sábado, 18 de junho de 2016

1851-Uma abordagem além da miséria



A Pobreza Espiritual

Introdução

Serei um tanto quanto polêmico. Inverterei tendências e acabarei por ferir conceitos e quem sabe pessoas. Faz parte da missão de quem vem para educar, tirar de dentro (da prisão), desenvolver (o contrário de envolver com o sentido de empacotar) nestes tempos de Aquário. Não sei se estou nessa missão, mas o tema me anima.

Vou dar exemplos máximos de missionários da Era de Aquário: The Beatles, Obama, Chico Xavier, Papa Francisco. Este último, então, foi ocupar o mais alto cargo católico e progressivamente vem surpreendendo o mundo com suas ideias e ações.

A humanidade, notadamente a ocidental, criou para si alguns conceitos, se amarra neles e os chama de paradigmas, os aceita como modelo padrão de algumas coisas, notadamente da cultura, e se esquece que a fila anda. Tem gente amarrada na doutrina de Moisés e de outros líderes com idade de 3 mil anos querendo aplicar esses modelos padrões para os tempos de hoje. Mas, como devemos respeitar a questão religiosa do próximo, na certeza de que cada um tem o paradigma que merece, não é exatamente de religião que quero tratar nesta postagem. Quero falar de riqueza e pobreza espiritual. Quem quiser levar para o campo religioso, fique à vontade, mas não me leve junto.

Garanto que quando falei de riqueza e pobreza você estava esperando uma conversa sobre dinheiro. É isso. Nós ocidentais quando se trata de pobreza ou de riqueza, vamos direto para a moeda, a posse dela, a posse dos bens que ela permite acumular ou a sua absoluta ausência, no caso, a miséria.

Pois não é exclusivamente disso que vamos tratar. Claro, não se pode ignorar que haja ricos e pobres pela posse ou não posse do dinheiro, mas a abordagem quer mostrar algo pouco explorado e que é da mais profunda e absoluta importância para os seres humanos.

Vamos a uma pergunta preliminar? O que restará de mim e de você quando nossos corpos forem depositados numa sepultura?

Numa roda de conversa, ouvi uma resposta assim: “restará o túmulo onde as pessoas virão visitar, no dia de finados, depositar flores e acender velas”.

Você concorda?

Claro que não.

Então vamos abrir nossas reflexões a respeito de pobreza e riqueza.

Jesus, o precursor

Ali na Palestina, no século I da Era Cristã, com Roma dominando a região e se apossando das riquezas geradas e havendo negócios e favorecimentos oficiais, subterfúgios, contrabandos e negociatas, inclusive dentro dos templos (o que gerou a parábola dos vendilhões, narrada no Novo Testamento), foram várias as falas de Jesus referentemente às riquezas associadas ao poder do dinheiro e geralmente com a conotação de que o dinheiro não pode ser o objetivo de nenhuma vida. E nisso ele enaltecia o Reino de Deus, na contramão do Reino de Roma, mandava pagar a César o que era devido e pedia pagar a Deus o que era devido e ainda citava Mamon, que era uma espécie de George Soros daqueles tempos.

E, houve, numa de suas falas que Ele enalteceu visivelmente a pobreza de alma como requisito para ser bem-vindo ao Reino de Deus. Trata-se de um dos tópicos das “bem-aventuranças”.

E foram as “bem-aventuranças” o seu discurso inaugural de sua messe entre aquele povo. Jesus nos apresenta o programa do Reino de Deus em pouco mais de meia-dúzia de frases.

Disse serem as condições para a entrada nesse reino novo que Ele inaugurara na Terra e usou o termo Reino para ser coerente com o paradigma da época: reino era conceito de poder, mando, governo, lugar, nação.

Sobretudo a primeira frase, a da pobreza, que Mateus dá como de coração, Lucas dá como pobreza, apenas, mas por conta algumas traduções em Mateus mesmo aparece como pobreza de espírito, é muito decisiva para que a pessoa seja autenticamente recebida no Reino de Deus.

Aí você sai por aí pesquisando o que seria a pobreza de espírito e o resultado é avassalador: miserabilidade, abandono, ignorância, sujeira ou impureza e por aí vai. Mas, que Deus é esse que esbanja riqueza em tudo aquilo que criou e reserva para o ser humano a mais comezinha situação de rastejar o pior dos mundos abandonados da riqueza?

Fala, aí, Nazareno, o que foi que Você quis dizer na sua linguagem e com base nos paradigmas de então?

“Felizes os pobres, os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”, é a citação por inteiro. Quer dizer: não haverá entrada para nós no Reino de Deus se não formos pobres de espírito. Porque a pobreza é a primeira condição para ser acessível, permeável a Deus. Ela é o ponto de partida da vida cristã. Pobreza não financeira, humildade intelectual, abandono da soberba, renúncia à jactância da superioridade, bondade associada à tolerância para ouvir o que o outro tem a dizer. Inclusive para esperar pela explicitação inteira aqui e agora.

Sabemos que a pobreza de alma não é uma questão de dinheiro, mas de coração. O fato de se ter dinheiro acumulado não é em si uma virtude. A virtude está naquele que busca juntar espiritualmente e que por ser pobre continua buscando nunca satisfeito. O avarento também faz assim com os vis metais. Uma pessoa pode não ter nem um centavo, mas possuir uma atitude de rico. Rico na alma, quando não eleva. E outra pessoa pode ter muitos bens e possuir uma atitude de pobre. Pobre no coração e, por extensão na alma quando sua postura incomoda o mundo.

A pobreza evangélica é uma atitude espiritual, e todos nós somos convidados a ela – e isso não tem nada a ver com os nossos bolsos.
 
Qual é, então, a atitude de pobreza espiritual?

O pobre está disposto a deixar-se questionar por Deus, sempre. Ele aceita abandonar suas posições, suas estruturas, seus princípios, tudo o que lhe é próprio. Felizes os que estão convencidos de que ninguém é dono de si mesmo e de que Deus pode nos pedir tudo.

De certo modo, entregamos tudo. Naquele dia em que nos colocarem no esquife, nada mais é nosso. Nem a alma. Ela é de Deus e será chamada a prestar contas, logo, essa também não nos pertence.

Só o pobre sai de si mesmo e se coloca em caminho. É aquele que não se resigna a estar tranquilo, confortado, abastecido e aceita ser "incomodado" pela palavra de Deus. Por isso, Abraão foi o primeiro pobre, o primeiro fiel à voz de Deus, quando Deus lhe pediu para sair da sua terra, abandonar tudo e ir à terra que Ele lhe mostraria (cf. Gn 12, 1).

Abraão era um médium e escutou a Palavra de (um representante de) Deus, acreditou nela, quebrou seus paradigmas, abandonou seu país, o lugar cômodo onde vivia, deixou seus bens, seus hábitos, seu passado e se colocou em caminho. E partiu sem saber aonde ia (cf. Hb 11, 8) – sinal infalível de que (para ele) estava no bom caminho.

Muitos analistas, hoje, questionam o ato de Abraão tendo em vista tudo que aconteceu e acontece aos seus descendentes, ainda em guerra. Mas, quem pode arriscar o que teria sido dos hebreus se Abraão tivesse permanecido na Mesopotâmia, onde estava?

O pobre tem consciência de que depende totalmente de Deus. Não é uma questão de fé, é uma questão de certeza. A vida e a alma pertencem a Deus. O pobre conhece sua limitação humana. No fundo, cada humano, melhor dizendo, cada alma, mesmo sem saber, é um pobre. Sairá do corpo sem nenhum bem material.

O que seria a riqueza material?

Primeiro a pobreza. A pobreza material é bem-aventurada porque é o lado visível de uma pobreza muito mais profunda e universal: nossa pobreza moral, nossa fé miserável, nosso amor raquítico, nossa intolerância, nosso ódio, nosso egoísmo. É bem-aventurada a pobreza porque não gera lixo, não polui, não manda CO² para a atmosfera, não produz a fome dos outros, não vive de juros...

Todos nós somos pobres diante de Deus, com nossa culpa, nossa miséria íntima, nossas deficiências. Mas, nem todos se reconhecem assim diante do Autor da Vida. Principalmente aqueles que detém riqueza material, são, por paradigma, os mais intolerantes, os mais competitivos e por regra os mais afoitos a brigar e a tomar o espaço dos outros.

Só aquele que conhece e reconhece sua fraqueza e pequenez diante de Deus consegue colocar toda a sua confiança nele, buscando sua proteção poderosa. Nesta atitude de pobreza espiritual, a pessoa se esvazia de si mesma. E porque está aberta e disponível para Deus, o Espírito do Senhor pode agir em sua alma.

E quando achamos que já não temos necessidade de Deus, quando estamos satisfeitos conosco mesmos, com nossos conhecimentos, nossas práticas religiosas, com o fato de não saber mais o que pedir, quando já não esperamos nada de Deus... então somos ricos.

Penso que não há pecado maior que o de não esperar nada de Deus. Porque, se não esperamos nada de Deus, é porque já não acreditamos nele, já não o amamos e o nosso Deus já é outro.

Pobreza espiritual, caminho de vida

Há uma escultura de S. Francisco de Assis no Monte Alverne, Itália, em que ele está deitado na terra, a olhar para cima. É uma imagem da santidade. A capacidade de se deitar a olhar, a ver, a reparar, a respeitar - olhar outra vez. Por vezes somos injustos com a vida, com as coisas, com os acontecimentos, porque não olhamos outra vez. O nosso ponto de vista já está muito cheio, muito condicionado, é um funil que deixou de ser abertura de coração. Isso poderia ser “riqueza”, cofre lotado, bolso cheio, cabeça feita?

Por um lado, devemos ter consciência da nossa autonomia. Deus tem de ser um caminho para cada pessoa. Não vivemos encostados na experiência de ninguém e o papel do pai e da mãe se limita aos nossos primeiros anos. Depois, somos nós mesmos que gritamos independência, queremos autonomia, autoridade. Somos autônomos também no caminho da fé. O que faremos com nossa alma é problema nosso. Mesmo que mal orientados por péssimos pregadores, o problema continua nosso.

A nossa relação com Deus é, sem dúvida, comunitária, mas antes de tudo é pessoal. Deus não se revelou primeiro a um povo, mas a uma pessoa. É o que dizem as escrituras. Um por um, um após o outro, em todas as religiões, vão surgindo aqueles que canalizaram as frequências de Deus e disseram o que deveríamos fazer. Deus sabe o nosso nome, sabe o que somos, nosso cpf. Isto também tem a ver com a aceitação da pobreza. É na pobreza que está a riqueza enquanto ponto de partida.

A par da autonomia, temos de viver na consciência de que dependemos inteiramente do amor de Deus. “Não temas, pequenino rebanho, porque é agradável a teu Pai dar-te o Reino”.

A pobreza espiritual, encarnada por Jesus, tem ressonância no Antigo Testamento. Nesta tradição fala-se de um modo de ser e viver pobre em termos espirituais, concretizado pelos anawin, os pobres de Yahweh. O que Maria canta e testemunha no seu "Magnificat" é a reviravolta de Deus, que pôs os olhos na pobreza da sua serva, que retira os poderosos dos tronos e neles faz sentar os humildes, que despede os ricos de mãos vazias e enche os pobres das suas riquezas.

Mas, cuidado, de que riquezas?

Tenho acompanhado pregadores e líderes políticos que prometem a redenção dos seus liderados pela posse do dinheiro. E assim, o dinheiro nos aparece como Cristo falou de Mamon, um financista que recebia as economias dos palestinos, como hoje fazem os agiotas e o doleiros.

A própria doutrina marxista pregou a retirada de Deus e a ascensão do dinheiro ao ensinar que a redenção dos homens se dá apenas pela economia. Ser comunista é tomar do rico e dar ao pobre. Claro, estava na contramão do capitalismo egoístico que ainda é soberano, mas não podia excluir Deus da vida das pessoas. Riqueza sem ética é ditadura.

Um coração pobre está disponível para viver a alternativa de Deus, a lógica nova de Deus, as transformações, o modo de ver e atuar de Deus na história sem precisar tirar dos ricos, mas legislando com amor.

Jesus também nos ensina o caminho da pobreza espiritual. Quando atravessa a Samaria acompanhado pelos discípulos, e sente fome. Por vezes a fome é um momento espiritual importante. Não só a fome biológica, mas também a necessidade de outra coisa, outro discurso, outra doutrina, outro modelo econômico, outra relação capital-trabalho.

Os discípulos vão à aldeia buscar comida e, ao regressar, Jesus lhes fala de outro alimento: fazer a vontade do Pai. Também nós fazemos um grande investimento para buscar o alimento, mas Jesus, à semelhança do diálogo com os discípulos, como que nos pergunta: “É disso que te alimentas?” É só disso que te alimentas?  

O verdadeiro alimento é vivermos a partir da condição de sermos filhos, de sermos filhos amados por Deus. Se vivemos a partir da convicção profunda de que é o amor de Deus que nos funda - o que o Pai diz a Jesus, “Tu és o meu filho muito amado, em ti coloco o meu amor” -, a nossa existência será completamente diferente. Deixaremos de andar de equívoco em equívoco. Saberemos verdadeiramente qual é o nosso alimento, o que nos sacia, o que é decisivo para nós biológicos e para nós espirituais.

A pobreza espiritual também se expressa na aceitação de si. Não temos apenas mal-entendidos com os outros. Por vezes, o maior e o mais difícil mal-entendido é conosco próprios. Não nos aceitamos, não nos abraçamos, não nos acolhemos, não nos perdoamos. Aceitar-me no que sou e não sou, no que fui, no que não fui, no que não consegui, no que correu bem e no que correu mal, na fraqueza e na fragilidade, é me amar sem limites.

Como é que se torna fecunda a vida pobre? Na aceitação confiante de si. Como diz S. Paulo na segunda carta aos Coríntios (4, 7): “Trazemos em vasos de barro o nosso tesouro”. E é sempre assim. Temos de aceitar o tesouro, mas também o barro, o barro que se quebra, o barro que se cola, o barro que não tem remédio, o barro que fica ferido, o barro que é descartado. Mas, a riqueza perdura, é eterna.

O nonagenário poeta brasileiro Manoel de Barros é uma das grandes figuras espirituais do nosso tempo: “Prefiro as máquinas que servem para não funcionar”. Isto exige uma conversão. Porque nós preferimos o que funciona. “Porque cheias de areia, de formigas e de musgo, elas podem um dia milagrar flores”. Há um milagre que só nos chega pela pobreza.

O pobre recebe mais do que espera

Há a história do monge perseguido por um tigre: o monge corre, o tigre também; o monge sobe numa árvore, e também o tigre; o monge desce, o tigre imita-o. Chegado ao cume de uma montanha, percebe que de um lado tem o tigre e do outro o abismo. Então pensa: no abismo haverá, possivelmente, alguma coisa que amorteça a queda; e então atira-se. Ao cair, fica preso numas raízes, com o tigre, no alto, a olhar para ele. Mas as raízes começam a ceder com o peso, e daí a momentos ele vai cair onde não sabe. Olhando à volta, encontra um morangueiro, estende o braço e come um belíssimo morango, sentindo todo o seu sabor.

A nossa vida tem o tigre, tem as raízes que cedem, tem o que não sabemos à nossa espera e pode ter um morango. A atitude da pobreza é a convicção de que, no meio da aflição, os morangos não perdem o sabor. Que os encontros não perdem o sabor. Que sejamos capazes de perceber o sabor que nos é dado, mesmo que não seja nas condições, no modo, no dia ou no tempo que tínhamos previsto. O pobre recebe infinitamente mais do que previa.

Como o mestre que chama o discípulo para a primeira lição, que é tomar chá. Ao deitar chá para a chávena do aprendiz, não pára, e então o chá transborda. O discípulo, assustado, grita: “Mestre, o chá está a espalhar-se por todo o lado”. E o mestre diz-lhe: “É a primeira lição: se não tiveres o coração vazio, vai perder-se tudo aquilo que ouvires e viveres”.

Como é que pode acontecer que passem semanas e nada nos toque? Como podemos dizer que não vemos Deus em nenhum lado? S. Francisco andava com uma varinha a bater nas rochas, nas flores e nas criaturas, e dizia-lhes: “Pára, pára, não me fales de Deus”.

Esta pobreza espiritual é chamada a expressar-se num estilo de vida essencial. É importante que cada pessoa se pergunte o que quer testemunhar ou certificar. Porque nós estamos sempre a testemunhar e a certificar.

Diz Rumi: O que é que eu deixo em herança? Deixo em herança a primeira brisa do outono e o primeiro canto do canário na primavera. O que é que nós deixamos em herança? Podemos até deixar bens, mas se não deixamos o sabor da vida, o sentido, a transparência, se não deixamos a brisa do outono e o canto do canário na primavera, então não deixamos nada, não testemunhamos nada, não certificamos nada.

O que possuímos, possuí-nos. Devemos estar muito alerta e perguntar: eu quero possuir isto? Que é como quem diz, eu quero ser possuído por isto? Se pensarmos assim, ganhamos outra liberdade, que é um caminho exigente, de pequenas e grandes escolhas, de momentos extraordinários e da vida de toda a hora.

Queremos viver para dar testemunho do amor e do acolhimento, para certificar o amor e o acolhimento ou queremo-nos protegidos através do conforto e da segurança, encastelados em nossas “trincheiras”?

Oremos sobre a nossa vida. Perguntemo-nos o que nos alimenta, o que nos toca, perguntemos se só vemos a meta ou se aceitamos a nossa vida pobre e vazia. Perguntemos se em cada dia franqueamos as muralhas do nosso coração.

“O ser humano é uma casa de hóspedes; cada manhã, um novo recém-chegado, uma alegria, uma tristeza, uma maldade, que vem como um visitante inesperado. Diz-lhes que são bem-vindos, e recebe-os a todos, ainda se são um coro de penúrias que esvaziam a tua casa violentamente. Trata cada hóspede com todas as honras; ele pode estar a criar-te um espaço para uma nova delícia. O pensamento obscuro, a vergonha, a malícia, recebe-os à porta sorrindo e convida-os a entrar. Agradece a quem quer que venha, porque cada um foi enviado como um guia do Além”.



Esta postagem recebeu contribuições de José Tolentino Mendonça.


2 comentários:

  1. Que maravilha receber esta postagem hoje! Há tempos não as recebia e como eu as aprecio!
    Parabéns, Homero e muito obrigada!

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