sábado, 20 de fevereiro de 2016

1834-Ainda temos carência de muletas


Máscaras para iludir o sentir sagrado

Introdução

Todo estudioso que tenha tomado algum interesse pelo xamanismo e/ou pela mitologia terá encontrado dentre outros sinais, locais e significados sagrados aquilo que também pode ser chamado de “centro do mundo”: uma árvore, uma pedra, uma montanha, uma torre, uma cidade...

Que papel teriam os montes Sião, Olimpo, Meru, Macchu Picchu e as cidades como Alexandria, Jerusalém, Meca, Belém, Atenas, Roma, Medina, se não o de corporificar algo que, para os homens, é o símbolo do sagrado?

A produção de arquétipos é uma necessidade humana. Viemos de um vago imenso e estamos a caminho de uma essência precisa: precisamos de balizas. O destino é chegar ao centro, ao âmago. Quando a alma conhece-se a si mesma, eis a verdade.

Se hoje, para alguns, os totens já não têm significado, para outros as imagens de poder ainda povoam os altares, os escapulários ainda são levados, como as guias, pendentes ao peito. Ainda se risca no terreiro o ponto do orixá.

Precisamos do sinal físico da estação-mãe para sentirmo-nos protegidos, ligados, conectados, numa vã comparação a um telefone celular: só tem sentido se tiver sinal.

Chegamos à modernidade e ao invés de nos emanciparmos como seres maduros que constroem para si uma civilização de paz e amor, nos perdemos nas drogas, no alcoolismo, nos fetiches da pior energia. A droga traz consigo o traficante violento, além dos problemas sociais, as bebidas trazem consigo um elenco de problemas sociais e os fetiches através dos quais nos conectamos, também nos conectam com as piores energias.

Num estudo pela busca do centro do mundo identificamos que a busca mudou de sentido.

Veja: uma vez, Alexandria simbolizava a liberdade, a criatividade, o pluralismo espiritual, quase em oposição a Jerusalém, símbolo da lei, da temível majestade senhorial do patriarca da religiosidade semítica. Mas, ambas tinham sentido.

Todos os episódios dos primeiros séculos cristãos foram transformando Alexandria em uma cidade turística e mística, e foram transformando Jerusalém numa cidade mística e turística.

Enquanto isso, Roma chamava para si o brilho de uma religião sem espírito, dogmática, materialista, usuária do poder terreno. E, por isso, sem o encanto sagrado.

Enquanto outros pontos do planeta iam conquistando vigor sagrado, Jerusalém, após derrotar (no prestígio) Alexandria e Atenas, foi ganhando foros de uma arena sobre a qual três crenças fazem disputa por uma das três verdades sagrada.

Com imensa saudade do significado sagrado daqueles ex-centros do mundo, muitos de nós vamos fundando novas Alexandrias, novas Jerusaléns, novas Beléns, novas Romas, bem como aquele homem que se renova por fora e continua o mesmo por dentro.

O sagrado de nossas almas continua a pedir-nos revitalização ampla, consideração absoluta, respeito máximo, valor integral. E o seu grito não é ouvido. Sim parece ser ouvido como incômodo, então para silenciá-lo nos drogamos.  

E enquanto nós não enveredarmos decididos em sua direção, ir-nos-emos perdendo nos pontos de fuga para a escuridão, para o lodo, para a ambivalência, para o submundo, em que o consolo é a embriaguez, o doping, a droga, a luxúria, os brilhos, o poder. 

Os códigos da vida

Aquele que não respeita as leis é chamado de fora-da-lei. Para os homens, o fora-da-lei merece ser penalizado, trancafiado, reeducado, recuperado. Em algumas sociedades, o fora-da-lei é alcançado pela pena de morte.

Isso tudo está nos códigos elaborados pelos homens e tem a ver com as relações entre os homens e sua organização civil e militar. E quando nos fazemos fora-da-lei divina, como você acha que somos tratados? Do mesmíssimo modo, com a diferença que na lei dos homens o apenado é ensinado e na lei divina o apenado deve aprender por si mesmo.

Já obtive reações contrárias consideráveis quanto a este ponto de vista.

Como existe uma sentença em cada cabeça, para certas mentes é um absurdo pensar que Deus possa matar alguém porque a sua lei foi desrespeitada. Mas, só não conclui quem não quer observar. O que é o infarto do miocárdio se não uma pena de morte aplicada àquele que desrespeitou seu organismo?! O que é uma morte provocada por drogadição se não uma pena de morte a quem desrespeitou seu organismo?! Haveria outros exemplos como morrer soterrado por haver construído seu lar onde não é recomendado, etc., etc., mas a discussão irá ficar muito extensa.

É um absurdo pensar que Deus seria capaz de excluir, segregar, trancafiar um filho seu desobediente, um fora-da-lei, a ponto de aplicar-lhe a pena de morte? NÃO. Com a diferença – se houver flexibilidade mental – de que esta morte é apenas um estágio. O apenado pode retornar, aprender as lições, dignificar-se, distantemente do conceito de fora-da-lei.

Na verdade, todo analista dos códigos da vida nunca poderá deixar de considerar todos os ângulos da questão. Nós não temos um Deus para cuidar dos pecados, das almas, do paraíso e outro para lidar com as florestas, os pomares, as lavouras, a saúde, o tráfego nas estradas. Tudo é uma coisa só.

Então aquele Deus que escreveu rígidos códigos de equilíbrio à saúde e deu a todos os seres o livre arbítrio de escolher o que comer, beber e como comportar-se, jamais fará descer sua espada sobre a cabeça do fora-da-lei, é este que opta por consumir-se, excluir-se, pular fora do sistema a que ele foi chamado pertencer. Parece que agora as divergências começarão a aquietar-se. Não é, mesmo?

Ou será que, na lei dos homens, o homem que optou por matar e roubar também não decidiu por pular fora do sistema a que ele foi chamado pertencer?

É isso, gente amiga. Nada muda, aparentemente.

O motorista que toma a contramão para conduzir seu carro e bate contra o outro que vem em sentido contrário, optou ou não optou por correr o risco de matar e morrer?

Ah, mas, o pobre teve um azar danado, pois havia outro carro vindo em sentido contrário. Nada disso, vir carros no sentido contrário é da lei do tráfego, o que não é da lei do tráfego é trafegar na contramão, exceto com muita segurança para uma ultrapassagem.

Biologicamente falando nós estamos aqui travando contato neste texto porque nossos ancestrais souberam cumprir a lei, conseguiram transmitir aos seus descendentes os genes que hoje nos servem de veículo às nossas almas. Experimenta parar de ingerir uma determinada substância capital ao seu corpo, a água, por exemplo, e veja qual é o resultado.

Sabes quantos seres humanos foram excluídos do sistema ao qual foram chamados pertencer por falta d’água? Bilhões. Alguns dentre eles terão sobrevivido? Provavelmente. O que é isso se não a seleção natural?

E você acha que espiritualmente também não existe uma seleção natural? Existe. Desde sempre.

Nós temos dois códigos para respeitar e sempre que os desrespeitamos somos jogados para fora do sistema a que fomos chamados pertencer. Um deles, já referido, é o biológico. O outro é o espiritual, possivelmente ainda mais sofisticado e exigente. Sempre que, vibracionalmente, nos conduzimos para fora do sistema (egrégora) a que podemos pertencer por mérito, estamos saindo do sistema, deixando o sistema. Não é o sistema que nos exclui. Somos nós que optamos por sair ao perder a sintonia.

Você já esteve diante de sua alma?

Eu sei, você dirá, como assim? Sua pergunta faz sentido.

Se você e ela são a mesma coisa, como isso seria possível?

Tem um jeito.

Você conhece alguma história de encontros entre pessoas que começam namoros por correspondência (hoje internet) e marcam para se encontrar? Pois é, existem estórias por aí não só em romances e novelas, mas na vida real, em que dois seres enamorados um do outro preparam seu primeiro encontro, a aproximação física da princesa e do príncipe encantados...

Na interpretação corriqueira seguindo a cultura, a moça vai ao salão, encomenda um penteado, pinta as unhas, faz maquiagem, veste o melhor vestido, calça o melhor e mais bonito sapato. O rapaz idem, idem. Também, por parte dela e dele há toda uma preocupação em causar uma boa impressão, evitar gestos ou palavras que possam estragar tudo. O encontro mais importante daquela fase de suas vidas está por acontecer. Nada pode sair errado. E quantos namoros prosperaram depois de tais encontros? São incontáveis.

Então prepare-se amigo, amiga leitor(a). Estamos planejando colocar você diante de sua alma para que se apaixonem de uma vez por todas e acabe essa picardia boba entre vocês dois.

Como dois?

Calma. Estamos falando de dois seres que podem chegar ao ódio: (1) a mente terrena, formatada pelos processos culturais, pelas tradições de uma família e (2) a mente eterna que pode estar a milhões de anos buscando seu crescimento espiritual.

Como é que vocês vão se amar se vocês não conversam, não namoram?

Este encontro não pode admitir a menor possibilidade de fracasso, a menos que o espírito esteja por abandonar o corpo ou o corpo esteja desejando livrar-se do espírito.

É o seu caso?

Saiba que no primeiro caso é a morte, talvez prematura; no segundo, é o suicídio. O que muda?

Então não é o seu caso, certo?

Veja como isso será maravilhoso.

Na verdade, o encontro dos “namorados” desta metáfora deu-se no instante da fecundação no ventre da mãe. A preocupação com a boa impressão é coisa passada, já foi resolvida. Aqui se está tentando aproximar alguém que já vive junto há muito tempo e não se conhece, não conversa, não se curte, não se preza, não se prestigia, quem sabe nem se ame...

Vai haver, sim, necessidade de franqueza e honestidade, não de parte do espírito, mas de parte da mente terrena, educada para levar vantagem, tirar proveito, ludibriar, driblar, buscar escapes.

Na maioria dos casos tem origem nessa malandragem todo o desacerto da vida terrena em relação à porção eterna.

Você quer, mesmo, ficar frente a frente com sua alma, conhecê-la, respeitá-la, amá-la?

Pense bem, decida convictamente e volte aqui para ler a continuidade desse texto.

Você quer, mesmo, ir ao encontro da sua alma?

Antes, porém, conheça a história de outro alguém numa situação parecida com a sua. Entenda, isto aqui é uma metáfora, uma lenda, um causo.

Era uma vez uma pessoa, com nome, endereço e cpf. Lidava com as coisas e pessoas de sua vida de um modo especial, como será narrado.

Tudo quanto saísse errado, tinha de ter um culpado externo. Algumas vezes eram seus pais, noutras seus irmãos, noutras mais o prefeito, o governador, o vizinho, enfim, alguém, a Dilma.

Tudo quanto fizesse de errado, precisava ser escondido, jogado pra baixo do tapete, guardado num cantinho escuro da consciência.

No início, só algumas coisas eram guardadas. Depois, muitas coisas. É sempre assim, o primeiro erro puxa o segundo, puxa o terceiro...

O depósito foi ficando cheio, inchado, transbordante...

Chegou um tempo em que o nosso personagem precisava inventar uma mentira para encobrir outra, arranjar um novo esconderijo para esconder um novo erro.

Como fantasmas, seus erros se agigantavam em seu íntimo. E ocupavam quase todas as suas energias.

Se quiser, pode comparar com alguém que carrega uma enorme mochila às costas, sem nenhum conteúdo útil.

Por conta de se ocupar excessivamente com seus monstros íntimos, o nosso personagem já não sonhava com nenhuma coisa boa, não tinha tempo para imaginar coisas novas, boas e interessantes.

Todos os dias brigava com seus monstros, obrigando-os a permanecerem engavetados, encaixotados, arquivados, escondidos.

Tinha dias que os monstros brigavam entre si, cada qual querendo ocupar maior espaço na mente do nosso personagem.

Por conta desse turbilhão de inquietações, vinham também as correrias e nosso personagem começou a faltar com suas obrigações, esquecer seus compromissos, sofrer pequenos acidentes, até que, um dia, foi além: teve uma enorme discussão com sua cônjuge, perdeu a cabeça, meteu a faca no peito da cônjuge, matou-a.

E mais uma vez não assumiu seu erro: fugiu de casa, escondeu-se da polícia.

Veja, agora, já não eram apenas os seus monstros que estavam escondidos.

O próprio personagem também se escondia.

Mas, foi localizado, recebeu voz de prisão, não se entregou, tentou fugir mais uma vez e foi atingido pelas balas dos policiais. Morreu.

Dizem que chegou lá aonde chegam as almas que perdem o corpo e foi recebido como alguém que tem muitas sombras dentro de si.

— “A mochila não entra”, disse o porteiro.

Como estava acostumado a arranjar desculpas, tentou explicar quem eram os culpados por toda aquela enorme bagagem. Argumentou, inventou lorotas, mas nada adiantou.

O encarregado da entrada das almas merecedoras de honra, explicou que para ser Alguém nós temos de deixar de ser Ninguém.

— “Mas, eu não sou ninguém, eu tenho uma identidade, endereço cpf!!!”

A o que o porteiro retrucou.

— “Isso não prova nada. Você não foi você, você preferiu ser as fantasias que você mesmo criou, por isso você é sua mochila. E aqui mochila não entra!!!”

 Como você acha que esta história acaba? Nós iremos concluí-la numa próxima mensagem.

 O que acontece com quem trai a si mesmo?

Existem muito escritos por aí e muitas inteligências desencarnadas sinalizando mapas para quem queira aproximar-se de Deus. A aproximação não se dará de outra forma que não pela via espiritual. Todos quantos estiverem desejando conectar-se mentalmente e para isso estejam usando da mente física, não o conseguirão. Este desiderato tem de ser espiritual. A via é espiritual, o destino é espiritual. E sendo espiritual, nada tem a ver com o conhecimento terreno. Tudo ocorrerá no mundo da transparência, da luminosidade, da lealdade para com a vida, que é a manifestação da Inteligência Superior.

Nesta conexão, uma mente PhD terá o mesmo valor de uma mente não alfabetizada. O que muda entre as duas é o grau de cobrança, discernimento.

Ah, mas você está cobrando o final do episódio anterior, não é mesmo?

Figuradamente, você precisa entender que o nosso personagem foi mandado para o hospital a fim de livrar-se de sua mochila. Quando estivesse livre, leve e solto, deveria retornar e reivindicar sua entrada no portal das almas dignificadas.

Estivemos analisando a obra de Carl Gustav Jung, um curador de almas e de culturas. Nem chegou a ser bem interpretado em sua época, do mesmo modo como Allan Kardec também não foi. Jung tentou ensinar o caminho humano para o encontro com a alma, o chamado “inconsciente”. Na verdade, a alma não permanecerá nas sombras da inconsciência quando nós tivermos capacidade de nos iluminar e, assim iluminar o caminho até ela: vê-la-emos tornar-se gnose, conhecimento sagrado. É ali que iremos encontrar o “arquivo eterno” de cada um de nós.

Este “arquivo eterno” é o chip que entrará pela portaria, nosso espírito, sem ser barrado, como naquela metáfora, do capítulo anterior, pela dificuldade de livrar-se da mochila.

Por que este chip não será barrado? É porque nele contém a verdade.

Pode-se dizer que esta é a vocação que nos torna humanos, pois nos tornamos menos humanos na medida em que negligenciamos a verdade, em que ignoramos a nossa verdade.

As árvores e as flores, os pássaros e os animais que seguem seu próprio destino são superiores ao homem, à mulher, que traem a si mesmos.

Afastado da sua verdade o ser humano chamará para si o peso perturbador (mochila inócua) da privação da luz, da desconexão, do desenraizamento espiritual, onde tem origem os descaminhos, a doença, o sofrimento, a desorientação, a fuga, a busca de entorpecentes.

Tudo é uma questão de vibrações. O diapasão espiritual, independentemente do conhecimento acadêmico de uma pessoa, arrebata os seres para uma vibração de frequência compatível, elevada, média, baixa, onde transitam os conteúdos de que se ocuparam durante suas vidas no corpo.

A vida é a maior verdade que podemos acessar. Por isso não se pode trair a vida. Ao traí-la, nos tornamos indignos, inferiores, caídos, passíveis de hospitalização.

O que acontece a quem trai a vida?

Afinal, o que é a vida? O que é trair a vida? Para que serve a vida? Qual é o seu objetivo?

Deve haver uma proposta, um propósito, uma razão...

Pense nisso profundamente.

Ficar na oposição à proposta da vida é o que chamamos de traição à vida.

Nada acontece por acaso, não é mesmo?

Este acaso, assim denominado por alguns, chamado de vida, é algo inteligente: pensa, imagina, cria, elabora, emociona-se, produz ação, reage, obtém resultado...

Logo, não é um acaso.

Então, o que é a vida?

Não podemos ser exigentes com a resposta, pois os conteúdos destas páginas têm, geralmente, poucas laudas, e a resposta a uma pergunta com esta profundidade poderia exigir alguns milhões de palavras. Podemos resumir?

A vida é o caminho da verdade para a volta do Homem ao Éden, de onde se afastou por haver adquirido autonomia, capacidade, discernimento e a partir do que iniciou sua caminhada para o mérito de lá retornar, não como dependente da Natureza, mas como co-criador dos mundos, aliado de Deus. Descobrir a verdade, talvez seja a sua reconciliação, primeiro, consigo mesmo, depois com a Natureza e em seguida com a Inteligência Superior. Depois disso o Homem conquistará a condição de merecedor da vida plena, possivelmente deixando a dimensão humana.

A felicidade só existirá por inteiro quando todos os homens puderem optar por serem felizes. Aí chegará o segundo grande momento do Homem, o seu prêmio pela reconciliação com a Natureza: viver e ser feliz.

“A vida é a eterna dança da consciência expressando-se na troca dinâmica de impulsos inteligentes entre o micro e macrocosmos, entre corpo humano e corpo universal, entre a mente humana e a mente cósmica” (Fritjof Capra).

Trair a vida tem muitas nuances: maltratar o próprio corpo com alimentos equivocados; maltratar as emoções com pensamentos destituídos de amor; desmerecer a confiança de seus familiares, amigos e clientes; maltratar o meio social e ambiental. Trair a vida pode ser colocar-se como inimigo dela e querer disto tirar proveito.         

Você ainda quer encontrar-se com sua alma?

Então aqui vamos aprofundar um pouco mais o nosso modo de buscar a interação com a própria alma dentro de um programa de integridade espiritual.

Aprendemos o que a Psicologia chama de Self (inicial maiúscula) e do self (inicial minúscula). Self = alma; self = ego. Para que serve um e outro? Em oposição, só servem para atrapalhar.

Alguns dos mais antigos escritos sobre as oposições impeditivas à Plenitude falam das incompatibilidades existentes entre a dimensão profana, que se corrompe, e a dimensão sagrada que tem a missão de derrotar as próprias imperfeições para se tornar plena.

Os essênios e os gnósticos do Antigo Egito (contemporâneos) acreditavam e difundiam o alcance da Plenitude sem a necessidade de alguém que os conduzisse, tipo sacerdote, pastor ou rabino. Por essa razão os primeiros cristãos, que eram muito próximos culturalmente aos essênios e gnósticos, foram perseguidos e executados. Nada diferente foi a sorte dos cátaros no século XII, no sul da França e dos gnósticos do século XIV em diante, quando pelos mesmos motivos foram alcançados pela Inquisição.

Alguns analistas arriscam opinar que se Kardec não fosse francês, país aonde as liberdades floresceram mais cedo, também os primeiros espíritas teriam sido alcançados pelas condenações capitais já no início daquela doutrina.

Vale lembrar que em pleno século XX, o padre Leonardo Boff foi condenado ao silêncio em sua “Teologia da Libertação” através de um ato da Sagrada Congregação Para a Defesa da Fé, ex-Santo Ofício.

Parece ter sido providencial o surgimento do Espiritismo e da Teosofia depois de 1850, pois a moderna crença no poder dos espíritos também dispensa a condução do sacerdote para a obtenção da libertação da alma.

Então, leitor, conteúdos como este, que falam da fusão, da conexão, da religação do que estava separado, de colar o que estava quebrado e de libertar o que estava preso, só vão se tornando públicos à medida que nós retomamos estudos e práticas que foram eclipsadas há quase 2 mil anos. Não é uma tarefa fácil, mas você pode fazer, começar a fazer e, com o tempo, fazer completamente.

Não se trata de uma retórica ou uma teoria. Jesus passou por esta prova antes de se tornar Messias, segundo algumas fontes. Há uma narrativa nos evangelhos de Nag Hammadi (descobertos no Alto Egito em 1945) que descreve a visita do gêmeo Salvador recebida pelo menino-adolescente, Jesus, a partir do que Ele adquiriu o Conhecimento Messiânico.

A Psicologia entende isso como a fusão do Ego com o Espírito, do self com o Self.

O maniqueísmo também se refere à mesma coisa havida com o profeta Mani (215-277d.C.), também aos 12 anos, em que recebeu a visita de um anjo gêmeo, do qual recebeu a outorga para proclamar a doutrina.

O leitor está convocado a buscar a fusão do ego com o Espírito, iniciando uma caminhada progressiva de identificação entre os dois, através do que o ego será completamente absorvido, isto é, destruído. Não importa o tempo que isso demore. Esta é a meta. Existem razões para acreditar ser este o destino de todos nós.

Na linguagem psicológica de Jung, significa que a Sombra será iluminada, trabalho que tentaremos levar adiante em próximos artigos. 

Vamos lá: Muito prazer, senhor Eu!

Este é um artigo para ler e reler sempre que você tiver a sensação de que pensamento e ação não são coerentes. Levaremos isso adiante falando na primeira pessoa.

Talvez eu possa pensar e agir coerentemente. Eu não tenho mais dúvidas, vai ser assim.  Eu me apresento a mim e me reconheço Eu. Eu me assumo como um todo Eu, inseparável, indissociável, uno, completo, íntegro. Deste momento em diante não existirá mais pensamentos em oposição às ações, ou ações dissociadas dos pensamentos ou da vontade. Não haverá mais pensamentos invasores minando a construção de uma verdade única: Eu sou o que fui, o que sou e o que serei, com base naquilo que desejei, pensei, fiz, desejo, penso, faço, desejarei, pensarei, farei.

Nada em minha história deve ser escondido, negado, justificado. De nada pedirei perdão ou buscarei desculpa, pois são eventos incorporados à minha ficha pessoal pela qual pretendo responder até o último ceitil.

Tudo que fiz foram obras minhas e jamais negarei sua autoria. Foram, são e serão resultados esperados, efeitos de causas, reações a ações. Estarão anotadas em meus feitos e caberá a mim, exclusivamente a mim, as responsabilidades por suas consequências. Mais do que responder por tudo, caberá a mim trabalhar por reparar o que tiver de ser reparado e melhorar o que tiver que ser melhorado.

Eu me descubro pouco a pouco; eu caminho na direção da minha verdade; eu me conheço cada dia mais; eu me amo cada dia mais; eu me assumo cada dia mais; eu me responsabilizo por mim cada dia mais.

Agora, não mais haverá culpados ou algozes pelas coisas que me aconteceram, acontecem e acontecerão. Tudo quanto houve eram as únicas coisas e pessoas que poderia haver.

Todas as pessoas e coisas que participaram da minha história e da minha construção eram as únicas pessoas e coisas, pessoas e coisas certas, que poderiam existir. Do mesmo modo, deste momento para frente, pessoas e coisas surgirão, permanecerão, ir-se-ão e tudo estará certo, justo, perfeito.

Na condução da minha vida não haverá lugar para dois pilotos opostos.

As oscilações entre claro e escuro, frio e quente, alto e baixo, belo e feio, serão contingências pelas quais terei de passar na construção de um caráter, de uma personalidade, de uma índole, a minha, inseparavelmente minha, a única que tenho e terei.

Eu não negarei a mim mesmo. Eu não trairei a mim mesmo. Eu não buscarei subterfúgios para mim mesmo. Eu quero ser a minha verdade. A minha verdade não precisará de adjetivos, conceitos, versões.

Eu sou Eu.

O espírito que me tem como aparelho de sua evolução não precisará envergonhar-se de mim. A minha dignidade não precisará de carteiraços, jeitinhos, desvios, engodos, muletas, aditivos, doping. A minha luz brilhará na exata proporção de como sou e serei. Eu não precisarei mais de que se acendam holofotes sobre mim para que eu apareça ou seja notado. Eu não precisarei mais de insinuar-me para merecer qualquer reconhecimento, distinção, poder, prêmio ou recompensa. Tudo quanto tenha de pertencer-me como vitória ou conquista minha, tem de vir a mim por mérito exclusivamente meu.

Então, eu renuncio desde já as decepções, as frustrações, os melindres, as mazelas, as seqüelas por coisas ou pessoas que não tenham trazido, tragam ou trarão resultados adversos ao que eu imaginava.

Continuarei tendo sonhos, imaginando o melhor que me possa acontecer, mas nunca desistirei deles se o caminho buscado para obtê-los possa ser diferente daquele que imagino ser o correto.

Terei a humildade de consultar a minha consciência, o meu Eu Profundo e jamais “acharei” isto ou aquilo “coisa ideal” por conta de instintos ou devaneios. O que vale dizer: tudo quanto vir a ser tem de ser como quero ser.

Então, muito prazer, senhor Eu. Estaremos nos conhecendo melhor de agora em diante.     

Dignifica-te (pegando leve)

Trechos de um poema cuja autoria desconheço:

Se você acha que está derrotado, está;

Se pensa que vai perder, está perdido.

Pois, nós, as pessoas que pensam,

pensamos o que vamos viver.

Entre outras frases de grande interesse, o poema se despede com a frase: “lembre-se de que você é quem merece ser”.

Nada mais, nada menos: aquilo que pensamos, somos.

Significa que naquilo que focamos nosso pensar a vida para lá se dirigirá, independentemente se se trata de uma grande fantasia ou de uma triste miséria.

Você pode pensar que é a rainha da Inglaterra, pode querer viver como uma alteza sem que nada de concreto sedimente esse “reinado”. Perceba aí o abismo que se abre entre querer e obter. O vazio, a fantasia, a mentira acabará por produzir um resultado.

Conclusão: a vida cobrará a sua verdade.

Outra versão entre as milhares de possibilidades que existem: você tem talento, mas não acredita em si mesmo. Você é uma rara “mercadoria” cujo preço foi rebaixado e ninguém a quer por desconfiar da “mercadoria”. Há um limite para o grau de auto-estima. Ao ser super valorizada ela será tomada por fantasiosa e perderá o crédito. Ao ser sub valorizada ela será tomada por coisa imprestável e também perderá o crédito. A palavra crédito em todas as situações se aplica à dignidade pessoal e a lição que fica é que ninguém consegue viver fora de sua própria casinha.

Ego inchado e ego minguado fazem mal do mesmo jeito.

Nunca devemos esquecer que a proposta desta página é a busca do desenvolvimento espiritual e que por vezes os assuntos parecem nada ter de espiritual. Será mesmo? Você acha que sentado no volante, dirigindo um carro, não somos seres espirituais? Acha no auge da balada, namorando, tirando um sarro, não somos seres espirituais?

Olha, num dos artigos anteriores, quando propusemos um encontro com nosso Eu, isso já ficou bem claro: sempre e até naquela horinha danada de furar a fila ou de jogar o lixo pela janela, somos seres espirituais.

Naquelas horas em que você se desacredita, desvaloriza-se ou, no sentido contrário, inventa suas super valorizações egoísticas, situações em que fabrica uma muleta para andar pela vida, não há a menor dúvida, seu espírito pode desejar saltar fora de você.

Talvez não o faça por acreditar num milagre.

Então, seja o seu próprio milagre! Dignifica-te com a verdade, com a sua própria verdade. 

Dignifica-te (pegando pesado)

Três situações insólitas ligadas à dignidade pessoal, auto-estima e maestria pessoal. Quer dizer ligadas a ter ou não ter.

Primeira: a mulher muito bem arrumada e perfumada caminha pelo calçadão quando o galanteador solta esta: “por que tudo isso se você é muito mais apreciada desnuda?”.

A resposta da mulher é à altura de seu perfil: “eu me arrumo pra mim, adoro me ver sempre pra cima”.

Segunda: o homem está no bar tomando, já, sua terceira dose, quando um amigo seu entra pra comprar cigarros e pergunta ‘tudo bem?’”

A resposta do homem é ‘tudo mal, esta vida é uma eme’.

Resposta do amigo: ‘como é que você quer tornar tudo melhor se você não se preza?’

Terceira: o mendigo anda com dificuldade pra lá e pra cá no sinal de trânsito estendendo a mão para ganhar uma moedinha. O motorista abaixa o vidro e diz: ‘vai trabalhar vagabundo’!

O mendigo retruca: ‘moço, apesar de aleijado, eu estou trabalhando, mas ali naquele próximo sinal tem um marmanjo bêbado sentado embaixo da árvore enquanto seu filhinho de 7 anos pede esmola. Quem merece receber?’

E aqui vai a derradeira pergunta: a seu juízo, quem agiu certo dentre todos os personagens desta narrativa?

Claro, as opções são várias, mas o interesse em sua resposta é para puxar pelo esforço dos leitores em refletir sobre dignificar-se perante a vida, merecer ser visto com alguém que não precisa esconder o rosto de si próprio.

Lembremo-nos de que somos seres espirituais no bar, no banho, na esquina, do semáforo, dormindo, na igreja, no estádio, no trânsito, onde for.

Para encerrar o papo de hoje, uma máxima do marketing: “o sol nasce pra todos e a sombra pra quem se esconde”.

Até semana que vem.

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