sábado, 14 de maio de 2016

1846-Os caminhos para uma grande Nação




O mais sério desafio e a ameaça mais concreta à sociedade atual (I)

Introdução

Longe de querer transformar o blog Maioridade Espiritual em uma coluna semanal de política e economia, tenho dedicado generosos espaços à análise do momento atual de nossa Pátria, envolvida que está num torvelinho de interesses, maior parte deles não devidamente claros.

Se isso é uma tendência planetária, ainda não estou convencido, mas se somos o resultado de séculos da cultura europeia com pinceladas asiáticas e africanas, sem desmerecer a própria cultura dos nativos da América, é bem possível que o que escrevo sirva também para definir o mundo.

E o farei em dois artigos, um hoje e outro na semana que vem.

Acompanhe, por favor.

E agora, brasileiro?

Todos os homens e mulheres do Brasil e quiçá do planeta são chamados a participar da reconstrução humana de nosso século, das últimas décadas, de nossa década, nem que para isso levemos um milênio.

Caminhamos por demais em direções opostas e damos a volta ao globo para, de repente, nos encontrarmos frente a frente ricos e pobres, escuros e claros, civilizados e adeptos da contracultura, batizados e pagãos, héteros e homos, obesos e esquálidos, saciados e famélicos, capitalistas e anticapitalistas, nós e eles (e olha não incluí islâmicos e cristãos).

O principal problema nisso tudo é que a disparidade se deu por caminhos violentos, colonização, invasão, dominação, guerras, escravidão, espoliação e, hoje, os que atravessaram a ponte estão assustados com as levas que correm na sua direção, por bem e por mal, cobrando soluções para problemas com cinco mil anos de idade ou mais.

Parece ter tido início nas cidadelas que viraram guetos, que viraram muros, que viraram condomínios, que são clubes, organizações, instituições, grupos, sempre separando, sempre excluindo, sem incluir, até chegarmos a uma sociedade onde a diversidade de costumes, culturas e ideologias coloca-nos em conflitos, luta armada, sabotagem, terrorismo, extermínio, genocídio, ódio racial e social, segregação ideológica.

No campo da antropologia o posicionamento, a visão das atitudes e valores de determinada coletividade são definidas como Etnocentrismo e Relativismo. No primeiro, suas referências são tidas como padrão, ou seja, como alguém diferente e superior ao outro, enquanto que no Relativismo, leva-se em consideração vários tipos de análises, mesmo divergentes, em que a sua verdade não é absoluta. Mas, isto está ficando para trás quando a conjuntura sai do plano teórico e chega aos níveis das migrações incontroláveis como as que ocorrem desde a África e da Ásia em direção à Europa e desde os países menos ricos da América em direção aos países mais ricos deste mesmo continente, como é o caso México x EUA, Haiti x Brasil e já ocorreu e ocorre dentro mesmo do Brasil quando milhões de nordestinos se evadiram em direção de Brasília e São Paulo, mais numerosamente.

Parece não ser apenas uma questão caridosa. A solidariedade se faz nanica diante do imenso desafio. A sociedade que atravessou a ponte sempre desejou barrar a chegada dos diferentes. Isso se reflete nos bairros das cidades e até mesmo nos condomínios onde algumas torres são para a classe A, enquanto outras são para as classes B ou C; se reflete nas casas de espetáculo, onde, nos camarotes existem classificações distinguindo quem é mais-mais de quem é um pouco menos-menos e de quem é quase nada; se reflete nas torcidas de futebol, no interior dos aviões, nas salas VIP e até nas cadeias.

Veja aí se existe defesa para a prisão especial para o bandido com curso superior. Aquele que mais deveria respeitar a lei porque não é um ignorante, acaba premiado ao ser condenado.

Hoje a classe que se julga A já não pode comportar-se como benevolente, mecenas, doadora. Os pedintes, os mendigos, os refugiados, os expatriados, os sem-terra, os sem-teto, os excluídos têm ideologia, tem cultura, tem métodos, tem poder, tem organização.

Lá atrás, quando as questões filosóficas e ideológicas tratavam da desconstrução do modelo elitista-capitalista-liberal-aristocrático, imaginava-se muito menos do que aconteceu, inclusive, nas asas do marxismo e de outros movimentos antagônicos da época. Quando o islamismo entrou em cena e vieram as batalhas africanas e sul-americanas por questões de poder, o que se vê é avassalador. Há uma reação ideológica orquestrada nas três regiões do planeta que foram mais brutalmente exploradas pelos colonizadores/dominadores.

A questão deixou de ser retórica, apanha as nações despreparadas para lidar com as consequências do modelo: violência generalizada, invasões, ocupações, migrações, choques linguísticos, choques religiosos, questões de habitação, urbanismo, esgoto, alimentação, trabalho, saúde, educação, segurança, mobilidade. Do lado de cá da ponte (se é que a atravessamos), estávamos acostumados a agirmos mais da forma etnocêntrica que da forma relativista, sejam em aspectos religiosos, políticos, morais, econômicos, etc., haja visto noticiários de vários conflitos tais como: briga de torcidas organizadas, pratica de racismo e intolerância religiosa, violência contra gays e no lar contra a mulher. As pessoas têm o costume de valorizar o seu modo de agir e viver como se fosse o correto e verdadeiro. Não se trata de olhar o etnocentrismo como aspecto cultural, pois o etnocentrismo é ferramenta importante para preservação da história local. O problema que se criou está do lado de fora do muro, da fronteira étnica.

Essa prática em discriminar as pessoas que não são iguais a mim, pode ser encontrada no campo das desigualdades sociais. É um comportamento, através do qual, o resultado é gerador de violência dentro de uma sociedade e agora se amplia. Dos comportamentos etnocêntricos resultam o ódio e o inconformismo e fazem com que alguns venham a ter atitudes contrárias àquelas comuns a todos da comunidade, que são em grande parte práticas de crimes e contravenções penais. A índole coletiva se irradia para os indivíduos e volta a ser novamente coletiva. Se tornou global quando já não está mais dentro de uma mesma etnia, nem dentro de uma mesma nação.

Há que pensar

No nível interno das nações, as influências, autoridade, conflitos, comportamentos divergentes, hierarquias e as questões de poder são temas de estudo das relações interpessoais. Especialistas declinam como fato gerador que podem em algum momento transformar-se em violência doméstica contra o idoso, a mulher, a criança, o negro, o gay, etc. Os fatores psicológicos da vida social: liderança, status social, estereótipos, tem por consequência um processo de transformação pelo qual o indivíduo excluído ou separado socialmente perde a referência de valores éticos e se volta contra o próximo. Em grande parte, a família deixou de educar seus membros e nos entrega levas e mais levas de bandidinhos em potencial.

No outro nível, maior, quando se vê o Estado Islâmico executando cristãos, ricos, capitalistas como um ato para vingar-se das atrocidades que relata contra sua etnia, o problema deixa de ser nacional, ganha foros mundiais.

Não é só, mais, um desafio deste ou daquele governo local, estadual ou nacional para melhorar a condição de vida de moradores em favelas ou bairros desassistidos. Nem de proporcionar acesso à internet, creches para que as mães possam trabalhar tranquilas e aumentem a renda familiar, nem de postos de saúde, farmácias populares, praças de esporte, medidas outras e outras para evitar de serem tragados pelo submundo social.

Para que isto se rompa e passe pelas modificações necessárias é preciso que cada indivíduo pense e olhe um para o outro grupo com humanidade e boa vontade para contribuir com soluções efetivas. É preciso encarar que o outro está vindo para a mesma rua, para o mesmo bar, para o mesmo supermercado, para o mesmo show, amanhã será meu empregado, meu genro, pai dos meus netos. Quem cederá? Qual será a religião comum? Em quem votaremos? Para quem o governo governará?

Abaixo o Otimismo Civilizatório

Dá uma atenção para o que se escreve. O otimismo civilizatório é um estilo de vida, um ranço ao progresso irrefreável pelo bem da humanidade alcançado pelas sociedades capitalistas, neoliberais e que, conforme esse pensar, desgraçam o nosso mundo, de todos.  É uma ideologia que derruba tudo o que se conquistou no mundo civilizado, uma desconstrução não filosófica, na porrada.

Condena a especulação imobiliária, a iniciativa privada, o empreendedorismo.

Condena as bolsas de valores e as aplicações financeiras.

Condena os ideais de beleza e comportamento e as expectativas de gênero.

Condena a limpeza, a organização, a lei e a ordem.

Condena as redomas divisionais que excluem e separam os mais-mais dos menos-menos.  

Condena o sujeito bom civil, pagador de seus impostos e eleitor de seus candidatos e a obrigatoriedade do serviço militar.

Condena frequentar uma igreja e, ao sair dela, e virar as costas para ela, voltar a ser covarde, hipócrita, falso, traidor.

Condena não se exaltar durante uma discussão, ser um bom perdedor-fujão.

Condena aparentar uma pessoa boa, mas ser extremamente vil.

Condena o desrespeito total por culturas alheias à sua, por religiões alheias à sua, por línguas alheias à sua, por pessoas que pareçam diferentes.

Questiona o homem branco chegado às costas da América em 1492, e ter praticado o genocídio de índios e negros. Condena reproduzir o racismo cotidiano praticado pela Europa e pelas nações civilizadas à sombra da Europa.

Condena a violência contra mulheres, crianças, gays, lésbicas, bissexuais, transexuais.

Pede que venham os gritos da resistência contra narrativas homogeneizantes que renovam as justificativas para as dinâmicas de submissão e opressão.

Enaltece o que está em curso entre as culturas dominadas, depois de séculos de dominação. Fala do Estado Islâmico e do Ideal Comunista como instrumentos de reação.

Declara-se não membro deste mundo elitista dominador, explorador, cliente das benesses dos governantes, beneficiários e donatários de capitanias hereditárias e de imensas sesmarias de terras, invasores de santuários ecológicos, subornadores de juízes e fiscais, contumazes aplicadores de carteiraços quando são pegos em desvantagem.

Os declara inimigos da humanidade, que terão de recuar por bem ou por mal, no Estado de Direito ou no Estado de Exceção, na Legalidade ou no Ilegalidade que, aliás, eles muito bem conhecem. Haverá o recuo consentido ou o recuo forçado.

E agora, cidadão, contribuinte, eleitor, consumidor?

E agora? Agora só nos resta ter consciência de que nenhuma das duas bandas interessa a quem faz a produção, o consumo, a prosperidade, a harmonia social, a responsabilidade, o direito, a justiça, que são coisas mínimas para que sejamos seres de uma sociedade que se expande para chegar a ser uma humanidade.

É preciso abrir fóruns imediatos nos quais se fale abertamente desses problemas e que tenhamos líderes, governantes, legisladores, empresários, magistrados capazes de transformar as conclusões em ações práticas.

Sabemos que levaremos séculos procurando consertar os descaminhos. O pior rumo é o confronto.

Semana que vem continuamos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário