sábado, 16 de janeiro de 2016

1829-O homem pós-moderno II


Glorificado e sem esperança de futuro                   

2ª Parte – o retorno

Introdução

Falimos? Quebramos a cara, para usar uma linguagem até um tanto atual? Damos com os burros n’água, para usar uma linguagem ultrapassada?

É bem assim. Depois de um tempão a gente descobre que viveu uma mentira. O governo era de mentira, o mercado era de mentira, o amor era de mentira, a família era de mentira, a religião era de mentira, a empresa de mentira faliu, o casamento de mentira faliu, o ser humano de mentira faliu nas suas estruturas básicas. Mas, como é que eu não vi isso antes?

É o ponto cego, que também existe no retrovisor de quem está ao volante do carro. Alguém que não está no volante, vê. Quando temos sorte, um anjo de guarda dá o alarme e o pior pode ser evitado.

Uma legião de anjos de guarda está chegando ao planeta para discordar de nosso modo de vida, fazer observações, bater o pé, chamar à razão verdadeira. Eles têm nomes de índigos e cristais. São nossos filhos, netos e bisnetos, alguns já com idade para serem delegados, promotores, juízes, pastores, padres, professores, dirigentes empresariais e observemos o rombo que essa gente nova está fazendo nas carcomidas estruturas de nossa pós-moderna, envelhecida, sociedade...

Começa na família onde as discordâncias primeiras vão aparecer: pais e mães “velhos” despreparados para lidar com seus “novos” filhos. Depois, eles passam pela escola onde professores “velhos” não estão preparados para educar alunos “novos”. E chegamos ao que se chama (equivocadamente) de mercado. Na verdade, são as estruturas da sociedade compostas de inúmeros sistemas envelhecidos, desvirtuados, viciados, podres, perversos, consentidos, covardemente tolerados, que começam a sofrer a ação corretiva.

Vamos ao detalhamento?

Um ego de mentira

Precisamos voltar ao ego sem fronteiras (da 1ª parte) para entender que ele é de mentira. Que a vida, assim, é de mentira. Vimos lá atrás a questão de exibicionismo em que o indivíduo pode querer mostrar-se ou mostrar a filha na foto (no simulacro), a exibir-se tal como é, tal como a filha é realmente. Temos aí a operação básica da pós-modernidade: a transformação da realidade em signo. Simulacro = signo. A fórmica é signo do jacarandá, o Fusion na TV é signo do Fusion na estrada. Mas e daí? Daí que, se o real é duro, intratável, o simulacro é dócil e maleável o suficiente para permitir a criação de uma hiper-realidade. Intensificado, estetizado, o simulacro faz o real parecer mais real, dá-lhe uma aparência desejável. A fórmica é mais lisa e lustrosa que o jacarandá, o Fusion na TV surge mais ágil e nobre que na estrada. Esse hiper, esse mais agregado pela tecnociência aos simulacros resulta em espetáculo e em desreferencialização das coisas: temos mesa de jacarandá sem jacarandá, concerto de flauta sem flauta.

E pasmem: Temos uma pessoa que não é pessoa, que não serve como pessoa, que não vibra como pessoa. O indivíduo sente-se individualmente, mas é uma cópia, uma reprodução em série, um andante sozinho na multidão de sós, carente de tudo, mendigo de tudo, exceto de seu ego vago e de mentira. Vive para se desejar os objetos segundo o código dos simulacros. É comum as donas-de-casa, ao prepararem um pudim industrializado, se sentirem frustradas porque ele não fica brilhante como o pudim da embalagem. Foi-se o tempo em que havia separação clara entre real e imaginário, signo e coisa. Vive-se agora entre simulacros em espetáculo para seduzir o desejo.

A sedução pós-moderna diz de mil maneiras ao indivíduo: libere seus desejos, há bens e serviços só para você. A modernidade, produtora de energia, era dominada pela força (máquina, armas, disciplina, polícia). A pós-modernidade, consumidora de informação, motiva e controla basicamente pela sedução (personalização, comunicação, erotismo, moda, humor).

Distraído, atraído, traído, retraído

Seduzir quer dizer atrair, encantar artificialmente. O cotidiano, hoje, é o espaço para o envio de mensagens encantatórias destinadas a fisgar o desejo e a fantasia, mediante a promessa da personalização exclusiva. Self-service para você escolher. Música 24 horas na FM para seu deleite. Esportes e massagens para seu corpo. À personalização aliam-se o erotismo, o humor e a moda, que não deixam espaços mortos no dia-a-dia. O teste é permanente. O erotismo vai dos anúncios ao surto pornô, passando pela cultura psi e seu convite ao desrecalque, distração. O humor, outra sedução massiva pós-moderna, sabor dos tempos, descontrai e desdramatiza o social, distrai. Na arte moderna, ria-se com o absurdo, assunto sério. Atualmente, o lance é rir sem tensão, descrispar-se, desencucar-se. Vamos da distração à atração e de distraído passamos a traído para, num passo se chegar a retraído, mas não como alguém que se retrai ou se recolhe em si mesmo, isso é o que menos fazemos. Retraído quer dizer, mesmo, repetição da mesma traição.

Slogans e manchetes recorrem ao trocadilho, à malícia (O fino que satisfaz). Cínico, vadio, Snoopy circula pelos jornais do mundo. Lojas recebem nomes gozados (Lelé da Cuca) e camisetas levam ditos divertidos. Sem calor, videogames e fliperamas forçam o relax. É normal locutores de rádio brincarem com os ouvintes e na TV noticiários são temperados com pitadas irônicas. Esse humor não é agressivo nem crítico. Busca um bem-estar cool (frio). "Não-esquenta", "fica frio" dão o tom pós-moderno.

Porém o mais doido e acelerado cavalo de batalha em ação é a moda. Moda e modismos em alta rotatividade ditam o ritmo social. Oposta ao bom gosto moderno, com seu corte solene, alta costura, hierarquias, a moda pós-moderna vai de extravagância e liberdade combinatória, com humor na fantasia. O casual comanda o mix total: camisão com colete, paletó com minissaia, gravata com tênis, tatuagens em profusão. O look deve ser jovem e sexy, a invenção, personalizada e informal. Jorrando cores, a moda anima a festa mercadológica que é o cotidiano, e para isso promove a convivência de todos os estilos: retro com futurista, esporte com passeio, lã azul com lycra laranja. E faz alusão à vestimenta oriental, militar, circense. Também danças, gírias, produtos, complementos - tudo vai e volta sob a batuta do novo. A função da moda é manter o sujeito mergulhado no presente, e, para que ele tenha como horizonte apenas o cotidiano, não pára de botar brilho no vazio. Como dizia o Gil: "Quanto mais purpurina, melhor".

A essa altura, inteligente, o leitor deve estar pensando: mas o ambiente pós-moderno é pura ilusão! Quase. Empresas e tecnocratas levam uma grana alta! Levam. É puro trambique e mistificação em cima de gente alienada! Seria. Para que fosse, seria preciso explicar um detalhe desagradável: a adesão maciça dos indivíduos ao consumo. E não quaisquer indivíduos, mas gente escolarizada, bem-informada, pagando altos impostos. Não dá para chamá-los de alienados porque, como vimos nas várias deserções, eles não querem o poder. Querem espetáculos e bons serviços. E, repetindo, sabem que no frigir dos ovos terão de trabalhar sem estar no poder em qualquer regime, dada a complexidade das sociedades atuais. O problema é outro. A riqueza pós-industrial é em grande parte financiada pelos países em desenvolvimento, pois o capitalismo avançado se fez multinacional. Vem para cá a indústria pesada e suja (aço, automóveis, produção manual em série), ficam lá as leves e limpas (eletrônica, comunicações, robotizados). Seu controle social pode ser soft (bando, pela sedução), mas o nosso tem de ser hard (moderno, duro, policial, na base do cassetete).

Individualismo exacerbado e pós modernismo

Se o neo-individualismo conduziu a massa fria, a nebulosa atomizada à desmobilização, o que está acontecendo ao indivíduo pós-moderno? Ele é o narcisismo acossado pela dessubstancialização do sujeito. Parece óbvio ter que destrinchar isso.

Em 22/04/84, o jornal Le Monde publicou o retrato falado do novo egoísta em ação. "Pragmatismo, cinismo. Preocupações a curto prazo. Vida privada e lazer individual. Sem religião, apolítico, amoral, naturista. Narcisista. Na pós-modernidade, o narcisismo coincide com a deserção do indivíduo cidadão, que não mais adere ao mitos e ideais de sua sociedade".

Esse esboço contraria da cabeça aos pés o indivíduo burguês e moderno que, de certa forma ainda caminha debaixo do sol e está anojado. Antes, porém, uma banda filosófica: no Ocidente, o sujeito humano, em oposição ao objeto, era até há pouco o senhor absoluto do conhecimento racional, da liberdade, da criação. Rapidamente, no entanto, as Ciências Humanas vieram borrar essa imagem, ao descobrir seus condicionamentos e limites. A psicanálise revelou-o escravo do seu inconsciente irracional. O marxismo deu-o como escravo da sua classe social e um átomo insignificante na massa. E a lingüística disse que seu pensamento criador era, na verdade, escravo das palavras. Falou-se então até na "morte do sujeito".

Assim o indivíduo burguês, que supunha uma identidade fixa e uma liberdade total, aferrado ao dinheiro como capital tanto quanto a princípios morais e a valores sociais, esse sujeito dançou. Os modernos, na arte, começaram a caricaturar seu retrato, a expor sua falsidade. Os indivíduos pós-modernos, na prática, vêm tendendo ao máximo à sua dissolução.

Na ambiência pós-moderna, (atração) espetáculo (distração), simulação (traição), sedução (escravidão), constituem jogos com signos. A esse universo informacional, sem peso e desreferencializado, só pode corresponder um sujeito informatizado, leve e sem conteúdo. É o Narciso dessubstancializado. Narcisismo (amor desmedido pela própria imagem) e dessubstancialização falta de identidade, sentimento de vazio) resumem o sujeito pós-moderno. Alguém que possa olhar de fora, diria: babaca, são babacas. O termo vem de línguas africanas e se refere à genitália da mulher, mas perdeu esse sentido e agora é um termo muito utilizado no português brasileiro (já exportável) para designar, de forma insultiva uma pessoa tola, ingênua, boba, idiota ou de baixo intelecto.

Vê-se que o urbanoide pós-moderno (outro rótulo além do babaca) podia ser uma criança radiosa, aquela dedicada ao hedonismo consumista, cultuando, a la Narciso, seu ego. O micro facilita-lhe a vida. Mil serviços trabalham sua aparência. A cultura psi lhe dá massagens mentais. Sempre na moda, seu gosto é eclético: vai de ET a Fassbinder no cinema, do poema pornô a Borges em literatura. Versátil, desenvolto, o sujeito blip e clic - feito com fiapos de informação e vivências - não tem ego estável nem princípios rígidos. Descontraído, mutante, seu ego flutua conforme os testes das circunstâncias. É um experimentador, um improvisador por excelência, pondo mais ênfase na prática e na sedução que nas idéias. Narciso sem substância, a criança radiosa bem poderia ser a cantora Madonna - charme com raio laser.

De babaca e urbanoide a apático - doente

Já se sabe que com essa criança glamurizada mora um outro - o andróide melancólico, também dessubstancializado e narcisista. Em sociedades movidas a informação acelerada, o sujeito também vira signo em alta rotação, sem substância por baixo e por dentro. Os valores foram trocados pelos modismos, os ideais pelo ritmo cotidiano. Saturado de consumo e informação, ele encosta no conformismo, refletindo a famosa apatia pós-moderna. Sem laços ou impressões fortes, sua apatia logo cai na depressão e na ansiedade, ambas melancólicas. A melancolia, sentimento frio, é o último grau da apatia - a doença da vontade - prevista por Nietzsche para o homem ocidental quando ele fosse o andróide programado pela tecnociência. Temendo a robotização, mas sem projetos, sua vida interior é sem substância. Absorvido em si e nostálgico, sempre a analisar-se como Narciso, sua sensação mais comum é de irrealidade. O andróide melancólico bem poderia ser Woody Allen, com seu desencanto humorado e frio.

Criança radiosa e andróide melancólico são modelos ideais que, em doses variadas, entram na sensibilidade dos indivíduos pós-modernos. Eles espelham ainda os dois niilismos da atualidade: o niilismo ativo da criança radiosa, que acelera a decadência em direção a um possível Renascimento; e o niilismo passivo, do andróide melancólico, desorientado pelo fim dos valores tradicionais, amedrontado pelo apocalipse - nuclear ou ecológico.

E agora perigosamente à beira do abismo psíquico. Já passou da beira. Já caiu.

Que estonteante: na mesma cama Madonna e Woody Allen, que criatura eles iriam gerar? Sem dúvida que Boy George. Talvez muitos de nós não o conheçamos. É uma figura exótica um DJ britânico que 99% das pessoas não o convidariam para um chá. Quem sabe você vai lá no Google e fixa os vários visuais dele. Em todos os visuais eles aparece: o homem e mulher/ colorido e branco/ infantil e programado/ desenvolto e apático/ permissivo e frio/ fascinante e melancólico/. Boy George não tem a unidade nem a identidade fixa do indivíduo burguês, moderno. Múltiplo, ele é o próprio sincretismo pós-moderno. O indivíduo atual é sincrético, isto é, sua natureza é confusa, indefinida, plural, feita com retalhos que não se fundem num todo. Por isso, nas definições da sensibilidade pós-moderna as palavras nunca batem: apatia desenvolta, desencanto extravagante, narcisismo melancólico. Tomemos a apatia desenvolta.

Apatia quer dizer insensibilidade, indiferença, falta de energia. Desenvolta significa desembaraço, inquietação, personalidade. Os dois termos são quase contraditórios, mas convivem lado a lado no indivíduo pós-moderno. São fruto da programação oferecida pelo sistema e da personalização buscada pelo sujeito, duas coisas meio em choque. Mas a apatia desenvolta - a agitação sem felicidade - salta aos olhos quando, no indivíduo, se juntam vazio e colorido na danceteria, tédio e curiosidade ante um filme pornô, frieza e fascinação ante os dígitos na tela de um computador, banalidade e excitação no shopping center.

Por que isso? Porque no mundo pós-moderno, objetos e informação (informação que não constrói), circulando em alta velocidade, são descartáveis. Da mesma forma, os sujeitos também produzem personalidades descartáveis (Bom? Mau? Indecidível, ninguém sabe). São simulacros espetaculares e sedutores de si mesmos. (Vide a importância da maquilagem. David Bowie, de batom, declarou: "quando me canso das minhas expressões, maneirismos, aparência, me dispo deles e visto uma nova personalidade".)

Ao mesmo tempo, num mundo de máquinas frias igual ao computador, que só funciona em ambientes com temperatura inferior a 18ºC, os sujeitos também espelham frieza, distância, indiferença. Assim, o ritmo agitado criado pelo descartável e o novo, aliado à frieza do ambiente tecnológico, bem podem explicar a apatia desenvolta e a dessubstancialização do Narciso.

O sujeito pós-moderno é a glorificação do ego no instante, sem esperança alguma no futuro.

Perdeu a alma – diria o pajé

É interessante, mesmo, saltar de dentro desse foguete desgovernado dirigido por um louco drogado e adentrar pelas selvas onde a vida ainda é viva, sem ronco de motores, sem química, sem eletricidade, sem asfalto, sem concreto, sem TV, rádio, telefone, computador. Capaz, isso não é vida! – diria o meu neto. E como, num ambiente destes, o pajé pode ter coragem de olhar nos olhos de um candidato à pajelança de cura e dizer-lhe: perdeste a alma!?

Falta a ação dos novos pajés. Nas sociedades tribais, pajés eram os curadores, guias espirituais, educadores, orientadores. Cadê eles, hoje?

O termo “perda da alma” significa literalmente na filosofia dos pajés viver uma vida que não é a sua, estar dentro de uma mentira contínua, uma fantasia, um teatro irreal.

Complete-se a argumentação trazendo o babaca urbanoide apático para o mundo da maconha, da cocaína, do LSD, dos outros narcóticos, da bebida alcoólica servida a adolescentes e até mesmo alguém chique consumindo craque. Chega, né?

Em busca dos novos pajés

Bem, a gente poderia simplesmente terminar aqui a nossa conversa. Precisa dizer mais alguma coisa sobre a derrocada? Certamente, não falamos de tudo.

Mas, eticamente não se pode encerrar sem chamar para a linha de frente da nossa sociedade, os líderes, formadores, condutores, docentes e progenitores da mentalidade humana, espécie de novos pajés, aqueles que quando falam, sugerem, fazem, criam impactos, são respeitados.

Dá uma olhada para os poderes constituídos do Brasil e tenta extrair dali um punhado de líderes, formadores, condutores, docentes, capazes de mostrar o caminho, servirem de exemplos...

E o que dizer: eles estão ali colocados por nós, com nossa permissão, por nossa omissão. Já, quando voltamos os olhos para Curitiba, para a Justiça Federal, ali encontraremos um punhado de homens que, embora pagos por nós, não foram eleitos por nós, prestaram concurso e hoje exercem suas funções rigorosamente como formadores, condutores, docentes, os novos pajés. Seriam os índigos e cristais a ocupar espaços?

E você, leitor, vai fazer o que a partir de agora? Vai se juntar aos gloriosos que não têm futuro ou vai se candidatar a ser um líder, formador, condutor, docente, objetivando mostrar o caminho virtuoso?

Você vai se alistar na tribo do Moro ou na tribo daquele mentiroso de Brasília?

Até semana que vem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário