter como um dos objetivos contrapor-se ao empirismo cético de Hume.

Para Hume as paixões são algo original e próprio da natureza humana, independente da razão. A própria vontade pode ser redutível às paixões, ou ainda, redutível a uma impressão que deriva do prazer e da dor. "Para ele, livre-arbítrio seria sinônimo de não-necessidade, vale dizer, causalidade, constituindo assim, um absurdo. Segundo Hume, aquilo que habitualmente se chama liberdade nada mais seria que a simples espontaneidade, ou seja, a não coação externa" (REALE, 1990, p. 572). Ao não considerar a determinação interna, Hume proclama a vitória do jogo das paixões, e assim, nega a razão prática, nega que a razão possa guiar a vontade. Essa noção de autonomia de Hume como simples ausência de coação externa para que as paixões possam ser vivenciadas, é oposto ao defendido por Kant, e representa muito bem o que este filósofo designou como heteronomia.

Sinopse da época e sua influência

Democracia, liberdade de pensamento e expressão, tolerância religiosa, liberdade individual, autodeterminação política dos povos, igualdade sexual e racial – esses valores tornaram-se predominantes nas décadas que se seguiram a sua consagração pela Declaração dos Direitos Humanos da ONU em 1948. Mas, mesmo que esses ideais não mais pareçam radicais hoje em dia, a sua origem foi extremamente radical – muito mais do que a maioria dos historiadores estão dispostos a reconhecer. Em A Revolução das Luzes, o aclamado Jonathan Israel traça as raízes filosóficas dessas ideias a partir dos estratos do pensamento iluminista menos respeitáveis – a que ele chama o Iluminismo Radical. O Iluminismo Radical surgiu inicialmente como um movimento clandestino de ideias, quase inteiramente encobertas da vista do público durante sua primeira fase, amadureceu em oposição à corrente moderada e dominante do Iluminismo na Europa e na América do século XVIII. Durante as décadas revolucionárias de 1770, 1780 e 1790, o Iluminismo Radical surgiu abertamente e provocou uma reação longa e amarga. A Revolução das Luzes mostra que essa oposição vigorosa deveu-se principalmente aos impulsos poderosos da sociedade para defender os princípios da aristocracia, da monarquia, do império e da hierarquia racial –, princípios ligados à defesa da censura, à autoridade da Igreja, à desigualdade social, à segregação racial, à discriminação religiosa e aos extensos privilégios dos grupos dominantes. Ao contar essa história fascinante, esta obra revela a origem surpreendente de nossos valores mais queridos e ajuda a explicar por que, até hoje, eles são frequentemente reprovados e atacados por certos círculos.

Ateísmo no Iluminismo

O movimento cultural do século XVIII conhecido como Iluminismo apresentava-se como continuação do Renascimento em seu racionalismo e antropocentrismo, embora a medida humana já não fosse a do sábio ou a do artista, mas a de todo cidadão, a quem se dirigia a Enciclopédia. Os ingleses adotaram o deísmo — o Deus da razão meramente humana; David Hume, como empirista, rejeitou toda metafísica e, portanto, as provas racionais da existência de Deus, mas declarou aceitar, como homem, a irracionalidade da fé, gerada pelo medo do desconhecido. Os franceses seguiram duas correntes distintas: a mais radical, a do materialismo ateu, era representada por Denis Diderot, entre outros, e a corrente deísta foi significativamente exposta por Voltaire, para quem Deus era o "Geômetra Eterno". Na Alemanha, Kant negou a possibilidade da prova metafísica da existência de Deus. A religião de Hegel era pura intelectualidade, tendo sido interpretada como teísta, como panteísta e como ateia.

Heteronomia

Heteronomia (do grego heteros, "diversos" + nomos, "regras") é um conceito criado por Kant para denominar a sujeição do indivíduo à vontade de terceiros ou de uma coletividade. Se opõe assim ao conceito de autonomia ou livre arbítrio onde o ente possui arbítrio e pode expressar sua vontade livremente. É um conceito básico relacionado ao Estado de Direito, em que todos devem se submeter à vontade da lei. Se opõe também a anomia que é a ausência de regras.

Em Direito, a heteronomia é a característica da norma jurídica que estabelece que esta se impõe à vontade do destinatário — ou seja, a lei é imposta ao indivíduo, e exterior a ele, podendo ser criada por um ente interno (como o Estado), um ente supraestatal (como um bloco econômico) ou um ente internacional (como a ONU).

A consciência moral evolui da heteronimia para a autonomia, ou seja, as pessoas começam por interiorizar as normas e obedecendo-lhes por medo do castigo — heteronomia —, até que essa situação evolui para um patamar que consiste na autodeterminação das pessoas em função de princípios e valores morais justificados de forma racional - autonomia. A heteronomia significa que a sujeição às normas jurídicas não está dependente do livre arbítrio de quem a elas está sujeito, mas, pelo contrário, se verifica uma imposição exterior de que decorre da sua natureza obrigatória.

Para Lévinas, heteronomia não é escravidão, sendo justamente seu contrário. A moralidade não é baseada em uma vontade soberana do Eu, e sim no respeito da liberdade do Outro e para isso é necessário estar disposto a limitar-se para não se impor perante um outro. A obediência à lei criada por outros não significa servidão ou submissão a um tirano, mas sim a superação da pretensão do Eu em ser o fundamento último e único de todas as regras. A heteronomia é a norma, a regra externa e não depende da vontade do sujeito.

Em Pedagogia, para Paulo Freire, o sistema educacional impõe excessiva heteronomia em seus educandos, desestimulando assim o desenvolvimento de capacidade de iniciativa, criatividade, emancipação e a construção de um "ser para si". Segundo ele, sem autonomia as crianças se tornam adultos conformistas, com pouco senso crítico e vulneráveis a sistemas sociais, políticos e econômicos opressores. Em seu livro Pedagogia da autonomia acredita que os oprimidos culpam causas mágicas e míticas como o destino, a sina, a vontade de Deus pela sua falta de liberdade. Assim a autonomia seria vista como inacessível, inatingível e irrealizável levando ao conformismo e perpetuando o sistema opressor.

Na América Latina a heteronomia foi imposta violentamente pelos colonizadores e pela Igreja católica, resultando em uma cultura paternalista, sectária, alienada, irracional, acrítica, com dependência emocional pelos opressores. Ao invés de buscar autonomia o oprimido eventualmente adere aos valores impostos e passa a admirar o opressor, imitá-lo e reproduzir a opressão.

Freire defende que a escola é um ambiente essencial para superar a heteronomia. Para isso o modelo "bancário" em que o aluno é um sujeito passivo, mero ouvinte que deve memorizar ideias, deve ser superado. A "pedagogia da autonomia" defende um constante debate de ideias, a valorização do pensamento crítico, métodos participativos, estimulando a luta pelos seus direitos e pelos direitos de outros. Não se planeja assim criar indivíduos egoístas, desobedientes e autossuficientes, e sim indivíduos capazes de compreender a razão das regras, rejeitando sistemas opressores, sendo aberto a comunicação e a mudanças.

Imperativo categórico

Imperativo categórico é um dos principais conceitos da filosofia de Immanuel Kant. Sua ética tem como conceito esse sistema. Para o filósofo alemão, imperativo categórico é o dever de toda pessoa doar conforme os princípios que ela quer que todos os seres humanos sigam, se ela quer que seja uma lei da natureza humana, ela deverá confrontar-se realizando para si mesmo o que deseja para o amigo. Em suas obras Kant afirma que é necessário tomar decisões como um ato moral, ou seja, sem agredir ou afetar outras pessoas.

O imperativo categórico é enunciado com três diferentes fórmulas (e suas variantes), são estas:

1. Lei Universal: "Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal."

a) Variante: "Age como se a máxima da tua ação fosse para ser transformada, através da tua vontade, em uma lei universal da natureza."

2. Fim em si mesmo: "Age de tal forma que uses a humanidade, tanto na tua pessoa, como na pessoa de qualquer outro, sempre e ao mesmo tempo como fim e nunca simplesmente como meio".
3. Legislador Universal (ou da Autonomia): "Age de tal maneira que tua vontade possa encarar a si mesma, ao mesmo tempo, como um legislador universal através de suas máximas."

a) Variante: "Age como se fosses, através de suas máximas, sempre um membro legislador no reino universal dos fins."

O imperativo hipotético é condicional, na medida em que subordina o imperativo a um determinado fim, e só tem valor se – e somente se – procuramos atingir esse fim em particular. Por isso, o imperativo hipotético é apenas um meio para se atingir esse fim

“Todos os imperativos ordenam ou hipotética ou categoricamente. Os hipotéticos representam a necessidade prática de uma ação possível como meio de alcançar qualquer coisa que se quer ou que é possível que se queira. O imperativo categórico é aquele que nos representa uma ação como objetivamente necessária por si mesma, sem relação com qualquer outra finalidade. No caso da ação ser apenas boa como meio para qualquer outra coisa, o imperativo que ordena é hipotético; se a ação é boa em si, então o imperativo é categórico” (Kant).

BIBLIOGRAFIA

Iluminismo Radical: A Filosofia e a Construção da Modernidade 1650-1750, de Jonathan I. Israel
Tradução de Claudio Blanc
São Paulo: Madras, 2009, 878 pp.

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