sábado, 26 de março de 2016

1839-O Brasil ainda é o mesmo




Ou as minorias que governaram o Brasil

Ensaio com visão espiritual

Minha profissão sugere-me estar antenado para o que seja notícia. E o que é, mesmo, a notícia? Na cátedra da profissão, notícia é aquilo que possa acrescentar informação a quem busque por ela. No modismo midiático desses últimos tempos, é o sensacionalismo, o escândalo, o diferente, quase só, uma espécie de show destinado a vender o conteúdo. Afinal tem alguém patrocinando.

A maior constatação que faço nos meus mais de 50 anos de antena, sobre minha Pátria, é que nunca tivemos governos de maiorias reais. Os nossos governantes valeram-se de episódios, conjunturas, comoções ou artifícios para chegar ao poder.

Nasci em pleno regime Vargas e desde cedo aprendi que o baixinho de São Borja quebrou a espinha dorsal de uma república (chamada velha 1889-1930) em que os barões rurais do café (SP) e do leite (MG) se revezavam no poder enchendo as urnas com votos de cabresto. Eles eram “coronéis” que detinham poder sobre os chamados currais eleitorais. A maioria não votava e o coronelato manipulava a minoria votante e outorgava os mandatos. Eram chamados de coronéis numa alusão ao que, no tempo do império, significava comprar um título honorífico das forças armadas e comprometer-se com a normalidade da vida pública numa determinada área de interesse mediante a disponibilidade de uma milícia armada organizada com recursos próprios. O império acabou, mas os “donos” da política local permaneceram e sobrevivem até hoje com o nome de oligarquia.

Vargas mudou isso em parte trazendo o voto universal (as mulheres e os maiores de 18 anos, alfabetizados, ganharam o direito de votar) e estabeleceu uma política de governadores: cada Estado tinha no seu governador o grande eleitor, ainda que as eleições nem sempre fossem gerais, mas, de qualquer forma, os senadores e os deputados federais (situacionistas) eram controlados pelo governador de cada Estado. Assim nasceram as oligarquias estaduais sucessoras do coronelato. As oposições nem sempre se uniam, embora unidas pudessem, quem sabe, fazer a maioria.

Acabada a II Grande Guerra o mundo foi contaminado pelo vírus da democracia com nome de liberalismo; onde a democracia não vingou, em princípio, estavam os governos comunistas ou fundamentalistas. A Guerra Fria com o Muro de Berlim e tudo mais teve origem aí.

Aqui no Brasil, após a queda da ditadura de Vargas, e Vargas caiu porque a moda era a democracia. E veio Eurico Dutra, candidato de Vargas e imediatamente outra vez Vargas eleito pelo voto; seu suicídio, uma crise institucional e a eleição de Juscelino Kubitschek, candidato do partido de Vargas, cuja posse marcou outra crise. Sucedido por Jânio Quadros, com renúncia e com crise.

Fechava às costas de Jânio e de seu vice João Goulart, um pequeno período de 18 anos de democracia. Relativa democracia. Mesmo assim, para JK assumir houve necessidade de uma quase guerra civil. Para João Goulart assumir houve necessidade de uma quase guerra civil. Setores reacionários (atenção para o termo – e os reacionários são sempre minorias ativistas estruturadas) desejavam impedir suas posses. O que seriam os reacionários desse tempo? Setores que percebiam escapar de seu controle o poder, diga-se a perda de direitos ou privilégios (“favores do rei”). Tudo por conta de uma herança lusa e monárquica que dá tetas ao poder e as entrega aos mais espertos para mamar enquanto os excluídos (menos espertos) denunciam e protestam.

Em 1960, a vitória de Jânio Quadros (sem maioria congressual) e em virtude de suas manobras iniciais que assustaram os reacionários conservadores vivemos dias angustiosos. JQ desejou dar um golpe e voltar ao poder como ditador, mas foi traído e preso logo que sua carta renúncia foi lida no Congresso.

Seu vice, Jango (eleito em chapa independente e sem maioria também), era um socialista herdeiro de Vargas e os reacionários conservadores não desejavam sua posse. Foi preciso uma quase guerra civil para garantir Jango na presidência, porém com parlamentarismo (o presidente não manda, é o congresso que elege aquele que manda: o primeiro-ministro).

Jango meche-se, articula-se e lança um plebiscito em que os brasileiros podiam escolher entre monarquia, parlamentarismo e presidencialismo. Ganhou Jango com a metade dos votos (não maioria) e a situação se agravava com o crescimento de uma onda de desobediência civil através dos partidos de esquerda e do sindicalismo, agora para tentar consolidar um governo de esquerda, porém sem maioria parlamentar, com a quebra do modelo institucional. Caminhávamos para a ditadura de esquerda. Acentua-se um período de intolerância política de parte a parte e a baderna se torna, com frequência, manchetes dos principais jornais. Não era a maioria dos brasileiros. Apenas a facção que detinha o controle da máquina de pressão política.

Vimos nesse episódio o quanto uma maioria silenciosa se faz refém de minorias ativistas.

Os militares (oficiais) afrontados dentro e fora dos quartéis por facções de subordinados seus, e não só por isso, resolvem dar um basta e põem os tanques na rua, com apoio popular de uma boa parcela de brasileiros. Não era, possivelmente, a maioria, mas era uma sociedade incomodada com os acontecimentos, que se mobilizava, saía da sombra.

Instala-se o período da ditadura militar usando mão de ferro contra aquela minoria pró-Cuba, pró-Rússia, na certeza de que 80% dos brasileiros também não eram (e não são) simpáticos ao comunismo.

As militâncias de esquerda (formadas em escolas do exterior) com a participação de líderes sindicais articulam-se e conseguem apoio da Igreja para catequizar populares na periferia das fábricas, das fazendas, nas favelas, entre os universitários. Nasciam assim as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, (bases da Igreja) trocando em miúdos para o povo o que era o poder e a serviço de quem estava o poder como instrução a quem não teve oportunidade de politizar-se por outro meio. Daí nasceram o MST, a CUT e o PT. Muito radicais, tiveram alguma dificuldade no início, mas formaram suas bases e partiram para a invasão de terras e para as greves. Foi o momento em que a Igreja, assustada, se retirou do sistema.

Quando Lula apareceu para o sindicalismo urbano e o PT era nada, foi esse sindicalista que acenou para a hipótese de as esquerdas aglutinarem-se tendo o PT como espécie de federação dos demais partidos e facções, e assim, de eleição em eleição, o Lulismo foi assumindo prefeituras, estados e chegou ao poder central.

Muitos brasileiros decepcionados com o “coronelismo” ainda presente na política nacional (exemplo: Sarney, Antônio Carlos Magalhães, Barbalho, Bornhausen, etc.), dirigiram simpatias ao Lulismo que, de fato, venceu com o apoio de milhões de eleitores não partidários. Iniciou um primeiro governo com bastante equilíbrio. Mas, o PMDB (que não é a maioria e nem comunista) iria dar sustentação ao esquema de Lula para voos mais ousados. Uma onda de corrupção se instala principalmente no Congresso com o fim de legitimar, isto é, comprar apoios para as manobras da minoria comunista.

É quando começa a coalisão com os bolivarianos sul-americanos e uma forte guinada do governo para a extrema esquerda. Foi a reação (de uma minoria) comunista no seio de uma sociedade não comunista, nem politizada. O interesse pessoal, que já mandava na política do País, tornou-se regra.

Possivelmente 60% do eleitorado brasileiro não decodifica o que seja liberalismo, conservadorismo, socialismo, populismo, comunismo. Vota por simpatia na esperança de benefícios e muitos deles apenas por interesse. Mas, também se vota por impulso.

Depois de muitos anos de uma relativa calmaria – refiro-me agora ao que chamo de reacionários – desde de junho de 2013 a sociedade começa dar sinais de fadiga e as reações estão de volta. Elas se acentuam dos dois lados. Religiosos, militares, empresários, agricultores, magistrados, donas de casa, estudantes, trabalhadores, aposentados inscrevem-se na imensa lista dos descontentes: 83% desaprova o governo que temos.

E o que se vê neste segundo turno da eleição presidencial não é aquela maioria cristalina, indiscutível: o Brasil ensaiava dividir-se politicamente naquele domingo (26/10), tendo nos porões desta campanha reacionários de direita e reacionários de esquerda. Se, por conta disso, o pau comer em alguns redutos mais exaltados, não nos escandalizemos.

Olhemos para as redes sociais e percebamos as reações. Claramente, entre quem reage podem estar muitos ingênuos, servindo de veículo para posições extremas que não conhecem e não avaliam.

Os brasileiros se omitiram de participar mais da vida política, assinaram procurações em branco e hoje estão encurralados sem saber onde está, mesmo, a melhor escolha.

O que se percebe é que os brasileiros claramente se dividem não entre um homem e uma mulher, não entre um bonitinho e uma dentucinha, não propriamente entre este ou aquele programa de governo.

A nação se divide uma parte clamando decência, outra parte clamando a manutenção de um governo que passou dos limites da indecência, entre uma sociedade que majoritariamente é honesta, trabalha, respeita, contribui e sente-se vítima de políticos espertos.

A nação se divide perplexa entre filas nos metrôs, nas estações de ônibus, nos postos de saúde, nos engarrafamentos urbanos, na porta das creches, no sucateamento dos serviços públicos, nas greves das escolas e da saúde, na deterioração da universidade, dos transportes públicos, nos milhões de afilhados políticos encastelados nos cargos com alta remuneração.

A nação se divide perplexa com a cara de pau da maioria dos políticos.

A nação se divide entre honradez e corrupção, embora esteja muito difícil achar um político efetivamente honrado.

A nação se divide entre o Estado de Direito e o autoritarismo que ainda alimenta imensos setores da vida nacional, atingindo, inclusive, a mais alta corte judicial.

A nação de divide entre servir e apropriar-se do poder.

A nação se divide entre democracia (desejável) e aparelhamento do Estado.

Isso mesmo, parece que teremos um plebiscito, cujo resultado é uma incógnita.

As pesquisas de intensão de voto há muito estão furadas.

O que assusta quem viveu todos esses Brasis já relatados são as reações.

Não estamos num Estado de Direito. Não confiamos nos tribunais jurídicos ou de contas. Até os correios que eram a instituição mais séria já perderam essa credibilidade. Nem na urna eletrônica se pode confiar cegamente.

Se os brasileiros que votam souberem entender a diferença que há entre uma e outra opção, as urnas falarão a verdade.

Caso contrário, ao invés de democracia teremos um primitivismo ainda mais retrógrado que a República derrubada por Vargas em 1930.

E agora, para fechar, a visão espiritualista. Somos um povo diferenciado, cristão, solidário, marcado pelos insucessos governamentais que perduram desde o império. Sabemos fazer tudo direitinho numa enorme diversidade de setores, mas somos um fracasso dentro da urna. Nesses últimos 60 anos elegemos Jânio, Jango, Collor, Lula, Dilma, recebemos por imposição meia-dúzia de generais presidentes e estamos caminhando de uma a outra crise, de um a outro escândalo sem garantir para o país um período estável de desenvolvimento. O fundo do poço? Quem sabe. O sofrimento depura. Apesar do título “o Brasil ainda é o mesmo”, agora chegou a sonhar que não é não, não é o mesmo do voto a cabresto.

É só esperar para ver.

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