sábado, 28 de novembro de 2015

1822-De que se compõe o Universo?


O Universo se compõe de energia e informação

Introdução

Sem energia nada há. Os argumentos podem ser eloquentes. O planeta Terra tem na água a sua base, tanto quanto o corpo humano. Somos água. Mas o que organiza tudo, todos os componentes químicos da natureza, começando pelas estrelas e acabando nos componentes do átomo, é a energia. Mas, a energia sozinha nada produz. Carece de informação. Aí entra a mente. Podemos aqui incluir uma mente supra poderosa, que eu e você podemos chamar de mente de Deus, quiçá uma hierarquizada composição de mentes intermediárias passando pelo ser humano e chegando a muitas outras mentes que estão abaixo desse nível. A organização da construção ordenada dos sistemas e organismos pertence à mente.

É onde este artigo quer chegar.

Mas, antes, vamos dar uma olhadinha para o que existe para a gente estudar.

Forças Fundamentais da Natureza

A Natureza possui 4 forças básicas:

Gravidade – que mantém os planetas em órbita;

Eletromagnetismo – que responde pela luz, pelo calor, pela eletricidade e tudo que está relacionado à energia;

Interação forte – que mantém unido o núcleo do átomo;

Interação fraca – que responde pela transmutação dos elementos e pela decomposição radiativa.

Sabemos que existem apenas 4 forças, ou interações, fundamentais na natureza. São elas a interação gravitacional, a interação eletromagnética, a interação forte e a interação fraca, explicadas a seguir.

Nome da Força Fundamental/intensidade/teoria/mediador:

1.Forte – 10 – cromodinâmica quântica – gluon

2.Eletromagnética – 10-2 – eletrodinâmica – fóton

3.Fraca – 10-13 – flavordinâmica – W± e Z0

4.Gravitacional – 10-42 – geometrodinâmoca - graviton

Explicando a Intensidade:
 
Os valores acima atribuídos para as intensidades das forças não devem ser considerados de modo absoluto. Você verá valores bastante diferentes em vários livros, em particular no que diz respeito à força fraca. O cálculo desta intensidade depende da natureza da fonte e a que distância estamos fazendo a medição. O que importante notar é a razão entre elas: a força gravitacional é, de longe, a mais fraca entre todas, porém é a de maior alcance, sendo a responsável pela estabilidade dinâmica de todo o Universo.


Explicando a Teoria:

Vê-se que cada força está associada a uma teoria física, cada uma com seus conceitos. Alguns detalhes:


Força Gravitacional - A teoria clássica da gravitação é a lei de Newton, da Gravitação Universal. Sua generalização relativística é a teoria da Gravitação de Einstein, também chamada de Teoria da Relatividade Geral de Einstein. O melhor termo para ela seria Geometrodinâmica, uma vez que a relatividade geral geometriza a gravitação. Para descrever os estágios iniciais da formação do Universo precisamos de uma teoria quântica da gravitação, algo que os físicos ainda não possuem, apesar dos enormes esforços desenvolvidos para isto.

Explicando a Eletrodinâmica:

Esta é a teoria física que descreve os fenômenos elétricos e magnéticos, ou seja, as forças eletromagnéticas. A formulação clássica da Eletrodinâmica foi feita por James Clerk Maxwell. A teoria clássica construída por Maxwell já era consistente com a teoria da relatividade especial de Einstein. O "casamento" desta teoria com a mecânica quântica, ou seja, com a construção de uma "Eletrodinâmica Quântica", foi realizada por grandes nomes da física tais como Feynman, Tomonaga e Schwinger, nos anos que compõem a década de 1940.

Explicando a Força Fraca:

As forças fracas são aquelas que explicam os processos de decaimento radiativo, tais como o decaimento beta nuclear, o decaimento do pion, do muon e de várias partículas "estranhas". É interessante notar que esta força não era conhecida pela física clássica e que sua formulação como teoria é estritamente quântica. A primeira teoria das interações fracas foi apresentada por Fermi em 1933. Mais tarde ela foi aperfeiçoada por Lee, Yang, Feynman, Gell-Mann e vários outros nos anos da década de 1950. Sua forma atual é devida a Glashow, Weinberg e Salam, que a propuseram nos anos da década de 1960. A nova teoria das interações fracas, que é chamada de flavordinâmica por causa de uma das propriedades intrínsecas das partículas elementares, é mais justamente conhecida como Teoria de Glashow-Weinberg-Salam. Nesta teoria, as interações fraca e eletromagnética são apresentadas como manifestações diferentes de uma única força, a força eletrofraca. Esta unificação entre a interação fraca e a interação eletromagnética reduz o número de forças existentes no Universo a apenas 3: força gravitacional, força forte e força eletrofraca.

Mais um pouco sobre Força fraca:

Em 1896, Henry Becquerel obteve os primeiros indícios da força nuclear fraca na descoberta da radioatividade. Nos anos 30 houve um grande impulso no entendimento desta força: naquele tipo particular de radioatividade descoberto por Becquerel um nêutron dentro do núcleo atômico se transforma em um próton, criando, ao mesmo tempo, um elétron e uma outra partícula conhecida como antineutrino, ambas lançadas para fora do núcleo. Esse evento, conhecido como decaimento beta não podia ser consequência de outros tipos de forças. A força nuclear forte mantém os prótons e nêutrons juntos no núcleo e a eletromagnética tenta separar os prótons. A força gravitacional não faz nada do gênero.

Inicialmente houve grande confusão em relação a essa força. Os físicos não gostavam da teoria: ela funcionava bem para o decaimento beta, mas quando era aplicada a processos mais exóticos fornecia resultados sem sentido.

Em 1967, o paquistanês radicado na Inglaterra Abdus Salam e o americano Steven Weinberg propuseram teorias que unificavam estas interações com a força eletromagnética , exatamente como Maxwell unificara eletricidade e magnetismo cerca de cem anos antes.

Ambos sugeriram que, além dos fótons, existiam outras partículas, tipo fótons, que eram previstas teoricamente: partículas W eletricamente carregadas, positivamente e negativamente, cuja troca induz a força fraca da radioatividade beta e partículas Z, neutras. o W significa fraco, em inglês weak. A partícula irmã, foi batizada de Z por Weinberg porque tinha carga zero e por ser Z a última letra do alfabeto. (Weinberg esperava que esta fosse a última partícula da família).

Na teoria de Weinberg e Salam, o fóton, cuja emissão e absorção produz a força eletromagnética, e as partículas W e Z, sob energias maiores do que 100 GeV, atuariam da mesma maneira. Sob energias mais baixas, esta simetria entre as partículas W positivo, W negativo e Z nulo seria quebrada e todas elas ganhariam massas volumosas tornando o alcance das forças que carregam muito pequeno. Naquela época poucas pessoas acreditavam na teoria e, além disso, não existia acelerador de partículas potente o suficiente para atingir 100 GeV.

Em 1978, um novo experimento em Stanford mediu a força fraca entre elétrons e núcleos atômicos confirmando o que a teoria tinha previsto e em 1979 Weinberg e Salam foram indicados para o Prêmio Nobel de Física. Em 1983 um grupo de várias centenas de físicos, sob a batuta de Carlos Rubbia, descobriu a partícula W, e em 1984, a partícula Z cujas existências e propriedades já haviam sido previstas na teoria original. Rubbia recebeu o Prêmio Nobel em 1984.

Explicando a Força Forte:

As forças fortes são aquelas responsáveis pelos fenômenos que ocorrem a curta distância no interior do núcleo atômico. A estabilidade nuclear está associada à força forte. É ela que mantém o núcleo unido evitando que os prótons que os constituem, por possuírem a mesma carga elétrica, simplesmente sofram uma intensa repulsão e destruam o próprio átomo. Se a força forte não existisse a matéria que forma o Universo, tal como o conhecemos, também não existiria. Prótons e nêutrons não conseguiriam se formar. Nós, seres humanos, não poderíamos existir. O trabalho pioneiro sobre as forças fortes foi realizado por Yukawa em 1934 mas até meados da década de 1970 não havia, realmente, uma teoria capaz de explicar os fenômenos nuclear. Foi então que surgiu a cromodinâmica quântica.


Miais um pouco sobre Força forte:

Essa força mantém os quarks juntos no próton e no nêutron, e estes reunidos no núcleo do átomo. Provavelmente essa força deve ser conduzida por outra partícula de spin-1, conhecida como glúon, que interage consigo mesma e com os quarks.

A força nuclear forte apresenta uma curiosa propriedade, chamada confinamento: ela sempre liga partículas reunidas em combinações incolores. Não se pode ter um único quark em si mesmo porque ele teria uma cor (vermelha, verde ou azul). Em vez disso, um quark vermelho tem que ser ligado a um verde e a outro azul por uma 'fileira' de glúons (vermelho + verde + azul = branco). Tal trio constitui um próton ou um nêutron.

Outra possibilidade é um par composto de um quark e um antiquark (vermelho + antivermelho, ou verde+antiverde, ou azul + antiazul = branco). Tais combinações produzem as partículas conhecidas como mésons, que são instaveis porque o quark e o antiquark podem se anular, produzindo elétrons e outras partículas. Da mesma forma, o confinamento evita que se tenha um único glúon em si mesmo, porque os glúons também têm cor. Em vez disso, é preciso que se tenha um conjunto de glúons cujas cores se somem no branco. Tal conjunto forma uma partícula instável, chamada glueball.

O fato de que o confinamento evita que se observe um quark isolado, ou um glúon, pode parecer criar toda a noção dos quarks e glúons como partículas de alguma forma metafísicas. Entretanto, há uma outra propriedade da força nuclear forte, chamada liberdade assintótica, que torna bem definidos os conceitos de quarks e glúons. A energias normais, a força nuclear forte é realmente forte e liga os quarks muito intimamente. Entretanto, experimentos com grandes aceleradores de partículas indicam que, em altas energias, a força forte se torna muito mais fraca, e que os quarkse gluons se comportam como partículas independentes.

Explicando os Mediadores:

Após a física ter abandonado o conceito de "ação-a-distância", foi introduzido o conceito de "campo". Cada partícula criava à sua volta uma perturbação, seu "campo", que era sentido pelas outras partículas. A Teoria Quântica de Campos (TQC) introduziu o conceito de "mediadores". Segundo a TQC cada uma das forças que existem na natureza é mediada pela troca de uma partícula que é chamada de "mediador". Estes mediadores transmitem a força entre uma partícula e outra. Assim, a força gravitacional é mediada por uma partícula chamada graviton. A força eletromagnética é mediada pelo fóton, a força forte pelos gluons e as forças fracas pelas partículas W± e Z0, que são chamadas de bósons vetoriais intermediários. Isto complica ainda mais o estudo das interações entre as partículas. Veja que antes descrevíamos a interação entre dois prótons como sendo a interação entre duas partículas. Hoje, sabendo que os prótons são partículas compostas por 3 quarks, vemos que a interação entre dois prótons é, na verdade, uma interação entre 6 quarks que trocam gluons incessantemente durante todo o processo. Só para te avisar, existem 8 tipos de gluons. Como você pode ver, aqui não existe simplicidade.

Explicando a Gravidade:

Uma definição fácil para essa força: tudo atrai todo o resto. Além disso, essa força é universal, isto é, age sobre qualquer partícula.

A força gravitacional é, de longe, a mais fraca de todas. É muito, muito fraca mesmo. Tão fraca que seria praticamente impossível percebê-la, não fosse duas propriedades fundamentais:
1- é sempre atrativa
2- age através de grandes distâncias. (o que quero dizer por grandes distâncias? Imensas. Há indícios que sua ação se prolonga para muito longe de nossa galáxia, até os confins do universo)

A essa força devemos a explicação de muitos fenômenos: a Terra orbitando o Sol, por exemplo. Também explica as marés. Sim, com a influência da gravidade, a lua atrai a água para cima e provoca as marés. Havia muitas dúvidas devido ao fato da maré subir e descer em 12 horas. Foi Newton que explicou o fenômeno em detalhes. O mecanismo é assim: a lua atrai a Terra e a água sobre sua superfície. Mas o ponto de equilíbrio se encontra no centro. Só que temos que atentar para os vários níveis de profundidades da água. Assim, a água mais próxima da lua é atraída mais do que a restante. Consequentemente, a água mais afastada é atraída menos que a média. Soma-se a isso o fato de a água conseguir fluir, ao contrário da Terra, que é rígida. A combinação dessas duas coisas forma a dança das marés.

A terra é redonda porque tudo atrai todo o resto, juntando-se ao máximo possível. Na verdade, a Terra não é 100% esférica por que está girando e produz efeitos centrífugos que tendem a se opor à gravidade na região do equador. Então, o Sol, a Terra e a lua são quase esferas.

Você pode pensar: então, quando caminho perto de outra pessoa, nossos corpos se atraem? Sim, é exatamente isso que acontece, e não precisa estar perto dessa outra pessoa. Você atrai qualquer corpo, vivo ou inanimado. Eu sei que estou te atraindo agora. Mas atrair é uma coisa, e colocar em movimento é outra. A força gravitacional é muito fraca, e seus efeitos, apesar de existirem em qualquer lugar, só são observados na interação entre corpos muito maciços, como dois planetas por exemplo.

Explicando a Eletromagnética:

A força eletromagnética determina as maneiras em que partículas com carga eléctrica interatuam umas com as outras, e com campos magnéticos. Esta força pode ser atrativa ou repulsiva. Cargas eléctricas com o mesmo sinal (duas positivas ou duas negativas) repelem-se; com sinais diferentes atraem-se.

A força eletromagnética segura os elétrons [cargas negativas] nas suas orbitais, à volta do núcleo [carga positiva] do átomo. Esta força mantem os átomos em existência.

A força eletromagnética controla o comportamento de partículas com carga eléctrica e de plasmas (um plasma é uma mistura de quantidades iguais de ions positivos e elétrons, negativos) como, por exemplo, em proeminências solares, laços coronais, luminâncias, e outros tipos de atividade solar.

A força eletromagnética também governa a emissão e absorção de luz e outras formas de radiação eletromagnética. Luz é emitida quando uma partícula com carga eléctrica é acelerada (por exemplo, quando um elétron passa perto dum ion, ou interatua com um campo magnético) ou quando um elétron desce dum nível de energia mais alto para um mais baixo, num átomo (duma 'órbita' afastada para uma 'órbita' próxima à volta do núcleo do átomo).

É evidente que o assunto é muito amplo e muito profundo. O que blog tenta fazer é introduzir os leitores neste tema. Podemos voltar ao assunto em breve.

Até semana que vem.

sábado, 21 de novembro de 2015

1821-As deusas e o reinado da Lua


 
Aonde e quando a mulher perdeu poder?

Introdução

A cultura Ocidental foi afetada por três doutrinas que retiraram poder da Lua, das deusas e das mulheres. O primeiro doutrinador foi Zoroastro que, por sua vez, influenciou o monoteísmo judeu e a crença romana no Deus-Sol, de certa forma sob influência de Ra (egípcio) viria completar o quadro.

Não podemos ignorar que toda a cultura xamânica, precursora de todas as demais religiões posteriores, se baseava na Lua e nunca negou a decisiva influência feminina na construção da Natureza. A multi milenar cultura religiosa do Oriente também prestou desserviço a esta calamidade anti feminina. Apenas alguns pequenos setores orientais se manteve e permanece considerando o lado feminino do cosmos.

O senhor Zoroastro ou Zaratustra, persa, criou a sua cosmovisão baseada no deus Avesta e no seu opositor Angra Mayniu, o diabo. Isso mesmo. Foi Zoroastro que nos deu o diabo, copiado para dentro da cultura religiosa judaica e dela à cultura cristã romana. E de quebra, nenhuma consideração ao feminino divino e natural, bem como fizeram os judeus e depois os cristãos romanos, cuja Santíssima Trindade tem três figuras masculinas: Pai, Filho e Espírito Santo.

Partindo, como partiu, dos romanos, não é de se estranhar que a cultura católica nos tenha alcançado capenga, sem a figura feminina, pois as crenças romanas anteriores ao cristianismo se baseava no Solis Invictus (o Sol - deus doador da vida).

Importa notar que com Zoroastro, com os judeus e com os romanos, ficamos sem a Lua, sem as deusas e sem as mulheres. A Lua corre pelo céu sem poder; as deusas ficaram na mitologia; e as mulheres ficaram no lar a serviço dos homens.

Este artigo objetiva analisar isso, esmiuçar isso, resgatar o poder da Lua, das deusas e das mulheres.

Tivemos centenas de deusas

Se você tiver a paciência para pesquisar junto à mitologia encontrará entre os povos, todos povos, deusas e mais deusas fazendo dobradinha com deuses e mais deuses. O entendimento de que a Natureza com suas metades masculina e feminina é parâmetro para toda a criação universal, foi o que levou os povos das selvas e savanas a imaginar sua divindade equilibrada entre macho e fêmea. Foi assim, também, com pequenos segmentos da cultura religiosa oriental. Então a supressão das deusas, que levou a um conceito heliocêntrico e, por extensão, patricêntrico, e tirou poder das mulheres, é algo inteiramente persa, judaico e romano.

Claro, podemos constatar que os monarcas de uma determinada época, como aconteceu com o regime macedônio e, na sequência, com o regime romano, tiveram enorme importância educacional ao lado do trabalho das religiões. Se os reis e os bispos agiam em sintonia na valorização absoluta do masculino, o que teria podido contraditar?

Aqui entram sorrateiramente as bruxas, de quem falaremos adiante.

Foi uma brutal transformação na cultura humana. Só na cultura grega, que impactou demais no Ocidente, tivemos 82 deusas. Mas, depois, a Grécia contribuiu para a eclipse da mulher.

Nos quatro cantos do mundo, as primeiras divindades eram mulheres: Pótnia, Astarte, Ísis, Amaterazu, Nu Gua. Nas antigas sociedades, elas representavam o começo e o fim de tudo. Hoje, ao se estudar como funcionavam as sociedades matriarcais, lunares, ajudam-nos a entender o passado remoto dos homens e os desvios pelos quais enveredou a humanidade.

Os celtas tiveram suas deusas, os astecas também, o mesmo aconteceu com os maias, isso para não irmos muito lá para trás, onde as referências são o Egito Antigo.

Há uma história, estória ou lenda sobre a mulher de Adão, antes de Eva, que já é a segunda. Este pedaço do que, na Bíblia, seria a história da humanidade, foi censurado. Segundo esta história, estória ou lenda, a primeira companheira de Adão foi uma deusa chamada Lilith — "monstro da noite", para os antigos hebreus — que brigou com Deus e por isso foi transformada em demônio. Uma coisa meio parecida com o que houve com Lúcifer. Na verdade, o castigo maior que a impuseram os sacerdotes foi excluí-la dos relatos bíblicos da criação do mundo. Lilith, versão hebraica de uma divindade babilônica, sinônimo de "face escura da Lua", não se dava bem com Adão. Certo dia, cansada de desavenças, Lilith abandonou o marido e foi para o mar Vermelho, onde passou a viver entre demônios, com quem teve vários filhos.

Inconformado, Adão foi pedir a interferência de Deus. Este determinou então que Lilith voltasse imediatamente para casa. Mas ela recusou-se e foi condenada a devorar todos os seus filhos. Não bastasse, passou a ser considerada um demônio igual a outros ‘deuses’ do mundo das trevas.

Por tudo isso, no folclore judaico, cada vez que morria uma criança, dizia-se que Lilith a tinha levado. A lenda de Lilith perdurou entre os judeus pelo menos até o século VII da era cristã. Depois da abordagem do Zodíaco, voltaremos a outras deusas.

Para começar um Zodíaco Feminino

Você já ouviu falar em Zodíaco Lunar? Ele é baseado em antigos cultos às deusas Ashimal e Lilith que, segundo os orientais, representavam a duas faces da Lua. Para esses povos, o ano era dividido em 12 lunações e cada uma recebia influência de uma deusa egípcia, hebraica ou grega. Essas influências se transformaram em características marcantes dos nascidos nestes meses, com muita similaridade ao Zodíaco Solar, que conhecemos. Confira, agora, qual é o seu signo lunar e descubra um pouco mais sobre a personalidade dos nativos de cada período, que como se pode constatar, também acompanha a troca de estações do ano.

Lua de Cibele - 21/03 a 20/04

Cibele é a deusa da fertilidade e da coragem, o que torna os nascidos sob esse signo pessoas dinâmicas, determinadas e de grande vitalidade. Por isso, os nativos da Lua de Cibele possuem como ninguém o dom da conquista e do poder, que os torna insinuantes e cheios de força interior para vencer os obstáculos da vida. São corretos, francos, inteligentes e têm um temperamento impulsivo e dominador. Cuidado para não se tornarem muito teimosos e sem paciência para ouvir o que os outros têm a dizer. Sua Lua é cheia, o que os torna muito caprichosos. Só tem de aprender a confiar mais em si mesmos e não se deixar levar por pensamentos pessimistas, que sempre insistem em passar pelas suas cabeças.

Lua de Hátor – 21/04 a 20/05

Os nativos da Lua de Hátor são atraídos pelo conforto, pela estabilidade e pela segurança material e também afetiva. A tranquilidade externa é sua marca registrada, o que não impede de terem alguns momentos de irritação e perda total de controle. No entanto, tem um coração muito bom e fazem tudo o que estiver ao seu alcance principalmente pelas pessoas que amam de verdade. A comodidade é outra característica marcante desses nativos, despertando seu gosto para as coisas boas da vida: a boa mesa, o sexo, belas roupas, enfim, tudo o que há de melhor. A vida para eles é uma eterna descoberta. E não deixam de aproveitar!

Lua de Selene – 21/05 a 20/06

Versáteis: essa é a definição para os nativos nascidos sob essa Lua. Sabem se expressar muito bem, seja na fala ou na escrita, o que acaba atraindo várias pessoas a todo o momento. Nunca se deixam influenciar pelas opiniões dos outros, querendo sempre tirar suas próprias conclusões. Aproveitar as boas oportunidades que a vida oferece, ser muito responsáveis por tudo o que fazem, são seus pontos fortes. Sempre vão a fundo em seus relacionamentos e amizades, pelo menos enquanto puderem trocar ideias que tenham alguma importância, pois se não houver mais nada de interessante, partem para outra. De Selene, herdam a capacidade de estar sempre mudando. Por isso, nunca ficam tristes ou magoados por muito tempo e sempre estão procurando novidades.

Lua de Febe – 21/06 a 21/07

Sonhadores, emotivos e intuitivos, os nativos da Lua de Febe sempre agem de acordo com o que manda o seu coração. Mas, ao mesmo tempo, são impacientes, caprichosos e estão sempre querendo melhorar tudo. São simples e tratam as pessoas de seu convívio com muito carinho e consideração, sempre dispostos a ajudar. Aparentemente são fortes, mas seu lado romântico fala mais alto, pois se comovem com facilidade e vivem lembrando o passado. Como são influenciados pela Lua Nova, estão sujeitos a variações constantes de humor, o que pode torná-los imprevisíveis (chegam até à grosseira em alguns momentos). O melhor que tem a fazer é aprender a lidar com estas oscilações e tentar não afetar as pessoas mais próximas, já que não é só vocês que tem o direito de se magoar.

Lua de Sekmet – 22/07 a 22/08

Assim como Sekmet, os nativos desta Lua são corajosos, indomáveis e extrovertidos. Sentem necessidade de exercer domínio sobre as coisas ou as pessoas; graças ao seu poder de liderança, sempre conseguem o que querem. Trabalham com muita seriedade e dedicação para alcançar seus objetivos, mas detestam ser perturbados quando descansam. Apesar de tanta força exterior, são sensíveis demais e se magoam facilmente, principalmente com mentiras e comentários levianos a seu respeito. Não suportam fofocas, e quando isso acontece, preferem disfarçar seus sentimentos e não deixam que ninguém perceba que seu astral está lá embaixo. São apaixonados, convictos e se entusiasmam facilmente com um novo amor (forte característica herdada pela Lua Cheia). Só precisam controlar sua tendência a se sentirem superiores aos outros. Ao invés de criticar, devem tentar conversar e oferecer ajuda a quem precisa.

Lua de Kóre – 23/08 a 22/09

Os nativos da Lua de Kóre são muito detalhistas e observadores, por isso não e fácil enganá-los. Só precisam aprender a não ficarem tão nervosos por coisas sem importância alguma. Apesar de serem muito carinhosos e divertidos, o que atrai muitos amigos, esquecem toda a delicadeza quando saem do sério. Kóre dá aos nativos um ar meigo e, ao mesmo tempo, crítico e inquieto. Às vezes, são dogmáticos demais e chegam a acreditar que quando as coisas não dão certo em sua vida, é sempre por sua culpa. Apaixonados por viagens e lugares calmos, é no contato com a natureza, que encontram a paz que tanto precisam. Só assim podem relaxar e sentir todas as vibrações que a donzela do amor e da beleza eterna (Kóre), envia para eles.

Lua de Afrodite – 23/09 a 22/10

Quem nasce sob essa Lua só faz o que tem vontade e adora exercer plenamente a sua liberdade. Odeia ser forçado a tomar decisões ou atitudes; precisa de paz para pensar e agir. Isso gera muitos conflitos, pois não admite opiniões contrárias às suas. Mas também sabe ser amigo e ouve os problemas de quem está ao seu redor. Gosta de aconselhar, apesar de sempre falar aquilo que pessoalmente não faz. Afrodite lhe concedeu o dom da graça da beleza, que podem disfarçar a sua insegurança. Precisa se sentir querido e amado por todos, para isso, não se incomoda em abrir mão de suas opiniões. Deve tomar cuidado para não criar atritos desnecessários com pessoas queridas e tentar formular suas próprias ideias. As pessoas devem gostar destes nativos da Lua de Afrodite por aquilo que realmente são e não por aquilo que aparentam ser.

Lua de Hécate – 23/10 a 21/11

Bastante reservados, os nativos da Lua de Hécate não costumam contar os seus planos e desejos, deixando que os outros vejam apenas os resultados finais. Apesar da personalidade forte (nunca cedem em uma batalha), guardam muitas frustrações e ciúmes dentro do peito. Têm de aprender a controlar a mania de manipular as coisas e pessoas, à sua maneira. Devem confiar mais nos outros e em si mesmos, pois só assim conseguirão ter uma vida mais feliz e tranquila. Hécate é o mistério, a escuridão e a luz. Isso explica o fato de mudarem tanto de opinião. Há momentos em que se parecem com uma criança e, em outros, com uma velhinha teimosa.

Lua de Artémis – 22/11 a 21/12

De natureza ousada, os nativos da Lua de Artémis são a própria explosão de vida. Sentem tudo com muita intensidade e estão sempre dispostos a aceitar novos desafios, por mais difíceis que eles aparentem ser. A sua liberdade os torna joviais e sinceros, sem deixar espaço para mentiras e traições em qualquer tipo de relacionamento. Apesar da aparência suave e tranquila, são pessoas muito inquietas e não suportam limites. Querem sempre ir mais longe e nunca entregam os pontos. Não conseguem esconder seus sentimentos, mas não guardam rancores e nem vivem relembrando o que passou. Quando estão apaixonados, usam toda a sedução e malícia que ganham de Artêmis e podem se transformar num poço cheio de ciúmes e tirania. Têm espiritualidade marcante, mas precisam aprender a controlar a impulsividade, senão vão acabar machucando quem amam.

Lua de Ceridwen – 22/12 a 20/01

Cautela é a palavra-chave: tudo o que os nativos da Lua de Ceridwen fazem é muito bem pensado. Sua calma aparente é resultado dos sentimentos que ficam acumulando dentro de si, com medo de demonstrar suas fraquezas. Muito sérios, organizados e batalhadores, chegam a ser um exemplo profissional. Esses são reflexos da influência de Ceridwen: criatividade e ambição. Só que tanta dedicação ao mundo terreno acaba deixando os nativos muito carentes; se sentindo protegidos, apenas, quando estão perto de seus pertences ou familiares queridos. Devem equilibrar seus interesses e não se esquecer: a vida não é feita somente de bens materiais.

Lua de Isis – 21/01 a 19/02

Os nativos da Lua de Isis são individualistas e curiosos, não tem medo de dizer aos outros aquilo que querem e estão sempre tentando mudar o mundo. A teimosia e originalidade também faz parte da sua personalidade - vivem surpreendendo os demais com atitudes inovadoras e inesperadas. Apesar da proteção espiritual que recebem de Ísis, estão sempre às voltas com conflitos internos, que não conseguem resolver. Tentam não bloquear tanto os seus sentimentos mais íntimos para não se tornarem instáveis por toda a vida, mas não é fácil.

Lua de Mari – 20/02 a 20/03

Com a cabeça nas nuvens: é assim que vivem os nativos da Lua de Mari. Muito românticos e sonhadores, sempre veem o lado positivo das coisas e não param de fantasiar um só minuto. Com a emoção à flor da pele, choram por qualquer motivo e riem à toa. Por isso, não conseguem separar muito bem o mundo real do imaginário e sentem dificuldade em tomar decisões. Talvez seja a influência de Mari, a deusa das emoções. Sua simpatia atrai muitos amigos e admiradores, mas é preciso tomar cuidado com traições. Os nativos precisam saber em quem devem confiar realmente para não se machucar depois. A atração pelo mundo místico é muito forte, bem como a sua fé. Só tem que prestar mais atenção para não ficarem tão distante das coisas concretas que as cercam.

Um resgate das divindades femininas

(Colaborou neste texto: Maria Inês Zanchetta)

Parece conhecido de muitos, mas vale relembrar: em Çatal Huyuk, na Turquia, uma estatueta de uma mulher sentada num trono e ladeada por duas panteras, em cujas cabeças ela coloca as mãos, sugere ao mesmo tempo, a imagem da mãe e da senhora da natureza. Suas formas generosas — quadris largos e seios grandes — reforçam ainda mais essa ideia. O nome da figura feminina é Pótnia (uma deusa antiga já citada neste artigo), e deusa de Çatal Huyuk, a mais antiga cidade que se conhece do período Neolítico, cerca de 10 mil anos atrás. De Pótnia nasceram outras divindades femininas também adoradas pelos homens pré-históricos. Sua estatueta, esculpida por volta de 6500 a.C., foi uma das muitas encontradas na Europa e no Oriente Médio, algumas mais antigas, do Paleolítico Superior (de 50 mil a 10 mil anos atrás).

Essas descobertas levaram historiadores e arqueólogos a sugerir que, bem antes de venerar deuses masculinos, os antepassados do homem teriam adorado as deusas, cujo reinado chegou até a Idade do Bronze, há cerca de 5 mil anos.

Não se sabe a rigor o exato significado daquelas estatuetas, até porque por falta da escrita pouco ou quase nada se conhece dos costumes dos homens pré-históricos. Mas não resta dúvida de que por um bom tempo as deusas reinaram sozinhas, deixando os poderes masculinos à sombra.

Em seu livro “Um é o outro”, a filósofa e professora francesa Elisabeth Badinter tenta explicar a supremacia feminina a partir do que se supõe teriam sido as relações entre homens e mulheres naquelas épocas distantes, o que deveria servir para dar causa ao nascimento de Adão desde o interior das costelas de uma mulher (no caso bíblico, Eva) e não o contrário como narra a Gênese.

A ideia é que o homem do Neolítico — ao contrário dos seus antecessores do Paleolítico, que eram caçadores, e dos seus descendentes da Idade do Bronze, guerreiros — dedicava-se à criação de rebanhos e à agricultura. Ou seja, já não era necessário arriscar a vida para sobreviver. Nesses tempos relativamente pacíficos, em que a força bruta não contava tanto como fator de prestígio e as diferenças sociais entre os sexos se estreitavam, é bem possível que deusas — e não deuses — tivessem encarnado as principais virtudes da cultura neolítica.

Entre as centenas de estatuetas encontradas, algumas têm em comum os seios fartos e os quadris volumosos como Pótnia. Talvez a mais famosa seja a Vênus de Willendorf, encontrada às margens do rio Danúbio, na Europa Central. Nela, os seios, as nádegas e o ventre formam uma massa compacta, de onde emergem a cabeça e as pernas — na verdade, pequenos tocos.

Igualmente reveladora é a Vênus de Lespugne, descoberta na França: embora mais estilizada, guarda as mesmas características de sua irmã de Willendorf.

Mas, das esculturas pré-históricas encontradas até hoje, são raras as que apresentam traços femininos tão exagerados — o que dá margem a um debate sobre o que significava afinal a figura feminina (devidamente divinizada) nos primórdios das sociedades humanas. Os historiadores tendem a achar que os primeiros homens a viver em grupos organizados davam mais importância à sexualidade feminina do que à fertilidade, embora não seja nada fácil separar uma coisa da outra. No entanto, a imagem à qual acabaram associadas foi a da maternidade.

Há quem não concorde. "Traduzir o culto dos ancestrais às deusas como simples exaltação à fertilidade é simplificar demais", comenta a historiadora e antropóloga Norma Telles, da PUC de São Paulo, que estuda mitologia praticamente desde criança. "Na realidade, a deusa não é aquela que só gera. Ela é também guerreira, doadora das artes da civilização, criadora do céu, do tecido e da cerâmica, entre muitas outras coisas".

De fato, em muitos mitos, a deusa aparece como quem dá o grão aos homens, e não apenas no sentido literal de nutrição e da maternidade. Assim, por exemplo, Deméter, venerada pelos gregos (e Ceres para os romanos) como a deusa da colheita, ajudava a cultivar a terra — arar, semear, colher e transformar os grãos em farinha e depois em pão. Deméter ensinava ainda os homens a atrelar os animais e a se organizar.

Os gregos explicaram a origem do mundo com outro mito feminino: o da deusa Gaia. Doadora da sabedoria aos homens, ela limitou o Caos — o espaço infinito — e criou um ser igual a ela própria: Urano, o céu estrelado. Aqui se pode ver o que é lógico na natureza: a mulher cria.

Pouco depois, Eros, símbolo do amor universal, fez com que Gaia e Urano se unissem. Desse casamento nasceram muitos filhos e, assim, a Terra foi povoada. A crença de que o Universo foi criado por uma divindade feminina está presente em quase toda parte.

Ísis, a mais antiga deusa do Egito, tinha dado a luz ao Sol. Na Índia, Aditi era a deusa-mãe de tudo que existe no céu. Na Mesopotâmia, Astarte, uma das mais cultuadas deusas do Oriente Médio, era a verdadeira soberana do mundo, que eliminava o velho e gerava o novo. Essa ideia aparece com clareza nas efígies datadas de 2300 a.C., que mostram Astarte sentada sobre um cadáver.

Asiáticos e americanos

Também para os chineses foi uma deusa — Nu Gua — quem criou a humanidade. Seu culto apareceu durante o período da dinastia Han (202 a.C.-220 d.C.). Representada com cabeça de mulher e corpo de serpente, a venerável Nu Gua encarnava a ordem e a tranquilidade. Os chineses dizem que, cavando barro do chão, ela moldou uma figura que, para sua surpresa, ganhou vida e movimento próprio. Entusiasmada, a deusa continuou a moldar figuras, mas a natureza mortal de suas criaturas a obrigava a repetir eternamente o trabalho. Por isso, Nu Gua decidiu que os seres deviam se acasalar para se perpetuarem — daí também ela ser considerada pelos antigos chineses a deusa do casamento.

Do outro lado do mundo, na América pré-colombiana, os astecas tinham em Tlauteutli sua deusa da criação. Para eles, o Universo fora feito de seu corpo. Os maias tinham igualmente sua deusa-mãe. Era Ix Chel. De sua união com o deus Itzamná nasceram os outros deuses e os homens.

Com o passar do tempo, deuses e homens passaram a dividir com as deusas o espaço no Panteão, o lugar reservado às divindades.

Para Elisabeth Badinter, isso acontece quando a noção de casal vai deitando raízes nas sociedades. Pouco a pouco, da Europa Ocidental ao Oriente, "reconhece-se que é preciso ser dois para procriar e produzir", escreve ela. Um mais um gera o terceiro ser. Para o semeador, o fator decisivo pertence à terra, à mãe.

A igreja romana as combateu

Mas, lá atrás, o culto à deusa-mãe ainda não é substituído pelo do deus-pai. O casal divino passa a ser venerado em conjunto. As deusas só serão destronadas com o advento das religiões monoteístas, que admitem um só deus e masculino. Com a difusão do cristianismo enraizado no judaísmo, as antigas deusas são banidas do imaginário popular e, como vimos, a Sagrada Família é integrada por três seres masculinos.

No Ocidente, algumas figuras femininas acabaram associadas à Virgem Maria, eleita pelo catolicismo como a Mãe do Deus dos cristãos (ora se é possível Deus, o Autor da Vida ter uma mãe), outras se transformaram em santas. Mas outras e outras ou foram excluídas da história ou acusadas pelos padres de demônios e prostitutas, como foi o caso de Madalena e, na Inquisição, foi o caso das bruxas. O poder mágico criador da mulher não se lê apenas no que acontece em seu útero, ao gerar uma nova vida. O poder mágico da mulher vem da noite dos tempos. E a poderosa Igreja Católica se virou contra elas queimando-as vivas em praça pública.

As deusas das culturas indo-europeias tinham em comum o poder de criar, preservar e destruir — davam a vida e recebiam de volta o que se desfazia. Esse aspecto destrutivo das divindades femininas foi o mais atacado pelos inimigos do politeísmo. A suméria Astarte, por exemplo, não escaparia à ira nem dos profetas bíblicos nem dos primeiros cristãos: para uns e outros, ela era a encarnação do diabo.

No império babilônico, Astarte foi venerada sob o nome de Ishtar, que quer dizer estrela. Nos escritos babilônicos, ela é a luz do mundo, a que abre o ventre, faz justiça, dá a força e perdoa. A Bíblia, porém, a descreveria como uma acabada prostituta. E completa o terror atribuindo a Eva a autoria da perda da dignidade ao se deixar engambelar pelo diabo disfarçado de serpente.

A importância dada ao lado violento, destrutivo, talvez explique por que a deusa hindu Kali Ma aparece como aparece no filme de Steven Spielberg, “O templo da perdição”, como a encarnação da violência. Ela é a sanguinária figura em nome da qual se matam e torturam adultos e se escravizam crianças.

No entanto, para os hindus, mais especialmente para os tantras — adeptos de uma derivação do hinduísmo —, Kali é a deusa da transformação e nesse sentido mais filosófico é que ela é destruidora, da mesma forma como a passagem do tempo destrói. Representada como uma mulher negra com quatro braços e com uma serpente na cintura, pode aparecer também com um colar de crânios no colo e uma cabeça em cada mão. Em seus templos, espalhados por toda a Índia, realizavam-se sacrifícios de búfalos e cabras. "Para os orientais, Kali é a desintegração contida na vida, visão essa que nós ocidentais não temos", interpreta a antropóloga Norma Telles. Se Kali foi vista como deusa sanguinária, outras divindades compensavam tanta violência. Sarasvati, a deusa dos rios, era para os hindus a inventora de todas as artes da civilização, como o calendário, a Matemática, o alfabeto original e até os Vedas, o texto sagrado do hinduísmo.

Também na América pré-colombiana, sobretudo entre os astecas, o culto às deusas e deuses incluía muitas vezes sacrifícios humanos. A deusa Tlauteutli é um bom exemplo. Um dia, os deuses descobriram que ela ficaria estéril, a menos que fosse alimentada de corações humanos. Na verdade, os astecas tinham uma visão apocalíptica do mundo: se não alimentassem a deusa, a Terra se acabaria. Mas, à medida que começava a crescer o culto à deusa da maternidade, Tonantzin, diminuía o interesse dos astecas pelos deuses aos quais se faziam sacrifícios sangrentos.

Mais tarde, com a chegada dos conquistadores espanhóis, Tonantzin foi identificada com a Virgem Maria. Isso acabaria acontecendo também com a deusa Ísis. Cultuada no Egito e no mundo greco-romano, ela representava a energia transformadora. Casada com o deus Osíris, morto pelo próprio irmão, Ísis não sossegou enquanto não lhe restituiu a vida. A lenda conta que as enchentes do Nilo eram causadas pelas lágrimas da deusa que pranteava a morte do amado. Por isso, as festas em sua homenagem coincidiam sempre com a época das cheias. É evidente que, ao festejá-la, os egípcios comemoravam a generosa fertilidade do rio Nilo. Nos primeiros séculos cristãos, Ísis passou a ser identificada com Maria.

Deusas e histórias em muitos lugares

Já a deusa Brighid, cultuada pelos celtas, ancestrais dos irlandeses, foi transformada pelo cristianismo em Santa Brígida. A veneração daquele povo por Brighid era tanta que ela era chamada simplesmente "a deusa". Dona das palavras e da poesia, era também a padroeira da cura, do artesanato e do conhecimento. As festas em sua homenagem se davam no dia 1º de fevereiro, antecipando a chegada da primavera. Na história cristã, a santa nasceu no pôr-do-sol, nem dentro nem fora de uma casa, e foi alimentada por uma vaca branca com manchas vermelhas. Na tradição irlandesa, a vaca era considerada sobrenatural.

Antes mesmo da chegada das religiões monoteístas, os mitos dizem que o convívio entre deuses e deusas começou a se tornar difícil e a igualdade dos poderes divinos começava a ficar abalada. Assim, por exemplo, Amaterazu, a deusa japonesa do Sol, de quem descendiam os imperadores, não se dava muito bem com o deus da tempestade. Conta a lenda que certo dia ele foi visitar os domínios da deusa e acabou por destruir seus campos de arroz. Furiosa, Amaterazu resolveu vingar-se trancando-se numa caverna — o que deixou o mundo às escuras. Depois de um tempo, como ela não saísse da caverna, uma multidão de deuses e deuses menores decidiu armar uma estratégia para convencê-la a mudar de ideia. Assim, colocaram diante da caverna um espelho que refletia a imagem do deus da tempestade, como se ele estivesse enforcado numa árvore, e começaram a dançar. Atraída pela música, a deusa decidiu sair para ver o que acontecia. Ao deparar com a imagem no espelho ficou feliz e voltou ao mundo. Com isso, tudo se normalizou e os dias continuaram a suceder às noites.

Outro exemplo dos conflitos entre as divindades é o caso da deusa grega Deméter e seu marido Hades, o deus do mundo dos mortos. Eles começaram a brigar pela guarda da filha Perséfone e a questão só foi resolvida com a mediação de Zeus, o deus supremo do Olimpo. Salomonicamente, ele determinou que a menina ficasse com cada um seis meses por ano.

Das deusas veneradas no mundo antigo, não houve tantas nem tão famosas como as da mitologia greco-romana. Afrodite (Vênus, em Roma) talvez fosse a mais popular de todas, por encarnar o amor e as formas belas da natureza. Já Ártemis (Diana) era a caçadora solitária, senhora dos bosques e dos animais. Seus lugares preferidos eram sempre aqueles onde o homem ainda não tinha chegado. Atena (Minerva) protegia a cidade, as casas e as famílias.

O predomínio que as divindades femininas exerceram ao longo do tempo, levou alguns pesquisadores do século XIX a supor que na pré-história as mulheres detiveram alguma forma de autoridade política. Não há registros arqueológicos que confirmem isso — hoje os especialistas não admitem que tenha existido alguma sociedade cujo controle estivesse com as mulheres. Mas também é certo que nos tempos pré-históricos, quando era outra a divisão social do trabalho, as mulheres tinham um papel preponderante na luta pela sobrevivência do grupo. É impossível saber com exatidão quando e por que deixou de ser assim. De uma coisa, porém, não se dúvida: foram os homens quem primeiro traçaram a mitologia das deusas.

Entre os Celtas, Irlandeses, Galeses e Gauleses

Iremos encontrar uma multidão de deusas entre celtas. E quando falamos celtas estamos falando de galeses, gauleses e irlandeses.

Os celtas não misturavam panteões de outras culturas e nem cultuavam deuses celtas de outras tribos, apesar das semelhanças, cada ramo celebrava seus deuses locais seguindo apenas as referências das tradições pertencentes a sua terra natal, com exceção de algumas divindades pan-célticas.

As deusas e os deuses celtas possuíam características próprias e distintas, conforme seus atributos. Relatos vindos de antigos ancestrais nos esclarecem que as tradições eram passadas de boca a ouvido, centrados nas esferas do Céu, da Terra e do Mar.

Na Irlanda, Áine, a Deusa do amor, da fertilidade e do verão; pronuncia-se Enya; Badb, Deusa da guerra, dos campos de batalha e das profecias;

Brigit / Brigid / Brighid / Brig, Deusa reverenciada pelos Bardos, tanto na Irlanda como na antiga Bretanha, cujo nome significa "Luminosa, Poderosa e Brilhante", de onde os católicos foram buscar Santa Brigida; Boann / Boand / Boyne, Deusa que deu nome ao rio Boyne, na Irlanda, descrito nos poemas "Dindshenchas", é a deusa da fertilidade, da abundância e da prosperidade; Cailleach, é a Deusa da terra, das rochas e é a Senhora do inverno; Dana / Danu / Danann, considerada a principal Deusa Mãe da Irlanda e do maior grupo de Deuses, os Tuatha Dé Danann, o Povo de Dana ou o Povo Mágico (Daoine Sidhe); Flidais, Deusa da floresta, dos bosques, da caça e das criaturas selvagens, representa a força da fertilidade e da abundância; Macha, Deusa da fertilidade e da guerra, filha de Ernmas, junto com as irmãs Badb e Morrighan, podia lançar feitiços sobre os campos de guerra; Morrigu / Morrigan / Morrighan, é a Grande Rainha "Mor Rioghain", na mitologia irlandesa; Scathach / Scatha / Scath, seu nome significa a "Sombra", aquela que combate o medo. Deusa guerreira e profetisa que viveu na Ilha de Skye, na Escócia.

Devemos observar que o termo galês se refere aos povos que habitavam o País de Gales. Eis aí as suas principais deusas: Arianrhod, filha de Dôn e Belenos, irmã de Gwydion, seu nome significa "A Roda de Prata", a virgem que dá à luz os filhos Lleu e Dylan; Blodeuwedd / Blodeuedd, foi feita a partir de nove tipos de flores silvestres, por Math e Gwydion, para ser a esposa de Lleu (filho de Arianrhod); Branwen, a esposa do rei da Irlanda Matholwch, que foi punida pelo marido ao insultar o povo irlandês; Beli, a consorte de Dôn, conhecido também como Beli Mawr. Beli é um antigo Deus galês, considerado como um grande líder e o maior ancestral dos galeses; Cerridwen / Ceridwen / Kerridwen, esposa de Tegid Voel, o Calvo, e mãe da linda donzela, Creirwy; Dôn, a Deusa-mãe galesa é consorte de Beli, como vimos, o Deus galês; Modron, Deusa-mãe galesa, seu nome significa "Mãe"; Rhiannon, a grande rainha dos galeses, protetora dos cavalos e das aves.

O termo Gaulês se designa a um conjunto de povos celtas que vieram de Gales e povoaram a Gália, que atualmente, corresponde aos territórios que vão da França, à Bélgica e à Itália setentrional. Suas deusas: 

Epona, Deusa gaulesa protetora dos cavalos, seu nome significa "Cavalo".

As deusas das mitologias: grega, romana, nórdica e egípcia antiga

Bastet - fertilidade, protetora das mulheres grávidas

Hathor - amor, alegria, dança, vinho, festas

Hórus - céu

Maet - justiça e equilíbrio

Ptah - obras feitas em pedra

Seth - tempestade, mal, desordem e violência

Sobek - paciência, astúcia

Osíris - vida após a morte, vegetação

Ísis - amor, magia

Tefnut - nuvem e umidade

Chu - ar seco, luz do sol

Geb - terra

Deusas gregas

Afrodite - amor

Hera - protetora das mulheres, do casamento e do nascimento

Héstia - lar

Ártemis - caça, castidade, animais selvagens e luz

Deméter - colheita, agricultura

Gaia - planeta Terra

Deusas nórdicas

FRIGG - Mulher de Odin, a deusa da fertilidade veste um manto que parece com as nuvens - e que muda de cor de acordo com seu humor. Representa a feminilidade e era invocada pelas mulheres nos partos.

HEL - Filha de Loki com uma gigante de gelo, é a deusa de Niflheim, a terra dos mortos. Descrita como uma figura de feições sempre sombrias, é viva da cintura para cima e morta da cintura para baixo.

FREYA - Filha de Njord e Skadi. Deusa do amor e da luxúria, é uma mulher sensual. Amante de magia e feitiçaria, ela pode tomar a forma de um pássaro para viajar ao mundo dos mortos e trazer profecias.

Cleópatra, a última rainha

Numa mais que evidência que as culturas árabes e egípcias consideravam a mulher e até mesmo entregavam o comando de suas nações a elas, iremos encontrar Cleópatra Thea Filopator ou Philopátor, governando uma poderosa região antes que os romanos assumissem tudo. Você já leu que o poder macedônico foi o primeiro a aniquilar a força feminina em seu território e agora depara com a presença de Cleópatra, a última rainha da dinastia de Ptolomeu, sucessores de Alexandre Magno. Cleópatra reinou de 69 a.C. a 30 a.C. em Alexandria, uma cidade fundada em homenagem a Alexandre Magno e que dominou toda aquela região em plena riqueza e com muitos saltos nos conhecimentos. Era filha de Ptolomeu Auletes e seu nome significa "glória do pai”. Apesar dos esforços para destronar o poder feminino, que a este tempo já minava a cultura por conta do monoteísmo, a liderança dessa mulher foi mais forte que o preconceito religioso em curso. Mas, não teve, inicialmente, todo o poder em suas mãos. Cleópatra originalmente governou conjuntamente com seu pai Ptolemeu Auletes, e mais tarde com seus irmãos Ptolomeu XIII e XIV, com quem se casou como por costume egípcio, mas, no final, ela tornou-se a única governante.

Como faraó, ela pretendia neutralizar o ostensivo e ameaçador poder romano e para isso negociou, cedeu, exigiu e consumou uma ligação amorosa com o imperador Júlio César, inclusive dando-lhe um filho, seu único filho. Mais tarde, ela elevou seu filho com César, Cesário, para co-regente do Império.

Cleópatra foi uma grande negociante, estrategista militar, falava nove idiomas e conhecia filosofia, literatura e arte gregas.

Depois dela nenhuma rainha mais subiu ao trono naquela região e naquela cultura pelas razões que já abordamos.

Cleópatra morreu em 30 a.C., mas desde o ano anterior o seu Egito não existia mais, engolido por Roma. Era só mais uma colônia de Roma. E a campanha contra ela, iniciada em vida por Otaviano, consolidou-se após a sua morte. Os romanos atrelaram toda a história da última faraó à sua sexualidade. Afinal, era melhor pensar que a mulher mais poderosa do mundo no século I a.C. conseguiu quase tudo o que quis porque era incrivelmente sedutora - e não porque era incrivelmente inteligente.

Os romanos mais tarde fizeram a mesma coisa com Madalena a fim de destruir o poder daquela mulher sobre o líder que haviam escolhido para seu Deus depois de o haver assassinado.

Atena, uma deusa simpática aos homens

A soberba masculina parece não ter limites. Atena, filha de Zeus, é a representante da sabedoria do pai, pois nasceu simbolicamente da cabeça dele. Trabalho é seu lema. Rege as artes literárias, a educação, a vida intelectual e a moradia na cidade. Gosta de compartilhar ideias e dela se diz que se relaciona melhor com os homens, que são seus amigos intelectuais, numa velada alusão de que assuntos intelectuais não cabem às mulheres.

Mas, profissionalmente, a mulher protegida de Atena costuma ter êxito na área de comunicação, bem como editora ou diretora de revistas, dirigindo estudos femininos, entrevistando personalidades, fazendo pesquisas, produzindo filmes e lutando pelos direitos da mulher na sociedade.

É prática, extrovertida e inteligente. É também a professora, a psicóloga, a escritora e a política. Administradora e organizadora incansável, precisa de um homem sensível para cuidar emocionalmente dela.

Os gregos a chamavam de “companheira do herói”. De comportamento juvenil, a melhor fase da vida sua vida será após os 35 anos.

Das deusas às mulheres

Estamos no século XXI da Era Cristã, que somados aos outros 50 séculos decorridos desde que temos memórias escritas da trajetória humana no planeta, e é difícil entender como apenas nos últimos 50 anos a mulher de alguns continentes vem se libertando de tudo o que lhe sucedeu, ao menos nos últimos 20 séculos. A ciência avançou, conseguiu desvendar o genoma humano, o mundo virtual se impôs nas mais diversas esferas sociais e no meio de uma quase guerra, com a pílula anticoncepcional, com a redução do número de filhos para tomar conta, com título universitário em punho ou nem tanto, a mulher foi à luta e superou as barreiras de esposa/dona de casa/professora/enfermeira, para assumir o comando de alguns países machistas. Ela irá mais longe, mas...

Mas, o que? Em algumas regiões muito antigas, de culturas muito ortodoxas, as mulheres continuam sofrendo muitas limitações, mutiladas até, discriminadas com certeza dos pontos de vista socioeconômico, político e religioso.

Como entender e aceitar, por exemplo, que na Índia, a cada 15 minutos uma mulher é estuprada; isso sem falar das que são mortas por seus companheiros, não importando se o país for do que chamávamos de Terceiro, Segundo ou Primeiro Mundo; as meninas sendo as maiores vítimas dos pedófilos, as que têm sua individualidade escondida por burkas (símbolo inegável da opressão sobre a mulher) e tantas outras atrocidades, como por exemplo na África, a mutilação dos seus genitais? Por que a desigualdade entre mulheres e homens ainda se mantém e tem sido reafirmada por leis, tradições, normas sociais e pelos mais importantes aparelhos de Estado (família, escola, religião, meios de comunicação etc)?

Muito já se escreveu, muito já se falou sobre este tema, mas alguns aspectos fundamentais não são apontados pelas várias disciplinas existentes no universo das letras. A dificuldade existe porque corre-se o risco de que a abordagem seja considerada parcial, ou seja, defendendo um lado ou outro. Na realidade quando falamos da compreensão de fatos, temos que recorrer à ciência, por isso vamos, com ela, fazer uma rápida viagem através dos tempos para juntarmos as peças do quebra-cabeça que resultou do amálgama formado pelas várias disciplinas que abordaram este tema (antropologia, sociologia, teologia, filosofia, arqueologia, direito, psicologia).

O que é permitido recolher das fontes de pesquisa, é que até o regime de Alexandre, o Grande, a mulher grega, romana, judia, e parcialmente também as árabes, tinham prestígio, eram respeitadas, assumiam cargos na sociedade e apesar dos casamentos polígamos existentes em algumas culturas, elas se completavam nos haréns, mas não tinham sofrimento algum.

Nem só homem, nem só mulher, os dois

Seres esféricos, fortes, vigorosos, tentam galgar o Olimpo, a montanha sagrada onde moram os deuses gregos. Querem o poder. Possuem os dois sexos ao mesmo tempo, quatro mãos, quatro pernas e duas faces idênticas, opostas. Diante do perigo, o chefe de todos os deuses, Zeus, decide cortar ao meio os andróginos (do grego andrós, aquele que fecunda, o macho, o homem viril; e guynaikós, mulher, fêmea).

“Sede humildes”, podemos supor que trovejou o grande Zeus, arremetendo os raios que apavoraram os tempos anteriores à descoberta do fogo. Ao enfraquecer o homem e a mulher, assim criados, Zeus condenou cada metade a buscar a outra, o desejo extremo de reunir-se e curar a angustiada e ferida NATU-REZA humana.

Este, resumidamente, é o mito do amor tal como o filósofo grego Platão (428-348 a.C.) o descreveu nos diálogos de “O banquete”, reproduzindo o relato feito por Aristófanes, o mais famoso comediógrafo grego (450-388 a.C.), durante um jantar e simpósio, encontro onde se tomava vinho e se trocavam ideias.

Estava presente, entre muitos outros convidados ilustres, o filósofo Sócrates (470-399 a.C.). Deve ter sido uma noitada daquelas, mas não se pode dizer que começou ali a preocupação da humanidade com a androginia. Numerosas cosmogonias, anteriores à civilização grega, explicaram o mundo a partir de um ovo primordial, o símbolo da fertilidade.

Para a Biologia, andrógino é o ser que possui os dois sexos ao mesmo tempo e é capaz de reproduzir-se sozinho (não no caso dos humanos). O mesmo que hermafrodita. Mas, para os psicólogos, médicos e até estilistas, a androginia é sobretudo um fenômeno cultural, nada tem a ver com a bissexualidade ou o homossexualismo. “O que está em jogo é o papel social desempenhado pelo indivíduo. A pessoa andrógina não precisa ter, necessariamente, comportamento sexual ambíguo”, explica o sexólogo Oswaldo Rodrigues Júnior, de São Paulo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Sexualidade. Ele dá exemplos de incorporação de papéis sociais do sexo oposto: o homem que não tem vergonha de chorar e expor sentimentos, cuida dos filhos, participa das tarefas domésticas, ou a mulher que impõe opiniões, assume o sustento da casa, exerce profissões consideradas “masculinas”.

O psicanalista Renato Mezan, da Pontifícia Universidade de São Paulo, expõe com clareza: “São fatores sociais que aos poucos esfumaçam as diferenças entre os gêneros e embaralham a consciência que homens e mulheres tinham de sua identidade e função social. Por isso é impossível explicar a androginia apenas em termos psicológicos. Ela não é uma opção sexual e está no plano do consciente”. Entre as vanguardas culturais, é verdade, sempre existiram andróginos — artistas, burgueses contestatórios, suf-fragettes (militantes femininas que exigiam o direito de votar). Mas com certeza nunca a confusão foi tão grande como agora.

“A diferença entre os gêneros diminuiu com a entrada da mulher de classe média no mercado de trabalho, principalmente em posições executivas, o que fica mais evidente nos Estados Unidos”, observa a antropóloga Bela Feldman-Bianco, da Universidade de Campinas, São Paulo. “O fenômeno nada tem a ver com a Biologia. Um número crescente de mulheres reage contra a estereotipia dos papéis sexuais. Não querem mais saber se ‘isso é coisa de homem ou de mulher”. Ela acredita que muito da androginia moderna veio do movimento feminista americano, que identificava o feminino como conservador. E do gosto gay na moda, na beleza, na decoração. Renato Mezan reconhece com clareza: falta ao homem tranqüilidade para executar atributos do outro sexo sem sentir-se diminuído. “Assumir os dois lados da sexualidade e da sensualidade ainda é uma questão de caso a caso. De outro lado, negar as diferenças pode gerar um híbrido, nem isso nem aquilo. Aí, há privação das qualidades de ambos”, expõe.

O dilema provoca ásperas discussões. Radical, Camille Paglia, professora de Literatura da Universidade de Arte da Filadélfia, nos Estados Unidos, sustenta no livro “Personas sexuais” que a androginia não passa de arma das feministas contra o princípio masculino: “Serve para anular os homens, significa que eles devem ser como as mulheres, e as mulheres podem ser como quiserem”. Ela acredita, em todo caso, que o culto do masculino será preservado graças aos gays — o que não deixa de ser, também, uma inversão. Menos contundente, o estilista e cabeleireiro Diaullas de Ná, de São Paulo, oferece sua opinião: “A androginia é um jogo lúdico, em que o homem projeta seu lado masculino na mulher, e a mulher projeta seu lado feminino no homem. Um jogo que globaliza, traça um círculo de 360 graus em torno do outro, totalmente diverso do homossexual, autocentrado, ou do bissexual que separa com rigidez o masculino do feminino”.
 
Empresária e especialista de moda, Costanza Pascolato há anos analisa a influência da androginia no estilismo. “A moda contemporânea não pára de brincar com as diferenças entre os gêneros. Com isso expressamos nossas ideias mutantes sobre o que é ser homem ou mulher”, escreveu em 1988, num artigo de jornal. Hoje ela acrescenta: “Um ligeiro toque de ambigüidade aumenta o lado sensual das pessoas. O masculino e o feminino exagerados são menos sexy. Há uma qualidade misteriosa em Marlene Dietrich e Greta Garbo, que vem em parte da sugestão de virilidade lá no fundo de sua personalidade”.

O problema está no risco de perder-se a nitidez dos gêneros pois, como analisa Renato Mezan, as pessoas nesse caso aderem a modas em busca de orientação: “Em geral, as tendências são mais rigorosas do que as anteriores, gerando um espírito de gangue”. É o temor da antropóloga Cynthia Sarti, da Universidade de São Paulo: “Acho que existe alguma coisa perversa na androginia, pois faz supor algo que não é: impõe uma imagem sem sugerir nenhum novo masculino ou feminino. Nega as diferenças. Sinto a idéia como totalitária, e nada mais nocivo à humanidade do que posturas antidemocráticas”.

Pode ser, mas convém lembrar que a intenção, por trás dos modismos em geral, e da androginia em particular agora, depende sempre do contexto social. Por exemplo, na Alemanha pré-nazista dos anos 20, os cabelos curtos usados pelas mulheres eram uma contestação ao ideal feminino pregado pelos nazistas, que pensavam nas mulheres como robustas valquírias de longos cabelos loiros, engomadas nas suas roupagens regionais, vivendo em regime de dedicação exclusiva aos três “K”: Kinder, Küche, Kirche (crianças, cozinha, igreja). Vestir-se como homem, pensar e agir como um marxista era ser mesmo muito do contra.

É possível que estejamos convivendo, atualmente, com uma acentuada tendência à alteridade — conceito desenvolvido pelo psicoterapeuta Carlos Byington, de São Paulo, um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica.“O dinamismo da alteridade consiste na interação igualitária das polaridades”, escreveu em obscuro dialeto profissional no livro “Dimensões simbólicas da personalidade”.

A psicóloga Leniza Castello Branco, de São Paulo, completa e clarifica o raciocínio: “A mulher recupera seu lado masculino sem tornar-se lésbica, e o homem seu lado feminino sem tornar-se gay”. Para essa psicoterapeuta, a androginia traria um retorno do reprimido: o corpo, o sexo, a magia, o feminino. “Por causa do reprimido existe carnaval em todas as culturas”, explica. “Permite-se a vivência do contrário, a inversão. O pobre se veste de rico, o homem se veste de mulher, alguns se fantasiam de animais. O carnaval é a festa de Dionísio, o deus pagão que representava o campo, a fertilidade, o vinho. Ele nasceu da coxa de Zeus (homem), um andrógino, pois gestou um filho”.

Os primeiros andróginos explícitos da atual voga no Brasil começaram a aparecer na década de 70, inspirados em cantores pop americanos e, logo em seguida, brasileiros. Naquela época não se viam, como hoje, homens e mulheres anônimos vestidos e penteados com tal ambigüidade — terninhos, tênis, mocassinos, cabelos quase recos —, capazes de provocar tanta confusão que fica impossível distinguir uns das outras. “Em caso de dúvida é mulher”, ensinam os moradores de San Francisco, talvez os americanos mais acostumados a conviver com a androginia em voga em todo o mundo.

Aliás, é da psicoterapeuta americana June Singer, autora do livro “Androginia — rumo a uma nova teoria da sexualidade”, a comparação do andrógino com o ovo fecundado. Ela considera que, por reunir características psicológicas abrangentes, a androginia é a chave do futuro. Talvez seja um exagero, mas, para que dela fique alguma marca indelével na história humana, será preciso que assuma resolutamente o que é específico de cada gênero. Sem prejuízo da divisão de responsabilidades sociais e sem a soberba dos seres esféricos que pretenderam invadir o Olimpo. Haverá mais chances de sucesso na vida afetiva e profissional e nenhuma necessidade de invejar os deuses.

Referências bibliográficas:

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