sábado, 17 de outubro de 2015

1816-As deusas e o seu eclipse


Queda e ascensão da mulher ao poder

Introdução

Quem tenha um pouquinho de paciência para investigar a trajetória e o papel da mulher nas sociedades do planeta, em todos os tempos, verá, estupefato, que num determinado momento cultural a mulher, as deusas, o gênero, sumiu das cenas de honraria.

Pelas nossas pesquisas, foram os macedônios e os romanos que destronaram as deusas e a mulher, como será dado conhecer adiante.

Mas, isso foi há mais de 2 mil anos e quanto mais o tempo passa, mais difícil se torna entender como, em pleno século XXI, com a ciência avançando e conseguindo desvendar o genoma humano, o mundo virtual se impondo nas mais diversas esferas sociais e a questão de gênero se torna cada vez mais complexa. Já é complicado entender o que se passa no Ocidente, principalmente, onde em algumas culturas, como a inglesa, onde reina uma rainha e teve uma primeira-ministra ou na Alemanha, onde manda uma primeira-ministra, países esses que têm uma antiga e forte influência sobre outros hemisférios e nem assim e mesmo ali naqueles países a mulher continua por baixo.

Temos um machismo endêmico. Nem quero aprofundar muito na questão brasileira onde uma mulher preside o país, e em que alguns estados e municípios são governados por mulheres, mas as mulheres continuam sofrendo discriminações socioeconômicas, políticas e religiosas também aqui e barbaramente pior, claro, em alguns redutos orientais e africanos.

Como entender e aceitar, por exemplo que, na Índia, a cada 15 minutos uma mulher é estuprada; isso sem falar das que são mortas por seus companheiros, não importando se o país for do Terceiro ou Primeiro Mundo; as meninas sendo as maiores vítimas dos pedófilos, as que tem sua individualidade escondida por burkas (símbolo inegável da opressão sobre a mulher) e outras e tantas atrocidades, como por exemplo na África, a mutilação das suas genitais?

Por que as desigualdades entre mulheres e homens ainda se mantém e têm sido reafirmadas por leis, tradições, normas sociais e pelos mais importantes aparelhos de Estado (família, escola, religião, meios de comunicação, etc)?

Muito já se escreveu, muito já se falou sobre este tema, mas alguns aspectos fundamentais não são apontados pelas várias disciplinas existentes no universo das letras e das universidades.

A dificuldade existe porque corre-se o risco de que a abordagem seja considerada parcial, ou seja, defendendo um lado ou outro, machista ou feminista. Na realidade quando falamos da compreensão de fatos, temos que recorrer à ciência, à história, às religiões, à cultura, por isso vamos, com elas, fazer uma rápida viagem através dos tempos para juntarmos as peças do quebra-cabeça que resultou do amálgama formado pelas várias disciplinas que abordaram este tema (antropologia, sociologia, teologia, filosofia, arqueologia, direito, psicologia).

Colaborou neste texto: Cândida Martins Martinez e outros, que serão citados.

Na pré-história, a mulher era respeitada

A origem da família foi o resultado do agrupamento dos primeiros seres humanos, segundo indicam as pesquisas, na África, e que, em busca de sobrevivência e conveniências, foram se formando subgrupos humanos, os chamados clãs. Não podemos esquecer que somos animais e que, naquela época, pouco nos diferenciávamos dos outros mamíferos, muitos deles sobrevivendo em pequenos e médios bandos, matilhas, cardumes.

Com relação à procriação, éramos, porém, diferentes dos demais animais: os acasalamentos não ocorriam no cio da fêmea como no mundo animal. A mulher ovula a cada período lunar (e nós vamos adentrar no Reino da Lua em uma de nossas próximas postagens) e assim ela pode engravidar a qualquer momento dos seus 13 períodos ovulatórios anuais. Esse diferencial humano caracteriza uma categoria específica, humana, no seio da natureza, de que falaremos adiante quando adentrarmos a questão espiritual.

Não é necessário muito esforço para deduzir com que frequência as mulheres engravidavam antes que se conhecessem os métodos contraceptivos que hoje existem. Nossas avós eram mães de muitos.

Na sua condição de igualdade perante o grupo havia um cuidado especial para com a mulher, enquanto geradora e cuidadora de filhos, entre outros predicados.

Porém, os escritos antropológicos afirmam que os homens eram os responsáveis pela caça, pela pesca e pela coleta de alimentos vegetais porque se tornaram mais fortes, aptos e livres para este tipo de atividade. A mulher, geralmente grávida, geralmente amamentando e geralmente cuidando da prole, tinha de ficar estacionada próxima ao habitat.

Muitos estudiosos da família dizem que nesta fase havia promiscuidade sexual, “sugerindo” que não existia propriamente a noção de família (esposos) como ocorreu mais tarde. Era um estado primitivo em que as relações sexuais aconteciam sem limites proibitivos. Os filhos dos “casais” eram filhos de toda comunidade, geralmente com o mais forte dos machos tendo precedência na geração.

Não podemos esquecer que, além de parir, ao longo do tempo, as mulheres passaram a preparar os alimentos, além de cuidar das crianças e dos velhos. Carregavam água, cuidavam dos animais, faziam a limpeza do entorno da choupana e tinham de satisfazer sexualmente aos companheiros, já, então na fase dos casais fixos. Não há como não reconhecer que as atividades das mulheres foram fundamentais para a formação, manutenção e desenvolvimento da humanidade. Sem elas não existiríamos, literalmente. Como deixaremos de existir se a muito longo prazo mulheres com mulheres e homens com homens persistirem “casando-se”.

Na Idade Antiga, as deusas da Lua

Dando um primeiro salto na história humana vamos aterrissar no Antigo Egito e ali travar contato com uma cultura em que a mulher era endeusada literalmente.

Nos simples estudos da mitologia egípcia iremos encontrar a presença da mulher ocupando espaços divinos como parceira dos deuses masculinos.

Na mitologia grega anterior à dominação macedônica haviam 87 deusas gregas.

Com mais um salto na história, vamos aportar na Grécia, berço da democracia e da filosofia. Não tão diferente de hoje, era uma democracia para poucos, no caso, para os homens. Infelizmente, os avanços filosóficos não foram acompanhados por uma evolução política, sociológica.

As mulheres eram consideradas “coisas”, junto com escravos e prisioneiros de guerra. É nesse cenário que vamos encontrar o famoso filósofo grego, Aristóteles, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande.

Antes de Alexandre Magno, é necessário conhecer Felipe II (359-336 a.C.), rei Macedônio que se inscreve como um monarca avançado para os padrões da época. Conquistou Atenas, Esparta e Tebas, Bizâncio, até o Danúbio e estabeleceu uma Comunidade Grega, através de um Conselho com poderes disciplinares, judiciais e financeiros sobre os estados membros. Possuía um exército com 15 mil cavaleiros e 200 mil soldados de infantaria. Abriu caminho para seu filho e sucessor, Alexandre. Foi assassinado diante dos súditos numa cerimônia em palácio.

Alexandre (356-323 a.C.) foi ainda mais brilhante que seu pai, por isso chamado de Grande e Magno e tido como o mais célebre conquistador do mundo antigo, porém o mais cruel dos monarcas no sentido de rebaixar a figura feminina.

O que viria depois com a dominação romana, na sucessão da dominação helênica, e por conta do deus oficial, Invicto Solis (Sol Invicto), faria desaparecer os poderes da Lua e com ela viria o eclipse da figura feminina por um espaço de mais de 2 mil anos.

Cabeça nobre, coração pobre

Aristóteles e seus seguidores estabeleceram um tempo excepcional na forma de pensar da humanidade. Seus escritos abrangiam diversos assuntos, como a física, a metafísica, as leis da poesia e do drama, a música, a lógica, a retórica, o governo, a ética, a biologia e a zoologia. Juntamente com Sócrates e Platão (mestre e discípulo), Aristóteles é visto como um dos fundadores da filosofia ocidental. Contudo, foi um dos primeiros a justificar “cientificamente” a autoridade marital e paterna. “É legítima a autoridade, pois foi a Natureza que criou indivíduos aptos para mandar e outros para obedecer. As mulheres, escravos e crianças são seres incompletos, por essência, e inferior ao homem, representam um princípio negativo. A mulher, na reprodução, tem uma função secundária, pois é apenas um simples receptáculo”. Para ele, a virtude da mulher é o silêncio. Com esta “simples” afirmação, na realidade, nega ele à mulher a voz, a criação do próprio discurso e, portanto, a identidade. Nisso se atribui ao filósofo a pobreza de coração em comparação com a eloquência mental.

Platão, como Aristóteles, achava que a mulher não era algo desejável. Apenas na sua obra, “A República”, dá indícios da importância dos direitos da mulher à educação completa, pois nesta obra fala de sociedade perfeita, de igualdade. Ocorre nesta Era da história “...O desmoronamento do direito materno, a grande derrota histórica do sexo feminino... O homem apoderou-se também da direção da casa; a mulher viu-se degradada, convertida em servidora, escrava da luxúria do homem, um simples instrumento de reprodução e prazer. Essa baixa condição da mulher, manifestada sobretudo entre os gregos dos tempos heroicos e, ainda mais, entre os dos tempos clássicos, tem sido gradualmente retocada, dissimulada e, em certos lugares até revestida de formas de maior suavidade, mas de maneira alguma suprimida”. (Friedrich Engels).

A Idade Média foi a idade das trevas

Nem tudo se disse, nem precisa dizer sobre os tempos anteriores à Idade Média. E nesta idade novamente nada há para comemorar. Nesta Era do caminhar da humanidade, as características familiares se acham determinadas por suas relações com a terra. Quem a possuísse tinha liberdade e poder. É o feudalismo. Surge o direito do primogênito (homem). As mulheres não tinham poder, porque eram incapazes de defender o patrimônio familiar e não participavam da herança familiar.

Num discurso de Marco Pócio Catão (político romano) ele demonstra com clareza a relação de poder existente entre o sexo feminino e masculino quando diz: “Os senhores sabem como são as mulheres, façam-nas suas iguais e imediatamente elas quererão subir às suas costas para governá-los”. Não é difícil entender que, com a criação da lei Pater-família, o homem era o único dono do patrimônio familiar e dispunha da vida ou morte ao que estavam submetidos à sua autoridade. Com o surgimento do Cristianismo, a mulher não era mais escrava e sim companheira (obviamente nas classes dominantes). Contrariando a importância que teve na carreira de Jesus Cristo, a igreja cristã não ofereceu à mulher o mesmo respeito e tratamento.

A Igreja estruturada pelo Império Romano herdaria os rompantes imperiais e nisso contrariou a própria doutrina de Jesus.

Durante quatro séculos, Maria, a mãe de Jesus, esteve obscurecida. Madalena, pela simples hipótese de ter sido a esposa de Jesus, foi atirada no lodo e apontada como prostituta e pecadora.

Assim se chega à doutrina de que se valeu o cristianismo romano. Num trecho da Epístola de São Paulo se lê: “O homem tem que ser o chefe porque foi o primeiro a ser criado. O homem deve amar a esposa como Cristo amou sua Igreja e a mulher deve comportar-se como a Igreja com respeito a Cristo. As casadas estão sujeitas aos seus maridos como ao Senhor”.

É pena, que o arauto do cristianismo tivesse ignorado o absurdo que é dizer que o homem veio ao mundo sem um útero para sua geração.

Os judeus também não deixavam por menos. Na sua “Gênese” bíblica está lá: “Deus criou a mulher com uma costela do homem, assim sendo, a mulher significa perda para o homem, é também responsável pelo pecado. Por isso, a mulher sofrerá maldições e parirá com dor; a paixão a levará ao esposo que a dominará”.

Muito mais tarde, o douto do cristianismo romano, Santo Agostinho, uma das figuras mais importantes no desenvolvimento da Igreja Católica, escreveria: “As mulheres não devem ser iluminadas ou educadas de modo algum. Devem ser, na realidade, segregadas, pois são elas a causa das horrendas e involuntárias ereções dos homens santos”.

E vem das trevas a mulher objeto

Submetida, dominada, servil, mas nunca desprezada do ponto de vista sexual, a mulher foi aceitando e resignando-se, enquanto boa parte delas aproveitou-se dessa procura libidinosa e disso, por um lado, tirou proveito. A mulher sensual, provocadora, ardil, ofereceu-se e foi forçada a prostituir-se, vencer pelas qualidades e dotes de luxúria e disso também se fez cultura e alcançou os tempos modernos.

Hoje, quando o cinema, a tevê, o teatro e a internet se acham infiltrados de conteúdos pornográficos, não há como não reconhecer que tudo é herança daquilo que se abateu sobre o gênero feminino. Até as agressões e os estupros (que serão abordados adiante) podem ser considerados colheitas das mesmas referidas semeaduras.

Até mesmo a Igreja Protestante deixou seu rastro lamentável. Leia o que dizia um personagem que rompeu com a Igreja Católica, Martinho Lutero: “Ao homem compete o governo, a mulher deve curvar-se. O homem é mais elevado e a mulher é uma criatura partida, uma besta hidrófoba. O mérito maior que possui é o de gerar”.

É de se destacar que tendo contra si a cultura machista, a mulher atravessou os séculos cumprindo seus papéis de esposa, mãe, educadora, dona de casa, estudante, atleta, artista, a espera de uma oportunidade que demoraria, demoraria muito, mas chegaria. A pesada carga que foi colocada sobre os seus ombros não a fez arquear-se, a fez ir adiante, está fortalecida e em ascensão, enquanto o homem parece regredir.

Na Idade Moderna, a busca da igualdade

Estamos agora diante de acontecimentos muito importantes: A revolução Francesa, a Revolução Industrial, o Iluminismo, a obra de Allan Kardec. Foram fenômenos e episódios que promoveram uma grande mudança na organização familiar, no modo de pensar, na chamada da mulher para fora da sombra.

O trabalho é transladado para o mundo público, mas as tarefas domésticas ficam no mundo privado, ao encargo das mulheres. Contudo, a nova organização mantém a mesma hierarquia familiar anterior, já que é o homem que sai (saía) da casa para trabalhar e é (era) o único responsável pelo sustento da família. Com o surgimento do Capitalismo, tem valor o trabalho que é remunerado. O trabalho doméstico, apesar de também assalariado (em parte) “não tem valor porque é feito sem carteira de trabalho assinada” (ideia que se manteve até que o Congresso votou a obrigação da carteira e das contribuições sociais), mas ainda não promoveu a dignidade da função.

Desta forma, se configura o prolongamento da ideologia da inferioridade, principalmente, da mulher. Para se ter uma ideia, em pleno Iluminismo alguns personagens, que possuíam voz naquele período inicial do Iluminismo, fizeram algumas afirmações como estas:

•Jean-Jacques Rousseau (filósofo): “A função da mulher é a de mãe, esposa, cuidar da casa e da educação dos filhos”.

•Charles de Montesquieu (político e filósofo): “A desigualdade entre o homem e a mulher é uma injustiça, já que a ideia de inferioridade não reside na natureza e sim na falta de educação e pouca cultura”.

•François Marie Arouet (mais conhecido como Voltaire) filósofo iluminista: “A educação sólida levaria as mulheres a serem boas mães e esposas, pois o matrimônio se realiza por amor e inteligência. O homem encontra na mulher um complemento de sua imagem”.

No meio da escuridão, o poema iluminado

Victor Hugo, poeta e romancista francês, que viveu no século XIX, escreveu uma belíssima página sobre o homem e a mulher, que vai aqui reproduzida:

O homem é a mais elevada das criaturas. A mulher é o mais sublime dos ideais.

Deus fez para o homem um trono; para a mulher, um altar. O trono exalta; o altar santifica.

O homem é o cérebro; a mulher o coração. O cérebro produz luz; o coração, o amor. A luz fecunda; o amor ressuscita.

O homem é o gênio; a mulher o anjo. O gênio é imensurável; o anjo indefinível.

A aspiração do homem é a suprema glória; a aspiração da mulher, a virtude extrema. A glória traduz grandeza; a virtude traduz divindade.

O homem tem supremacia; a mulher, a preferência. A supremacia representa a força; a preferência o direito.

O homem é forte pela razão; a mulher é invencível pela lágrima. A razão convence; a lágrima comove.

O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios. O heroísmo enobrece; o martírio sublima.

O homem é o código; a mulher, o Evangelho. O código corrige, o Evangelho aperfeiçoa.

O homem é um templo; a mulher um sacrário. Ante o templo, nos descobrimos; ante o sacrário, ajoelhamo-nos.

O homem pensa; a mulher sonha. Pensar é ter cérebro; sonhar é ter na fronte uma auréola.

O homem é um oceano; a mulher, um lago. O oceano tem a pérola que o embeleza, o lago tem a poesia que o deslumbra.

O homem é a águia que voa; a mulher, o rouxinol que canta. Voar é dominar o espaço; cantar é conquistar a alma.

O homem tem um farol: a consciência; a mulher tem uma estrela: a esperança. O farol guia, a esperança salva.

Enfim, o homem está colocado onde termina a Terra; a mulher, onde começa o Céu.

Podemos deduzir, sem muito esforço, que o discurso mudou à medida que o calendário marcava a passagem dos anos, mas a hierarquia familiar e o papel da mulher continuaram os mesmos. Voltando a Engels: “A emancipação da mulher só se tornará possível quando ela puder participar, em grande escala social de produção e o trabalho doméstico lhe tomar um tempo insignificante”. Ledo engano!!! Hoje a mulher participa da produção e é também responsável por todo trabalho doméstico, arcando assim com duas jornadas diárias de trabalho. Só raramente não é assim.

Idade Contemporânea com novos desafios

É muito difícil apagar mais de dois milênios de sombras. Mas, enfim, teve início uma Nova Era, precursora da Era de Aquário, fazendo amadurecer e corrigir as ideias iluministas disseminadas pelas mentes mais brilhantes (e ateias) da Europa na esteira da Revolução Francesa. São, foram, ideias que contribuíram para o progresso científico na busca de novos conhecimentos para entender a sociedade e o homem (notem que os diversos estudos sobre a humanidade e a espécie se referem ao ser humano como o Homem). Onde foram parar as mulheres?! Que estória é essa que a mulher saiu da costela do homem? E por que não o contrário, que seria mais lógico?

Este período, marcado pelo final do século XVIII e prenhe de acontecimentos que foram responsáveis pelas maiores catástrofes já registradas na História, como a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a criação da bomba atômica, a Guerra Fria, as guerras de Independência de várias nações, etc., também foi o período em que foram buscadas novas alternativas para a convivência social, como o sistema comunista e ateísta teorizado pelo pai da sociologia, Karl Marx, sistema que, diferentemente do Capitalismo, coloca como valor maior o ser humano e não o capital. A constituição soviética estabeleceu que as mulheres desfrutariam de “direitos iguais aos homens em todos os terrenos da vida econômica, pública, cultural, social e política”, mas isso nunca entrou em vigor. O código penal, por sua vez, determinou punições para os que buscassem impedir que isto se realizasse. E também não vigora.

Estas notícias não circularam no mundo livre dada a extrema ditadura que acompanhou a implantação do regime comunista. Para ser reconhecida como um ser igual aos outros, a mulher teve de perder a democracia, o direito ao voto, e muito de sua liberdade. E nem assim venceu.

Mas, a fila anda e os capitalistas e comunistas tiveram de fazer concepções muito mais porque precisaram do trabalho feminino e em seguida quiseram (onde havia eleição) o voto feminino.

Por volta dos anos 60, “a sociedade conservadora primava pelos chamados “bons costumes”. As mulheres eram as principais vítimas, pois estavam presas, através das restritas possibilidades de trabalho externo à sua família, “acorrentadas” econômica e sexualmente, sem escolhas livres e democráticas para se casarem, divorciarem-se ou ficarem solteiras e tendo liberdade sexual”. (Dermeval Corrêa de Andrade).

Nessa época começou a ter importância estudos que giravam em torno das origens e causas da posição subordinada das mulheres e o porquê dessa situação perpetuar-se ao longo da história. Se caracterizava como um movimento social, filosófico e político tendo como meta direitos iguais e uma vivência humana liberta de padrões opressores baseados em normas de gênero.

A maior parte dos movimentos e teorias feministas tiveram como líderes, principalmente, mulheres brancas de classe média, da Europa Ocidental e da América do Norte. O feminismo acabou sendo mais voltado para as mulheres brancas de classe média-alta. Nos segmentos mais oprimidos por desigualdades econômicas, étnicas e sexuais, em qualquer parte do mundo, cresce número de mulheres que, mesmo assumindo o papel de chefes-de-família, não tem o mesmo valor de quando o homem ainda faz parte do grupo.

Mas vamos mencionar algumas estatísticas que abordam a realidade da mulher no mundo atual:

• Quando se considera a criação dos filhos e o trabalho doméstico, as mulheres trabalham mais do que os homens, quer no mundo industrializado, quer no mundo subdesenvolvido (20% a mais no mundo industrializado, 30% no resto do mundo).

• As mulheres detêm apenas 1% da riqueza mundial, e ganham 10% das receitas mundiais, apesar de constituírem metade da população.

•As mulheres estão sub-representadas em todos os corpos legislativos mundiais.

 •Em média, mundialmente, as mulheres ganham 30% menos do que os homens, mesmo quando têm o mesmo emprego.

Uma solução espiritual

O conhecido cientista Sigmund Freud afirmava: “Nunca fui capaz de responder à grande pergunta: o que quer uma mulher?”.

Na verdade, Freud sabia muito de algumas coisas e poucas coisas de muitos temas. Interpretou como traumas sexuais a repressão religiosa à mulher e a proibição do amor com maior liberdade. Nunca escreveu uma frase a respeito da espiritualidade, cabendo ao seu discípulo e depois seu oponente, Carl Gustav Jung, completar o trabalho aduzindo a questão espiritual no estudo da mente e da consciência humana.

Foi por ausência de espiritualidade que a mulher ficou por baixo no capitalismo e no comunismo e foi por ausência de espiritualidade que o comunismo sucumbiu ou está a caminho disso.

Com espiritualidade, como escreveu Kardec ao ouvir seus conselheiros espirituais, a mulher teria, muito cedo, assumido seus papéis na sociedade sem ser discriminada, desempenhando funções até mais importantes que as dos homens (é menos belicosa). O mundo seria melhor se a mulher tivesse podido influenciar mais na formulação das leis, na educação e na fé. Haveria mais respeito nos relacionamentos familiares, afetivos e profissionais como consta na Declaração Universal dos Direitos Humanos (que também não entrou em vigor, ainda): “Os direitos humanos são direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente de etnia, sexo, nacionalidade, idioma, religião ou qualquer outra condição. Os direitos humanos incluem o direto à vida e a liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direto ao trabalho e à educação. Todos merecem estes diretos sem discriminação”.

A ascensão e queda do poder e do respeito à mulher na história da humanidade já tem evidentes sintomas de inversão da tendência. As mulheres começam a crescer nos parlamentos, no comando de nações, estados e municípios, empresas e organizações. Quem viver verá.

Infelizmente a maioria das ideologias religiosas, filosóficas e políticas vão ao encontro dos interesses dos poderosos e o resultado já é conhecido: a injustiça na mente de homens e, infelizmente, também de algumas mulheres, desequilibrou a harmonia do planeta. “O sucesso dessas ideologias consiste em manter escondidas as causas dos fenômenos sociais, ou seja, formam parte do inconsciente ideológico. A sociedade, ao invés de corrigir as distorções da realidade, através da educação social saudável, buscando que todo ser humano possa ter direitos e oportunidades iguais faz justamente o trabalho de manutenção perversa de atitudes que só depõem contra a humanidade, pois são embasadas em interpretações que iniciam e se fixam – por conveniências de alguns – nas aparências”. (Dermeval Corrêa de Andrade).

Numa próxima postagem enfocaremos o papel das deusas na formação do mundo.

Contribuiu para estes textos Cândida Martins Martinez – Terapeuta da Práxis, especializada em Educação Social Transformadora e Comunicação Social.
 
Nota dos autores

Tendo em vista que “A ciência é uma construção coletiva e o assunto deste artigo depende, necessariamente, da recorrência a muitos autores”, tivemos que sintetizar as teorias e, com isso, a explicitação dos nomes dos científicos acarretaria a inclusão de várias páginas para a bibliografia, sugerimos então que a(o)s leitoras(es) interessados busquem as várias fontes (livros ou recursos midiáticos) que contenham as teorias completas dos itens aqui abordados.

Até semana que vem.

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