sábado, 9 de janeiro de 2016

1828-O homem pós-moderno I


Glorificado e sem esperança de futuro                   

1ª Parte – o descaminho

Introdução

Bem, já que a modernidade ficou para trás, vamos investigar o que nos espera o futuro. Melhor dizendo, o que já está entre nós neste instante, mesmo. O futuro é agora. Ou o agora é o futuro?

Viemos da pré-história, éramos toscos, bobos, inábeis, porém muito aplicados, observando tudo até com certo deslumbramento. Ainda bem que graças às leis naturais, tudo evolui e nós fomos empurrados para o futuro e entramos por aqueles tempos muito interessantes que precederam a Era Cristã, chamados de Antiguidade, depois pela Idade Média adentro, pela Renascença, pelo Iluminismo, e chegamos à Era Industrial e através dela à Modernidade, à Era da Informação. Que maravilha, não é mesmo?

Espera aí, não fique pensando que por “informação” se possa entender o ato de informar com vistas à completude do homem em que a informação liberta, desenrola, tira de dentro, desenvolve, literalmente: ilumina. Não é bem isso que aconteceu na Era da Informação. Muito pouquinho, sim. A palavra informação, neste caso, está atrelada à informática, ao uso intensivo dos computadores, da robótica, das facilidades todas que a tecnociência proporcionou aos homens desde que foram inventadas as primeiras maquininhas de calcular e assim a mente humana começou a ser menos utilizada para tantas coisas, demitida que foi das funções de resolver questões, equacionar problemas, criar, dignificar-se. Perdemos a capacidade de investigar, ou seja, terceirizamos as descobertas ou descobrimentos.

O que isso tem a ver com o futuro do homem? Tudo.

Quando os seus problemas precisavam ser resolvidos pela sua mente, exclusivamente, o homem temia o poder imponderável, incontrolável, sobrenatural, respeitável. A modernidade submeteu-lhe a mente, a atrofiou para uma infinidade de aplicações. Aí vieram as facilidades, os avanços, a velocidade e o próprio modernismo ficou para trás.

A marca deste tempo foi a glorificação do ego, o narcisismo, a vaidade, o orgulho do homem, hoje, agora, neste instante. O amanhã? O amanhã não existe. Agora mesmo eu acabo de fazer mais uma sélfie, autorretrato, autoimagem, autofilia, autolatria, autoria vazia, autovalor neutro, sem autonomia, pelo contrário, com dependência.

Diante de tantos botões, o homem renunciou decidir, terceirizou sua vida, sua ereção vem de um comprimido (agora também à disposição da mulher), seu despertar vem de um computador de mão; possivelmente, para adormecer necessite de outro artifício.

Olha, o assunto é muito mais profundo. Não cabe numa página, apenas. Quer conferir? Prepare-se para uma leitura investigativa. Vem ler...

Desconstrução ou decadência?

Mas como é possível o niilismo irracional - a decadência - brotar nas sociedades pós-industriais dominadas pela tecnociência, pela programação, que são a própria racionalidade na produção, no trabalho, na burocracia e até no cotidiano? Basta olhar para o mundo atual.

O choque entre a racionalidade produtiva e os valores morais e sociais já se esboçava no mundo moderno, o industrial. Na atualidade pós-moderna ele ficou agudo, bandeiríssimo, porque a tecnociência invade o cotidiano com mil artefatos e serviços, mas não oferece nenhum valor moral além do hedonismo consumista e grave. Ao mesmo tempo, tais sociedades fabricaram fantasmas alarmantes como a ameaça nuclear, o desastre ecológico, o terrorismo, a crise econômica, a corrupção política, os gastos militares, a neurose urbana, a insegurança psicológica, o não temor a Deus. As sociedades têm meios racionais, mas só perseguem fins irracionais: lucro e poder disfarçados de prazer.

Ora, o barato de alguns (não todos) filósofos pós-modernos é que eles não querem restaurar os valores antigos, mas desejam revelar sua falsidade e sua responsabilidade nos problemas atuais. Para isso, eles lutam em duas frentes:

1) Desconstrução dos princípios e concepções do pensamento ocidental – Razão, Sujeito, Ordem, Estado, Sociedade etc. – promovendo a crítica da tecnociência e seu casamento com o poder político e econômico nas sociedades avançadas, que resultou no tão amaldiçoado Sistema que agoniza.

2) Desenvolvimento e valorização de temas antes considerados menores ou marginais em filosofia: desejo, loucura, sexualidade, linguagem, poesia, sociedades primitivas, jogo, cotidiano – elementos que abrem novas perspectivas para a liberação individual e aceleram a decadência dos valores ocidentais.

Para essa guerra, filósofos pós-modernos, tais como Jacques Derrida, Gilles Deleuze, François Lyotard, Jean Baudrillard, foram buscar armas em vários arsenais: num pensador maldito - Nietzsche - o primeiro a desconstruir os valores ocidentais; na Semiologia, pois atacam as sociedades pós-industriais baseadas na informação, isto é, no signo; e no ecletismo Marx com Freud, fundindo aspectos pouco conhecidos de suas obras. Esse pim-pam-pum de idéias no fliperama digital do nada é interessante.

Pós modernismo e pós-estruturalismo

Na trilha aberta por Nietzsche, o filósofo Jacques Derrida, que inventou a palavra desconstrução, atacou a besta chamada Logocentrismo ocidental. O Ocidente, segundo ele, só sabe pensar pelo Logos, que em grego significa palavra, razão, espírito.

Paremos aqui e voltemos a fita um pouco. Derrida é pós-moderno porque pós-estruturalista. O estruturalismo nas ciências humanas é a corrente que, nos últimos 30 anos, recebeu grande impulso na Lingüística e na Semiologia. Ele analisa os fenômenos sociais e humanos como se fossem textos, discursos. A moda, o casamento, o sonho podem ser "lidos" como se fossem "frases" de uma língua, signos com um significante e um significado (no sonho as imagens são significantes cujo significado o analista descobre). Pois bem, na Antropologia, na Psicanálise, na Sociologia, o estruturalismo explicou cientificamente muita coisa no homem que antes era privilégio da Filosofia comentar. Assim, a Filosofia ficou meio desempregada, meio boca inútil. Após o estruturalismo, só lhe restou voltar-se sobre si mesma, pensar a sua própria história, investigar o seu próprio discurso. Mas, não podemos nunca esquecer que a humanidade andou por mais de 1,5 milênio respeitando a Filosofia como a mãe de todas as ciências.

É aí que entra Derrida com a desconstrução do Logocentrismo. No centro da cultura e da filosofia ocidentais está o Logos, isto é, o espírito racional que fala, discursa. E como? O Logos é a razão e a palavra falada, no sujeito humano, transformando as coisas em conceitos universais. O conceito cadeira, por exemplo, expresso pela palavra "cadeira", produz um modelo universal para esse objeto, apagando as diferenças entre as cadeiras reais (de pau, de ferro, de palha). O conceito torna idênticas todas as cadeiras porque elimina as diferenças entre elas. O Logocentrismo acaba com as diferenças entre as coisas reais ao reduzi-las à identidade no conceito.

Mas isso não ficou apenas nas modestas cadeiras. É um jeito ocidental de pensar e agir. Os jesuítas convertiam as diferentes tribos brasileiras a uma idêntica religião: o cristianismo. Os brancos europeus submeteram vários povos, de diferentes raças, a uma idêntica economia: o capitalismo. A linha de montagem impôs a diferentes personalidades gestos idênticos. O ocidente sempre se deu mal com as diferenças: a do índio, do negro, do asiático, do louco, do homossexual, da criança, da poesia (expulsa da República por Platão).

Ora, embutida no Logos, Derrida descobre uma cadeia desses grandes conceitos universais que atravessa toda a cultura ocidental. Logos é Espírito, que dá em Razão, que faz Ciência, que promove a Consciência, que impõe a Lei, que estabelece a Ordem, que organiza a Produção. No entanto, a cadeia das maiúsculas só se promoveu reprimido e silenciando como inferiores os termos de uma outra cadeia: corpo/ emoção/ poesia/ inconsciente/ desejo/ acaso/ invenção. Além de matar as diferenças em identidades, o Logos (da escola Derrida) comete uma segunda violência: hierarquiza esses elementos, valoriza, torna uns superiores aos outros. Os primeiros - maiúsculos, superiores - reduzem o mundo a identidades, são sólidos, centrais, racionais, duradouros, programáveis. Os outros - minúsculos, inferiores - pulverizam o mundo em diferenças, são fugidios, sem centro, irracionais, breves, imprevisíveis.

Em guerra com a tradição ocidental, ao desconstruir seu discurso para trazer à tona o reprimido, a escola Derrida em companhia com outros filósofos pós-modernos querem injetar vida nova nas diferenças contra a identidade, na desordem contra a hierarquia, na poesia contra a lógica. Eles pensam contra as manias mentais ocidentais, um pensar sem centro e sem fim, mais para a literatura que para a filosofia. Vinculado a pequenas causas, é um meditar minoritário tendo como objeto o corpo, a prostituição, a loucura, o cotidiano, contra o Espírito, a Família, a Normalidade e a Grande Revolução Final.

Pensando desta forma já tem outros iluminados sugerindo o Fim da História.

A vida cotidiana e o pós modernismo

Nos anos 80 o pós-modernismo chegou aos jornais e revistas, caiu na boca da massa. Um novo estilo de vida com modismos e idéias, gostos e atitudes nunca dantes badalados, em geral coloridos pela extravagância e o humor. Microcomputador, videogame, vídeo-bar, FM, telefone celular, iphone, ipode, moda eclética, maquiagem pesada, new wave, ecologia, pacifismo, esportivismo, pornô, astrologia, terapias, apatia social e sentimento de vazio – estes elementos povoam a galáxia cotidiana pós-moderna, que gira em torno de um só eixo: o indivíduo em suas três apoteoses - consumista, hedonista, narcisista.

O indivíduo pós-moderno consome como um jogo personalizado bens e serviços, do disco a laser ao horóscopo por telefone. O hedonismo - moral do prazer (não de valores) buscada na satisfação aqui e agora - é sua filosofia portátil. E a paixão por si mesmo, a glamurização da sua auto-imagem pelo cuidado com a aparência e a informação pessoal, o entregam a um narcisismo militante. É o neo-individualismo decorado pelo narcisismo. As redes sociais e os grupos de interação são causa e consequência.

Enquanto estilo extremamente individualista (que usa o grupo para se sustentar), o pós-moderno prolonga o jeito de ser liberado e imaginoso vivido na boemia pelas vanguardas artísticas modernistas. Ele é hoje a democratização, no cotidiano, daquilo que as vanguardas pretendiam com a arte: expressão pessoal, expansão da experiência, vida privada. (Isto parece se chocar com a sociedade programada, mas logo veremos como a questão é complicada e ambígua).

Em contraste com o individualismo moderno, forjado pelo liberalismo econômico no século XVIII, e que era burguês, progressista, tenso, o neo-individualismo atual é consumista e descontraído, mantendo relações muito especiais com a sociedade pós-industrial, sua mãe dileta. Aparentemente ele consagra o Sistema, mas também lhe cria problemas. De que maneira?

As sociedades pós-industriais, planejadas pela tecnociência, programam a vida social nos seus menores detalhes, pois nelas tudo é mercadoria paga a uma empresa privada ou estatal, seja um servidor em banco ou uma hidromassagem. Sendo economias muito ricas, que têm como única meta a elevação constante do nível de vida, elas deixam ao indivíduo a opção de consumir entre uma infinidade de artigos, mas não a opção de não consumir.

Além disso, há o apelo constante do novo. Viver é estar de mudança para a próxima novidade. Com uma gama enorme de bens e serviços, para todas as faixas e gostos, a seu alcance, só resta ao indivíduo escolher entre eles e combiná-los para marcar fortemente sua individualidade. Embora a produção seja massiva, o consumo é personalizado (vide o cheque "personalizado", o cartão de crédito personal). Assim, o sistema propõe, o indivíduo dispõe. É o pleno conformismo e o sistema parece triunfar de cabo a rabo. Triunfa e agoniza. Aliás, quem agoniza é o homem.

O valor do poder pessoal

Como se lê, a progressão e a vitória disso não é tranqüila. Têm surgido contra o sistema efeitos bumerangues tipicamente pós-modernos. O individualismo exacerbado está conduzindo à desmobilização e à despolitização das sociedades avançadas. Saturada de informação e serviços, a massa começa a dar uma banana para as coisas públicas. Nascem aqui a famosa indiferença, o discutido desencanto das massas ante a sociedade tecnificada e informatizada. É a sua colorida apatia frente aos grandes problemas sociais e humanos.

Ora, com mil demônios, não é precisamente isso que interessa ao sistema, todo mundo consumindo e conformado? Até certo ponto, sim. Mas daí em diante é o tecido social que começa a se descoser, a se fazer em fiapos. O consumo apenas não segura a barra. Eis por que, para se legitimar, para se garantir, além da eficiência econômica, o sistema precisa manter em cena velhos valores e instituições como Pátria, Democracia, História, Família, Religião, Ética do trabalho, ainda que eles sejam puros simulacros. Prova disso são os discursos ultranacionalóides de alguns líderes e a campanha em alguns países para elevar a taxa de natalidade. Mas, a moçada está resistindo.

Extravagantes e apáticos, vivendo em clip (ritmo apressado), os indivíduos que formam a massa pós-moderna estão criando uma paisagem social diferente daquela desenhada pela massa moderna. Vejamos que traços a desmobilização e a despolitização vêm esboçando nas sociedades pós-industriais.

Até há pouco a massa moderna era industrial, proletária, com idéias e padrões rígidos. Procurava dar um sentido à História e lutava em bloco por melhores condições de vida e pelo poder político. Crente no futuro, mobilizava-se para grandes metas através de sindicatos e partidos ou apelos nacionais. Sua participação era profunda (basta lembrar as duas guerras mundiais).

A massa pós-moderna, no entanto, é consumista, classe média, flexível nas idéias e nos costumes. Vive no conformismo em nações sem ideais e acha-se seduzida e atomizada (fragmentada) pelos mass media, querendo o espetáculo com bens e serviços no lugar do poder. Participa, sem envolvimento profundo, de pequenas causas inseridas no cotidiano - associações de bairro, defesa do consumidor, minorias raciais e sexuais, ecologia. Mas, parece ficar nisso. Nasce uma espécie de descompromisso com o todo. Vale o individualismo no coletivo até uma altura, apenas. Nem o condomínio residencial pode ser incluído.

A esta mudança os sociólogos estão chamando deserção do social. É como tornar deserta uma região. Pela desmobilização e a despolitização, o neo-individualismo pós-moderno, que tende ao descompromisso, ao não tenho nada com isso, vem esvaziando as instituições sociais. História, política, ideologia, trabalho - instituições antes postas em xeque apenas pela vanguarda artística - já não orientam o comportamento individual, e seu enfraquecimento é contínuo nos países avançados. A deserção é uma sacação nova da massa. Ela não é orientada nem surge conscientemente, como também não visa à tomada do poder, mas pode abalar uma sociedade, ao afrouxar os laços sociais. Há dados para se avaliar esse esvaziamento, como igualmente há novas atitudes substituindo as tradicionais.

Deserção da História

Não houve desertores americanos na guerra da Coréia em 1950; na do Vietnã, finda em 1975, houve aos montes. A massa moderna acreditava que a história (e seus países) marchavam pela revolução ou pelo progresso para situações mais democráticas e felizes. Esse otimismo não existe na massa pós-moderna, que perdeu o senso de continuidade histórica. Ela vive sem as tradições do passado e sem um projeto de futuro. Só o presente conta. Pátria, heróis e mitos colam muito pouco num tempo programado pela tecnologia. Além disso, o pesadelo nuclear, as crises econômicas e a velocidade de mudança armaram de 2012 à frente, um clima apocalíptico, de fim da História.

Por outro lado, em vez de crer e atuar na História, os indivíduos estão se concentrando em si mesmos, hiperprivatizando suas vidas. Eles investem é em saúde, informação, lazer, aprimoramento pessoal, beleza física, tatuagem, musculatura, vitaminados. A massa moderna queria a História quente, combativa; a pós-moderna quer esfriar a História, congelá-la numa sucessão de instantes isolados e sem rumo. Veja, não houve uma só guerra entre países capitalistas avançados de 1945 para cá. Só de ricos contra atrasados.

Deserção do político e do ideológico

Nos EUA, nas últimas eleições presidenciais, entre 40 e 45% dos eleitores não votaram. As greves políticas praticamente cessaram na Europa capitalista desde 1968. O que se vê no Brasil é a ação de uma esquerda que procura tirar proveito individualista do que resta no fundo da mina. A sociedade detesta esses movimentos grevistas.

As eleições dependem mais da performance do candidato nos mass media que das suas idéias. E ninguém no planeta acredita que políticos e tecnocratas apinhados no Estado representam o povo ou possuem altos ideais. O trambique político é demasiado transparente. No plano ideológico, nos anos 70 o eurocomunismo abrandou a carranca do comunismo e as democracias sociais européias frearam a fúria capitalista. Ou seja, posições rígidas – o comunista, o fascista, o capitalismo selvagem – cedem lugar a posições flexíveis, pragmáticas, em busca da eficácia a curto prazo. Até a luta sindical perde vigor: na França, por exemplo, o índice de trabalhadores sindicalizados caiu de 50% em 1955 para 25% em 1985. No Brasil os sindicatos ainda são braços estatais graças ao que recebem dos cofres públicos.

Essa descrença no político faz a massa pós-moderna dar as costas para as grandes causas. Ela cobra do sistema eficiência na administração e nos serviços tais como educação, transportes, saúde, mostrando-se essencialmente pragmática e não ideológica. Se a modernidade teve intensa mobilização política (duas guerras mundiais, revoluções, guerras anticoloniais), a pós-modernidade se interessa antes pelo transpolítico: liberação sexual, feminismo, educação permissiva, ecologia, questões vividas no dia-a-dia. Normalmente o indivíduo pós-moderno evita a militância fogosa e disciplinada. Ele é frio, prefere movimentos com fins práticos, nos quais a participação é flutuante e personalizada. Nada de lutas prolongadas ou patrulhamento ideológico. Ele vai na onda, nas subculturas punk, metaleira, yuppie.

Deserção do trabalho

A massa pós-moderna não tem ilusões: sabe que trabalhará sempre para um sistema, capitalista, socialista, ou marciano. Por isso ele não crê no valor moral do trabalho nem vê na profissão a única via para a auto-realização. Inclinada ao lazer, ela falta muito ao trabalho (absenteísmo). A França levou dez anos para situar seu índice de absenteísmo em pouco abaixo dos 8,3 atingidos em 1974. E há filósofos defendendo a improdutividade.

Concentrado no setor de serviços (lojas, bancos, escritórios, administração, laboratórios), o trabalho pós-moderno é um jogo comunicativo entre pessoas. Sem a tensão da linha de montagem moderna, pede antes o sorriso, a descontração (a moça do Bradesco, por exemplo). É mais leve. Mesmo assim, as pessoas vivem correndo para o lazer, e não reivindicam tanto melhores salários como desejam uma semana de quatro dias. Os esportes individuais - asa delta, windsurf, tênis, skate, ski, atletismo - disputam com as viagens, a informação, o aprendizado de línguas estrangeiras e de instrumentos musicais, a primazia no uso do tempo livre.

Deserção na família

Há bom tempo a família não é o foco da existência individual. Escola e mass media predominam na formação da personalidade. Sai-se cedo de casa ou não solta o apoio dos pais (geralmente da mãe), casa-se tarde, descasa-se com facilidade e, sobretudo, reproduz-se pouco. Nos EUA, pessoas morando sozinhas, casais sem filhos ou coabitando simplesmente somam 57% das casas. O lar afunda.

No lugar da família guardiã moral, apoio psicológico, a pós-maternidade propõe ligações abertas tipo amizade colorida. O swing é experiência válida e a educação evolui para o pessimismo (ninguém expulsa a filha de casa só porque ela deu uma bimbadinha com o namorado). A pílula faz recuar o poder paterno. O rei pênis e seus dois assessores impõem menos o sexo genital ante a vaga homossexual e transexual em ascensão. Moral branda, amor descontraído. Sai o tango, entra o rock "amor sem preconceitos, sexo total".

Deserção da religião

O pós-modernismo, já se disse, é o túmulo da fé. As religiões antigas cedem ante uma porção de pequenas seitas com e sem futuro, os indivíduos procuram credos menos coletivos, mais personalizados (meditações, zenbudismo, yoga, esoterismo, astrologia, espiritualismo), e a transcendência divina acabará fechando por falta de clientes: 45% dos franceses entre 15 e 35 anos não acreditam em Deus.

É que o homem pós-moderno não é religioso, é psicológico. Pensa mais na expansão da mente que na salvação da alma. Há toda uma cultura psi fazendo a cabeça da moçada: psicanálise, psicodrama, gestalt, bioenergética, biodança, grito primal e por aí vai. Para não falar no dilúvio de bolinhas e alucinógenos que rola. Nisso tudo, o bom é que a cultura religiosa era culpabilizante, enquanto a psi é libertadora. Ao sujeito pós-moderno interessa um ego sem fronteiras, não uma consciência vigilante.

Saturação da informação e pós modernismo

Vimos que, desertos, enfraquecidos, os valores e instituições tradicionais, ainda conservados apenas pela moderna burguesia, essa leva conservadora de valores de pátria, família, religião, rotulada maldosamente por uma esquerda ideológica, vêm perdendo terreno na moldagem, motivação e controle dos indivíduos nas sociedades avançadas. Que mecanismos, então, exercem esses papéis? O consumo, os mass media e a tecnociência, claro. Essa moderna burguesia foi engolida pelo mercado. A resposta é boa, mas parece de polichinelo. Não diz tudo do por que nem do como. Com um pouquinho de paciência, chega-se a uma decodificação. Vamos primeiro ao por quê.

As sociedades pós-industriais vivem saturadas pela informação. Vai-se ao consumo pela informação publicitária, consome-se informação no design, na embalagem, devora-se informação nos mass media e na parafernália ofertada pela tecnociência (micro, vídeo, telemarketing, outdoor, etc.). O sujeito se converte assim num terminal de informação. Mas um terminal isolado de outros terminais, pois as mensagens não se destinam a um público reunido, mas a um público disperso, individualizado (cada um em sua casa, seu carro, seu micro, seu telefone). É o oposto da informação que liberta. Não são informações que constroem as pessoas. São informações que aprisionam, escravizam, nivelam, igualizam. Eis por que a massa pós-moderna é atomizada (ultrafragmentada). Enquanto a massa moderna era um bloco movido por interesses de classe e por idéias, na pós-modernidade ela é uma nebulosa de indivíduos atomizados e indefesos, recebendo informação em separado e não propriamente informação, e sim estímulos, sugestões, atração, engodos, iscas, tentações. Os radicais religiosos poderiam dizer que o diabo está ali levando os indivíduos a cada instante para mais distante da salvação/libertação. Ora, para motivar e controlar sujeitos atomizados, a autoridade e a polícia são secundárias. Nem mesmo os religiosos têm ação reparadora. Basta bombardeá-los com mensagens que excitem seus desejos.

Agora vamos ao como. De qualquer maneira, o consumo, os mass media e a tecnociência modelam, motivam e controlam a nebulosa pós-moderna pelo bombardeio informacional. Há que repetir: não se trata de informação com conceito formador (muito raramente, sim), pois a informação, nesse caso, é uma espécie de tentação, como já vimos. As mensagens são lançadas ao acaso, mas não são boladas de qualquer jeito. Não apenas representando o real, mas sendo hoje o real, as mensagens são criadas visando à espetacularização da vida, à simulação do real e à sedução do sujeito. Assim os compreende o sociólogo francês Jean Baudrillard.

A espetacularização converte a vida em um show contínuo e as pessoas em espectadores permanentes que, num dado momento se sentem protagonistas do show. Antigamente os espetáculos - paradas, festas, jogos - eram ocasionais e à parte. Agora, a começar pela arquitetura monumental, eles reinam em pleno cotidiano. TV, vitrines, revistas, moda, ruas e uma infinidade de ferramentas marqueteiras, na sociedade de consumo, geram um fluxo espetacular cuja função é embelezar e magnificar o dia-a-dia pelas cores e formas envolventes, o tamanho e o movimento de impacto. Tudo fica "incrível", "fantástico", "sensacional", “magnífico”, “massa”, “bárbaro”, “sublime”.

O espectador é o que vê, mas também o que espera por novas imagens atraentes e fragmentárias para consumir. Ele se acha mergulhado na cultura blip e clic- cultura do fragmento informacional, cintilações no vídeo. Assim, por um lado a espetacularização motiva e controla a nebulosa de espectadores mantendo-a continuamente à espera de novas imagens, bens e serviços; por outro, pela estetização, glamuriza e alivia a banalidade cotidiana. Procuramos nas ruas, nos rostos, o farto colorido das revistas e da TV. Procuramos isso tudo do lado de fora do ser, enquanto nos esvaziamos por dentro.

Como isto é possível? Pela simulação, pelos simulacros. Em outras épocas, os simulacros (mapas, maquetes, estátuas, quadros) foram instrumentos ou obras de arte. Na pós-modernidade eles formam a própria ambiência diária. Materiais e processos simulantes trazidos pela tecnociência reproduzem com mágica perfeição o real. A fórmica simula o jacarandá. Um flavourizante põe sabor morango no chocolate. Batalhas siderais se travam no videogame e sintetizadores programáveis tocam flauta. O silicone recicla marmanjos em gatonas, enquanto vaginas e pênis eletro-masturbantes fabricam a cópula - a um! Pontos coloridos na TV avivam o mundo, ao mesmo tempo que computadores simulam na Terra pousos lunares. Tudo falso, artificial, vindo de fora. As descobertas íntimas foram abolidas. Os robôs nos querem como seus iguais. E quando não é por aí, demonstramos nosso inteiro fracasso como seres relacionais interpares buscando abrigo nos animais. Cada dia mais o cão, o gato, o papagaio, o coelho, a tartaruga, a cobra, os peixinhos exercem seus papéis de babás psicológicos dos humanos de todas as idades.

O carro simbólico desta fase da civilização desabou ladeira abaixo e vai aos solavancos descendo o despenhadeiro. Alguns pulam fora e são recolhidos pelos socorristas de plantão e mandados para estações de recomposição. Outros, vão se dando conta que viveram uma mentira: governo de mentira, mercado de mentira, amor de mentira, família de mentira, religião de mentira e, mesmo enquanto derrapando decidem buscar o outro lado, imediatamente.

Do alto, são observados por aqueles que não embarcaram no carro suicida e nasce no íntimo desses observadores um desejo imenso de retomar o bom caminho, missão para a qual estão aqui.

Há uma chance de retomada do caminho bom?

Isso a gente aborda na segunda parte deste artigo, na semana que vem.

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