sábado, 27 de fevereiro de 2016

1835-A história de um nazareno



A vida ao tempo de Jeshua Ben Levi

Há dois mil e nove anos nasceu um menino, e nos anos seguintes cresceu, estudou, trabalhou, comeu, dormiu, conversou e se divertiu, foi perseguido, (possivelmente casou-se) em uma época e em um lugar específicos, com costumes e tradições próprios, que a maioria dos cristãos da atualidade desconhece. No entanto, esse Filho do Homem – como ele mesmo se definia e não acaso, pois as ciências persistem em afirmar que ele teria nascido de José e Maria, contrariando os dogmas da Igreja Romana – esse filho biológico de um casal de galileus, tem uma história bonita passada sobre uma região muito especial.

Há mil e novecentos e setenta e seis anos atrás, um homem chamado Jeshua Ben Levi, entre nós conhecido por Jesus, foi sentenciado à morte e crucificado em uma colina nos arredores de Jerusalém. No terceiro dia, acreditam mais de 2 bilhões de cristãos, ele ressuscitou - evento comemorado todos os anos no domingo de Páscoa - para subir aos céus – evento comemorado como Ascensão do Senhor.

Segundo a fé cristã, Jesus ressuscitou por ser Deus Feito Homem. Como era de se esperar, esse aspecto divino deixou na sombra seu lado puramente humano. Mas o fato é que Jesus trabalhou, comeu, dormiu, conversou e se divertiu em uma época e em um lugar específicos, com costumes e tradições próprios. Neste artigo promovemos uma incursão a esse mundo em que Jesus viveu.

(Colaborou Itamar Melo – Zero Hora)

A GEOGRAFIA

Império

A Galileia, onde Jesus nasceu – a história bíblica fala de Belém, sobre o que não existe nenhum registro – integrava o Império Romano, que abrangia todo o entorno do Mediterrâneo, incluindo partes da Europa, da África e da Ásia, somando 50 milhões de habitantes.

Principais cidades

Roma: 1 milhão de habitantes
Alexandria: 700 mil
Antióquia: 300 mil

Imperadores - Augusto era o imperador quando Jesus nasceu. Ele foi sucedido por Tibério. É a efígie deste governante que Jesus observa em uma moeda, em uma passagem do Novo Testamento: "Dai-me um dinheiro para o ver. E eles lho trouxeram. Então disse-lhes: De quem é esta imagem e inscrição? Responderam-lhe: De César. Então, respondendo Jesus, disse-lhes: Dai, pois, o que é de César a César, e o que é de Deus, a Deus".

A província

A Judeia foi conquistada pelos romanos em 63 a.C. e virou um reino semiautônomo. Quando o rei Herodes morreu, o território foi dividido entre seus três filhos: Felipe (a leste do Rio Jordão), Arquelau (a Judeia, a Samaria e a Idumeia) e Herodes Antipas (a Galileia). Arquelau revelou-se tão brutal que foi deposto. Seu reino foi convertido em província, sob os cuidados de um governador romano. Na época de Jesus, esse governador era Pôncio Pilatos.

Jerusalém era a principal cidade da Judeia, com 25 mil habitantes; recebia 100 mil peregrinos para festas como a de Páscoa. Sua importância era devida ao Templo, uma colossal construção que ocupava um quinto da cidade e era o centro do judaísmo. Jesus foi levado ali oito dias depois de nascer para que seus pais fizessem a oferenda obrigatória, tradicional, de um casal de pombos.

A Galileia

Jesus nasceu nos confins do império, na Galileia, um reino de 200 mil habitantes. Por estarem fora da Judeia, galileus como Jesus eram tidos pelos outros judeus como broncos, caipiras, atrasados. A Galileia não era árida e rochosa como outras terras da região. Ali havia muita chuva e se produziam cereais, azeite de oliva, vinho e frutas.

Uma observação: a estória do recenseamento que teria obrigado José e Maria a se deslocarem para Belém, onde teria ocorrido o seu nascimento, não tem nenhum fundamento histórico. Assim, o seu nascimento teria ocorrido, mesmo, em Nazaré, da Galileia, de onde lhe vem os codinomes de nazareno e galileu.

Ainda sobre a depreciada qualidade dada pelos demais judeus aos galileus, há uma passagem bíblica em João 7; 39-43, nos seguintes termos: “Dizia isso (Jesus), referindo-se ao Espírito que haviam de receber os que cressem nele, pois ainda não fora dado o Espírito, visto que Jesus ainda não tinha sido glorificado. Ouvindo essas palavras, alguns daquela multidão diziam: ‘Este é realmente o profeta’. Outros diziam: ‘Este é o Cristo’. Mas outros protestavam: ‘É acaso da Galileia que há de vir o Cristo? Não diz a Escritura: O Cristo há de vir da família de Davi, e da aldeia de Belém, onde vivia Davi?’ Houve por isso divisão entre o povo por causa dele. Alguns deles queriam prendê-lo, mas ninguém lhe lançou as mãos”.   

Nazaré - O Novo Testamento relata a pergunta feita por um homem chamado Natanael quando lhe contaram de que povoado vinha Jesus: "Pode algo bom sair de Nazaré?". Nazaré era pouco mais do que uma aldeia, segundo algumas fontes, com não mais de 20 casas, a 115 quilômetros de Jerusalém.

AS LÍNGUAS DE JESUS

Três idiomas eram amplamente usados na Palestina, conforme o contexto:
o Aramaico - língua que se aprendia na primeira infância com a família e se usava no dia-a-dia, em comunidade. A estrutura das frases e o vocabulário de Jesus indicam que ele pregava nesse idioma.
o Hebraico - idioma litúrgico judaico, que as crianças aprendiam na escola da sinagoga, estudando as escrituras. Pelo conhecimento dos textos da Torá, Jesus sabia hebraico.
o Grego - o Império Romano tinha dois idiomas, latim e grego. A oriente, o grego era a língua franca, com papel semelhante ao que o inglês tem hoje, sendo usado em documentos e contratos legais. Permitia falar com gente de todas as regiões. Os pais queriam que seus filhos o aprendessem para subir na vida. Essa foi provavelmente a língua que Jesus usou ao falar com Pilatos.

Traduções dos Testamento

O fato de a maioria dos textos relativos a Jesus terem sido escritos em Aramaico, língua em desuso já nos primeiros séculos da Era Cristã, faz com que inúmeras palavras tenham sido aleatoriamente traduzidas primeiramente para o grego e para o latim e depois para as diversas línguas onde sua doutrina penetrou. E o caso, por exemplo, do “camelo” passar pelo fundo da agulha e o da fé “remover montanhas”. Em aramaico era comum duplos sentidos em muitas expressões, como as temos em português: casa pode significar uma construção, um lugar para o botão ou a união de um homem e uma mulher. O “camelo” era também a corda com que se amarrava os barcos nos portos – feita evidentemente de crinas de camelo; examinando-se o contexto em que Jesus falou de fé, grão de mostarda e montanha, durante uma desobsessão (Mateus 17;14-20), fica óbvio o erro de tradução. Para falar de transporte de montanha, como costumava simbolizar em outros de seus milagres, teria ele de provar que podia remover montanhas. Não era o caso. Fez muitos outros prodígios com a força de sua mente, mas o transporte da montanha, não. Referia-se ele a uma montanha de outras coisas, menos a um morro.  

ECONOMIA

A maior parte das pessoas tirava o seu sustento da agricultura e do mar. As famílias costumavam viver em povoados e cultivar um pedaço de terra nas redondezas. As propriedades da Galileia tinham em média sete hectares. Plantava-se grãos, oliveiras e legumes. Vinhedos eram comuns. As árvores frutíferas tinham de ser cuidadas contra a ação de ladrões. E os barcos estacionados nas praias, amarrados a palanques, saíam ao mar para obter a proteína animal que era escassa pela ausência de ovelhas, galinhas, cabras e bois.


Outros ofícios

Pastoreio - Quase sempre de animais menores, como ovelhas e cabras. Gado bovino era raro. Algumas famílias criavam galinhas ou pombos, usados em sacrifícios, o que hoje se pode chamar de oferendas. Mas, nem todos possuíam criações, o que reforça o uso do mar como fonte fornecedora de proteína, principalmente por parte dos pobres, aliás, de cuja classe saíram os apóstolos de Jesus.

Pesca - Existia uma importante indústria pesqueira na Galileia. Essa é a razão para haver muitos pescadores entre os discípulos de Jesus. Pescavam não só para abastecerem suas famílias, como também para entregar os pescados às indústrias.

Apicultura - Havia criadores de abelhas, para produção de mel.

Ofícios manuais - Eram transmitidos de pai para filho. Existiam ferreiros, oleiros, tecelões, marceneiros, pedreiros, carpinteiros e curtidores (estes trabalhavam fora do povoado, por causa do mau cheiro).

As classes sociais

Classe alta: formada pela nobreza sacerdotal e por altos funcionários, latifundiários e grandes comerciantes.

Classe média: incluía pequenos proprietários rurais, artesãos e comerciantes.

Classe inferior: eram os escravos e os diaristas, que trabalhavam na terra dos outros.

Carga tributária

Os romanos ficavam com 12,5% da produção agrícola. O Templo, somando diferentes tributos, arrecadava outros 22%. Como um quinto do que se colhia era reservado como semente, sobrava menos da metade da colheita para o agricultor alimentar-se e se ainda sobrasse, vender.


Jesus era pobre?

A situação econômica de Jesus era confortável. Apesar de não fazer parte dos 2% de aristocratas, também não estava entre os 80% que viviam na pobreza. José, seu pai, era um "tékton", palavra que costuma ser traduzida como "carpinteiro", mas que pode ser entendida como "empreiteiro construtor". Acredita-se que ele construía casas e edifícios, à frente de uma equipe de cortadores de pedras, de onde nos vem o nome maçom. Pesquisadores entendem que Jesus exerceu o ofício de mestre em construção. Em uma passagem de Lucas (14;28-29), ele demonstra seus conhecimentos: "Porque qual de vós, querendo edificar uma torre, não faz primeiro, sentado, a conta dos gastos necessários, para ver se tem com que acabar? Para que, depois de ter assentado o fundamento e não a puder terminar, todos os que virem não comecem a fazer zombaria dele".

VIDA NAS CIDADES

As cidades da Galileia e da Judeia, percorridas por Jesus, eram locais insalubres, barulhentos e perigosos. Como haviam muralhas cercando essas povoações, o espaço era restrito. Quase não havia praças, quintais ou árvores. Todo terreno costumava ser ocupado por construções, que compartilhavam paredes. As portas abriam direto na rua. A violência era epidêmica, e não existia polícia. Logo, ninguém se arriscava na rua depois do anoitecer.


Higiene

A imundície era generalizada, porque lixo e dejetos eram despejados nas ruas. Havia latrinas públicas em algumas cidades, mas elas eram evitadas pelas condições repulsivas. Os moradores tinham penicos - que despejavam pela janela, não raro sobre a cabeça de alguém.


Casas

Os ricos viviam em mansões com água corrente. Havia prédios de apartamentos na Judeia, mas as pessoas mais pobres moravam em casas pequenas, de um ou dois aposentos. Em uma passagem de Mateus, Jesus dá a entender que uma única lamparina a óleo era suficiente para iluminar um lar. O teto das residências era achatado, porque quase não chovia. Como faltava espaço nas ruas, os judeus usavam a laje para tomar sol ou ar fresco e também para secar a roupas lavadas. Nas noites quentes, dormiam no telhado.

A casa de Jesus

Um trecho de Marcos (2;1-2), segundo pesquisadores, demonstra que a casa de Jesus não era pequena, porque nela cabiam várias pessoas: "Logo se espalhou a notícia de que Jesus estava em casa. E tanta gente se reuniu aí que já não havia lugar nem na frente da casa".

COSTUMES

Divisão do dia

Não havia relógios nem medição precisa do tempo - as pessoas sequer sabiam direito sua idade. O dia começava com o raiar do sol. A manhã era destinada ao trabalho. Depois do almoço, mais ou menos entre as 13h e as 16h, vinha o momento de relaxar: era comum dormir ou ir ao banho público. Quando o sol se punha, todos estavam em casa, porque as ruas eram perigosas.
Hora grega - Os gregos desenvolveram a ideia de que o dia era dividido em 12 horas, sendo que cada hora correspondia a um duodécimo do período de luz solar. Como o tempo diário de sol variava conforme as estações, a duração da hora não era fixa. Jesus estava familiarizado com esse sistema, conforme o Evangelho de João (11;9): "Jesus respondeu: Não são 12 as horas do dia? Aquele que caminhar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo".

Roupas


As roupas da Palestina no tempo de Jesus seguiam a moda do mundo greco-romano:

Túnica - Roupa casual, feita de linho ou algodão, era colocada pelo pescoço e tinha mangas. Existiam modelos diferentes para homens e mulheres. As peças coloridas eram mais difundidas entre as mulheres.

Manto - Enrolado no corpo, por cima da túnica, em ocasiões formais ou nos dias frios. Incômodo, era removido para atividades físicas. Por ser caro, era alvo de ladrões. Só os abastados possuíam mais de um.

Roupa de baixo - Os homens às vezes usavam uma espécie de tanga, feita de algodão ou lã. No trabalho sob o sol quente, essa podia ser a única vestimenta. As mulheres vestiam uma peça desse tipo quando menstruadas.

Cinto - Um cinto era colocado ao redor da túnica, permitindo baixar ou elevar a altura do traje conforme a necessidade.

Beleza

Perfumes, pentes, espelhos, cosméticos e depilações eram comuns no mundo em que Jesus viveu:

Cosméticos - Eram amplamente usados pelas mulheres, que almejavam uma tez pálida. Na Palestina, a maquiagem ao redor dos olhos e do nariz prevenia o ressecamento provocado pelo clima árido.

Cabelos - De forma geral, os homens usavam cabelo curto. Entre os judeus, no entanto, podiam ser mais longos, acompanhados de barba. Os essênios – outro ramo étnico entre judeus, usavam cabelos longos, como Sansão e Jesus, este com possível passagem pela doutrina essênica. As mulheres mantinham o cabelo comprido, arranjado em penteados elaborados, envolvendo coques, tranças e enfeites, conforme a moda do momento.

Salões de beleza - Havia barbeiros e cabeleireiros, que também prestavam serviços de manicure e pedicure.

Casamento

Função - O casamento era a condição natural para homens e mulheres. Um adulto solteiro era tão raro quanto um homem com várias esposas. Não se tratava de uma união romântica, mas de um acerto entre famílias. Na época de Jesus, era normal haver o consentimento da noiva.

Idade - As mulheres casavam logo após a puberdade, raramente após os 15 anos. Maria era adolescente quando teve Jesus. Os homens contraíam matrimônio mais tarde, mas antes dos 25 anos. Baseado neste costume, os pesquisadores acreditam que Jesus era casado e Madalena aparece como esposa.

Viuvez - Por causa da diferença de idade entre os noivos, havia muitas viúvas jovens. Como as escrituras não fazem menção a José depois dos 12 anos de Jesus, presume-se que ele já estava morto. E um texto bíblico corrobora nesse sentido. Em Marcos, capítulo 8, ao reaparecer em sua terra natal, “2 E, chegando o sábado, começou a ensinar na sinagoga; e muitos, ouvindo-o, se admiravam, dizendo: De onde lhe vêm estas coisas? e que sabedoria é esta que lhe foi dada? e como se fazem tais maravilhas por suas mãos? 3 Não é este o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, e de José, e de Judas e de Simão?”

Filhos - A maioria dos casais tinha dois ou três filhos. Não eram comuns famílias numerosas. Métodos de prevenção à gravidez e abortivos eram bem conhecidos.

Educação

A escola ficava na sinagoga e era só para meninos. Eles aprendiam a ler, escrever e fazer contas. Também recebiam algumas noções de geografia.

Prostituição

No Império Romano, a prostituição era disseminada. Chegava a ser exercida em cabines portáteis instaladas nas ruas. As várias menções a meretrizes no Novo Testamento indicam que Jesus estava familiarizado com ela. Não havia preocupação com doenças sexualmente transmissíveis: sífilis e gonorreia não eram conhecidas.

Morte

A mortalidade infantil era elevada. Metade das crianças não chegava á idade adulta. As mulheres morriam frequentemente no parto ou depois dele, por falta de higiene. Também morria-se muito por acidente, epidemias e falta de assistência médica.


A JUSTIÇA


A condenação de Jesus à morte na cruz seguiu os trâmites legais da época:

Delação – As denúncias contra Jesus eram frequentes e aceitáveis para a época. Havia um exército de informantes, responsáveis por denunciar quem representava perigo para a sociedade. Os delatores inclusive atuavam como promotores no julgamento.
Sinédrio - Os romanos concediam certa autonomia aos judeus. O órgão judaico máximo era o Sinédrio, um tribunal aristocrático composto pelo Sumo Sacerdote e por nobres. Jesus foi interrogado por esse conselho sobre questões de doutrina e considerado culpado. O Sinédrio não podia aplicar a pena de morte. Por isso, o caso foi levado ao governador romano, Pôncio Pilatos.
Pilatos - Diante do governador, os sacerdotes acusaram Jesus. Na época, o julgamento consistia em discursos do acusador e do acusado. Por isso, um réu que se recusasse a responder, como Jesus, desperdiçava a chance de absolvição. Era um comportamento desconhecido, que deixou Pilatos atônito, conforme o de Marcos (15;4-6):

"E os príncipes dos sacerdotes o acusavam de muitas coisas. E Pilatos interrogou-o novamente, dizendo: Não respondes coisa alguma? Vê de quantas coisas te acusam. Mas Jesus não respondeu mais nada, de sorte que Pilatos estava admirado".

Punição

No Império Romano, não havia a ideia de prisão como punição. Quando alguém estava detido, era à espera de ser punido. As penas envolviam multa, para pequenos crimes, ou exílio, trabalho forçado e morte, para outros de maior monta. Para réus pobres, era permitida uma execução cruel, com sofrimento.


CULTURA GREGA

A Judeia e a Galileia eram regiões periféricas, mas não estavam intocadas pela influência estrangeira. A cultura greco-romana influenciava todas as esferas da vida, cumprindo papel similar ao da norte-americana hoje. Judeus devotos davam nomes helênicos aos seus filhos, por exemplo. A cultura grega era tão forte que alguns judeus se submetiam a uma arriscada e dolorosa cirurgia de reversão da circuncisão. Assim, podiam tirar a roupa sem constrangimento nos banhos públicos.

Uma cidade grega ao pé de Jesus

Nos evangelhos, Jesus aparece em muitos povoados, mas não há menção a Séforis, uma importante metrópole de cultura grega. No entanto, é muito provável que tenha estado lá, porque a cidade ficava a apenas uma hora de caminhada de sua casa. Séforis foi reconstruída por Herodes Antipas, segundo o modelo grego, para ser capital da Galileia. Com 30 mil habitantes, tinha circo, pista de corrida, ginásio, escola de luta, banho público e teatro - pela forma como Jesus se expressava, pesquisadores acreditam que ele foi influenciado por performances de teatro.


A MENTALIDADE


Desconhecimento científico

Muita gente acreditava que a Terra fosse plana e que o céu consistisse em uma espécie de bacia virada sobre ela. Se alguém conseguisse atravessá-lo, entraria no paraíso.

Em verdade, em verdade, vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem - disse Jesus.


Doenças

A ignorância sobre as doenças levava o povo a atribuí-las a demônios. A cura de males como epilepsia, surdez e paralisia passava por expulsar os espíritos ruins. Jesus era visto como um curandeiro com o dom do exorcismo.


Fim do mundo

Entre os judeus, previa-se que o mundo estava para acabar, e que um rei do fim dos tempos seria enviado por Deus. Esse messias derrotaria os romanos e restauraria a glória de Israel. Essa esperança era exacerbada pela situação de opressão em que os judeus viviam.


FONTES CONSULTADAS: Pelos Caminhos de Jesus, de Peter Walker; Tiago, Irmão de Jesus, de Pierre-Antoine Bernheim; Exploring the New Testament World, de Albert A. Bell Jr; A Palestina no Tempo de Jesus, de Christine Saulnier e Bernard Rolland; Assim viviam os contemporâneos de Jesus, de Michael Tilly; Jesus, Um Retrato do Homem, de A.N. Wilsos; Eu Encontrei Jesus, de José Hildebrando Dacanal; Um Judeu Marginal, de John P. Meier; Biblie Family, de Claude-Bernard Costecalde.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

1834-Ainda temos carência de muletas


Máscaras para iludir o sentir sagrado

Introdução

Todo estudioso que tenha tomado algum interesse pelo xamanismo e/ou pela mitologia terá encontrado dentre outros sinais, locais e significados sagrados aquilo que também pode ser chamado de “centro do mundo”: uma árvore, uma pedra, uma montanha, uma torre, uma cidade...

Que papel teriam os montes Sião, Olimpo, Meru, Macchu Picchu e as cidades como Alexandria, Jerusalém, Meca, Belém, Atenas, Roma, Medina, se não o de corporificar algo que, para os homens, é o símbolo do sagrado?

A produção de arquétipos é uma necessidade humana. Viemos de um vago imenso e estamos a caminho de uma essência precisa: precisamos de balizas. O destino é chegar ao centro, ao âmago. Quando a alma conhece-se a si mesma, eis a verdade.

Se hoje, para alguns, os totens já não têm significado, para outros as imagens de poder ainda povoam os altares, os escapulários ainda são levados, como as guias, pendentes ao peito. Ainda se risca no terreiro o ponto do orixá.

Precisamos do sinal físico da estação-mãe para sentirmo-nos protegidos, ligados, conectados, numa vã comparação a um telefone celular: só tem sentido se tiver sinal.

Chegamos à modernidade e ao invés de nos emanciparmos como seres maduros que constroem para si uma civilização de paz e amor, nos perdemos nas drogas, no alcoolismo, nos fetiches da pior energia. A droga traz consigo o traficante violento, além dos problemas sociais, as bebidas trazem consigo um elenco de problemas sociais e os fetiches através dos quais nos conectamos, também nos conectam com as piores energias.

Num estudo pela busca do centro do mundo identificamos que a busca mudou de sentido.

Veja: uma vez, Alexandria simbolizava a liberdade, a criatividade, o pluralismo espiritual, quase em oposição a Jerusalém, símbolo da lei, da temível majestade senhorial do patriarca da religiosidade semítica. Mas, ambas tinham sentido.

Todos os episódios dos primeiros séculos cristãos foram transformando Alexandria em uma cidade turística e mística, e foram transformando Jerusalém numa cidade mística e turística.

Enquanto isso, Roma chamava para si o brilho de uma religião sem espírito, dogmática, materialista, usuária do poder terreno. E, por isso, sem o encanto sagrado.

Enquanto outros pontos do planeta iam conquistando vigor sagrado, Jerusalém, após derrotar (no prestígio) Alexandria e Atenas, foi ganhando foros de uma arena sobre a qual três crenças fazem disputa por uma das três verdades sagrada.

Com imensa saudade do significado sagrado daqueles ex-centros do mundo, muitos de nós vamos fundando novas Alexandrias, novas Jerusaléns, novas Beléns, novas Romas, bem como aquele homem que se renova por fora e continua o mesmo por dentro.

O sagrado de nossas almas continua a pedir-nos revitalização ampla, consideração absoluta, respeito máximo, valor integral. E o seu grito não é ouvido. Sim parece ser ouvido como incômodo, então para silenciá-lo nos drogamos.  

E enquanto nós não enveredarmos decididos em sua direção, ir-nos-emos perdendo nos pontos de fuga para a escuridão, para o lodo, para a ambivalência, para o submundo, em que o consolo é a embriaguez, o doping, a droga, a luxúria, os brilhos, o poder. 

Os códigos da vida

Aquele que não respeita as leis é chamado de fora-da-lei. Para os homens, o fora-da-lei merece ser penalizado, trancafiado, reeducado, recuperado. Em algumas sociedades, o fora-da-lei é alcançado pela pena de morte.

Isso tudo está nos códigos elaborados pelos homens e tem a ver com as relações entre os homens e sua organização civil e militar. E quando nos fazemos fora-da-lei divina, como você acha que somos tratados? Do mesmíssimo modo, com a diferença que na lei dos homens o apenado é ensinado e na lei divina o apenado deve aprender por si mesmo.

Já obtive reações contrárias consideráveis quanto a este ponto de vista.

Como existe uma sentença em cada cabeça, para certas mentes é um absurdo pensar que Deus possa matar alguém porque a sua lei foi desrespeitada. Mas, só não conclui quem não quer observar. O que é o infarto do miocárdio se não uma pena de morte aplicada àquele que desrespeitou seu organismo?! O que é uma morte provocada por drogadição se não uma pena de morte a quem desrespeitou seu organismo?! Haveria outros exemplos como morrer soterrado por haver construído seu lar onde não é recomendado, etc., etc., mas a discussão irá ficar muito extensa.

É um absurdo pensar que Deus seria capaz de excluir, segregar, trancafiar um filho seu desobediente, um fora-da-lei, a ponto de aplicar-lhe a pena de morte? NÃO. Com a diferença – se houver flexibilidade mental – de que esta morte é apenas um estágio. O apenado pode retornar, aprender as lições, dignificar-se, distantemente do conceito de fora-da-lei.

Na verdade, todo analista dos códigos da vida nunca poderá deixar de considerar todos os ângulos da questão. Nós não temos um Deus para cuidar dos pecados, das almas, do paraíso e outro para lidar com as florestas, os pomares, as lavouras, a saúde, o tráfego nas estradas. Tudo é uma coisa só.

Então aquele Deus que escreveu rígidos códigos de equilíbrio à saúde e deu a todos os seres o livre arbítrio de escolher o que comer, beber e como comportar-se, jamais fará descer sua espada sobre a cabeça do fora-da-lei, é este que opta por consumir-se, excluir-se, pular fora do sistema a que ele foi chamado pertencer. Parece que agora as divergências começarão a aquietar-se. Não é, mesmo?

Ou será que, na lei dos homens, o homem que optou por matar e roubar também não decidiu por pular fora do sistema a que ele foi chamado pertencer?

É isso, gente amiga. Nada muda, aparentemente.

O motorista que toma a contramão para conduzir seu carro e bate contra o outro que vem em sentido contrário, optou ou não optou por correr o risco de matar e morrer?

Ah, mas, o pobre teve um azar danado, pois havia outro carro vindo em sentido contrário. Nada disso, vir carros no sentido contrário é da lei do tráfego, o que não é da lei do tráfego é trafegar na contramão, exceto com muita segurança para uma ultrapassagem.

Biologicamente falando nós estamos aqui travando contato neste texto porque nossos ancestrais souberam cumprir a lei, conseguiram transmitir aos seus descendentes os genes que hoje nos servem de veículo às nossas almas. Experimenta parar de ingerir uma determinada substância capital ao seu corpo, a água, por exemplo, e veja qual é o resultado.

Sabes quantos seres humanos foram excluídos do sistema ao qual foram chamados pertencer por falta d’água? Bilhões. Alguns dentre eles terão sobrevivido? Provavelmente. O que é isso se não a seleção natural?

E você acha que espiritualmente também não existe uma seleção natural? Existe. Desde sempre.

Nós temos dois códigos para respeitar e sempre que os desrespeitamos somos jogados para fora do sistema a que fomos chamados pertencer. Um deles, já referido, é o biológico. O outro é o espiritual, possivelmente ainda mais sofisticado e exigente. Sempre que, vibracionalmente, nos conduzimos para fora do sistema (egrégora) a que podemos pertencer por mérito, estamos saindo do sistema, deixando o sistema. Não é o sistema que nos exclui. Somos nós que optamos por sair ao perder a sintonia.

Você já esteve diante de sua alma?

Eu sei, você dirá, como assim? Sua pergunta faz sentido.

Se você e ela são a mesma coisa, como isso seria possível?

Tem um jeito.

Você conhece alguma história de encontros entre pessoas que começam namoros por correspondência (hoje internet) e marcam para se encontrar? Pois é, existem estórias por aí não só em romances e novelas, mas na vida real, em que dois seres enamorados um do outro preparam seu primeiro encontro, a aproximação física da princesa e do príncipe encantados...

Na interpretação corriqueira seguindo a cultura, a moça vai ao salão, encomenda um penteado, pinta as unhas, faz maquiagem, veste o melhor vestido, calça o melhor e mais bonito sapato. O rapaz idem, idem. Também, por parte dela e dele há toda uma preocupação em causar uma boa impressão, evitar gestos ou palavras que possam estragar tudo. O encontro mais importante daquela fase de suas vidas está por acontecer. Nada pode sair errado. E quantos namoros prosperaram depois de tais encontros? São incontáveis.

Então prepare-se amigo, amiga leitor(a). Estamos planejando colocar você diante de sua alma para que se apaixonem de uma vez por todas e acabe essa picardia boba entre vocês dois.

Como dois?

Calma. Estamos falando de dois seres que podem chegar ao ódio: (1) a mente terrena, formatada pelos processos culturais, pelas tradições de uma família e (2) a mente eterna que pode estar a milhões de anos buscando seu crescimento espiritual.

Como é que vocês vão se amar se vocês não conversam, não namoram?

Este encontro não pode admitir a menor possibilidade de fracasso, a menos que o espírito esteja por abandonar o corpo ou o corpo esteja desejando livrar-se do espírito.

É o seu caso?

Saiba que no primeiro caso é a morte, talvez prematura; no segundo, é o suicídio. O que muda?

Então não é o seu caso, certo?

Veja como isso será maravilhoso.

Na verdade, o encontro dos “namorados” desta metáfora deu-se no instante da fecundação no ventre da mãe. A preocupação com a boa impressão é coisa passada, já foi resolvida. Aqui se está tentando aproximar alguém que já vive junto há muito tempo e não se conhece, não conversa, não se curte, não se preza, não se prestigia, quem sabe nem se ame...

Vai haver, sim, necessidade de franqueza e honestidade, não de parte do espírito, mas de parte da mente terrena, educada para levar vantagem, tirar proveito, ludibriar, driblar, buscar escapes.

Na maioria dos casos tem origem nessa malandragem todo o desacerto da vida terrena em relação à porção eterna.

Você quer, mesmo, ficar frente a frente com sua alma, conhecê-la, respeitá-la, amá-la?

Pense bem, decida convictamente e volte aqui para ler a continuidade desse texto.

Você quer, mesmo, ir ao encontro da sua alma?

Antes, porém, conheça a história de outro alguém numa situação parecida com a sua. Entenda, isto aqui é uma metáfora, uma lenda, um causo.

Era uma vez uma pessoa, com nome, endereço e cpf. Lidava com as coisas e pessoas de sua vida de um modo especial, como será narrado.

Tudo quanto saísse errado, tinha de ter um culpado externo. Algumas vezes eram seus pais, noutras seus irmãos, noutras mais o prefeito, o governador, o vizinho, enfim, alguém, a Dilma.

Tudo quanto fizesse de errado, precisava ser escondido, jogado pra baixo do tapete, guardado num cantinho escuro da consciência.

No início, só algumas coisas eram guardadas. Depois, muitas coisas. É sempre assim, o primeiro erro puxa o segundo, puxa o terceiro...

O depósito foi ficando cheio, inchado, transbordante...

Chegou um tempo em que o nosso personagem precisava inventar uma mentira para encobrir outra, arranjar um novo esconderijo para esconder um novo erro.

Como fantasmas, seus erros se agigantavam em seu íntimo. E ocupavam quase todas as suas energias.

Se quiser, pode comparar com alguém que carrega uma enorme mochila às costas, sem nenhum conteúdo útil.

Por conta de se ocupar excessivamente com seus monstros íntimos, o nosso personagem já não sonhava com nenhuma coisa boa, não tinha tempo para imaginar coisas novas, boas e interessantes.

Todos os dias brigava com seus monstros, obrigando-os a permanecerem engavetados, encaixotados, arquivados, escondidos.

Tinha dias que os monstros brigavam entre si, cada qual querendo ocupar maior espaço na mente do nosso personagem.

Por conta desse turbilhão de inquietações, vinham também as correrias e nosso personagem começou a faltar com suas obrigações, esquecer seus compromissos, sofrer pequenos acidentes, até que, um dia, foi além: teve uma enorme discussão com sua cônjuge, perdeu a cabeça, meteu a faca no peito da cônjuge, matou-a.

E mais uma vez não assumiu seu erro: fugiu de casa, escondeu-se da polícia.

Veja, agora, já não eram apenas os seus monstros que estavam escondidos.

O próprio personagem também se escondia.

Mas, foi localizado, recebeu voz de prisão, não se entregou, tentou fugir mais uma vez e foi atingido pelas balas dos policiais. Morreu.

Dizem que chegou lá aonde chegam as almas que perdem o corpo e foi recebido como alguém que tem muitas sombras dentro de si.

— “A mochila não entra”, disse o porteiro.

Como estava acostumado a arranjar desculpas, tentou explicar quem eram os culpados por toda aquela enorme bagagem. Argumentou, inventou lorotas, mas nada adiantou.

O encarregado da entrada das almas merecedoras de honra, explicou que para ser Alguém nós temos de deixar de ser Ninguém.

— “Mas, eu não sou ninguém, eu tenho uma identidade, endereço cpf!!!”

A o que o porteiro retrucou.

— “Isso não prova nada. Você não foi você, você preferiu ser as fantasias que você mesmo criou, por isso você é sua mochila. E aqui mochila não entra!!!”

 Como você acha que esta história acaba? Nós iremos concluí-la numa próxima mensagem.

 O que acontece com quem trai a si mesmo?

Existem muito escritos por aí e muitas inteligências desencarnadas sinalizando mapas para quem queira aproximar-se de Deus. A aproximação não se dará de outra forma que não pela via espiritual. Todos quantos estiverem desejando conectar-se mentalmente e para isso estejam usando da mente física, não o conseguirão. Este desiderato tem de ser espiritual. A via é espiritual, o destino é espiritual. E sendo espiritual, nada tem a ver com o conhecimento terreno. Tudo ocorrerá no mundo da transparência, da luminosidade, da lealdade para com a vida, que é a manifestação da Inteligência Superior.

Nesta conexão, uma mente PhD terá o mesmo valor de uma mente não alfabetizada. O que muda entre as duas é o grau de cobrança, discernimento.

Ah, mas você está cobrando o final do episódio anterior, não é mesmo?

Figuradamente, você precisa entender que o nosso personagem foi mandado para o hospital a fim de livrar-se de sua mochila. Quando estivesse livre, leve e solto, deveria retornar e reivindicar sua entrada no portal das almas dignificadas.

Estivemos analisando a obra de Carl Gustav Jung, um curador de almas e de culturas. Nem chegou a ser bem interpretado em sua época, do mesmo modo como Allan Kardec também não foi. Jung tentou ensinar o caminho humano para o encontro com a alma, o chamado “inconsciente”. Na verdade, a alma não permanecerá nas sombras da inconsciência quando nós tivermos capacidade de nos iluminar e, assim iluminar o caminho até ela: vê-la-emos tornar-se gnose, conhecimento sagrado. É ali que iremos encontrar o “arquivo eterno” de cada um de nós.

Este “arquivo eterno” é o chip que entrará pela portaria, nosso espírito, sem ser barrado, como naquela metáfora, do capítulo anterior, pela dificuldade de livrar-se da mochila.

Por que este chip não será barrado? É porque nele contém a verdade.

Pode-se dizer que esta é a vocação que nos torna humanos, pois nos tornamos menos humanos na medida em que negligenciamos a verdade, em que ignoramos a nossa verdade.

As árvores e as flores, os pássaros e os animais que seguem seu próprio destino são superiores ao homem, à mulher, que traem a si mesmos.

Afastado da sua verdade o ser humano chamará para si o peso perturbador (mochila inócua) da privação da luz, da desconexão, do desenraizamento espiritual, onde tem origem os descaminhos, a doença, o sofrimento, a desorientação, a fuga, a busca de entorpecentes.

Tudo é uma questão de vibrações. O diapasão espiritual, independentemente do conhecimento acadêmico de uma pessoa, arrebata os seres para uma vibração de frequência compatível, elevada, média, baixa, onde transitam os conteúdos de que se ocuparam durante suas vidas no corpo.

A vida é a maior verdade que podemos acessar. Por isso não se pode trair a vida. Ao traí-la, nos tornamos indignos, inferiores, caídos, passíveis de hospitalização.

O que acontece a quem trai a vida?

Afinal, o que é a vida? O que é trair a vida? Para que serve a vida? Qual é o seu objetivo?

Deve haver uma proposta, um propósito, uma razão...

Pense nisso profundamente.

Ficar na oposição à proposta da vida é o que chamamos de traição à vida.

Nada acontece por acaso, não é mesmo?

Este acaso, assim denominado por alguns, chamado de vida, é algo inteligente: pensa, imagina, cria, elabora, emociona-se, produz ação, reage, obtém resultado...

Logo, não é um acaso.

Então, o que é a vida?

Não podemos ser exigentes com a resposta, pois os conteúdos destas páginas têm, geralmente, poucas laudas, e a resposta a uma pergunta com esta profundidade poderia exigir alguns milhões de palavras. Podemos resumir?

A vida é o caminho da verdade para a volta do Homem ao Éden, de onde se afastou por haver adquirido autonomia, capacidade, discernimento e a partir do que iniciou sua caminhada para o mérito de lá retornar, não como dependente da Natureza, mas como co-criador dos mundos, aliado de Deus. Descobrir a verdade, talvez seja a sua reconciliação, primeiro, consigo mesmo, depois com a Natureza e em seguida com a Inteligência Superior. Depois disso o Homem conquistará a condição de merecedor da vida plena, possivelmente deixando a dimensão humana.

A felicidade só existirá por inteiro quando todos os homens puderem optar por serem felizes. Aí chegará o segundo grande momento do Homem, o seu prêmio pela reconciliação com a Natureza: viver e ser feliz.

“A vida é a eterna dança da consciência expressando-se na troca dinâmica de impulsos inteligentes entre o micro e macrocosmos, entre corpo humano e corpo universal, entre a mente humana e a mente cósmica” (Fritjof Capra).

Trair a vida tem muitas nuances: maltratar o próprio corpo com alimentos equivocados; maltratar as emoções com pensamentos destituídos de amor; desmerecer a confiança de seus familiares, amigos e clientes; maltratar o meio social e ambiental. Trair a vida pode ser colocar-se como inimigo dela e querer disto tirar proveito.         

Você ainda quer encontrar-se com sua alma?

Então aqui vamos aprofundar um pouco mais o nosso modo de buscar a interação com a própria alma dentro de um programa de integridade espiritual.

Aprendemos o que a Psicologia chama de Self (inicial maiúscula) e do self (inicial minúscula). Self = alma; self = ego. Para que serve um e outro? Em oposição, só servem para atrapalhar.

Alguns dos mais antigos escritos sobre as oposições impeditivas à Plenitude falam das incompatibilidades existentes entre a dimensão profana, que se corrompe, e a dimensão sagrada que tem a missão de derrotar as próprias imperfeições para se tornar plena.

Os essênios e os gnósticos do Antigo Egito (contemporâneos) acreditavam e difundiam o alcance da Plenitude sem a necessidade de alguém que os conduzisse, tipo sacerdote, pastor ou rabino. Por essa razão os primeiros cristãos, que eram muito próximos culturalmente aos essênios e gnósticos, foram perseguidos e executados. Nada diferente foi a sorte dos cátaros no século XII, no sul da França e dos gnósticos do século XIV em diante, quando pelos mesmos motivos foram alcançados pela Inquisição.

Alguns analistas arriscam opinar que se Kardec não fosse francês, país aonde as liberdades floresceram mais cedo, também os primeiros espíritas teriam sido alcançados pelas condenações capitais já no início daquela doutrina.

Vale lembrar que em pleno século XX, o padre Leonardo Boff foi condenado ao silêncio em sua “Teologia da Libertação” através de um ato da Sagrada Congregação Para a Defesa da Fé, ex-Santo Ofício.

Parece ter sido providencial o surgimento do Espiritismo e da Teosofia depois de 1850, pois a moderna crença no poder dos espíritos também dispensa a condução do sacerdote para a obtenção da libertação da alma.

Então, leitor, conteúdos como este, que falam da fusão, da conexão, da religação do que estava separado, de colar o que estava quebrado e de libertar o que estava preso, só vão se tornando públicos à medida que nós retomamos estudos e práticas que foram eclipsadas há quase 2 mil anos. Não é uma tarefa fácil, mas você pode fazer, começar a fazer e, com o tempo, fazer completamente.

Não se trata de uma retórica ou uma teoria. Jesus passou por esta prova antes de se tornar Messias, segundo algumas fontes. Há uma narrativa nos evangelhos de Nag Hammadi (descobertos no Alto Egito em 1945) que descreve a visita do gêmeo Salvador recebida pelo menino-adolescente, Jesus, a partir do que Ele adquiriu o Conhecimento Messiânico.

A Psicologia entende isso como a fusão do Ego com o Espírito, do self com o Self.

O maniqueísmo também se refere à mesma coisa havida com o profeta Mani (215-277d.C.), também aos 12 anos, em que recebeu a visita de um anjo gêmeo, do qual recebeu a outorga para proclamar a doutrina.

O leitor está convocado a buscar a fusão do ego com o Espírito, iniciando uma caminhada progressiva de identificação entre os dois, através do que o ego será completamente absorvido, isto é, destruído. Não importa o tempo que isso demore. Esta é a meta. Existem razões para acreditar ser este o destino de todos nós.

Na linguagem psicológica de Jung, significa que a Sombra será iluminada, trabalho que tentaremos levar adiante em próximos artigos. 

Vamos lá: Muito prazer, senhor Eu!

Este é um artigo para ler e reler sempre que você tiver a sensação de que pensamento e ação não são coerentes. Levaremos isso adiante falando na primeira pessoa.

Talvez eu possa pensar e agir coerentemente. Eu não tenho mais dúvidas, vai ser assim.  Eu me apresento a mim e me reconheço Eu. Eu me assumo como um todo Eu, inseparável, indissociável, uno, completo, íntegro. Deste momento em diante não existirá mais pensamentos em oposição às ações, ou ações dissociadas dos pensamentos ou da vontade. Não haverá mais pensamentos invasores minando a construção de uma verdade única: Eu sou o que fui, o que sou e o que serei, com base naquilo que desejei, pensei, fiz, desejo, penso, faço, desejarei, pensarei, farei.

Nada em minha história deve ser escondido, negado, justificado. De nada pedirei perdão ou buscarei desculpa, pois são eventos incorporados à minha ficha pessoal pela qual pretendo responder até o último ceitil.

Tudo que fiz foram obras minhas e jamais negarei sua autoria. Foram, são e serão resultados esperados, efeitos de causas, reações a ações. Estarão anotadas em meus feitos e caberá a mim, exclusivamente a mim, as responsabilidades por suas consequências. Mais do que responder por tudo, caberá a mim trabalhar por reparar o que tiver de ser reparado e melhorar o que tiver que ser melhorado.

Eu me descubro pouco a pouco; eu caminho na direção da minha verdade; eu me conheço cada dia mais; eu me amo cada dia mais; eu me assumo cada dia mais; eu me responsabilizo por mim cada dia mais.

Agora, não mais haverá culpados ou algozes pelas coisas que me aconteceram, acontecem e acontecerão. Tudo quanto houve eram as únicas coisas e pessoas que poderia haver.

Todas as pessoas e coisas que participaram da minha história e da minha construção eram as únicas pessoas e coisas, pessoas e coisas certas, que poderiam existir. Do mesmo modo, deste momento para frente, pessoas e coisas surgirão, permanecerão, ir-se-ão e tudo estará certo, justo, perfeito.

Na condução da minha vida não haverá lugar para dois pilotos opostos.

As oscilações entre claro e escuro, frio e quente, alto e baixo, belo e feio, serão contingências pelas quais terei de passar na construção de um caráter, de uma personalidade, de uma índole, a minha, inseparavelmente minha, a única que tenho e terei.

Eu não negarei a mim mesmo. Eu não trairei a mim mesmo. Eu não buscarei subterfúgios para mim mesmo. Eu quero ser a minha verdade. A minha verdade não precisará de adjetivos, conceitos, versões.

Eu sou Eu.

O espírito que me tem como aparelho de sua evolução não precisará envergonhar-se de mim. A minha dignidade não precisará de carteiraços, jeitinhos, desvios, engodos, muletas, aditivos, doping. A minha luz brilhará na exata proporção de como sou e serei. Eu não precisarei mais de que se acendam holofotes sobre mim para que eu apareça ou seja notado. Eu não precisarei mais de insinuar-me para merecer qualquer reconhecimento, distinção, poder, prêmio ou recompensa. Tudo quanto tenha de pertencer-me como vitória ou conquista minha, tem de vir a mim por mérito exclusivamente meu.

Então, eu renuncio desde já as decepções, as frustrações, os melindres, as mazelas, as seqüelas por coisas ou pessoas que não tenham trazido, tragam ou trarão resultados adversos ao que eu imaginava.

Continuarei tendo sonhos, imaginando o melhor que me possa acontecer, mas nunca desistirei deles se o caminho buscado para obtê-los possa ser diferente daquele que imagino ser o correto.

Terei a humildade de consultar a minha consciência, o meu Eu Profundo e jamais “acharei” isto ou aquilo “coisa ideal” por conta de instintos ou devaneios. O que vale dizer: tudo quanto vir a ser tem de ser como quero ser.

Então, muito prazer, senhor Eu. Estaremos nos conhecendo melhor de agora em diante.     

Dignifica-te (pegando leve)

Trechos de um poema cuja autoria desconheço:

Se você acha que está derrotado, está;

Se pensa que vai perder, está perdido.

Pois, nós, as pessoas que pensam,

pensamos o que vamos viver.

Entre outras frases de grande interesse, o poema se despede com a frase: “lembre-se de que você é quem merece ser”.

Nada mais, nada menos: aquilo que pensamos, somos.

Significa que naquilo que focamos nosso pensar a vida para lá se dirigirá, independentemente se se trata de uma grande fantasia ou de uma triste miséria.

Você pode pensar que é a rainha da Inglaterra, pode querer viver como uma alteza sem que nada de concreto sedimente esse “reinado”. Perceba aí o abismo que se abre entre querer e obter. O vazio, a fantasia, a mentira acabará por produzir um resultado.

Conclusão: a vida cobrará a sua verdade.

Outra versão entre as milhares de possibilidades que existem: você tem talento, mas não acredita em si mesmo. Você é uma rara “mercadoria” cujo preço foi rebaixado e ninguém a quer por desconfiar da “mercadoria”. Há um limite para o grau de auto-estima. Ao ser super valorizada ela será tomada por fantasiosa e perderá o crédito. Ao ser sub valorizada ela será tomada por coisa imprestável e também perderá o crédito. A palavra crédito em todas as situações se aplica à dignidade pessoal e a lição que fica é que ninguém consegue viver fora de sua própria casinha.

Ego inchado e ego minguado fazem mal do mesmo jeito.

Nunca devemos esquecer que a proposta desta página é a busca do desenvolvimento espiritual e que por vezes os assuntos parecem nada ter de espiritual. Será mesmo? Você acha que sentado no volante, dirigindo um carro, não somos seres espirituais? Acha no auge da balada, namorando, tirando um sarro, não somos seres espirituais?

Olha, num dos artigos anteriores, quando propusemos um encontro com nosso Eu, isso já ficou bem claro: sempre e até naquela horinha danada de furar a fila ou de jogar o lixo pela janela, somos seres espirituais.

Naquelas horas em que você se desacredita, desvaloriza-se ou, no sentido contrário, inventa suas super valorizações egoísticas, situações em que fabrica uma muleta para andar pela vida, não há a menor dúvida, seu espírito pode desejar saltar fora de você.

Talvez não o faça por acreditar num milagre.

Então, seja o seu próprio milagre! Dignifica-te com a verdade, com a sua própria verdade. 

Dignifica-te (pegando pesado)

Três situações insólitas ligadas à dignidade pessoal, auto-estima e maestria pessoal. Quer dizer ligadas a ter ou não ter.

Primeira: a mulher muito bem arrumada e perfumada caminha pelo calçadão quando o galanteador solta esta: “por que tudo isso se você é muito mais apreciada desnuda?”.

A resposta da mulher é à altura de seu perfil: “eu me arrumo pra mim, adoro me ver sempre pra cima”.

Segunda: o homem está no bar tomando, já, sua terceira dose, quando um amigo seu entra pra comprar cigarros e pergunta ‘tudo bem?’”

A resposta do homem é ‘tudo mal, esta vida é uma eme’.

Resposta do amigo: ‘como é que você quer tornar tudo melhor se você não se preza?’

Terceira: o mendigo anda com dificuldade pra lá e pra cá no sinal de trânsito estendendo a mão para ganhar uma moedinha. O motorista abaixa o vidro e diz: ‘vai trabalhar vagabundo’!

O mendigo retruca: ‘moço, apesar de aleijado, eu estou trabalhando, mas ali naquele próximo sinal tem um marmanjo bêbado sentado embaixo da árvore enquanto seu filhinho de 7 anos pede esmola. Quem merece receber?’

E aqui vai a derradeira pergunta: a seu juízo, quem agiu certo dentre todos os personagens desta narrativa?

Claro, as opções são várias, mas o interesse em sua resposta é para puxar pelo esforço dos leitores em refletir sobre dignificar-se perante a vida, merecer ser visto com alguém que não precisa esconder o rosto de si próprio.

Lembremo-nos de que somos seres espirituais no bar, no banho, na esquina, do semáforo, dormindo, na igreja, no estádio, no trânsito, onde for.

Para encerrar o papo de hoje, uma máxima do marketing: “o sol nasce pra todos e a sombra pra quem se esconde”.

Até semana que vem.