sábado, 4 de junho de 2016

1849-O brasileiro é isso?



A vida vale muito pouco no Brasil

A cada um pouco um novo barbarismo criminoso ocupa a cena na mídia e nas redes sociais. Agora, há uma semana, o caso da garota que foi estuprada por 33 marmanjos, ao que consta, em vingança pelo fato de ela ter traído o namorado.

Caso sério e difícil de comentar porque a garota há muito tempo se encontrava com o namorado agora traído, assumia ficar com ele, a família dela não conhecia o rapaz e isso já fazia bastante tempo.

Coitada, dá a impressão que estou a dizer que o resultado esperado não poderia ser bom ou não poderia ser outro? Quase isso.

Quanta coisa que a gente faz sem perguntar: “onde isso vai dar?”

Esse é mais um caso nessa exata medida.

O sujeito não tinha ocupação definida, já tinha passagens pela polícia: traficante? Ladrão?

Coitada. É triste uma mulher precisar manter uma relação assim e mil vezes mais triste ainda acabar como acabou.

O brasileiro é isso? Ligações perigosas, por debaixo dos panos, por prazer, por dinheiro, por droga, por desvio de conduta?   

Não, o Brasil maior trabalha, dá duro, paga suas contas, paga imposto como ninguém neste mundo, não recebe quase nada em troca e toca pra frente. Pois, deveria parar e protestar. Somos muitos a bancar a conta de uma turminha que nem está aí para o caos que se instala.

O Brasil menor (em quantia de gente) é o da contravenção, da sacanagem.

Somos, infelizmente, um país sem uma política de segurança pública, as armas, munições e drogas entram pela fronteira Oeste todo dia equipando a bandidagem de forma muito superior às nossas polícias e nós nem aí.

Especialistas dizem que o Governo Federal não é protagonista no combate à criminalidade. Os presos condenados ficam ainda mais aptos dentro das cadeias. E nós nem aí.

Os talvez 10% de brasileiros que assaltam, devem e não pagam, matam, estupram, roubam, incluindo-se aí quase toda a classe política, estão a nos dizer: “estamos cagando e andando pra vocês”. “Somos bem assim e não adianta prender e aprisionar, nós continuamos mandando no pedaço. Vocês são uns bananas. Mostram isso a cada nova eleição. Vocês não são bandidos, mas votam em bandidos. Bem feito pra vocês”.

Alguns números

Há duas décadas as primeiras pesquisas de opinião identificaram que a segurança pública já era um dos temas que deveriam ser levados aos debates presidenciais no Brasil. Isso porque é um assunto que passou a preocupar os cidadãos diante do aumento das taxas de roubos e homicídios, da baixa resolução dos crimes e do consequente aumento da sensação de insegurança.

Naquela época, a taxa de homicídios era de 20,2 para cada grupo de 100.000 habitantes. Ou seja, a cada dia 83 pessoas eram assassinadas no país. Depois de dois governos tucanos (Fernando Henrique Cardoso – 1995 a 2002) e quase três petistas (Lula da Silva – 2003 a 2010 e Dilma Rousseff – 2011 a 2016) a taxa saltou para 29 mortes por cada grupo de 100 mil, o que quer dizer 154 assassinatos acontecem por dia. Isso é mais que a guerra da Síria.

Com exceção dessa elevação, pouco parece ter mudado, segundo analistas e conforme os mais recentes levantamentos feitos a esse respeito. Uma pesquisa do Instituto Datafolha divulgada no início do mês passado mostrou que 25% dos brasileiros dizem que o problema que mais aflige é a segurança pública. Só a saúde tem um índice maior, 32%.

Casos recentes de assassinatos, como uma chacina em janeiro no interior de São Paulo ou a rebelião em uma penitenciária do Paraná, só reforçam essa percepção negativa que atinge governadores, prefeitos e o presidente da vez, seja qual for. “Para os cidadãos não importa se a lei diz que a responsabilidade pela segurança pública é do Estado ou de quem. Para eles, todos são responsáveis e, de certa maneira, eles têm razão”, ponderou o coordenador do Núcleo de Estudos sobre Violência da Universidade de Brasília, Arthur Trindade Costa.

Pesquisador do tema há quase vinte anos, Arthur Trindade Costa, professor da UNB, diz que as ações precisariam de uma integração maior entre todos os entes e esse protagonismo deveria ser da União. “Até agora, o governo federal se mostrou muito tímido na tarefa de induzir reformas e em buscar instrumentos que melhorem a segurança”, avalia.

O que chama a atenção é a falta de continuidade de projetos nas trocas de governos. Um exemplo é o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), criado na gestão Lula, mantido nos primeiros anos de Rousseff, e extinto por ela mesma na segunda parte de seu mandato em troca do projeto Brasil Mais Seguro.

“Em muitos casos a participação do governo federal se resume em comprar viaturas e oferecer treinamento para os policiais. Isso não é uma política de segurança”, diz o sociólogo José Luiz Ratton, professor da Universidade Federal de Pernambuco e um dos idealizadores do Pacto Pela Vida, projeto do governo pernambucano que reduziu os homicídios em quase 60% em sete anos.

A falta de transparência na divulgação dos dados é outro fator que dificulta a criação de um plano nacional de segurança e de qualquer outro planejamento. Países como os Estados Unidos ou o Canadá produzem há quase um século anuários estatísticos detalhando onde ocorreram os principais crimes. O governo brasileiro nunca fez por si só nada parecido. Ao invés disso, financia alguns projetos específicos, como o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública ou Mapa da Violência. São iniciativas importantes, mas sem o carimbo direto da União.

Sem informação, o índice de esclarecimento de crimes se reduz. Isso sem contar a falta de estrutura que influencia diretamente nesse quesito também. O estudo “Investigação sobre homicídios no Brasil”, lançado em maio de 2013, mostra que dependendo do Estado menos de 15% dos casos são solucionados. Um dos problemas é a falta de estrutura. Em algumas cidades do entorno do Distrito Federal, por exemplo, há quatro policiais para esclarecer qualquer crime. “Para se solucionar um homicídio, o ideal é que o policial esteja no local do assassinato em menos de 24 horas depois do ocorrido. Mas com essa quantidade de pessoal, isso não é possível”, afirma o pesquisador Trindade Costa.

Outro empecilho é a falta de empenho dos governantes. “O papel do gestor de segurança é fundamental. Os casos brasileiros em que houve um avanço tiveram a participação direta dos secretários ou governadores. Isso deveria ser replicado nacionalmente”, pondera o pesquisador Bráulio Silva, do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais.

Nas últimas eleições o tema voltou a fazer parte dos programas de governo dos principais candidatos. As equipes das campanhas do PSDB, de Aécio Neves, e do PSB, de Marina Silva, já deixaram claro que vão tentar repetir as ações que seus partidos tomaram em dois Estados que governaram, Minas Gerais e Pernambuco. Já o PT, com Dilma Rousseff, não manteve a política de financiamento eventual dos Estados. Fez quase nada.

Para o sociólogo Pedro Bodê de Moraes, da Universidade Federal do Paraná, sem uma política de segurança que privilegie a redução principalmente dos homicídios, o Governo vai passar um duro recado à sociedade: “A vida vale muito pouco no Brasil”.

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