sábado, 19 de setembro de 2015

1812-Os expulsos de sua terra natal


 
“Amor à Pátria que me exclui”

Introdução

No Brasil, existem três regiões que muito exportaram seus habitantes desde o início da urbanização por conta do êxodo rural. Do Nordeste saíram milhares de pessoas basicamente para São Paulo; de Minas Gerais saíram milhares de pessoas basicamente para Brasília; do Rio Grande do Sul saíram milhares de pessoas para vários pontos do País e exterior.

O Brasil dos tempos atuais deve ter quase um milhão de brasileiros no exterior.

Esta postagem vem à página depois de muito incentivo nascido das análises entre amigos e é dedicada muito mais aos rio-grandenses e mais ainda nesta semana em que pelo Brasil e no Exterior existem rio-grandenses comemorando a “Semana Farroupilha” que, na verdade, celebra um período de cerca de 10 anos em que o Rio Grande do Sul foi uma república separada do Brasil e movendo uma guerra contra o Império sediado no Rio de Janeiro.

Há uma possibilidade de as outras duas regiões também merecerem aqui uma abordagem especial, futuramente, incluindo-se o Lula, presidente que, como sabemos, é um retirante nordestino que se radicou em São Paulo.

Os chamados gaúchos – que não é um gentílico apropriado, eis que existem gaúchos nascidos e radicados no Uruguai e na Argentina – são membros de uma cultura especial – refaço o termo: os sulriograndenses expulsos de suas querências mantêm um irresistível amor por suas querências, comumente chamadas de pátrias.

Como explicar isso?

Convocamos o pesquisador Mano Terra, na condição de mais um retirante e este sim, gaúcho de origem, para emprestar-nos seus dados destinados a enriquecer este artigo.

Quem é o retirante que leva o RS na alma?  

Preliminarmente, um conceito para gaúcho: homem rural, campeiro, lidador em espaços amplos, vaqueiro, cavaleiro, marginalizado pelo mundo oficial, de hábitos muitos especiais quanto à natureza, habitante do Extremo Sul da América Meridional, de nacionalidade brasileira, uruguaia, argentina e um pouquinho paraguaia. Falo da Pampa, uma região especialmente campeira, de pastos, sem muitas florestas, onde prosperou o gado vacum e chamou à obra os cavaleiros. Seria um deserto verde não fossem as vacas e os bois trazidos da Europa no início do século XVII.

Ainda sobre o nome “gaúcho”. Muito recentemente o substantivo gaúcho, como foi dito superficialmente nas linhas precedentes, foi transformado em adjetivo e utilizado como gentílico de todos os habitantes do Rio Grande do Sul, o que conflita com a existência de numerosos substantivos entre a população nascida e fixada no Uruguai e na Argentina.

Este ensaio dedicar-se-á à interpretação, à análise e à manifestação de um entendimento sobre o fenômeno da Cultura Gaúcha dentro e fora da região de sua origem.

Em qualquer lugar do mundo em que haja um gaúcho (e aí, sim, referindo-se às pessoas nascidas no Estado do Rio Grande do Sul), ali se encontra alguém com fortes ligações emocionais com sua querência (termo usado no Rio Grande do Sul para definir a terra natal). Mais do que qualquer outro brasileiro, os sulriograndenses chegam a ser exagerados na sua paixão por alguma coisa que se confunde com o território geográfico, mas vai além, como se verá.

Veremos que o espírito do gaúcho original, um mestiço índio, seu amor pela terra, acabou assimilado até mesmo pelos europeus que vieram para o RS depois de 1750.

Certa vez o jornalista João Fábio Caminoto escreveu na revista Veja a respeito dos gaúchos desterrados e habitantes de outros espaços no Brasil e fora: “É como se levassem o Rio Grande do Sul nas costas”. E não é nas costas que se leva o Rio Grande do Sul, como veremos.

Porém, esse levar nas costas, não está nas costas, pois não inclui a terra, não uma mochila, não tem peso. Eles não querem voltar, não voltarão para o território geográfico que chamam de “Rio Grande”. Há uma outra explicação para isso. O Rio Grande vai na alma.

Do ponto de vista comunitário, nos lugares onde se fixam, além de uma cooperativa (também herdada, mas principalmente herança europeia), eles se organizam culturalmente em centros de tradição gaúcha, sob cujo teto revivem, rememoram e mantêm vivas a linguagem, o vestuário, a literatura, as comidas, a principal bebida, o mate, as danças, as músicas, as poesias e vários outros usos e costumes. Ali existe um “Rio Grande” subjetivo, que vai, adiante, merecer nossa atenção.

A Diáspora

Normalmente, por diáspora, devemos entender um movimento forçado de saída de um povo de onde está para escapar de perseguição, escravidão ou outra ameaça à sua existência. Mas, o êxodo de gaúchos sulriograndenses para muitos lugares acabou por ter componentes de uma diáspora: essa parcela de brasileiros foi perseguida pelo modelo econômico excludente e estava ameaçada de fome e miséria. Logo, o que houve ali foi, sim, uma diáspora. Não foi organizada, não teve um líder, mas foi uma diáspora.

Sua saída daquele Estado para ocupar inúmeros espaços pelo Brasil a fora e fora do Brasil, tem componentes dramáticos: deixa(va)m, muitas vezes, seus pais e parte de sua família para conquistar espaços de superação. São, de longe, no Brasil, os mais numerosos retirantes saídos de uma mesma unidade, federativa: cerca de dois milhões atualmente. E podem ser apontados como a mais exuberante experiência de sucesso empreendedor; são raros os casos (lá fora) que não deram certo.

Amor pela Pátria que me expulsa

A nota marcante desses aventureiros venturosos é o amor pelo que chamam de Rio Grande e que, de certa forma, choca as demais pessoas dos destinos que os recebem. Antes, porém, de tentar explicar esse fenômeno sob a ótica do “Amor à Pátria que me expulsa”, objetivo deste Ensaio, cabe um dado formidável: os retirantes são, na sua quase totalidade, descendentes de imigrantes chegados ao Rio Grande do Sul a partir de 1824, expatriados oriundos da Europa, que encontraram no Brasil pequenas propriedades onde prosperaram e geraram muitos filhos.

Já nas décadas iniciais da República, o Brasil oligarca e latifundiário deveria ter implementado uma Reforma Agrária, pela qual talvez a maioria desses gaúchos tivesse permanecido sobre os latifúndios tupiniquins regionais, transformados. Não foi assim. Os primeiros governos republicanos estavam empapuçados de um ideal capitalista da grande propriedade e fez questão de desconhecer a função social da pequena e média propriedade.

Naquele mesmo período, os imigrantes foram alcançados por duas grandes guerras envolvendo seus países de origem, que repercutiram a guerra aqui no Brasil e eles nem mesmo podiam se dizer brasileiros, pois por conta do abandono governamental em que foram mantidos, nem mesmo a língua nacional haviam podido aprender.

Nesse tempo surge o CTG (centro de tradição gaúcha) com cultivos que lhes eram agradáveis e foi assim que, misturando-se aos peões campeiros de ofício, os agricultores imigrantes se fizeram gaúchos culturais.

O CTG nasceu rural, teve sede urbana, mas jeito e feitio rural. Urbanizou-se depois de 1970, quando o êxodo rural fez incharem as cidades e os ex-rurais, urbanizados, continuaram agregados aos centros de arte e cultura tradicionais do gaúcho ancestral e campeiro.

Muito antes de 1970, ao escassear a terra para produzir e sem outra alternativa para sobreviver, imensas levas rurais deixaram para trás o Rio Grande do Sul nos rumos dos espaços disponíveis desde Santa Catarina até Roraima e países vizinhos. Coincidiu que por estes tempos os latifúndios, aos poucos, também, iam se transformando em lavouras mecanizadas e tornando mais profunda a chaga: colocavam-se máquinas no lugar de trabalhadores braçais.

Os excluídos ou iam para as cidades, diga comumente para as favelas ou se metiam nas serranias e savanas inexploradas da América.

Esses “gaúchos” não de ofício e sim de cultura, demonstram seu “gauchismo” de uma maneira inequívoca aonde quer que estejam. Já temos visto fanatismo religioso ou ideológico, mas aqui não se trata disso, apesar de incluir crenças e ideologias; trata-se de algo mais suave, romântico, e muito forte, quase inexplicável.

O que é o CTG?

Fundado por jovens idealistas, filhos do interior rural, num tempo (1947) em que o Brasil estava sendo invadido pela cultura norte-americana, o CTG tinha duplo objetivo: (1) preservar as ricas tradições rurais a partir de um ícone humano pobre e excluído, chamado gaúcho – como se descreverá adiante – e (2) com isso contribuir para que o nosso país não viesse substituir seus valores culturais por algo alienígena.

No âmago dessa sociedade disposta à resistência, aparece a hierarquia da estância, o patrão, o sota-capataz, os peões, a mulher, a prenda, as crianças e a proposta: o galpão é um espaço para os iguais. Veladamente estava o desejo de valorização dos mais fracos e nenhuma chance ao invasor, num magistral resgate ao legendário grito “esta terra tem dono”, gritado como inconformidade do cacique guarani, Sepé Tiaruju, contra a ideia de entregar as tabas e igrejas missioneiras ao governo estrangeiro, no caso, português. Como se deduz, o gaúcho ancestral nasceu falando guarani, depois espanhol e por último português.

Portanto, estas somas de índio, gaúcho, pobreza, honradez, autonomia, amor à terra, já estavam delineadas não pelo CTG, mas pelo homem na sombra cultural de quem o CTG foi buscar inspiração; o CTG era, é, o espelho das querências humanas.

Territorialidade

Tem-se que a natureza é a fonte única dos recursos e subentende-se que fora da natureza o homem estaria derrotado em sua pretensão de sobreviver. Pois foi exatamente a minguada existência de recursos naturais que provocou a diáspora de cerca de 2 milhões de gaúchos sulriograndenses desde os anos 1930. Com algumas exceções, todos viveram, vivem, são felizes longe do Rio Grande do Sul, mas uma coisa intriga qualquer pesquisador: em sua maioria continuam tendo o Rio Grande do Sul em seu imaginário como a querência do amor, da saudade.

Os conceitos de território e territorialidade, no sentido de espaço ou área definida e caracterizada por relações de poder, estão interligados. A noção de poder, domínio ou influência de vários agentes (políticos, econômicos e sociais) no espaço geográfico expressa a territorialidade, daí a afirmação: "entrar em território alheio" poder ser considerada uma afronta. O território é o espaço que sofre o domínio desses agentes, e à forma como eles moldam a organização desse território que é chamado territorialidade.
Na política, o território é o espaço nacional controlado por um Estado - Nação.

Antes das respostas sociológicas e antropológicas mais diretas sobre o fenômeno de “Amor à Pátria que me expulsa”, é preciso explicar o território sob outros pontos de vista. Nossos estudos concluem que o território é uma construção conceitual a partir da noção de espaço. É onde se estabelece um clã, uma população, uma nação, com um produto resultante da moldagem pela ação social; espaço físico, balizado, modificado, transformado pelas redes, circuitos e fluxos que aí se instalam, acaba se tornando propriedades, cidades, rodovias, canais, estradas ou ferrovias ou hidrovias, aeroportos, circuitos comerciais e bancários, etc. etc., por exemplo, e se constituem em um complexo jurídico-sócio-político-econômico e de fé, modelado pela multiplicidade de paisagens e atividades características. Assim, a produção de um espaço ou território nacional, contém os objetos espaciais, naturais e/ou construídos, na condição de instrumentos exossomáticos, (estão no íntimo humano sem clara percepção) para produção/reprodução de uma identidade étnico-sócio-cultural.

O modelo brasileiro de Estado e de propriedade nasceu do contexto pós-medieval europeu. Sua característica maior é a forma de propriedade territorial, que se expressa em uma soberania patrimonial excludente: “o que é meu é só meu” e não afastou a figura do vassalo e do escravo.

A afirmação nacional, a brasilidade, por exemplo, não se pauta apenas pela defesa dos limites desse recorte jurídico-político-territorial-econômico e de fé. Fronteiras políticas da individualidade estatal assinaladas na natureza determinadas pela ação do Estado teriam muito pouco valor se o ocupante desse espaço não se sentisse acolhido por ele. E quando este espaço não acolhe os indivíduos, os expulsa dali por razões econômicas ou legais e, mesmo assim, os indivíduos se mantêm vinculados ao espaço por razões afetivas, como explicar? É a proposta e é a ação deste ensaio.

Pode existir um território imaginário? 

O ocupante do espaço ecológico pode superpor o conforto proporcionado pela safra que a terra entrega, mas ele pode estar infeliz por uma série de motivos e mais ainda se não há terra e nem safra. Os experts falam do fator exossomático (já referido), que o telúrio (essência da terra que vem com os alimentos – e no caso dos gaúchos, mais ainda com o mate) poderia explicar, mas logo fica desmentido pelo fato de que, nesse caso, quem nunca esteve no Rio Grande do Sul não poderia ser alcançado por este sentimento e telúrio que se diz que a terra dá. Ademais, do outro lado da fronteira, na Argentina (outro território) e no Uruguai (outro território) temos exatamente o mesmo fenômeno. Já não se pode mais falar de território geográfico e sim de territorialidade psíquica: uma alma gaúcha, uma consciência gaúcha.

Então quando os gaúchos se referem aos seus valores de cultura, o título genérico para isso é a palavra “Rio Grande”, mas por dentro desse rótulo existe a efetiva riqueza que não é a terra (propriamente) que dá.

O componente “alma”

Existem fronteiras que dividem povos, separam nações e distanciam culturas. Esse é o entendimento dominante. Essas barreiras imaginárias já foram cenários de batalhas sangrentas, em que pessoas se digladia(va)m com o objetivo de ampliar o domínio geográfico e econômico de seus países. É isso que a história nos narra e as notícias nos dão. Daí a ideia de as fronteiras serem conhecidas como linhas vermelhas. Depende de como se entra no território alheio pode ser uma afronta.

E quando nada disso separa; pelo contrário, une.

É assim que desejo embalar a abordagem da “Alma Gaúcha”, porém não tendo o Rio Grande do Sul como matriz única desse fenômeno. Importante, sim. Única, não.

As paisagens pelo planeta a fora são diversificadas, belas, maravilhosas, ricas em ofertas minerais, vegetais, animais, humanas.

A paisagem do Extremo Sul da América Meridional não pode ser comparada a nenhum paraíso de rara beleza: não teve ouro, prata, pedras preciosas, pouquíssima madeira, pouquíssima caça, alguns rios e lagoas, mas, nada exuberante, nada cativante. Os seres humanos que aí viviam eram indomáveis índios e perigosos aventureiros, sempre prontos a receber como inimigo quem se aproximasse.

Mas, havia sobre esta terra dois clãs indígenas a destacar: os charruas e os guaranis, dos quais o mestiço filho china (no caso a índia), chamado gaúcho, herdou muitos valores que lhe modelaram a alma. Parece ter sido essa “alma” a grande diferença cinzelada na índole do peão pobre, sucessor do gaúcho ancestral, que deixou suas marcas culturais nas estâncias onde se ajustou como trabalhador. E foram os valores da mãe guarani e sua própria habilidade campeira astuta (da herança charrua) que transmitiram aos seus herdeiros o direito de também se chamarem gaúchos e gauchos, na verdade, entre eles estavam guerreiros que estiveram com Artigas na defesa da Pátria Uruguaia, também chamada patriagaucha; e que estiveram (sem farda) ao lado dos farrapos na defesa da Pátria Riograndense; estavam e estão os peões que prestaram e prestam serviços às estâncias depois que os aramados foram estendidos; milicianos da já mencionada Guerra Farroupilha; e soldados da cavalaria de Osório na Guerra do Paraguai. E em outras peleias mais que foram muitas.

A cultura gaúcha

O primitivo personagem que dá causa à cultura campeira conessulista – o  gouch provindo do idioma inglês – sempre foi pejorativamente descrito por quem o detestava. Por isso era tido como maula (má índole), ladrão, indisciplinado, valente. Em geral ninguém conseguiu passar por sobre o seu cadáver.

Muitos escritores escreveram sobre ele. Inclusive ingleses ao narrar e reclamar das dificuldades de acesso ao território para o comércio dos vendedores ambulantes, chamados mascates, com produtos da nascente indústria inglesa.

“Sentido profundo de liberdade individual como consequência da vida nômade, originalmente um rebelde, muitas vezes foragido da lei e com acentuado desapego pela autoridade constituída”, é como o interpretou Danilo Antón, escritor uruguaio.

“Nestas planuras, o gaúcho é um homem sem a menor vocação para ficar sob as ordens de terceiros”, disse, sobre ele, o escritor espanhol Félix de Azara, ao visitar a região no final do século XVIII.

Para a autoridade policial, era um ladrão, um sem-lei, um indisciplinado.

O correto é, sem absolvê-lo de todo, descrevê-lo como um solitário, um rebelde, um romântico, um ecológico, autônomo, nômade, excluído e pobre, extremamente miserável do ponto de vista dos bens materiais e instrução escolar. Possivelmente nunca tenha desejado a posse de nada além de um território, sua Pátria.

Os antropólogos com tendência humanista dizem de sua presença: “Uma vítima em caráter mais profundo que o índio, porque este último possuía identidade étnica e se organizava em tabas”. Ainda que marginalizado, o índio teve, mais tarde, seus territórios reconhecidos, demarcados e respeitados. O mestizo, que era o caso desse filho da viúva da guerra guaranítica (1756), de pai europeu ou negro, a exemplo de outros, sofreu pela crise de identidade. No caso do gaucho, o que chama a atenção é ele ter criado a sua marcante identidade pessoal e intransferível, apesar dos pesares. Esses aspectos aumentam-lhe em muito a importância e o correlaciona com o beduíno, outro marginalizado, porém com identidade, ao menos, racial.

Quase uma etnia, mais que uma etnia

É indispensável, neste tópico, falar da força da cultura gaúcha. É muito difícil encontrar um outro grupo social que se assemelhe aos gaúchos internacionais e mais ainda aos sulriograndenses no exílio. Quando estes se mudam do Estado, deixam apenas a terra, levam tudo mais: o linguajar, as vestimentas, a alimentação, as bebidas, as danças e as músicas.

Localizados em outros estados ou países, vivem dos frutos da terra e por força de outros componentes amam à terra que muito lhes dá. Estejam onde estiverem, acompanham pelas tevês a cabo os programas que tratam da cultura dos gaúchos. E mesmo nos mais distantes rincões, onde estejam reunidas algumas famílias gaúchas, sempre tem por perto um armazém que vende erva-mate, vinho de garrafão, salame, queijo, charque...

O curioso é que filhos de gaúchos, crianças e jovens nascidos em outros estados, até mesmo aqueles que nunca viajaram ao Rio Grande do Sul, dizem que se sentem inteiramente gaúchos. E é por isso que eles cultivam as tradições gaúchas com uma dedicação que supera a de muitos que vivem no próprio Rio Grande do Sul.

Eles amam o seu novo Estado, amam a terra que os recebeu, nunca querem voltar ao ponto de onde saíram, mas se dizem gaúchos.

Dizem amar profundamente sua querência. Os gaúchos amam sua nova terra por outros motivos que inclui a terra e o que ela dá, a geografia, o território, a produção, a riqueza. Isso não inclui a cultura, isto é, a alma.

Mais uma vez se pode identificar algo etéreo, onde a geografia fica de fora. Os gaúchos amam alguma coisa que chamam de Rio Grande, mas isso não existe no mapa geográfico, pois amam também a terra que os recebeu de braços abertos. Nenhum quer retornar ao Rio Grande. Claro, o que eles querem que permaneça já está com eles.

Em qualquer lugar do Brasil, os gaúchos, em geral se dedicam à agropecuária e amam sua nova terra e seu novo estado. Mas continuam guardando total dedicação aos usos e costumes gaúchos.

 

Põe, antes, um fogo de chão

Nada mais pode ser tão semelhante à alma humana quanto o fogo, a lavareda. No fundo, cópia do majestoso Sol que dá vida aos planetas que o circundam.

Poucas sociedades tiveram tanto contato com o fogo de chão quanto os chamados gaúchos: peões de campo de uma região fria recolhidos aos galpões para descanso e lazer, onde se incluem os de língua portuguesa e espanhola; peões das tropeadas e acampamentos com repercussão em dois países sul-americanos e cinco estados brasileiros; peões das roças inaugurais dos imigrantes, recolhidos aos primitivos albergues coletivos antes de existirem as casas e os fogões; peões dos cetegês em que o fogo de chão não é uma necessidade, é um imperativo cultural.

Foi ao redor dos fogos de chão que nasceu a cultura chamada gaúcha. Ela passa pelas laçadas, pelos tropéis e tropeadas, mas o fogo de chão preside a comuna, com todos igualmente iguais sob a roda de mate numa infinita transmissão de conteúdos básicos de uma tradição que renasce a toda hora.

Essa forja onde as almas são modeladas produz almas em série, cópias de séries para outras gerações nascidas em qualquer parte do mundo e no tempo.

Essa é a alma gaúcha impressa no coração e não registrada em cartório. Esse é o coletivo das almas gaúchas de todas as línguas.

Território é referência, não é endereço

Imagine um gaúcho de origem italiana bem longe da Pátria. Descobre alguém falando sua língua, fica feliz e se aproxima; descobre que são da mesma região e a descoberta se torna ainda mais excitante. Mas, em seguida, a decepção: a pessoa não é camarada, não se envolve com a cultura gaúcha e corta o papo.

Está longe do padrão esperado.

Veja o reverso.

É patriota, fala português, tem cultura gaúcha, é filho de italianos, torce pelo mesmo time, aprecia tertúlias e churrascadas e gosta de papo.

Aqui pode-se dizer tratar-se de territorialidade, não geográfica necessariamente, pois os estados de origens poderiam ser diversos. Tudo mais, não. Retira-se o endereço. Tudo mais combina.

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