sábado, 25 de junho de 2016

1852-Quantas vezes morremos?




A vida é um eterno renascer

A mais recente morte do Brasil



Introdução



É, pois, um absurdo pensar assim, escrever isso, mas a verdade é uma só e na maioria das vezes a verdade dói: procuramos mais a morte do que a vida.

Morrer, como um dos estágios da vida, parece ser algo normal. Todos morreremos ao menos é o que se tem fundamentado. É assim que tem de ser entendido. Mas, a questão é que temos pavor da morte e, ao mesmo tempo, fugimos da vida. Em direção da morte.



Ao ler estas frases tudo parece estranho, muito louco, mas pare e pense: quem você conhece que faz tudo direitinho para que a vida sorria feliz? Nós somos preparados para correr atrás da morte mesmo detestando-a e borrando-se de medo dela. Repare nas ruas por onde você circula: qual é o percentual de pessoas obesas? E o problema das drogas, incluindo o fumo? Quantos se drogam? Quantos fumam? Quantos bebem? Quantos se alimentam erradamente? Quantos se expõem a riscos nas ruas, nas estradas, nas aglomerações, no ar, no mar?



Somos chamados a pensar sobre isso. Mais ainda, saindo do individual e pensando nas urnas, no governo, na lama que sufoca nossas instituições.



Mas, a proposta deste artigo é outra. É chamar a morte para nossa aliada.



Continue lendo e você verá...



Uma morte aparente a cada experiência



Cada um de nós é incapaz de avaliar os reinícios como uma morte do Ser velho e um nascimento do Ser novo. Mas, é isso mesmo que acontece conosco. Este processo é chamado de iniciação, reiniciação, retomada, renascimento. Isso se dá quando nos damos conta que as coisas mudaram, que a fila andou e que nós também temos de mudar, andar, transmutar, transformar, transnascer.



Nascer é uma morte do feto e um nascimento da criança; desmamar idem; ir à escola pela primeira vez também; a descoberta do sexo, com certeza; a primeira menstruação, idem; e aí vamos aduzindo e acrescentando o serviço militar, a faculdade, o casamento, a formatura, a maternidade/ paternidade, etc. etc., não acaba nunca nem mesmo com a morte do corpo, pois aí renasce o espírito outra vez.  



A morte do corpo



Escritos muito antigos dos pré-socráticos e dos gnósticos, estes com algo de essênios e talvez muito próximos de Jesus, falam da noção oculta da palavra “morte”, cuja sabedoria psicológica foi muito respeitada e elogiada por Jung, já no século XX, o mais espiritual dos psicanalistas antigos que conheço.



Entendiam aqueles mestres do saber nascente, ao tempo de Jesus, que para existir um elemento o outro tem de morrer. Biologicamente dá para aceitar quando se pensa que a semente morre para que exista o arbusto, a árvore; as moléculas de glicose precisam morrer para que a energia seja absorvida pelo corpo; o nosso Sol está morrendo para haja luz neste recanto da Galáxia; e assim, vários outros exemplos poderiam ser alinhados através das árvores, dos alimentos, e de tudo que é físico.



E será que o corpo realmente morre ou se transforma? A transformação, com certeza, é uma morte.



E agora? Na troca de dimensão observa-se o mesmo princípio?



Do biológico para o espiritual, sim.



A alma se liberta com a morte do corpo biológico. Mas, a alma, a energia, não morre. Aprimora.



A “morte” do Espírito



E haverá, ao menos, simbolicamente, uma morte simbólica do Espírito enquanto encapsulado no corpo biológico?



Não, literalmente, ao que se ensina.



Temos poucas chances de lembrar de vidas passadas, mas delas recebemos fragmentos quando o processo é bem conduzido. Então, o Espírito não morre ao entrar na cápsula biológica, e sim se transforma. Sua memória de largo prazo é eclipsada, possivelmente por um ato de extraordinário amor do Planejador da Vida. Já temos notícias de perturbações arrasadoras trazidas para a mente biológica quando fazemos acessos inseguros ao arquivo espiritual, uma candente advertência aos “especialistas” em regressão e a outros experimentadores em organização de constelações de espíritos e almas.



Mas, isso aqui não é uma discussão psiquiátrica e então fiquemos na Filosofia.



Os iniciados em espiritismo admitem a existência de vidas passadas, não apenas trazidas às lembranças por conta da memória genética (esse é outro assunto para outra página do blog) e então os comportados cidadãos da atualidade, de ambos os sexos, podem ter passagens por um ou vários daqueles episódios da História, que só nos causam vergonha atualmente.



Mas, aqueles eram outros tempos e naqueles outros tempos, sim, se podia matar em nome de uma “causa”, fosse ela qual fosse. Hoje nós defendemos a vida dos cães, das tartarugas, dos micos ameaçados, mesmo abatendo milhões de bois, frangos, peixes... E mesmo deixando crianças e velhos abandonados à morte.



Homem, a ameaça do homem



Somos nós, também, uma espécie ameaçada e, quanto a isso, pouco considerada. Ainda temos ecologistas pedindo que fique de pé a árvore e que morra o matuto que tira dela o seu sustento.



Erro de planejamento? Erro de concepção?



Então, peguemos aí um gladiador romano reencarnado atualmente num jogador de futebol. E as reencarnações demonstram alguma coerência. E abra, ao craque da atualidade, as lembranças daquelas outras batalhas. Ele, com a índole que hoje tem, fugiria da arena e iria internar-se num sanatório.



Por isso, o Planejador da Vida providenciou o “esquecimento” do passado enquanto a memória atual trabalha os avanços do “gladiador” que, ao invés de matar sua vítima, derrota-a no drible, na astúcia, no placar, ainda, como antes, para delírio da plateia. Não evitada a pancadaria que às vezes começa na arena e vai para a arquibancada e às vezes se inverte e acaba na delegacia de polícia.



Os transtornos mentais podem estar precisando de uma obra recuperadora capaz de cobrir de dignidade a memória que teima em remoer episódios recorrentes que atuam como monstros assustadores, tema para a psicanálise.



A memória velha precisa “morrer” enquanto a memória nova se descobre a si mesma não como adversária do Plano da Vida, mas como sua aliada.



Quem sabe aí morra o homem velho inimigo do homem velho e leve consigo o homem novo inimigo do homem novo para que renasçam ambos em uma nova vida.



É o Espírito que nos tem?



Esta é uma discussão deste blog em alinhamento com o novíssimo pensamento que tomará conta da humanidade. A maioridade espiritual buscada neste espaço, entre outras coisas, passa pela compreensão assumida de que o corpo físico é veículo do Espírito e que tudo quanto produzirmos usando este complexo e maravilhoso veículo, irá para a conta do Espírito, será incorporado ao capital espiritual e formará saldos positivos ou negativos para a evolução humana.


A presença do Espírito no corpo é a maior das aventuras possíveis ao Ser Espiritual. O ato de mergulhar num corpo, aprisionar-se por algum tempo, exercitar experimentações, assumir responsabilidades, efetuar ganhos, perdas ou simplesmente navegar ao sabor do vento, é algo bem maior que a maternidade ou paternidade deste mesmo Ser. Não estamos zerando a responsabilidade espiritual de pai e mãe de ninguém. Só estamos assumindo o risco de afirmar que o próprio Espírito que se encarna tem para consigo maior responsabilidade que têm os seus genitores.
À parte todo o envolvimento amoroso dos pais e além da coautoria do ser gerado, está a própria aventura do Espírito aventureiro. Não podemos, nunca, esquecer que ao encarnar trocamos um mundo de liberdades, verdades, autenticidade, ética, inequívoca hierarquia, absoluta disciplina por um imponderável mundo caótico - esse que temos aqui e agora, aonde a mediocridade não para de imperar. (Quero abrir um parêntesis para salvar minha reputação de escritor: o mundo espiritual no todo não é de liberdades, verdades, autenticidade, ética, como afirmei linhas atrás. Nas camadas mais baixas temos coisas horríveis iguais e piores as que temos entre os encarnados. Mas esses não reencarnam sem primeiro receberem tratamento no além).



Passar a travessia do espiritual para o material, exige-se do Espírito - e veja que ele não dirige, quem dirige é a mente terrena - muita sabedoria e astúcia. Evoluir no mundo espiritual não é diferente do que evoluir no mundo biológico. Cada um de nós pode avaliar o que tiveram de fazer os nossos ancestrais para nos entregar o capital biológico que nos serve? E cada um de nós pode avaliar o que seja a estratégia de evoluir espiritualmente? Está aberta a discussão para que cheguemos à Maioridade Espiritual.



O que mudou de nossos ancestrais para cá



Aqueles heroicos seres que viveram há 300, 150, 100 anos atrás (quem sabe entre eles também nós que lemos estes textos), não tinham obrigatoriamente preocupações espirituais. Sua estratégia era vencer a fome, o frio, as doenças, as invasões e sobreviver. Não havia remédios, vacinas, transplantes, implantes, próteses. Morria-se de febre amarela, tuberculose, sífilis, febre tifoide, escorbuto, gripes. O casal imperial da nossa Independência viveu menos de 35 anos e estavam entre as pessoas mais consideradas e assistidas do seu tempo.



Hoje, com todos os avanços, fazemos dieta para emagrecer, temos mais preocupações com o calor do que com o frio, temos uma paz relativa e a estratégia é crescer intelectual, espiritual e economicamente. Ao você ver alguém chutando um cachorro, sua reação é ligar para o 190 e denunciar o agressor. Nota mil para você. Mas, ali na calçada por onde você passa há um morador de rua embriagado, drogado, deitado sobre papelões e coberto por um pulgueiro. Você faz o que?



Essa é a questão. Talvez faça a mesma coisa que o ecologista que clama para que a árvore fique em pé mesmo que, para isso, morra o matuto que vive da floresta.



São estas mortes e estes renascimentos que ainda teremos pela frente.



Ainda não estou colocando aqui o político que embolsa a verba da saúde, da merenda escolar, da escola, do hospital. Daqui a pouco sim.



O que vai mudar em termos de cidadania



Hoje, talvez você sinta nojo ao acompanhar os noticiários brasileiros, da FIFA, do estado islâmico e outros. Talvez você não tenha se dado conta que os réus dos processos possam estar entre aqueles em quem nós votamos ou pertençam ao partido que apoiamos. Não dá mais para ouvir de ninguém que lá naquela sigla tem quem não se corrompeu e, portanto, temos que deixar como está porque as coisas são assim mesmo.



O modelo está errado e não adianta olhar para a Polícia Federal, para o juiz Sérgio Moro a espera de que eles façam a limpeza. O lugar menos sujo é aquele que menos sujamos. O político limpo é aquele que não se suja. O modelo tem de permitir ao cidadão conhecer o candidato e tem de garantir ao cidadão que o candidato não será um profissional do poder. Os partidos terão de ter programas claros e seus representantes têm de assumir isso sem trocar de sigla para garantir o poder. E sua eleição tem de se dar sem um caminhão de dinheiro.



Por que não somos apaixonados pelos partidos como somos pelos times? Simples, é porque o político não joga para nós, joga para ele. Temos de fazer esses caras jogarem para nós, legislarem para nós, defenderem bandeiras que são nossas.



Esta, então, será a morte do eleitor velho e o nascimento do eleitor novo, assim como o Brasil já morreu em 1889, em 1930, em 1945, em 1964, em 1982 e agora está morrendo novamente. Nascerá um novo Brasil? Sim. Melhor ou pior que este que morre, não se sabe.



A morte desejada é do corrupto



O corrupto que ocupa função pública ou privada onde são tratados interesses coletivos não faz mal apenas para os outros. Faz mal para ele próprio. Levará séculos depurando sua alma.



Mas, nós, eleitores, temos de estar conscientes de que um mau voto, um voto leviano, irresponsável, impensado, por mera simpatia, é um voto tão nocivo quanto o daquele esperto que negocia seu voto embolsando vantagens imediatas ou futuras.



É com essa leviandade eleitoral que os candidatos se fartam.



Temos de pegar pesado contra o modelo eleitoral que aí está. Ele é a porta aberta da corrupção. Ela começa antes do candidato eleger-se. E apenas se consolida depois que ele assume.



A outra providência é minguar a verba federal. A maior fatia tem de ficar com o município e quase nada lá no federal. Assim, o Congresso, o Executivo e o Poder Judiciário terão que trabalhar legislando, propondo e julgando sem tocar no poder do dinheiro.



As obras de interesse intermunicipal seriam executadas por consórcios de municípios com a participação do Estado.



Precisamos discutir isso.

sábado, 18 de junho de 2016

1851-Uma abordagem além da miséria



A Pobreza Espiritual

Introdução

Serei um tanto quanto polêmico. Inverterei tendências e acabarei por ferir conceitos e quem sabe pessoas. Faz parte da missão de quem vem para educar, tirar de dentro (da prisão), desenvolver (o contrário de envolver com o sentido de empacotar) nestes tempos de Aquário. Não sei se estou nessa missão, mas o tema me anima.

Vou dar exemplos máximos de missionários da Era de Aquário: The Beatles, Obama, Chico Xavier, Papa Francisco. Este último, então, foi ocupar o mais alto cargo católico e progressivamente vem surpreendendo o mundo com suas ideias e ações.

A humanidade, notadamente a ocidental, criou para si alguns conceitos, se amarra neles e os chama de paradigmas, os aceita como modelo padrão de algumas coisas, notadamente da cultura, e se esquece que a fila anda. Tem gente amarrada na doutrina de Moisés e de outros líderes com idade de 3 mil anos querendo aplicar esses modelos padrões para os tempos de hoje. Mas, como devemos respeitar a questão religiosa do próximo, na certeza de que cada um tem o paradigma que merece, não é exatamente de religião que quero tratar nesta postagem. Quero falar de riqueza e pobreza espiritual. Quem quiser levar para o campo religioso, fique à vontade, mas não me leve junto.

Garanto que quando falei de riqueza e pobreza você estava esperando uma conversa sobre dinheiro. É isso. Nós ocidentais quando se trata de pobreza ou de riqueza, vamos direto para a moeda, a posse dela, a posse dos bens que ela permite acumular ou a sua absoluta ausência, no caso, a miséria.

Pois não é exclusivamente disso que vamos tratar. Claro, não se pode ignorar que haja ricos e pobres pela posse ou não posse do dinheiro, mas a abordagem quer mostrar algo pouco explorado e que é da mais profunda e absoluta importância para os seres humanos.

Vamos a uma pergunta preliminar? O que restará de mim e de você quando nossos corpos forem depositados numa sepultura?

Numa roda de conversa, ouvi uma resposta assim: “restará o túmulo onde as pessoas virão visitar, no dia de finados, depositar flores e acender velas”.

Você concorda?

Claro que não.

Então vamos abrir nossas reflexões a respeito de pobreza e riqueza.

Jesus, o precursor

Ali na Palestina, no século I da Era Cristã, com Roma dominando a região e se apossando das riquezas geradas e havendo negócios e favorecimentos oficiais, subterfúgios, contrabandos e negociatas, inclusive dentro dos templos (o que gerou a parábola dos vendilhões, narrada no Novo Testamento), foram várias as falas de Jesus referentemente às riquezas associadas ao poder do dinheiro e geralmente com a conotação de que o dinheiro não pode ser o objetivo de nenhuma vida. E nisso ele enaltecia o Reino de Deus, na contramão do Reino de Roma, mandava pagar a César o que era devido e pedia pagar a Deus o que era devido e ainda citava Mamon, que era uma espécie de George Soros daqueles tempos.

E, houve, numa de suas falas que Ele enalteceu visivelmente a pobreza de alma como requisito para ser bem-vindo ao Reino de Deus. Trata-se de um dos tópicos das “bem-aventuranças”.

E foram as “bem-aventuranças” o seu discurso inaugural de sua messe entre aquele povo. Jesus nos apresenta o programa do Reino de Deus em pouco mais de meia-dúzia de frases.

Disse serem as condições para a entrada nesse reino novo que Ele inaugurara na Terra e usou o termo Reino para ser coerente com o paradigma da época: reino era conceito de poder, mando, governo, lugar, nação.

Sobretudo a primeira frase, a da pobreza, que Mateus dá como de coração, Lucas dá como pobreza, apenas, mas por conta algumas traduções em Mateus mesmo aparece como pobreza de espírito, é muito decisiva para que a pessoa seja autenticamente recebida no Reino de Deus.

Aí você sai por aí pesquisando o que seria a pobreza de espírito e o resultado é avassalador: miserabilidade, abandono, ignorância, sujeira ou impureza e por aí vai. Mas, que Deus é esse que esbanja riqueza em tudo aquilo que criou e reserva para o ser humano a mais comezinha situação de rastejar o pior dos mundos abandonados da riqueza?

Fala, aí, Nazareno, o que foi que Você quis dizer na sua linguagem e com base nos paradigmas de então?

“Felizes os pobres, os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”, é a citação por inteiro. Quer dizer: não haverá entrada para nós no Reino de Deus se não formos pobres de espírito. Porque a pobreza é a primeira condição para ser acessível, permeável a Deus. Ela é o ponto de partida da vida cristã. Pobreza não financeira, humildade intelectual, abandono da soberba, renúncia à jactância da superioridade, bondade associada à tolerância para ouvir o que o outro tem a dizer. Inclusive para esperar pela explicitação inteira aqui e agora.

Sabemos que a pobreza de alma não é uma questão de dinheiro, mas de coração. O fato de se ter dinheiro acumulado não é em si uma virtude. A virtude está naquele que busca juntar espiritualmente e que por ser pobre continua buscando nunca satisfeito. O avarento também faz assim com os vis metais. Uma pessoa pode não ter nem um centavo, mas possuir uma atitude de rico. Rico na alma, quando não eleva. E outra pessoa pode ter muitos bens e possuir uma atitude de pobre. Pobre no coração e, por extensão na alma quando sua postura incomoda o mundo.

A pobreza evangélica é uma atitude espiritual, e todos nós somos convidados a ela – e isso não tem nada a ver com os nossos bolsos.
 
Qual é, então, a atitude de pobreza espiritual?

O pobre está disposto a deixar-se questionar por Deus, sempre. Ele aceita abandonar suas posições, suas estruturas, seus princípios, tudo o que lhe é próprio. Felizes os que estão convencidos de que ninguém é dono de si mesmo e de que Deus pode nos pedir tudo.

De certo modo, entregamos tudo. Naquele dia em que nos colocarem no esquife, nada mais é nosso. Nem a alma. Ela é de Deus e será chamada a prestar contas, logo, essa também não nos pertence.

Só o pobre sai de si mesmo e se coloca em caminho. É aquele que não se resigna a estar tranquilo, confortado, abastecido e aceita ser "incomodado" pela palavra de Deus. Por isso, Abraão foi o primeiro pobre, o primeiro fiel à voz de Deus, quando Deus lhe pediu para sair da sua terra, abandonar tudo e ir à terra que Ele lhe mostraria (cf. Gn 12, 1).

Abraão era um médium e escutou a Palavra de (um representante de) Deus, acreditou nela, quebrou seus paradigmas, abandonou seu país, o lugar cômodo onde vivia, deixou seus bens, seus hábitos, seu passado e se colocou em caminho. E partiu sem saber aonde ia (cf. Hb 11, 8) – sinal infalível de que (para ele) estava no bom caminho.

Muitos analistas, hoje, questionam o ato de Abraão tendo em vista tudo que aconteceu e acontece aos seus descendentes, ainda em guerra. Mas, quem pode arriscar o que teria sido dos hebreus se Abraão tivesse permanecido na Mesopotâmia, onde estava?

O pobre tem consciência de que depende totalmente de Deus. Não é uma questão de fé, é uma questão de certeza. A vida e a alma pertencem a Deus. O pobre conhece sua limitação humana. No fundo, cada humano, melhor dizendo, cada alma, mesmo sem saber, é um pobre. Sairá do corpo sem nenhum bem material.

O que seria a riqueza material?

Primeiro a pobreza. A pobreza material é bem-aventurada porque é o lado visível de uma pobreza muito mais profunda e universal: nossa pobreza moral, nossa fé miserável, nosso amor raquítico, nossa intolerância, nosso ódio, nosso egoísmo. É bem-aventurada a pobreza porque não gera lixo, não polui, não manda CO² para a atmosfera, não produz a fome dos outros, não vive de juros...

Todos nós somos pobres diante de Deus, com nossa culpa, nossa miséria íntima, nossas deficiências. Mas, nem todos se reconhecem assim diante do Autor da Vida. Principalmente aqueles que detém riqueza material, são, por paradigma, os mais intolerantes, os mais competitivos e por regra os mais afoitos a brigar e a tomar o espaço dos outros.

Só aquele que conhece e reconhece sua fraqueza e pequenez diante de Deus consegue colocar toda a sua confiança nele, buscando sua proteção poderosa. Nesta atitude de pobreza espiritual, a pessoa se esvazia de si mesma. E porque está aberta e disponível para Deus, o Espírito do Senhor pode agir em sua alma.

E quando achamos que já não temos necessidade de Deus, quando estamos satisfeitos conosco mesmos, com nossos conhecimentos, nossas práticas religiosas, com o fato de não saber mais o que pedir, quando já não esperamos nada de Deus... então somos ricos.

Penso que não há pecado maior que o de não esperar nada de Deus. Porque, se não esperamos nada de Deus, é porque já não acreditamos nele, já não o amamos e o nosso Deus já é outro.

Pobreza espiritual, caminho de vida

Há uma escultura de S. Francisco de Assis no Monte Alverne, Itália, em que ele está deitado na terra, a olhar para cima. É uma imagem da santidade. A capacidade de se deitar a olhar, a ver, a reparar, a respeitar - olhar outra vez. Por vezes somos injustos com a vida, com as coisas, com os acontecimentos, porque não olhamos outra vez. O nosso ponto de vista já está muito cheio, muito condicionado, é um funil que deixou de ser abertura de coração. Isso poderia ser “riqueza”, cofre lotado, bolso cheio, cabeça feita?

Por um lado, devemos ter consciência da nossa autonomia. Deus tem de ser um caminho para cada pessoa. Não vivemos encostados na experiência de ninguém e o papel do pai e da mãe se limita aos nossos primeiros anos. Depois, somos nós mesmos que gritamos independência, queremos autonomia, autoridade. Somos autônomos também no caminho da fé. O que faremos com nossa alma é problema nosso. Mesmo que mal orientados por péssimos pregadores, o problema continua nosso.

A nossa relação com Deus é, sem dúvida, comunitária, mas antes de tudo é pessoal. Deus não se revelou primeiro a um povo, mas a uma pessoa. É o que dizem as escrituras. Um por um, um após o outro, em todas as religiões, vão surgindo aqueles que canalizaram as frequências de Deus e disseram o que deveríamos fazer. Deus sabe o nosso nome, sabe o que somos, nosso cpf. Isto também tem a ver com a aceitação da pobreza. É na pobreza que está a riqueza enquanto ponto de partida.

A par da autonomia, temos de viver na consciência de que dependemos inteiramente do amor de Deus. “Não temas, pequenino rebanho, porque é agradável a teu Pai dar-te o Reino”.

A pobreza espiritual, encarnada por Jesus, tem ressonância no Antigo Testamento. Nesta tradição fala-se de um modo de ser e viver pobre em termos espirituais, concretizado pelos anawin, os pobres de Yahweh. O que Maria canta e testemunha no seu "Magnificat" é a reviravolta de Deus, que pôs os olhos na pobreza da sua serva, que retira os poderosos dos tronos e neles faz sentar os humildes, que despede os ricos de mãos vazias e enche os pobres das suas riquezas.

Mas, cuidado, de que riquezas?

Tenho acompanhado pregadores e líderes políticos que prometem a redenção dos seus liderados pela posse do dinheiro. E assim, o dinheiro nos aparece como Cristo falou de Mamon, um financista que recebia as economias dos palestinos, como hoje fazem os agiotas e o doleiros.

A própria doutrina marxista pregou a retirada de Deus e a ascensão do dinheiro ao ensinar que a redenção dos homens se dá apenas pela economia. Ser comunista é tomar do rico e dar ao pobre. Claro, estava na contramão do capitalismo egoístico que ainda é soberano, mas não podia excluir Deus da vida das pessoas. Riqueza sem ética é ditadura.

Um coração pobre está disponível para viver a alternativa de Deus, a lógica nova de Deus, as transformações, o modo de ver e atuar de Deus na história sem precisar tirar dos ricos, mas legislando com amor.

Jesus também nos ensina o caminho da pobreza espiritual. Quando atravessa a Samaria acompanhado pelos discípulos, e sente fome. Por vezes a fome é um momento espiritual importante. Não só a fome biológica, mas também a necessidade de outra coisa, outro discurso, outra doutrina, outro modelo econômico, outra relação capital-trabalho.

Os discípulos vão à aldeia buscar comida e, ao regressar, Jesus lhes fala de outro alimento: fazer a vontade do Pai. Também nós fazemos um grande investimento para buscar o alimento, mas Jesus, à semelhança do diálogo com os discípulos, como que nos pergunta: “É disso que te alimentas?” É só disso que te alimentas?  

O verdadeiro alimento é vivermos a partir da condição de sermos filhos, de sermos filhos amados por Deus. Se vivemos a partir da convicção profunda de que é o amor de Deus que nos funda - o que o Pai diz a Jesus, “Tu és o meu filho muito amado, em ti coloco o meu amor” -, a nossa existência será completamente diferente. Deixaremos de andar de equívoco em equívoco. Saberemos verdadeiramente qual é o nosso alimento, o que nos sacia, o que é decisivo para nós biológicos e para nós espirituais.

A pobreza espiritual também se expressa na aceitação de si. Não temos apenas mal-entendidos com os outros. Por vezes, o maior e o mais difícil mal-entendido é conosco próprios. Não nos aceitamos, não nos abraçamos, não nos acolhemos, não nos perdoamos. Aceitar-me no que sou e não sou, no que fui, no que não fui, no que não consegui, no que correu bem e no que correu mal, na fraqueza e na fragilidade, é me amar sem limites.

Como é que se torna fecunda a vida pobre? Na aceitação confiante de si. Como diz S. Paulo na segunda carta aos Coríntios (4, 7): “Trazemos em vasos de barro o nosso tesouro”. E é sempre assim. Temos de aceitar o tesouro, mas também o barro, o barro que se quebra, o barro que se cola, o barro que não tem remédio, o barro que fica ferido, o barro que é descartado. Mas, a riqueza perdura, é eterna.

O nonagenário poeta brasileiro Manoel de Barros é uma das grandes figuras espirituais do nosso tempo: “Prefiro as máquinas que servem para não funcionar”. Isto exige uma conversão. Porque nós preferimos o que funciona. “Porque cheias de areia, de formigas e de musgo, elas podem um dia milagrar flores”. Há um milagre que só nos chega pela pobreza.

O pobre recebe mais do que espera

Há a história do monge perseguido por um tigre: o monge corre, o tigre também; o monge sobe numa árvore, e também o tigre; o monge desce, o tigre imita-o. Chegado ao cume de uma montanha, percebe que de um lado tem o tigre e do outro o abismo. Então pensa: no abismo haverá, possivelmente, alguma coisa que amorteça a queda; e então atira-se. Ao cair, fica preso numas raízes, com o tigre, no alto, a olhar para ele. Mas as raízes começam a ceder com o peso, e daí a momentos ele vai cair onde não sabe. Olhando à volta, encontra um morangueiro, estende o braço e come um belíssimo morango, sentindo todo o seu sabor.

A nossa vida tem o tigre, tem as raízes que cedem, tem o que não sabemos à nossa espera e pode ter um morango. A atitude da pobreza é a convicção de que, no meio da aflição, os morangos não perdem o sabor. Que os encontros não perdem o sabor. Que sejamos capazes de perceber o sabor que nos é dado, mesmo que não seja nas condições, no modo, no dia ou no tempo que tínhamos previsto. O pobre recebe infinitamente mais do que previa.

Como o mestre que chama o discípulo para a primeira lição, que é tomar chá. Ao deitar chá para a chávena do aprendiz, não pára, e então o chá transborda. O discípulo, assustado, grita: “Mestre, o chá está a espalhar-se por todo o lado”. E o mestre diz-lhe: “É a primeira lição: se não tiveres o coração vazio, vai perder-se tudo aquilo que ouvires e viveres”.

Como é que pode acontecer que passem semanas e nada nos toque? Como podemos dizer que não vemos Deus em nenhum lado? S. Francisco andava com uma varinha a bater nas rochas, nas flores e nas criaturas, e dizia-lhes: “Pára, pára, não me fales de Deus”.

Esta pobreza espiritual é chamada a expressar-se num estilo de vida essencial. É importante que cada pessoa se pergunte o que quer testemunhar ou certificar. Porque nós estamos sempre a testemunhar e a certificar.

Diz Rumi: O que é que eu deixo em herança? Deixo em herança a primeira brisa do outono e o primeiro canto do canário na primavera. O que é que nós deixamos em herança? Podemos até deixar bens, mas se não deixamos o sabor da vida, o sentido, a transparência, se não deixamos a brisa do outono e o canto do canário na primavera, então não deixamos nada, não testemunhamos nada, não certificamos nada.

O que possuímos, possuí-nos. Devemos estar muito alerta e perguntar: eu quero possuir isto? Que é como quem diz, eu quero ser possuído por isto? Se pensarmos assim, ganhamos outra liberdade, que é um caminho exigente, de pequenas e grandes escolhas, de momentos extraordinários e da vida de toda a hora.

Queremos viver para dar testemunho do amor e do acolhimento, para certificar o amor e o acolhimento ou queremo-nos protegidos através do conforto e da segurança, encastelados em nossas “trincheiras”?

Oremos sobre a nossa vida. Perguntemo-nos o que nos alimenta, o que nos toca, perguntemos se só vemos a meta ou se aceitamos a nossa vida pobre e vazia. Perguntemos se em cada dia franqueamos as muralhas do nosso coração.

“O ser humano é uma casa de hóspedes; cada manhã, um novo recém-chegado, uma alegria, uma tristeza, uma maldade, que vem como um visitante inesperado. Diz-lhes que são bem-vindos, e recebe-os a todos, ainda se são um coro de penúrias que esvaziam a tua casa violentamente. Trata cada hóspede com todas as honras; ele pode estar a criar-te um espaço para uma nova delícia. O pensamento obscuro, a vergonha, a malícia, recebe-os à porta sorrindo e convida-os a entrar. Agradece a quem quer que venha, porque cada um foi enviado como um guia do Além”.



Esta postagem recebeu contribuições de José Tolentino Mendonça.


sábado, 11 de junho de 2016

1850-Comparando Lula a Hitler




Um avatar que fracassou



É interessante olhar para a História Humana e identificar nela homens e mulheres que fizeram a diferença como heróis, bem como identificar outros tantos e outras tantas que tiveram tudo à mão e chafurdaram como vilões.



Numa rápida análise, voltamos ao ano de 1934 e lá iremos encontrar um baixinho conversador, carismático, membro do Partido Nacional Socialista, que assume como primeiro-ministro e encanta a Alemanha e boa parte do mundo com suas ideias e propostas.



Mas, chafurda. Com muita sede ao pote, quer que seu governo domine setores que normalmente não se deixam dominar. Levou a Alemanha à II Grande Guerra, destruiu a Alemanha e esta nunca mais voltará a falar em nacionalismo e socialismo, não, ao menos, com aquele arroubo do senhor Adolf Hitler.



Como fica o capital espiritual deste senhor?



Por que será que a conjuntura política, econômica, social, intelectual, espiritual coloca sobre o caminho de determinados povos pessoas como Hitler, Fidel Castro, Hugo Chávez, Lula, Nicolas Maduro?



Examinando as condições em que alguém emerge para um cargo de imensas responsabilidades como é o comando de uma nação, tem-se a vaga ideia da dimensão do imenso trabalho da espiritualidade para criar as condições para isso, normalmente apostando no talento daquela liderança.



Bem, você deve estar questionando: por que Lula foi apontado como o avatar brasileiro e, agora, o que se poderia dizer desse senhor?



É claro que não se pode aceitar com frieza de alma que as condições tenham sido criadas propositalmente para chegar aonde chegaram. Mas, se fosse o contrário? Se isso tivesse de ser o carma da nação?



A Alemanha seria hoje a potência que é se não tivesse sido destruída na guerra? E o Japão que vem na mesma esteira? Não se iluda com a China de Mao Tse Tung, sua revolução e as condições que hoje tem. A China é um barril de explosivos. Mas, passará por sobre o regime que tem e será um super Japão no futuro. De certa forma já é.



E o Brasil? As condições, a conjuntura política, econômica, social, intelectual, espiritual que confluíram e o operário nordestino, quase analfabeto (e orgulhoso disso) vence e assume a presidência de um país espiritualizado como o Brasil. Faz o segundo mandato, traz para a frente de visibilidade sua protegida, Dilma Rousseff, que faz seu segundo mandato, enquanto Lula pensava no seu terceiro e quarto mandatos. Seriam 24 anos de lulismo, nem tanto como foi a proposta nacionalista socialista de Hitler, mas muito mais intensa, com uma proposta comunista, ao estilo Fidel Castro e Mao Tse Tung. E não apenas com relação ao Brasil. Haviam outros povos na mira comunista desses megalomaníacos aprendizes dos métodos de Hitler.



O avatar poderia ter transformado as velhas e carcomidas estruturas de poder, herdadas de uma república de coronéis civis e coronéis fardados. Quem sabe teria convocado uma constituinte com poderes de alterar leis que hoje protegem traficantes, ladrões de todos os quilates; que permite o contrabando de armas, munições, aves, mulheres; que submete às condições desumanas imensas populações que se atolam no lodo do esgoto a céu aberto; que permite a derrubada contínua de árvores de nossa Amazônia; que deixa morrer milhares de crianças e idosos nas filas do SUS; que tira da escola a oportunidade de formar cidadãos e entrega as crianças ao descaminho do desrespeito, da provocação, da desobediência.



Vivemos hoje um momento ímpar: o cidadão proprietário, contribuinte, tem medo de sair à rua, precisa se cuidar para não ser acusado de assédio moral, é olhado como réu da miséria urbana e rural, enquanto uma multidão jamais vista neste país se encosta na ajuda indigna que o governo distribui, não para emancipar os beneficiados, mas para obrigá-los a comparecerem aos eventos da CUT, do MST, do PT, e às urnas em dia de eleição, fustigados por uma militância, na verdade, uma milícia a serviço do Plano Maior.



O avatar fracassado está a um passo de ser preso e se apresentará como vítima, um cristo crucificado.



Sua protegida, na condição de mulher acendeu as esperanças de que pela primeira vez a nossa pátria “educadora” poderia ter uma professora no seu comando. Nada direi sobre ela. Os acontecimentos atuais e futuros escreverão sua história.  



Posso parar?



Não devo parar, não enquanto essa história não der por finalizada a saga dos aprendizes do método hitleriano. A sorte das populações argentinas, uruguaias, bolivianas, venezuelanas, brasileiras e outras mais incluídas no mapa comunista, é que, apesar das patacoadas ameaçadoras de luta armada, os aprendizes de Hitler não chegarão à guerra. Mas, a destruição quase equivale a uma guerra.



Não gostaria de estar na pele dos aprendizes de Hitler, e nem do próprio, em se tratando de ajuste de contas com a espiritualidade. Chegar ao comando de uma nação e chafurdar aporcalhadamente como chafurdaram, cria um karma que se multiplica pelo número de pessoas traídas em suas esperanças e castradas nas suas oportunidades.

Deus tenha piedade deles. Se é que pode haver piedade nos seus casos.



Até semana que vem.  

sábado, 4 de junho de 2016

1849-O brasileiro é isso?



A vida vale muito pouco no Brasil

A cada um pouco um novo barbarismo criminoso ocupa a cena na mídia e nas redes sociais. Agora, há uma semana, o caso da garota que foi estuprada por 33 marmanjos, ao que consta, em vingança pelo fato de ela ter traído o namorado.

Caso sério e difícil de comentar porque a garota há muito tempo se encontrava com o namorado agora traído, assumia ficar com ele, a família dela não conhecia o rapaz e isso já fazia bastante tempo.

Coitada, dá a impressão que estou a dizer que o resultado esperado não poderia ser bom ou não poderia ser outro? Quase isso.

Quanta coisa que a gente faz sem perguntar: “onde isso vai dar?”

Esse é mais um caso nessa exata medida.

O sujeito não tinha ocupação definida, já tinha passagens pela polícia: traficante? Ladrão?

Coitada. É triste uma mulher precisar manter uma relação assim e mil vezes mais triste ainda acabar como acabou.

O brasileiro é isso? Ligações perigosas, por debaixo dos panos, por prazer, por dinheiro, por droga, por desvio de conduta?   

Não, o Brasil maior trabalha, dá duro, paga suas contas, paga imposto como ninguém neste mundo, não recebe quase nada em troca e toca pra frente. Pois, deveria parar e protestar. Somos muitos a bancar a conta de uma turminha que nem está aí para o caos que se instala.

O Brasil menor (em quantia de gente) é o da contravenção, da sacanagem.

Somos, infelizmente, um país sem uma política de segurança pública, as armas, munições e drogas entram pela fronteira Oeste todo dia equipando a bandidagem de forma muito superior às nossas polícias e nós nem aí.

Especialistas dizem que o Governo Federal não é protagonista no combate à criminalidade. Os presos condenados ficam ainda mais aptos dentro das cadeias. E nós nem aí.

Os talvez 10% de brasileiros que assaltam, devem e não pagam, matam, estupram, roubam, incluindo-se aí quase toda a classe política, estão a nos dizer: “estamos cagando e andando pra vocês”. “Somos bem assim e não adianta prender e aprisionar, nós continuamos mandando no pedaço. Vocês são uns bananas. Mostram isso a cada nova eleição. Vocês não são bandidos, mas votam em bandidos. Bem feito pra vocês”.

Alguns números

Há duas décadas as primeiras pesquisas de opinião identificaram que a segurança pública já era um dos temas que deveriam ser levados aos debates presidenciais no Brasil. Isso porque é um assunto que passou a preocupar os cidadãos diante do aumento das taxas de roubos e homicídios, da baixa resolução dos crimes e do consequente aumento da sensação de insegurança.

Naquela época, a taxa de homicídios era de 20,2 para cada grupo de 100.000 habitantes. Ou seja, a cada dia 83 pessoas eram assassinadas no país. Depois de dois governos tucanos (Fernando Henrique Cardoso – 1995 a 2002) e quase três petistas (Lula da Silva – 2003 a 2010 e Dilma Rousseff – 2011 a 2016) a taxa saltou para 29 mortes por cada grupo de 100 mil, o que quer dizer 154 assassinatos acontecem por dia. Isso é mais que a guerra da Síria.

Com exceção dessa elevação, pouco parece ter mudado, segundo analistas e conforme os mais recentes levantamentos feitos a esse respeito. Uma pesquisa do Instituto Datafolha divulgada no início do mês passado mostrou que 25% dos brasileiros dizem que o problema que mais aflige é a segurança pública. Só a saúde tem um índice maior, 32%.

Casos recentes de assassinatos, como uma chacina em janeiro no interior de São Paulo ou a rebelião em uma penitenciária do Paraná, só reforçam essa percepção negativa que atinge governadores, prefeitos e o presidente da vez, seja qual for. “Para os cidadãos não importa se a lei diz que a responsabilidade pela segurança pública é do Estado ou de quem. Para eles, todos são responsáveis e, de certa maneira, eles têm razão”, ponderou o coordenador do Núcleo de Estudos sobre Violência da Universidade de Brasília, Arthur Trindade Costa.

Pesquisador do tema há quase vinte anos, Arthur Trindade Costa, professor da UNB, diz que as ações precisariam de uma integração maior entre todos os entes e esse protagonismo deveria ser da União. “Até agora, o governo federal se mostrou muito tímido na tarefa de induzir reformas e em buscar instrumentos que melhorem a segurança”, avalia.

O que chama a atenção é a falta de continuidade de projetos nas trocas de governos. Um exemplo é o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), criado na gestão Lula, mantido nos primeiros anos de Rousseff, e extinto por ela mesma na segunda parte de seu mandato em troca do projeto Brasil Mais Seguro.

“Em muitos casos a participação do governo federal se resume em comprar viaturas e oferecer treinamento para os policiais. Isso não é uma política de segurança”, diz o sociólogo José Luiz Ratton, professor da Universidade Federal de Pernambuco e um dos idealizadores do Pacto Pela Vida, projeto do governo pernambucano que reduziu os homicídios em quase 60% em sete anos.

A falta de transparência na divulgação dos dados é outro fator que dificulta a criação de um plano nacional de segurança e de qualquer outro planejamento. Países como os Estados Unidos ou o Canadá produzem há quase um século anuários estatísticos detalhando onde ocorreram os principais crimes. O governo brasileiro nunca fez por si só nada parecido. Ao invés disso, financia alguns projetos específicos, como o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública ou Mapa da Violência. São iniciativas importantes, mas sem o carimbo direto da União.

Sem informação, o índice de esclarecimento de crimes se reduz. Isso sem contar a falta de estrutura que influencia diretamente nesse quesito também. O estudo “Investigação sobre homicídios no Brasil”, lançado em maio de 2013, mostra que dependendo do Estado menos de 15% dos casos são solucionados. Um dos problemas é a falta de estrutura. Em algumas cidades do entorno do Distrito Federal, por exemplo, há quatro policiais para esclarecer qualquer crime. “Para se solucionar um homicídio, o ideal é que o policial esteja no local do assassinato em menos de 24 horas depois do ocorrido. Mas com essa quantidade de pessoal, isso não é possível”, afirma o pesquisador Trindade Costa.

Outro empecilho é a falta de empenho dos governantes. “O papel do gestor de segurança é fundamental. Os casos brasileiros em que houve um avanço tiveram a participação direta dos secretários ou governadores. Isso deveria ser replicado nacionalmente”, pondera o pesquisador Bráulio Silva, do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais.

Nas últimas eleições o tema voltou a fazer parte dos programas de governo dos principais candidatos. As equipes das campanhas do PSDB, de Aécio Neves, e do PSB, de Marina Silva, já deixaram claro que vão tentar repetir as ações que seus partidos tomaram em dois Estados que governaram, Minas Gerais e Pernambuco. Já o PT, com Dilma Rousseff, não manteve a política de financiamento eventual dos Estados. Fez quase nada.

Para o sociólogo Pedro Bodê de Moraes, da Universidade Federal do Paraná, sem uma política de segurança que privilegie a redução principalmente dos homicídios, o Governo vai passar um duro recado à sociedade: “A vida vale muito pouco no Brasil”.