domingo, 6 de março de 2016

1836-Nascemos gays ounos tornamos gays?



A epigenética pode explicar a homossexualidade

Introdução

Eis aí um tema polêmico, nem tanto pela sua existência, mas muito pelo preconceito de como a nossa sociedade de posiciona perante ele.

A multimilenar cultura nos ensinou que mulher é sinônimo de ventre, mãe, receptora, parideira, cuidadora de criança, professora; o homem, ao contrário, é sinônimo de falo, pai, emissor, guerreiro, provedor, líder. O homem e a mulher se unem para montar família e procriar, numa estrutura em que ele manda e todos os demais obedecem.

As famílias pensaram assim e fizeram assim por toda a história humana e ainda bastante nos tempos atuais.

Nos tempos mais recentes, e até nem tão recentes, a união de homem com homem e de mulher com mulher foi e continua sendo objeto de espanto, escândalo, escárnio, abominação.

Na cabeça de muitos homens e de muitas mulheres fica difícil o ato de entender, admitir, aceitar e compreender esta coisa nova na vida das sociedades que é, por exemplo, a união homoafetiva. É tão nova que nem consta dos dicionários.

O homem se nega a aceitar que o macho, seu filho, esteja sexualmente ligado a outro homem. Talvez um pouco menos, a mulher sente muito ver sua filha sexualmente ligada a outra mulher.

O encontro dos dois é só uma questão de tempo

Seres esféricos, fortes, vigorosos, tentam galgar o Olimpo, a montanha sagrada onde moram os deuses gregos. Querem o poder. Possuem os dois sexos ao mesmo tempo, quatro mãos, quatro pernas e duas faces idênticas, opostas. Diante do perigo, o chefe de todos os deuses, Zeus, decide cortar ao meio os andróginos (do grego andrós: aquele que fecunda, o macho, o homem viril, pai; e guynaikós: aquela que gera, fêmea, que dá a luz, mulher sensual, mãe).

“Sede humildes”, podemos supor que trovejou o grande Zeus, arremetendo os raios que apavoraram os tempos anteriores à descoberta do fogo. Ao enfraquecer o homem e a mulher, assim criados, Zeus condenou cada metade a buscar a outra, o desejo extremo de reunir-se e curar a angustiada e ferida NATU-REZA humana.

Este, resumidamente, é o mito do amor tal como o filósofo grego Platão (428-348 a.C.) o descreveu nos diálogos de “O banquete”, reproduzindo o relato feito por Aristófanes, o mais famoso comediógrafo grego (450-388 a.C.), durante um jantar e simpósio, encontro onde se tomava vinho e se trocavam ideias.

Estava presente, entre muitos outros convidados ilustres, o filósofo Sócrates (470-399 a.C.). Deve ter sido uma noitada daquelas, mas não se pode dizer que começou ali a preocupação da humanidade com a androginia. Numerosas cosmogonias, anteriores à civilização grega, explicaram o mundo a partir de um ovo primordial, o símbolo da fertilidade.

Para a Biologia, andrógino é o ser que possui os dois sexos ao mesmo tempo e é capaz de reproduzir-se sozinho (não no caso dos humanos). O mesmo que hermafrodita. Mas, para os psicólogos, médicos e até estilistas, a androginia é sobretudo um fenômeno cultural, nada tem a ver com a bissexualidade ou o homossexualismo. “O que está em jogo é o papel social desempenhado pelo indivíduo. A pessoa andrógina não precisa ter, necessariamente, comportamento sexual ambíguo”, explica o sexólogo Oswaldo Rodrigues Júnior, de São Paulo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Sexualidade. Ele dá exemplos de incorporação de papéis sociais do sexo oposto: o homem que não tem vergonha de chorar e expor sentimentos, cuida dos filhos, participa das tarefas domésticas, ou a mulher que impõe opiniões, assume o sustento da casa, exerce profissões consideradas “masculinas”.

O psicanalista Renato Mezan, da Pontifícia Universidade de São Paulo, expõe com clareza: “São fatores sociais que aos poucos esfumaçam as diferenças entre os gêneros e embaralham a consciência que homens e mulheres tinham de sua identidade e função social. Por isso é impossível explicar a androginia apenas em termos psicológicos. Ela não é uma opção sexual e está no plano do consciente”. Entre as vanguardas culturais, é verdade, sempre existiram andróginos — artistas, burgueses contestatórios, suf-fragettes (militantes femininas que exigiam o direito de votar). Mas com certeza nunca a confusão foi tão grande como agora.

“A diferença entre os gêneros diminuiu com a entrada da mulher de classe média no mercado de trabalho, principalmente em posições executivas, o que fica mais evidente nos Estados Unidos”, observa a antropóloga Bela Feldman-Bianco, da Universidade de Campinas, São Paulo. “O fenômeno nada tem a ver com a Biologia. Um número crescente de mulheres reage contra a estereotipia dos papéis sexuais. Não querem mais saber se ‘isso é coisa de homem ou de mulher”. Ela acredita que muito da androginia moderna veio do movimento feminista americano, que identificava o feminino como conservador. E do gosto gay na moda, na beleza, na decoração. Renato Mezan reconhece com clareza: falta ao homem tranquilidade para executar atributos do outro sexo sem sentir-se diminuído. “Assumir os dois lados da sexualidade e da sensualidade ainda é uma questão de caso a caso. De outro lado, negar as diferenças pode gerar um híbrido; nem isso nem aquilo. Aí, há privação das qualidades de ambos”, expõe.

O dilema provoca ásperas discussões. Radical, Camille Paglia, professora de Literatura da Universidade de Arte da Filadélfia, nos Estados Unidos, sustenta no livro “Personas sexuais” que a androginia não passa de arma das feministas contra o princípio masculino: “Serve para anular os homens, significa que eles devem ser como as mulheres, e as mulheres podem ser como quiserem”. Ela acredita, em todo caso, que o culto do masculino será preservado graças aos gays — o que não deixa de ser, também, uma inversão. Menos contundente, o estilista e cabeleireiro Diaullas de Ná, de São Paulo, oferece sua opinião: “A androginia é um jogo lúdico, em que o homem projeta seu lado masculino na mulher, e a mulher projeta seu lado feminino no homem. Um jogo que globaliza, traça um círculo de 360 graus em torno do outro, totalmente diverso do homossexual, autocentrado, ou do bissexual que separa com rigidez o masculino do feminino”.

A moda tem muito a ver com isso

Empresária e especialista de moda, Costanza Pascolato há anos analisa a influência da androginia no estilismo. “A moda contemporânea não pára de brincar com as diferenças entre os gêneros. Com isso expressamos nossas ideias mutantes sobre o que é ser homem ou mulher”, escreveu em 1988, num artigo de jornal. Hoje ela acrescenta: “Um ligeiro toque de ambiguidade aumenta o lado sensual das pessoas. O masculino e o feminino exagerados são menos sexy. Há uma qualidade misteriosa em Marlene Dietrich e Greta Garbo, que vem em parte da sugestão de virilidade lá no fundo de sua personalidade”. É pena que nem todos conhecem essas duas atrizes.

O problema está no risco de perder-se a nitidez dos gêneros pois, como analisa Renato Mezan, as pessoas nesse caso aderem às modas em busca de orientação: “Em geral, as tendências são mais rigorosas do que as anteriores, gerando um espírito de gangue”. É o temor da antropóloga Cynthia Sarti, da Universidade de São Paulo: “Acho que existe alguma coisa perversa na androginia, pois faz supor algo que não é: impõe uma imagem sem sugerir nenhum novo masculino ou feminino. Nega as diferenças. Sinto a ideia como totalitária, e nada mais nocivo à humanidade do que posturas antidemocráticas”.

Pode ser, mas convém lembrar que a intenção, por trás dos modismos em geral, e da androginia em particular, agora, depende sempre do contexto social. Por exemplo, na Alemanha pré-nazista dos anos 20, os cabelos curtos usados pelas mulheres eram uma contestação ao ideal feminino pregado pelos nazistas, que pensavam nas mulheres como robustas valquírias de longos cabelos loiros, engomadas nas suas roupagens regionais, vivendo em regime de dedicação exclusiva aos três “K”: Kinder, Küche, Kirche (criança, cozinha, igreja). Vestir-se como homem, pensar e agir como um marxista era ser mesmo muito do contra.

É possível que estejamos convivendo, atualmente, com uma acentuada tendência à alteridade — conceito desenvolvido pelo psicoterapeuta Carlos Byington, de São Paulo, um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. “O dinamismo da alteridade consiste na interação igualitária das polaridades”, escreveu em obscuro dialeto profissional no livro “Dimensões simbólicas da personalidade”.

A psicóloga Leniza Castello Branco, de São Paulo, completa e clarifica o raciocínio: “A mulher recupera seu lado masculino sem tornar-se lésbica, e o homem seu lado feminino sem tornar-se gay”. Para essa psicoterapeuta, a androginia traria um retorno do reprimido: o corpo, o sexo, a magia, o feminino. “Por causa do reprimido existe carnaval em todas as culturas”, explica. “Permite-se a vivência do contrário, a inversão. O pobre se veste de rico, o homem se veste de mulher, alguns se fantasiam de animais. O carnaval é a festa de Dionísio, o deus pagão que representava o campo, a fertilidade, o vinho. Ele nasceu da coxa de Zeus (homem), um andrógino, pois gestou um filho”.

Os primeiros andróginos explícitos da atual voga no Brasil começaram a aparecer na década de 70, inspirados em cantores pop americanos e, logo em seguida, brasileiros. Naquela época não se viam, como hoje, homens e mulheres anônimos vestidos e penteados com tal ambiguidade — terninhos, tênis, mocassins, cabelos quase recos —, capazes de provocar tanta confusão que fica impossível distinguir uns das outras. “Em caso de dúvida é mulher”, ensinam os moradores de San Francisco, talvez os americanos mais acostumados a conviver com a androginia em voga em todo o mundo.

Aliás, é da psicoterapeuta americana June Singer, autora do livro “Androginia — rumo a uma nova teoria da sexualidade”, a comparação do andrógino com o ovo fecundado. Ela considera que, por reunir características psicológicas abrangentes, a androginia é a chave do futuro. Talvez seja um exagero, mas, para que dela fique alguma marca indelével na história humana, será preciso que assuma resolutamente o que é específico de cada gênero. Sem prejuízo da divisão de responsabilidades sociais e sem a soberba dos seres esféricos que pretenderam invadir o Olimpo. Haverá mais chances de sucesso na vida afetiva e profissional e nenhuma necessidade de invejar os deuses.

O cérebro e a mente

Hoje, uma velha pergunta ainda provoca polêmica. Há diferença cerebral e de competência entre homem e mulher?

Há diversos estudos mostrando que cérebros masculinos e femininos têm mecanismos ligeiramente diferentes. Por menores que sejam essas diferenças, elas mudam muita coisa em termos de ciência. Pelo menos é no que acreditam pesquisadores sérios da área.

“Daqui para frente, não se podem avaliar as habilidades das pessoas para certas tarefas analisando apenas a sua experiência pessoal. É preciso analisar igualmente a predisposição biológica”, afirma a professora Doreen Kimura, da Universidade do Oeste, de Ontário, Canadá. Psicóloga, ela quer ver até que ponto o comportamento está determinado nas células cerebrais. “Em suma, hoje em dia ninguém pode dizer que uma mulher borda muito bem só porque desde menina foi treinada para trabalhos manuais”, explica. “Ora, ela borda maravilhosamente também porque tem um cérebro voltado para esse tipo de habilidade”.

Pode parecer uma provocação às feministas, mas a ideia é a seguinte: por mais que tenha sido induzido por uma mãe zelosa ou por uma sociedade que admira mocinhas prendadas, esse cérebro já tinha um talento especial para linhas e agulhas — assim como para outras tarefas que exigem a chamada coordenação motora fina, ou seja, uma precisão espetacular dos dedos. “Essa vocação é resultado da ação de certas substâncias no cérebro no início da vida”, diz Doreen. “Elas alteram a organização dos neurônios, como são chamadas as células cerebrais, bem antes de a pessoa ouvir os conselhos da mãe ou notar os olhares da aprovação dos outros”. Quer dizer, embora o meio em que se vive seja importante, essa tendência é inata.

Doreen coleciona testes que mostram as diferenças nas habilidades de homens e mulheres. Embora, neles, sempre existam exceções, como homens que dariam excelentes bordadeiros, sem que isso signifique que sejam afeminados. É bem verdade que esses exames citados pela psicóloga não provam por si a tendência biológica a desenvolver habilidades. E também não a inclinar por preferência sexual. “São apenas um indicador”, reconhece.

Apenas um cromossoma

Segundo Dooren, o importante é que os voluntários desta pesquisa tinham a mesma média de QI. “Não queremos discutir a inteligência dos dois sexos, mas a forma como homens e mulheres aproveitam a sua inteligência”, enfatiza. E eles tendem a não fazer isso da mesma maneira. Os sinais de disparidade aparecem cedo.

Na questão do talento, nada a acrescentar: meninos e meninas possuem basicamente a mesma bagagem genética. A única exceção, de fato, é um cromossomo entre os 46 que se encontram dentro de cada uma das células do organismo. Mulheres têm um cromossomo X no lugar em que os homens têm um cromossomo Y. Este cromossomo não se manifesta até a décima semana de vida fetal.



Portanto, olha aí, nesse período das dez primeiras semanas, qualquer feto se desenvolve no sentido de formar um corpo de menina. Então, a entrada em cena do cromossomo Y induz o aparecimento dos testículos e estes, uma vez prontos, produzem o hormônio sexual masculino chamado testosterona. Esta substância é responsável pelas características típicas do homem, como a barba do adulto.

E recentemente os cientistas passaram a desconfiar de que a testosterona estimula o cérebro a ativar mais os neurônios de determinadas áreas do que de outras. O que, de seu lado, tornaria a pessoa mais apta a certas tarefas do que a outras. A desigualdade de ativação corresponderia a uma desigualdade de comportamento entre machos e fêmeas. É uma teoria.

As fêmeas de todos os mamíferos, incluindo, claro, as mulheres, também possuem hormônio sexual masculino em seu organismo, mas em doses ínfimas. Mesmo assim, em quantidades minúsculas, ele afetaria a ativação dos neurônios no cérebro feminino — só que, talvez, de uma maneira inversa à de seu sexo oposto. A questão é que os cientistas não podem realizar experiências precisas para analisar a ação da testosterona no cérebro humano. Para isso teriam de injetar a substância ou dar um jeito de privar o organismo de sua presença — e tanto uma coisa quanto a outra teriam consequências desastrosas e são proibidas por lei. Por essa razão, um grande número de estudos utiliza cobaias animais.

Mas, os ratos nos dizem algo

Um dos pioneiros estudos foi realizado pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, há quatro anos. Os pesquisadores castraram ratos machos, instantes depois do nascimento. E, assim, notaram que o comportamento de montar na fêmea, como fazem no acasalamento, tornou-se raro. Em compensação, os ratinhos castrados apresentaram sinais de lordose, como se chama um arquear exagerado da coluna vertebral (bundinha arrebitada). Ora, nos ratos, esse é um problema típico das fêmeas, que arrebitam o bumbum para atrair parceiros. Conclusão: a ausência do hormônio induziu o cérebro a alterar o comportamento sexual. Com as fêmeas, não foi diferente. Ao receberem injeções do hormônio sexual masculino passaram a trepar no corpo das companheiras, como fazem os machos que buscam o acasalamento.

A área do cérebro que governa o comportamento sexual é o hipotálamo — uma estrutura escurecida e estreita, na base da massa cinzenta. Há 14 anos, pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, descobriram que determinada área do hipotálamo dos ratos machos é maior do que nas fêmeas. E essa diferença de tamanho, provaram os americanos, é causada pela testosterona que circula no cérebro do animal macho recém-nascido.

No final do ano passado, a mesma equipe divulgou que no cérebro humano existe uma diferença semelhante entre homens e mulheres — só não sabem, por enquanto, se ela também aparece nos primeiros dias após o parto, motivada pelo hormônio sexual.

 “Os hormônios sexuais não influenciam só o comportamento de reprodução”, conta o neurologista Esper Cavalheiro, da Escola Paulista de Medicina. “Eles têm a ver com a maioria dos comportamentos em que homem e mulher diferem”. O curioso é que, em termos de cérebro, o hormônio sexual testosterona parece só ter efeito em um período crítico, entre a fase fetal e os primeiros dias de vida. A falta ou o excesso dessa substância, passado esse tempo, muda as características físicas, mas não altera o comportamento das cobaias. Com os seres humanos ninguém sabe até onde vai essa influência. Pelo sim, pelo não, vários pesquisadores estão medindo o nível de hormônios masculinos dos voluntários antes de submetê-los a testes psicológicos em que devem resolver diversos tipos de problemas.

A canadense Doreen Kimura faz isso: analisa a dosagem da testosterona presente na saliva dos participantes dos testes. Não são apenas os hormônios sexuais, porém, que entram na jogada cerebral. Há indícios, por exemplo, de que os homens são de fato mais durões do que as mulheres — e a causa, no caso, não estaria na substância secretada por seus testículos, ou seja, em um hormônio sexual. Porque os cientistas descobriram que o hormônio prolactina — não-sexual — ajuda o cérebro a provocar o estado do choro. E esse hormônio, fabricado no próprio sistema nervoso, é mais presente no organismo das mulheres. Faz sentido. Ele participa diretamente da produção de leite, no período de amamentação do bebê. Daí que as mulheres teriam, biologicamente, uma propensão maior a cair no choro. Se depender do ânimo dos cientistas, não vão faltar diferenças — algumas que nada têm a ver com o cérebro em si — tornando os sexos cada vez mais opostos não apenas por questões culturais, mas pela natural divisão do arquiteto superior que os desenhou biologicamente.

Uma coisa se pode afirmar com segurança: muitas diferenciações de comportamento estão marcadas de fato no sistema nervoso. Como surgiram é outra conversa, tão fascinante quanto incerta. Imagina-se que as diferenciações tenham se originado por causa de vantagens, do ponto de vista da evolução das espécies. Talvez as especializações do sistema nervoso feminino e masculino tenham surgido por causa da divisão de trabalho que existia nas sociedades primitivas. O homem, então, teria desenvolvido a capacidade de se localizar no espaço, porque uma boa noção de geografia era essencial em suas saídas para a caça. A mulher, por sua vez, teria necessidade de aprimorar a percepção visual, para notar eventuais ameaça à segurança dos filhos, enquanto o companheiro estava ausente. São divagações que os cientistas fazem, sem que, no entanto, possam garantir que essa ou aquela seja a origem das diferenças que constatam em seus laboratórios.

Olhar para as mulheres e para os homens para tentar entendê-los 

O perfil de nossa sociedade realmente está mudado, mutante ou, quem sabe tudo esteja voltando a estágios pelos quais já passamos e queiramos retomar. Os padrões de algumas épocas já se foram todos para o beleléu e as maiores contribuições foram e estão sendo dadas principalmente pelas mulheres. Não bastasse a sua independência, proclamada ao sabor da pílula anticoncepcional e com a invenção da creche, elas podem optar por serem mães ou não e podem trabalhar fora mesmo sendo mães, obtendo renda, dispensando o provedor masculino, obtendo independência. Hoje ela ganha bem, mora bem, estuda, viaja, escolhe com quem se relaciona e, sobretudo, já opta por viver só ou em companhia de outra mulher. Isto é, sem um homem dentro de casa ou ao seu lado, na cama.

Hoje, é visto, ela prefere o silêncio e a meditação ao burburinho dos homens. Há as exceções em que elas entre elas promovem burburinho. Assombrosamente, para os homens, a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre, é a mulher que oferece uma extraordinária contribuição à sabedoria, à riqueza e à beleza do mundo.

Dê-se uma olhadinha para dentro das instituições de caridade e ver-se-á que até 80% dos voluntários são mulheres, mulheres que arranjam tempo, sensibilidade, humildade, coragem e fé para meter a mão na massa, cuidar de inválidos, lidar com doentes, consolar aflitos, ficar frente a frente com a morte, sem arrepiar os cabelos e sem ter pesadelos, incluindo-se aí os cargos de chefia e de síndicas de seus condomínios, onde geralmente os seres humanos mostram quem são.

Ao tomarem a iniciativa bem à frente dos homens em muitas coisas, acabaram por optar também pela companhia de outra fêmea na cama. Decepção com os homens? Muito provavelmente.

Passada a jornada voluntária, empresarial ou comunitária, lá estão elas, de preferência, só com elas mesmas ou com seus bichinhos ou filhinhos, onde até entra o namorado, marido ou namorido, “pero nó mucho”, como diriam os hispânicos. Elas conseguem, não se sabe como, distrair-se consigo mesmas ou com muita pouca coisa, sem os ruídos que são especialidade dos homens. Revelam densidade interior, mostram que mais que os homens, cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem ou não têm interesse por conta do processo cultural equivocado.

A sensibilidade feminina só depõe contra elas quando as emoções mal resolvidas resolvem criar chagas em seus corpos. Pacientes das doenças emocionais são, infelizmente, maioria mulheres. Voltadas para dentro, lhes dói dentro, enquanto a maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. O homem parece despejar seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta, transformando o que pode transformar para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói, mas talvez ele não saiba disso, ainda, com clareza.

A cultura masculina por necessidade de guerra se fez gregária, mundana, ruidosa, realizadora. Na sua objetividade, o macho se esquece até mesmo de ser carinhoso nas preliminares do sexo com sua parceira. É mais fácil unir homens em torno de uma luta comum do que mediante convite para uma sessão de ternura.

Por não ter com quem dividir seus afazeres, desde a noite dos tempos, a mulher atrita mais fácil no trabalho, a começar pela doméstica que tenha de ficar sob suas ordens. Mas, se tiver algo para ser feito, bem feito, com detalhes, com carinho, com enfeite, com beleza, com sutileza, entreguemos a elas. Elas se preenchem servindo. E nós, homens, com raras exceções, frequentando clubes, catedrais, congressos, estádios...

Homens afeminados

Só há um reparo nisso tudo que se escreve: com as mulheres invadindo sempre mais o mundo dos homens, o mundo está se tornando masculinizado e uma parte das mulheres está embarcando nesse trem e fazendo barulho também. Aquela parte das mulheres não optante por servir, juntamente com a homarada, está sublimando as dores íntimas em fanfarras externas. É um número considerável de mulheres seguindo os caminhos dos homens e voltado para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior – com apoio da publicidade, da mídia e de todos que faturam alto com o breque da evolução.

A sociedade de consumo só se sustentará se as maiorias continuarem circulando e adquirindo as tentações expostas. Logo, se aumentar o número dos que ficam em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana? A resposta é sua, mas, não resolve tudo. Cada dia mais o delivery cresce. Não se sai de casa para comprar e consumir.  

O apelo é para que sejamos, todos, superficiais, e nos contentemos com isso, felizes por gastar, por dever, por fazer barulho, por entorpecer-se a toa.

Parece que a opção de muitas mulheres entre as outras masculizadas, e com isso não estou afirmando que elas não frequentem shoppings e tenham parado de consumir, ainda que sejam uma minoria (?), a opção, disse eu, vem ao encontro de colocar um pouco de harmonia nessa bagunça que toma conta da nossa sociedade.

Gostaria de poder afirmar, como tenho meditado, que se a humanidade teve início (simbólico) no ventre da primeira mulher, ela é a Deusa. E talvez caiba a ela dar um jeito na bagunça que a filharada criou. Bem-vindas as deusas posteriores.

E os homens com saudade das mamães, vão se ligando à ideia do feminino e se tornando afeminados, também.

O que choca é que a mulher, em tese, se une a outra mulher, mas não mantém, em tese, sua característica sexual. O homem, não. Ao unir-se a outro homem, em tese, troca sua característica sexual.

Epigenéticos podem explicar

Pesquisa afirma que a orientação sexual pode estar ligada a marcadores epigenéticos que regulam a sensibilidade à testosterona e são transmitidos de pais para filhas e de mães para filhos. É o que já se pode ler na mídia.

Não dá para ficar só lamentando ou condenando, é necessário entender qual o componente biológico ou espiritual na definição da orientação sexual das pessoas. E isso está sendo feito.

Do ponto de vista evolutivo, o fato de a homossexualidade ser algo bastante comum na sociedade humana, ocorrendo em cerca de 5% da população mundial (há quem afirme que chega a 20%), é intrigante. Como homossexuais produzem menos prole do que heterossexuais, uma possível variação genética relacionada à homossexualidade dificilmente seria mantida ao longo das gerações. A muito longo prazo faltaria gente no mundo. "Isso é muito enigmático a partir de uma perspectiva evolucionária: como a homossexualidade pode existir em uma frequência tão alta a despeito do processo de seleção natural?", pode-se ler nas palavras de Urban Friberg, do Departamento de Biologia Evolutiva da Universidade de Uppsala, na Suécia. Friberg, ao lado de William Rice, da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, e Sergey Gavrilets, da Universidade do Tennessee, ambas nos Estados Unidos, pode ter encontrado uma resposta: o fator biológico ligado à homossexualidade não estaria na genética propriamente dita, e sim em um conceito conhecido por epigenética. Os resultados foram publicados no periódico científico The Quarterly Review of Biology.

A epigenética trata de modificações no DNA que sinalizam aos genes se eles devem se expressar ou não. Esses marcadores não chegam a alterar nossa genética, mas deixam uma marca permanente ao ditar o destino do gene: se um gene não se expressa, é como se ele não existisse.

Cuidado papai e mamãe, vocês participam

O artigo estudou um possível componente hereditário para, a partir de um ponto de vista evolutivo, explicar a homossexualidade. Os três autores montaram um modelo segundo o qual uma marca epigenética (epimarca), que regula a sensibilidade à testosterona em fetos, pode ser transmitida de mãe para filho e de pai para filha e influenciar na orientação sexual.

Essa nova teoria vai ao encontro de outra tese mais antiga, a de que a homossexualidade é definida, ao menos em parte, por um componente hereditário. Pelo menos quatro grandes estudos, publicados em 2000, 2010 e 2011, nos periódicos Behavior Genetics, Archives of Sexual Behavior e PLoS ONE, apontam para esse fator na origem da orientação sexual, a partir de estudos com gêmeos monozigóticos (também chamados de idênticos ou univitelinos, produtos da fertilização de um único óvulo) e dizigóticos (também chamados de fraternos ou bivitelinos, produtos da fertilização de dois óvulos diferentes).

O que é Epigenética? Imagine o material genético humano como um manual de instruções. Os genes formariam o conteúdo do livro, enquanto as epimarcas ditariam como esse texto deveria ser lido. "A epigenética altera e regula a forma como os genes se expressam", explica a geneticista Mayana Zatz, do departamento de Genética e Biologia Evolutiva da Universidade de São Paulo (USP). É por meio dos comandos epigenéticos, por exemplo, que o pâncreas fabrica apenas insulina, apesar de as células nesse órgão terem genes para a produção de muitos outros hormônios.

Acreditava-se que os traços da epigenética não eram hereditários, sendo apagados e recriados a cada passagem de geração. Como pesquisas nas últimas décadas mostraram que uma fração de epimarcas é, sim, passada de pais para filhos, Friberg, Rice e Gavrilets julgaram ter encontrado a peça que faltava para montar o quebra-cabeça.

A Sensibilidade - Os três criaram um modelo segundo o qual uma dessas epimarcas transmitidas hereditariamente é o marcador responsável por regular a sensibilidade à testosterona de fetos no útero materno. Ao longo da gestação, tanto fetos masculinos quanto femininos são expostos a quantidades variadas do hormônio, sendo que o fator epigenético estudado no artigo torna o cérebro dos meninos mais sensíveis à testosterona quando os níveis estão abaixo do normal. Isso acontece para preservar características masculinas, podendo inclusive influir na orientação sexual. O mesmo ocorre, mas inversamente, com as meninas. Quando a testosterona está acima do normal, a epimarca funciona como uma barreira, diminuindo sua sensibilidade ao hormônio.

A partir desse modelo, a homossexualidade poderia ser explicada pela transmissão de epimarcas sexualmente antagônicas. Ou seja: quando o pai transmite seus marcadores, que tiveram a função de torná-lo mais sensível à testosterona, para uma filha. De igual maneira, esse material hereditário pode ser passado de uma mãe para um filho, tornando-o menos sensível à testosterona.

"Quando os efeitos desses mecanismos (que regulam a sensibilidade à testosterona) não são apagados entre as gerações, eles se expressam na prole do sexo oposto. Isso pode resultar em indivíduos que desenvolvem preferências sexuais pelo mesmo sexo", explica Friberg, da Universidade de Uppsala. "O que fizemos foi colocar pela primeira vez o conceito da transmissibilidade epigenética no contexto de desenvolvimento sexual."

O pesquisador faz questão de ressaltar que ainda não se pode provar que a epimarca específica da sensibilidade à testosterona é hereditária. Para tanto, testes específicos precisarão ser realizados. "Uma grande solidez do nosso estudo é que o modelo epigenético para a homossexualidade faz predições que são testáveis com tecnologia já existente. Se o nosso modelo estiver errado, pode ser rapidamente descartado", escrevem os autores no artigo do The Quarterly Review of Biology.

Outro pesquisador envolvido, Sergey Gavrilets, da Universidade do Tennessee, afirma que mesmo que a teoria da hereditariedade seja respaldada por futuros estudos, o debate está longe de acabar. "A hereditariedade explica apenas parte da variação na preferência sexual. As razões, que podem ser sociais, culturais e do ambiente, permanecerão como um tópico de intensa discussão."

"Estudo positivo" - Carmita Abdo é coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Ela destaca que a nova pesquisa é positiva, uma vez que contribui para a melhor compreensão dos fatores biológicos envolvidos na ocorrência da homossexualidade. "O trabalho é importante porque reforça uma ideia cada vez mais prevalente: a de que a genética - no caso a epigenética - tem influência sobre a orientação sexual."

Uma luz ainda que tênue

Essa compreensão científica tem sido importante, segundo Carmita, no combate a mitos que envolveram o tema e que alimentaram interpretações preconceituosas. Nem todas as pessoas e mais ainda as preconceituosas têm a informação de que o êxtase sexual faz parte das necessidades humanas de realização e que para obtê-lo as pessoas precisam usar das suas zonas eróticas preferenciais. Com as manifestações preconceituosas seja a nível de família, seja a nível de sociedade, muitos homens e mulheres (assim tomados segundo seus registros civis) deixaram ou deixarão de buscar sua expressão sexual, o que equivale uma prisão.

"Até pouco tempo atrás, achava-se que a orientação sexual era proveniente de uma escolha, como se deliberadamente o indivíduo optasse por ser homossexual. Muito do preconceito contra os homossexuais advém daí", afirma Carmita Abdo, lembrando que até o início dos anos 90 a homossexualidade era tratada como um transtorno de preferência, e não como uma característica. Logo, ela poderia ser revertida com castigo ou tratamento médico. "Observar um fenômeno pelas lentes da ciência muda a compreensão e ajuda a deixar de lado certas discriminações. Nesse caso em particular, você remove da equação a ideia de que o homossexual é responsável por uma opção que muitos veem como negativa, pejorativa."

Ela ressalva, entretanto, que ainda existe muita incerteza no campo e que a orientação sexual precisa ser encarada como produto de vários fatores, como vimos anteriormente onde a mídia tem um peso enorme. "O estudo reforça a ideia segundo a qual existe uma predisposição que vai ser confirmada ou não a partir de uma série de influências que vão ocorrer ao longo da vida, algumas delas de ordem cultural, educacional e social. Ele não consagra uma interpretação determinista, nem diz que tudo depende dos genes".

"Nosso objetivo é entender como as preferências sexuais se desenvolvem e evoluem", conclui Carmita.

Uma palavra conclusiva

Nunca, por enquanto, ter-se-á uma palavra final sobre tão palpitante assunto que envolve a realização humana, a sua multiplicação, o modelo de sociedade, mas os cientistas estão decididos a continuar investigando. Um grande serviço a ser por eles prestados é poder dizer aos preconceituosos que a escolha sexual de uma mulher ou de um homem não é um ato que se explique e se resolva na dimensão do comportamento. Não é um desvio de conduta como poderia ser o ato de roubar, a cleptomania, que a psicologia anuncia que resolve.

Urban Friberg, professor do Departamento de Biologia Evolutiva da Universidade de Uppsala, na Suécia, presta informações sobre a pesquisa, seu principal objetivo e faz comentários interessantes.

Assume-se que indivíduos homossexuais produzem menos prole do que heterossexuais. Qualquer codificação genética para homossexuais deveria, portanto, ser rapidamente removida no processo de seleção natural. Apesar disso, a homossexualidade é relativamente comum entre humanos (cerca de 5%). Além do mais, os melhores estudos disponíveis mostram que há um componente hereditário na homossexualidade. Isso tudo é muito intrigante de uma perspectiva evolucionária: como a homossexualidade pode existir em frequências tão significativas apesar da seleção contra ela? O objetivo da nossa pesquisa foi simplesmente tentar resolver esse enigma, o que nos ajuda a entender como as preferências sexuais se desenvolvem e evoluem.

Nossa principal contribuição é trazer uma explicação lógica para o porquê de a homossexualidade ser algo tão frequente - e para tanto nós mudamos o foco, como causa da homossexualidade, de genes para epimarcas. Nossa teoria sugere que a homossexualidade é resultado de um mecanismo que ajuda as pessoas a desenvolver a preferência por indivíduos do sexo oposto. Quando os efeitos desses mecanismos (epimarcas) não são apagados entre as gerações, eles se expressam na prole do sexo oposto. Isso pode resultar em indivíduos que desenvolvem preferências sexuais pelo mesmo sexo.

Houve diversos estudos nos quais os pesquisadores tentaram encontrar genes associados com a homossexualidade. Tais estudos falharam e nenhum gene foi identificado. O resultado disso tudo é intrigante, uma vez que a homossexualidade tem um componente hereditário. Nossa teoria, porém, é capaz de explicar por que a homossexualidade é tão comum e tem um componente hereditário, sem nenhuma codificação genética para esse traço.

Atualmente, algumas pessoas acreditam que a homossexualidade é uma escolha pessoal e que indivíduos homossexuais podem ser ensinados a escolher de forma diferente a sua orientação sexual. Eu acredito que encontrar as raízes da preferência sexual mina tais mitos e ajuda as pessoas a melhor entender e aceitar a homossexualidade.

Não se pode excluir e é preciso estudar, também, a questão espiritual como determinante da sexualidade das pessoas.

Até semana que vem.

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