sábado, 9 de julho de 2016

1854-Mitos para o bem e para o mal


  

Afinal o que é o Reino dos Céus



Introdução



Quem, por ventura, afirmar ou pensar que os tempos mitológicos acabaram, comete um equívoco imenso. A mitologia surgiu da necessidade de se contar estórias, fez parte da infância do ser humano. “Deita aí na sua caminha que a mamãe vai contar uma estória para ti. Era uma vez...”



Se você costuma frequentar igrejas católicas deve saber que a homilia (leitura do texto bíblico) sempre começa com a frase “Naquele tempo...” substituindo a frase “Era uma vez...”



É isso. Estamos em plena era mitológica, mostrando às pessoas as imagens dos santos e deuses que caminham pelos céus protegendo e quebrando os nossos galhos, desde que, como naqueles tempos passados, sejamos crianças comportadas para merecer que o papai-noel dos céus nos beneficie.



Enquanto o ser humano necessitar de imagens nos altares ou de figuras representativas do que lhe é sagrado, a fé precisará de mitos, símbolos, totens.



O bem e o mal também precisarão de mitos representativos. As religiões nascidas com Abrahão explicam o bem e o mal através dos símbolos “Deus”, poder do bem, do amor, da alegria, da paz; e “diabo”, poder do mal, do desamor, da tristeza, da guerra.



Deus aparece em vários modelos; os católicos balançam entre um senhor barbudo, monarca dos mundos e Jesus, que também é chamado de Deus; Maria, também uma deusa, é chamada de “a mãe de Deus”; Espírito Santo, que não se sabe exatamente o que é. Os judeus não falam seu nome e o escrevem como D’us, mas com as variantes de Adonai e Yahweh. Os muçulmanos o chamam como Alá. Os hindus como Brahma. E tem outros e outros nomes, que deixam de ser citados aqui para não cansar o leitor.



Em muitas culturas religiosas, Deus e o diabo (este com vários nomes também) aparecem como antagônicos em luta permanente enquanto os infantes espirituais estiverem em crescimento para vencer suas próprias tentações, como naquela estória dos dois lobos, o bom e o mau, que ficam à espera de quem os alimente. Na verdade, o lobo que for alimentado, engordará e o lobo que ficar sem alimento, emagrecerá. A vida nos ensina que é impossível a morte de um e a sobrevida do outro. Os dois extremos estão presentes em tudo como fatores de aprendizado. O êxito da metáfora é os dois lobos se entenderem, se fundirem num só decretando o fim da dualidade.



Lá no fundo, precisamos aprender que um e outro existem para que outro e um se reconheçam. O Yin e o Yang oriental andam juntos e só formam aquele bonito desenho quando estão perfeitamente equilibrados. O ponto de mutação, segundo o I Ching, é o equilíbrio.



A existência do bem e do mal como forças antagônicas pode ser configurada como uma floresta, pela qual todos temos de passar. Os espaços livres através dos quais é possível avançar são ganhos do bem; os espaços ocupados por pedras, arbustos árvores, cipós, espinhos, são perdas, atrapalhos, obstáculos ou ganhos do mal. Se escolhemos ser conduzidos por um guia, nunca cresceremos, nem experimentaremos exercer a autoria (para uns a palavra correta é autonomia – com sentido regência própria, autogestão) e por falta disso deixarmos de atingir a diferenciação individual e assim perdemos a chance de nos libertar do bando ou do cardume, alusão a que também os animais não têm noção de sua individuação, por isso, no geral, fazem sempre as mesmas coisas.



Se tentamos atravessar a floresta sem uma boa dose de vontade, persistência e determinação, todo obstáculo nos derrotará e a tentação de desistir será, sempre, a vitória do mal. Pior ainda se debitarmos a derrota à ação do demo.



A maioridade espiritual exige romper com a criança indecisa e carente, cobra a revelação do adulto, a emancipação do ser que sabe que se não for buscar o pão não haverá pão, que se não tiver coragem (fé, convicção em si mesmo) o medo o derrotará no meio do caminho, as tentações o tirarão da rota e não haverá travessia.



Ao demonstrar capacidade para vencer os obstáculos, cada vencedor chamará para si a dignidade dos capazes, dos hábeis, dos competentes.



Às simbologias do bem e do mal temos de acrescentar: o bem é a vitória, o mal é a derrota. Segundo a metáfora da travessia da floresta, a vitória é atravessá-la, é sair do outro lado onde haverá outro desafio carregado de luz (do bem) e de trevas (do mal) a nossa espera. A nossa escolha redundará em destino. O estágio humano não é o último de nossas almas. E só pela luz andaremos pelo Caminho Sagrado.



A derrota é deixar-se vencer pela escuridão, entregar os pontos, pedir socorro, ser carregado e admitir o fracasso. Menos pior se ficarmos no aguardo de uma nova oportunidade para fazer uma nova tentativa.



Maioridade espiritual é fazer a travessia e ser chamado para outros desafios mais qualificados.



O exemplo é oportuno: o desenvolvimento do ser humano no corpo compreende o nascer, crescer até chegar ao máximo das compreensões que suas experiências proporcionarem depois de muitas décadas de caminhada pela vida. Aí este ciclo se encerra. Abre-se um outro.



Uma questão de interpretação



As religiões que tiveram origem na cultura hebraica e, portanto, no pentateuco bíblico, ensinam aos seus fiéis que a morte resulta do pecado do homem, fazendo uma associação com o mal. Passamos, então, milênios detestando a morte, não aceitando a morte, chorando nossos mortos, enfeitando os cemitérios na esperança de que ali possam estar os nossos entes queridos levados pela morte.


Nasce, assim, para algumas correntes psicológicas a heresia da separação e a filosofia da exclusão, o intermediário entre quente e frio, luz e trevas, bem e mal, batizado e pagão.


No entanto, esta interpretação tem custado enormes dores a toda a humanidade identificada com a religião judaica, com as religiões cristãs e um pouco menos com as religiões islâmicas.


Todos precisamos saber que o pecador não irá eternamente para o inferno e que o santo não ficará livre dos males. A morte não é uma maldição e ninguém precisa ficar abominando a velhice, a ponto de remeter seus velhos para os depósitos de idosos, descartados como coisa imprestável simplesmente porque está nos umbrais da morte. Mas, agimos assim por conta da cultura religiosa já citada. Os orientais não têm esta interpretação, aceitam lidar com o frio e o calor, com as luzes e as trevas, com o bem e o mal, dignificam seus anciãos e lidam muito bem com a morte.


O apagão espiritual que alcançou as já citadas correntes religiosas, interferem, inclusive, na mente dos espíritas, chamados a reciclar seu modo de entender a perda de entes queridos. Os entes queridos não morrem para sempre do mesmo modo que não vivemos (no corpo) para sempre. Não existe um céu imaculado esperando pelos cristãos que se dedicarem ao bem, até porque não existe quem se dedique exclusivamente ao bem, do mesmo modo que não existe o homem exclusivamente mau.

O espiritismo tem trazido contribuições inestimáveis ao entendimento dos ciclos vitais, trabalhando ao lado do que poderia ser uma Psicologia Avançada para formar uma nova cultura religiosa, a de que só seremos melhores quando soubermos buscar a soma de nossas forças na construção do melhor. Existe, porém, a necessidade de que ao lado exista o pior para que nos dê o parâmetro. Como saber se o bem é o bem se ele não puder ser comparado com outra coisa? Qual é o espírito capaz de desenvolver-se para o bem se não tiver de também enfrentar suas próprias tendências para o outro extremo?

Esse é ponto em que a sabedoria oriental vem em socorro dos espíritas: quando uma alma obtiver seu ponto de equilíbrio entre o feio e belo, entre o bom e o mau, entre a verdade e a mentira, estará ela capacitada a transformar-se e mudar de frequência no rumo da elevação, isto é, fazer a evolução.



O retorno do Cristo espiritual



Vamos ver se você me entendeu. Entendeu e aprendeu. Não vejo como semear motivos para a conquista e reconquista diária da liberdade, isto é, do poder de voar para alcançar novas alturas espirituais, sem trazer para a análise o estupendo esforço empreendido por Jesus para explicar, entre coisas essenciais, que a morte não existe. E se você fizer um pequeno esforço avaliativo perceberá que o evento – não a doutrina – mais expressivo de Jesus foi a vitória sobre a morte.



E o Mestre não foi devidamente interpretado por muitos daqueles que se valem de seu legado educativo. Faz 20 séculos que o Mestre continua preso à cruz numa alusão de que deva morrer novamente, todos os dias, várias vezes ao dia para que fique marcado, evidente, lembrado, por que Ele foi condenado. E quiçá permaneça morto.



Quantas vezes o Cristo não terá gritado aos ouvidos moucos de tanta gente: “Tire-me daqui”.

  

Sádicos é o que são, vendendo-nos a versão de que fomos nós que o pregamos naquele madeiro e, por isso, devemos carregar esta culpa por toda a eternidade.



Fundamentalistas é o que são, retirando dos evangelhos o Cristo espiritual e inventando em seu lugar um Jesus físico, frágil, cordeiro, mansamente entregue ao abate para que ficássemos livres do fogo eterno do inferno. Sádicos fundamentalistas aproveitadores.



Aproveitadores materialistas é o que são, insinuando que é preciso beber o sangue e comer o corpo de Jesus para merecer ser salvo por ele. Quem faz isso são os índios antropófagos, que nada tinham de espiritualidade. Materialistas covardes.



Covardes é o que somos sem abrir um vãozinho em nossas almas para que nelas penetre o espírito crístico, vencedor, imorredouro, nunca abatido pelos cravos da cruz, a ensinar que a verdade é o caminho, que a vida tem dimensões e propósitos.



Mas, os sádicos, fundamentalistas, aproveitadores, materialistas e covardes foram demitidos de seu reinado. Urdiram leis, ordens, cátedras, dogmas, que envelheceram, caducaram, perderam a validade. O Cristo chamou para si a comunidade dos caminhantes das casas do caminho, entregou a cada um uma palma, a mesma que saudou sua entrada em Jerusalém, para servir de símbolo de seu retorno triunfal ao comando da fé.

Para aquele tempo a sua vinda não objetivava mudar a lei, mas dar-lhe cumprimento, uma vez que cada um a interpretava de um modo. Para este tempo a sua vinda é para resgatar a lei que foi fraudada.



“Quando o homem esqueceu que comunidade significa igualdade, deformando-a com suas leis, nesse dia nasceu o ladrão”, ensinava Carpócrates quase que ao mesmo tempo em que Jesus ali numa outra montanha ensinava, ao vivo, seu evangelho libertador amoroso.



“O homem que é interiormente grande saberá que o tão esperado amigo de sua alma, o imortal, chegou de fato, para tornar o cativo cativeiro” (Jung). A ele, o homem e a mulher dirão sim. A rendição dos propósitos limitados do ego aos objetivos muito mais amplos da alma é o que dá sentido à vida. Tudo mais passará. A alma não passará.



A missão de Jesus sem enigmas



Muito já se disse sobre Jesus e, no geral, por intermédio de interpretações controvertidas. Uns querem-No descido dos céus, de retorno à Terra sem a perda do corpo e nascido de Maria sem a intervenção de José; outros preferem aceitar ter sido Ele um Homem como qualquer outro, em cuja morada corporal habitou um dos espíritos mais evoluídos das hierarquias celestes.


Polêmicas à parte (não é esse o objetivo do blog) sempre sobram dúvidas, enigmas, mistérios, passagens que mesmo os mais profundos conhecedores teriam cautela em fazer referências. Uma série de fatos, no entanto, assume relevância quando olhamos para o aspecto espiritual de sua missão na Terra.



Acompanhe o raciocínio:


1. O seu nascimento não foi apenas do conhecimento dos seus mais chegados familiares (Maria, Zacarias, Isabel, José). Também algumas autoridades religiosas de países e continentes vizinhos receberam esta notícia, como seus familiares, também por via mediúnica, aquele trabalho que se dava aos anjos ou arcanjos. Foi esse o caso dos chamados reis magos (Gaspar, Baltazar e Melchior), que vieram de longas distâncias para prestar celebração ao fato da encarnação do esperado Messias, anunciado reiteradamente nos seis séculos precedentes por figuras inquestionáveis da Bíblia judaica.
2. Ao seu batismo nas águas do Rio Jordão, Ele comparece e sem nenhuma pompa se oferece para ser batizado por João Batista, que era uma possível reencarnação de Elias. No mesmo instante, narra o Evangelho, uma pomba simbolizando o Espírito Santo faz anunciar, sem dizer por intermédio de quem (ali não diz): “Eis aqui o meu filho muito amado em quem ponho a minha afeição”.
3. Na sequência, segundo o mesmo Evangelho, ele se isola durante quarenta dias para jejuar e oferecer-se às tentações e retorna com todo um plano de trabalho acabado, que anuncia retumbantemente. Tem início a sua vida pública. Não se tratava apenas das “Bem-aventuranças”, como constam de seu primeiro discurso, os evangelhos dedicam cerca de quatro páginas para descrever os conteúdos daquele “plano de trabalho”. Para conferir a extensão desta proposta leia os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de Mateus.
4. Então Ele sai a percorrer vilas, cidades e interiores. Preside mais de 40 curas, consideradas milagrosas, entremeadas por novos discursos, mas não assume as curas como suas (tua fé te curou, repetia Ele, sempre); faz a multiplicação dos pães; vai ao Monte Tabor e propicia a um pequeno grupo de discípulos o espetáculo da “transfiguração”, em que aparecem os espíritos de Moisés e Elias; anuncia os dois grandes mandamentos, como síntese de sua doutrina; promove a ressurreição de Lázaro e, alguns dias depois, a Sua própria.
5. É preso, acusado, crucificado, sepultado, reaparece a várias pessoas, dentre elas alguns estranhos ao seu grupo.


À guisa de dedução: Ainda que reunidos em apenas cinco tópicos, não foram apenas cinco os episódios que sinalizam tratar-se, efetivamente, de alguém muito especial encarnado naquele judeu de Nazaré. Esta criatura não foi um fato isolado na História da Humanidade. A espiritualidade participou decisivamente com Ele e Ele sabia disso, tanto que por mais de uma vez sentenciara: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra”. Sabia usar sua autoridade e seus poderes especiais com extrema eficácia, e demonstrava estar em estreita ligação com a espiritualidade maior, a mesma que por vários episódios demonstrou estar com Ele.

Passados 2 mil anos, continuamos a nos encantar com suas obras, único personagem reconhecido e respeitado por todos os credos e o único pensador a ter sua cátedra reiteradamente reafirmada. A maior credibilidade lhe é atribuída quando O aceitamos como um homem igual a qualquer outro, porém, portador de um Espírito de elevada hierarquia. Duvidosa se torna a Sua credibilidade quando O tomamos por um Deus vivificado na carne e elevado aos céus em seu próprio corpo. Como também se torna mais difícil de aceitar que Ele voltará ao nosso meio novamente naquele corpo que lhe serviu de veículo. Mais fácil de aceitar é quando O aceitamos entre nós através do Espírito da Verdade, por Ele mesmo anunciado nos capítulos 14 e 16 do Evangelho de João. Sem enigmas, sem dogmas, sem mistérios insondáveis, o Divino Trabalho de Jesus nos cai como uma bênção de Deus, como uma tentativa de Deus de promover uma Transformação com a Humanidade deste Planeta. 



O Reino dos Céus explicado por Jesus (I)

Agora, então, já podemos falar da proposta maior deste artigo. Eram dias de muita ansiedade para o Mestre Jesus, que sabia de seu calvário imediato nas mãos das autoridades que já haviam decidido matá-lo antes mesmo daquela pantomima do julgamento com o jogo de empurra entre o Sinédrio e Pilatos. Ele estava em ritmo de despedidas para com os membros da equipe de suas muitas missões educativas, percorrendo vilas, cidades e interiores. O seu último sermão estava reservado para falar do Paráclito – porta-voz ou intermediário – a ser enviado ao mundo para ser o Espírito da Verdade e encaminhar a instalação do Reino dos Céus. Sempre se mistificou a real Grande Missão do Cristo. Lá nos evangelhos é dito: derrotar Lúcifer e instalar no planeta o Reino dos Céus.

Aqui se abre um poderoso hiato filosófico para decodificar o que sustentam esses conceitos de Lúcifer e Reino dos Céus, ou se quisermos imediatamente ir assimilando, trevas versus luzes.

Num longo discurso, num sábado, véspera de sua entrada em Jerusalém, o Mestre deixou bastante claro que o Reino dos Céus deve começar com o conceito integrado da verdade da paternidade de Deus e do fato correlato da irmandade dos homens. Em razão disso Ele repetiu “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo“ e, com muita tristeza pelas despedidas assegurou “O que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vos dará”.

Novamente se abre um poderoso hiato filosófico para decodificar o ele estava ensinando ser o Pai e o que, segundo Ele, o que significa pedir.

A cátedra de Jesus era estranha à maioria dos judeus. Uma casta ilustrada tinha acesso aos então elevados conhecimentos sagrados, também chamados de Gnose. Mas, a cátedra de Jesus era dirigida aos pobres e, entre esses, estavam os radicais fariseus, zelotes e saduceus, etc., fundamentalistas, que se julgavam herdeiros da sabedoria antiga – que não refletiam o melhor saber – tanto quanto queriam o fim do domínio romano sobre seus clãs. Mas, não eram os únicos opositores à boa nova (evangelho), havia também os escribas, espécie de jornalistas daqueles tempos, os publicanos, espécie de servidores públicos e o alto clero, todos no gozo de privilégios outorgados pelo Império Romano, a quem a presença de Jesus muito incomodava. Por isso, Ele tinha ferrenhos adversários entre a plateia que acompanhava sua pregação e também nos bastidores.

Imaginemos de alguma forma um Marx falando em riqueza para todos num momento em que o capitalismo mais espaço conquistava no mundo. Se trouxer esta mesma situação para os dias atuais ainda não seria coisa fácil.

Contudo, em meio a incompreensões, críticas, cobranças, perseguições, traições, maquinações e denúncias, o Mestre caminhava entre o povo e expunha sua proposta: um reino com outros valores. Valores esses que estavam nos céus, onde espiritualmente é a morada de Deus.

Creia, era uma época de repressão, miséria, arrocho fiscal, presença ostensiva do aparato policial/militar, espionagem, delação, controle da atividade privada, medo em meio a uma nesga de esperança.

A ideia de um Deus magnânimo havia fracassado. Por inúmeras vezes o povo estivera sob cativeiro. Em milhares de anos, apenas os reinos de Salomão e Davi tinham sido de satisfação. De volta à Palestina, o povo judeu se tornara novamente cativo, através de Roma.

E agora, esse provável impostor – como muitos outros antes e ao mesmo tempo – vinha falar de libertação, salvação, plenitude. O que era isso? Reino dos céus? Amor? Nada disso era compreensível...

O Reino dos Céus explicado por Jesus (II)

Jesus declarava que a aceitação, pelo povo, de seus ensinamentos, libertaria o homem da sua longa escravidão e o levaria a um tempo rico para o viver humano, com os seguintes dons da nova vida de liberdade espiritual (observem os contrastes com aquilo que estava posto):

1. A posse de uma nova coragem e de um poder espiritual ampliado. A boa nova do evangelho sobre o Reino deveria liberar o homem e inspirá-lo a ter coragem de oferecer-se para a vida eterna. A vida não acaba na sepultura.

2. Essa boa nova carregava a mensagem de uma confiança nova e de uma consolação verdadeira para todos os homens, principalmente para os pobres. O sofrimento fazia parte do aprendizado, do resgate. Adiante viria o apogeu.

3. Era, em si mesmo, um novo padrão de valores morais, uma nova medida de ética com a qual se podia avaliar a conduta humana. Ela ilustrava o ideal resultante de uma nova ordem na sociedade humana, em que o Amor vinha substituir a Vingança.

4. Ela ensinava a primazia do espiritual sobre o material; ela glorificava as realidades espirituais e exaltava os ideais supra-humanos pelo qual Deus podia se manifestar diretamente no meio do povo, dispensando os profetas.

5. Esse novo evangelho ressaltava a realização espiritual como a verdadeira meta da vida. A vida humana recebia um novo dom de valor moral e de dignidade divina.

6. Jesus ensinou que as realidades eternas eram resultados, recompensas, do esforço terreno de retidão. A permanência mortal do homem na Terra adquiriu um novo significado, em consequência do reconhecimento de um destino nobre na continuidade da vida material.

7. O novo evangelho afirmava que a salvação humana é a revelação de um propósito divino de longo alcance a ser cumprido e realizado, em destino futuro, no serviço sem fim dos salvados filhos de Deus.

Esses ensinamentos cobrem a ideia (versão atualizada) do Reino dos Céus (a luz – conhecimento sagrado, aquisição de valores) em contraposição com o reino de Lúcifer (trevas – ignorância, perda de valores, raiva, vingança), como foi ensinado por Jesus. Nos evangelhos isso está muito claro, porém escrito por homens do povo para homens do povo. Esse grande conceito não estava incluído nos ensinamentos elementares e confusos dos pregadores anteriores, inclusive João Batista. E sinaliza conter a elevada cátedra já absorvida pelos iniciados no saber sagrado da época e atual.

A menos que os evangelhos tenham sido modificados pelo Conselho Superior criado pela igreja de Roma, os apóstolos foram incapazes de compreender o significado real das palavras do Mestre a respeito do Reino dos Céus. Também as autoridades entendiam-no como o governo do país. Veja que o Império Romano tinha todos os motivos para entender aquilo como uma insurreição para justificar os maus tratos aplicados ao ilustre prisioneiro e também, depois, para adaptar aqueles evangelhos ao sabor de seu interesse pelo poder.

Veja também que foram essas as acusações que resultaram na condenação de Jesus: blasfêmia perante a religião judaica e insurreição política perante a lei romana.

O grande esforço que os sermões de Jesus representava, era a Sua tentativa de converter o conceito do Reino dos Céus no ideal que é fazer a vontade de Deus, não de futuro, nem através do poder temporal e sim imediatamente: iluminar os homens.

O Mestre vinha ensinando seus seguidores a orar, prática que se mostra eficaz segundo comprovação científica. O termo “Pai celeste” precisava ser usado, como ainda hoje acontece, por força da cultura, segundo a qual o rei, o chefe, o protetor é o provedor de tudo. Mas, os ilustrados gnósticos que detinham o conhecimento sagrado, sabiam que ele estava se referindo a algo como hoje entendemos ser a força do pensamento, a inteligência, a criatividade.

Os filhos libertados de Deus, e empenhados no serviço voluntário e cheio de júbilo, ao semelhante, e na adoração sublime e inteligente de Deus, compunham a mudança em relação a uma descomunal luta egoística instalada entre os judeus. Os discípulos de Jesus eram vistos como gente esquisita e o que é pior, mudaram o foco da mensagem, como se verá

Isso ainda prossegue.

O Reino dos Céus explicado por Jesus (III)

Naquela tarde de sábado, véspera de sua entrada em Jerusalém, o Mestre ensinou claramente sobre um novo conceito de dupla natureza do Reino dos Céus, descrevendo-as:

Primeira: o Reino dos Céus, isto é, da luz, do bem, de Deus, como Proposta da Vida. Nele, o desejo supremo dos homens é fazer a vontade de Deus; prevalece o amor não egoísta entre os homens; intensifica-se o plantio daquilo que dá bons frutos; uma conduta mais ética e mais moral preside as relações apesar da existência das trevas em contrapartida.



Trevas ou dificuldades, problemas, males, são entendidos como desafios a que somos chamados a enfrentar para adquirir capacidade, autonomia, deixar de ser crianças e alçar voo próprio.

Segunda: o Reino dos Céus, da luz em meio às trevas, é a meta dos crentes mortais, é o estado em que o amor por Deus é perfeccionado, e em que a vontade de Deus é feita mais divinamente manifestada nos homens. Significa a depuração, a evolução, o alcance do propósito da existência da vida para esta dimensão dos homens.

Tentando fazer uma síntese: a escolha tem de ser de cada indivíduo, não há salvador, há educador, tem de haver aprendizagem, mérito, caminho sagrado, e assim salva-se quem tiver assumido a nova conduta, porque ninguém virá buscar-nos pela mão como se fôssemos inválidos.


O mundo continuará sendo dual, o homem continuará sendo dual. Os dois lobos existem. Um é mau, está no escuro das trevas, nas profundezas e nos chama para sua companhia onde os resultados da escolha são incompreensões, críticas, cobranças, perseguições, traições, maquinações e denúncias, repressão, miséria, arrocho fiscal, presença ostensiva do aparato policial/militar, espionagem, delação, controle da atividade privada, medo (assim estava a Palestina daqueles tempos, assim está a sociedade atual). O outro é o lobo bom e está nas alturas dos céus, de onde vem a luz, que nos acena com esperança, solidariedade, respeito, responsabilidade, paz, amor.


Cada um de nós tem sua escolha.


Se você escolhe a luz, você tem de fazer e ajudar fazer exatamente o oposto de tudo quanto fizemos até hoje e que redundou neste caos que se abate sobre nós. Não é coisa fácil. Foi o próprio Mestre Jesus que falou: a porta é estreita.


O Reino dos Céus explicado por Jesus (epílogo)



Síntese conclusiva:



A cátedra de Jesus é libertadora em contraste com a brutal ausência de liberdade e afirmação do povo a quem Ele mais diretamente falou. E como falou para um povo tremendamente sofrido, escravo, iletrado, quase todas as suas falas foram por parábolas, isto é, fazendo ilações com coisas simples e de fácil compreensão.



E não é de outro modo que esta página deseja abordar a imensidão daquela cátedra vista por quem já não é tão sofrido, já deixou cativeiro e já foi à escola.

Tomemos por parâmetro Lao Tzu, dado como autor do Tao Te Ching, sábio chinês, que viveu alguns séculos antes de Jesus. Pertencem-lhe as frases a seguir:



“Quanto mais proibições e tabus existirem no mundo, mais pobre será o povo; quando mais armas afiadas o povo tiver, mais conturbado se tornará o Estado; quando astúcia e perícia o homem possuir, mais viciosas as coisas parecerão; quanto mais leis e ordens forem enfatizadas, mais ladrões e assaltantes haverá”.



Lao Tzu nunca esteve sozinho nas suas, digamos, predições da deterioração do mundo coletivo. Antígona, Diógenes, Epicuro, Rousseau também escreveram sobre a índole insana da massa enquanto o indivíduo não se torne livre para si mesmo, livre dos tabus e livre dos mandamentos.



Por mais infantis e impraticáveis que soem aos exaustos ouvidos contemporâneos, as palavras de Lao Tzu contêm uma introspecção psicológica que se apresenta válida e consubstanciada na cultura dos séculos XX e XXI.



Em escala coletiva, assim como no plano individual, não existe verdadeira moralidade sem liberdade.



Explico: o ser humano que se torna comportado porque a lei terrena assim exige ou porque há uma câmera filmando seus atos, esse ser não é moral e isso não é liberdade, é cativeiro. Circulou na internet um “aviso importante” alertando os motoristas para os locais em que se encontram os radares da Polícia Rodoviária em vários pontos das estradas.



Entenderam a índole?



Se, porém, o ser humano se torna comportado, com moralidade, porque a sua consciência assim dita, ele venceu a fase do cativeiro, se tornou livre e pode aceitar seu destino como uma tarefa confiada a ele pela lei do crescimento espiritual. Em vez de submeter-se a leis impostas de fora, a pessoa em processo de individuação de sua personalidade submete-se à lei que rege seu espírito e, desta maneira, assume a responsabilidade pela individuação de forma lúcida e consciente.



Diga-se: autonomia.



Conceito de autonomia: a lei está em mim, não está fora de mim.



E mais:



“Eu não sou cria ou cópia de ninguém; ao contrário, eu aconteço para mim mesmo. Não preciso de nenhuma outra lei. A única lei que existe é a Lei Maior que rege o cosmo. Invocado ou não, aceito ou não, Deus está presente nessa Lei”, diria o ser liberto, autônomo e emancipado, maior espiritualmente, e alcançado pelas luzes que, quanto mais intensas forem para mais longe irão levando as trevas que existiam.



Os não emancipados estão aguardando o retorno de Jesus para, outra vez, oferecer-se ao sacrifício para nos libertar.



Assim fica fácil de entender o Amor a nós apresentado por Jesus. Assim fica mais fácil de entender o Reino dos Céus, como Ele veio ensinar.



Em algum ponto da vida, desta ou de outras, seremos chamados a dizer sim a alguém ou a algo maior e mais significativo do que família, marido, esposa, filho, sociedade, carreira, país e outras pedras de toques egóicas da vida mundana.



Só esse sim trará a verdade que produz libertação; só esse sim trará o tipo de grandeza interior que revelará para o homem e para a mulher, a sua verdade, a maior de todas as verdades ao alcance humano.



Só através de um raciocínio avançado como este se torna possível entender o que Jesus afirmou em Lucas 14; 16-35, quando uma má tradução do hebraico para o grego fala em odiar a família para servir a Deus. Na verdade é desligar-se do ego para entender o chamado de Deus.


Há que botar os pingos nos is.

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